Uma visão para o planeta: 15 ideias disputam o prémio ambiental mais prestigiado da história

O Earthshot Prize anunciou na semana passada as inovações que acredita poderem fazer a diferença nos maiores desafios ambientais do nosso mundo. Estas inovações variam desde a mais simples à mais engenhosa.

Uma visão poluída de Xangai, na China – a terceira cidade mais populosa do mundo e uma das de maior crescimento. Com o aumento da expansão urbana, o crescimento populacional e o crescimento tecnológico nos países em desenvolvimento, este momento é crítico para combatermos os efeitos de tudo isto no planeta. O Earthshot Prize nasceu para enfrentar o problema mais urgente – recompensando a engenhosidade.

Fotografia de PHOTOHOLGIC / UNSPLASH
Publicado 20/09/2021, 15:48

Em outubro passado, a instituição britânica de caridade Royal Foundation lançou aquele que o seu administrador, o Príncipe William, Duque de Cambridge, descreveu como sendo o “prémio ambiental mais prestigiado de sempre”.

Entrevistado por David Attenborough para assinalar o arranque desta iniciativa de vários anos, o príncipe explicou que o nome do projeto é uma homenagem aos esforços feitos por John F. Kennedy na década de 1960 com as missões lunares, e identificou cinco “Earthshots” – um grupo de desafios mortais enfrentado pelo nosso mundo.

Os desafios eram, tal como no “Moonshot” de Kennedy, do mais alto gabarito: proteger e restaurar a natureza, limpar o ar, construir um mundo sem resíduos, revitalizar os oceanos e reparar o clima. Cinco emergências complexas que coletivamente apresentavam uma necessidade de ação por parte de qualquer pessoa, independentemente de serem grupos de incubação de ideias, governos, ativistas ou inventores. As ambições humanas criaram estes problemas. Será que a engenhosidade humana os consegue resolver?

Em questão estão 50 milhões de libras em investimento nos próximos dez anos, para expandir as ideias viáveis e tentar garantir um legado mais brilhante para os futuros habitantes do nosso planeta. Também há um extra adicional que alguns podem encarar como o motivador mais persuasivo de todos: o lucro.

“Cinco emergências complexas que apresentavam coletivamente uma necessidade simples de ação: As ambições humanas criaram estes problemas. Será que a engenhosidade humana os consegue resolver?”

Afinal de contas, com as ideias certas, ganhar dinheiro e melhorar o planeta não precisam de ser coisas opostas – e provavelmente nem deviam ser. “Como é que alinhamos os nossos incentivos de crescimento com os incentivos para o planeta?” pergunta Indra Nooyi, membro do júri do Earthshot Prize e antiga CEO da PepsiCo.

Após um processo de seleção inicial, as nomeações foram apresentadas a um painel de consultoria científica que é composto por especialistas no campo de cada “Earthshot” – com o objetivo de selecionar 15 finalistas para serem apresentados a um júri para uma avaliação final. Os finalistas – três por cada Earthshot – foram anunciados na semana passada.

Desafio: Limpar o nosso ar

 

Finalista: Aplicação Blue Map
Ideia: Esta aplicação, a primeira base de dados ambiental pública da China – desenvolvida pelo Explorador da National Geographic e ambientalista premiado Ma Jun – tem como objetivo fornecer uma visibilidade detalhada e chamar a atenção para as emissões industriais da China. O enorme crescimento industrial deste que é o país mais populoso do mundo obrigou as comunidades a promover alterações nas zonas mais afetadas pela fraca qualidade do ar. A aplicação Blue Map ajuda a identificar infrações em 31 províncias, publicando dados em tempo real sobre a qualidade do ar, da água e dados sobre a poluição de 40.000 fábricas. Esta aplicação já está a fazer com que as empresas abordem publicamente quaisquer infrações publicadas sobre as emissões – e a pressionar as que não estão a divulgar os seus números para o fazerem. A equipa que desenvolveu a aplicação espera que o seu modelo de transparência e responsabilidade tenha potencial para uma adoção global.

Finalista: Vinisha Umashankar
Ideia: O carrinho de engomar movido a energia solar de Vinisha Umashankar, uma rapariga de 14 anos da cidade indiana de Tiruvannamalai, exemplifica como uma pequena ideia, depois de expandida, pode ter um impacto potencialmente colossal. A ideia surgiu quando Vinisha viu o que as prensas de roupa movidas a carvão – usadas por muitos dos 10 milhões de indianos que trabalham nas ruas a engomar – queimam cerca de 5 milhões de quilos de carvão todos os dias. As partículas transportadas pelo ar e as doenças associadas, a desflorestação, as emissões e os dispositivos perigosos desaparecem de uma só vez com este aparelho que também permite carregar o telemóvel, proporcionando lucros adicionais para além das seis horas que passa a engomar. Os diversos impactos económicos e ambientais e as possíveis aplicações por toda a Ásia fazem com que a inovação de Vinisha se possa expandir facilmente, se for produzida a baixo custo.

Finalista: Takachar
Ideia: Se chegar ao mercado global, este conceito – iniciado pelos eco-empreendedores Vidyut Mohan e Kevin Kung – pode reduzir anualmente até mil milhões de toneladas de emissões de carbono e melhorar o ar para mais de 500 milhões de pessoas. O conceito foca-se nos resíduos agrícolas, ou seja, nos resíduos das colheitas que são queimados e sufocam o ar em torno dos campos com fumo, reduzindo a qualidade do ar – e, como resultado, a esperança média de vida. Em vez de tentar repensar todo um sistema de estratégias de cultivo gastas pelo tempo, a solução da Takachar é altamente prática: um dispositivo real que é aparafusado na parte traseira de um trator. Isto, segundo a empresa, reduz as emissões de fumo em 98% e converte os resíduos em biocombustíveis e fertilizantes, incentivando o processo devido aos potenciais lucros – ou economia de custos. Desde o seu lançamento em 2018, o aparelho, que usa um processo de secagem por calor denominado torrefação à base de oxigénio, já foi utilizado por cerca de 4.500 agricultores, com um aumento nas receitas a rondar os 30%.

Desafio: Revitalizar os nossos oceanos

 

Finalista: National Geographic Pristine Seas
Ideia: Liderada por Enric Sala, Explorador Residente da National Geographic, a iniciativa Pristine Seas é um esforço global que visa estabelecer 30% dos oceanos mundiais enquanto Áreas Marinhas Protegidas até 2030. Esta proteção significa ausência de pesca, restauração de biodiversidade e promoção de práticas sustentáveis entre as comunidades locais. Este projeto já ajudou a estabelecer 24 reservas marinhas pelo mundo inteiro. “A ciência mostrou-nos que precisamos de proteger pelo menos 30% dos oceanos mundiais até 2030 para restaurarmos a vida marinha, aumentarmos a produção de marisco e reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa”, disse Enric Sala. “É uma honra ser reconhecido como um dos primeiros finalistas de sempre do prémio Earthshot.”

“Estamos entusiasmados, mas também sentimos uma enorme responsabilidade na continuação do nosso trabalho para preservar os oceanos, o suporte de vida [do nosso planeta].”

Finalista: Living Seawalls
Ideia: Criado pelo Instituto de Ciência Marinha de Sydney, o projeto dos “paredões vivos” nasceu para transformar as defesas costeiras artificiais, que cada vez são mais necessárias, em habitats amigáveis para a vida marinha. Neste cenário, as fileiras de betão plano e o seu impacto devastador sobre os ecossistemas costeiros desaparecem – em vez disso, as defesas costeiras são cobertas por painéis que imitam pântanos, corais e piscinas rochosas, para encorajar a recolonização por parte da vida marinha. Os criadores do projeto Living Seawalls afirmam que as defesas costeiras equipadas com os seus painéis hospedam mais 36% de vida marinha após dois anos – atraindo 85 espécies de peixes, invertebrados e algas marinhas que se abrigam e estabelecem no interior das suas estruturas. O projeto começou na Austrália e já se expandiu para locais tão diversos como o País de Gales e Singapura, tendo como foco crescente as condições climáticas extremas e a subida do nível do mar. A equipa acredita que a sua solução é “a prova viva de que as nossas cidades e oceanos podem coexistir”. (Veja fotografias magníficas de áreas marinhas protegidas em todo o mundo.)

Finalista: Coral Vita
Ideia: Através de um conceito chamado microfragmentação (crescimento acelerado) e evolução assistida (resiliência às alterações na química dos oceanos), a Coral Vita cultiva e projeta corais resilientes às alterações climáticas. Criado pelos empreendedores Sam Teicher e Gator Halpern, este conceito baseia-se na previsão de que, sem uma intervenção tecnológica, 90% dos corais mundiais serão destruídos pela acidificação dos oceanos até 2050 – com consequências previsivelmente más para os ecossistemas e comunidades terrestres que dependem dos recifes para proteção e sustento. Com este método de restauração de recifes terrestres, a Coral Vita afirma que consegue cultivar corais robustos e resistentes ao futuro 50 vezes mais depressa do que os seus homólogos naturais. Através de tanques de cultura, a empresa faz experiências com acidez e calor para selecionar o tecido de coral que demonstra maior resiliência, formando depois a base da cultura – ou seja, ‘evolução assistida’. Os corais são depois plantados em recifes degradados – semelhante a um transplante – para crescer e prosperar.

Desafio: Construir um mundo sem resíduos

 

Finalista: WOTA Box
Ideia: A WOTA Box – criada pelo inventor Yosuke Maeda – é na sua essência uma estação de tratamento de águas numa unidade do tamanho de uma máquina de comercial café, que visa transformar a água que desperdiçamos em casa e nos eletrodomésticos em água potável. Isto reduz a quantidade de poluentes domésticos que entram nos ecossistemas de água doce. Com o crescimento da população, estima-se que a demanda por água aumente 55% nos próximos 50 anos, o que significa que a escassez crescente da água que bebemos – e o aumento da poluição devido à água que não bebemos – vai ser um problema inevitavelmente enfrentado por muitos. Esta inovação visa abordar ambos os problemas, mas ao nível local.

Finalista: Sanergy
Ideia: Outra das questões associadas ao crescimento da urbanização nas economias emergentes – e ao crescimento populacional associado – passa pelo que devemos fazer em relação aos resíduos que todos nós ‘produzimos’ regularmente. O destino das fezes e a sua demanda na cadeia de abastecimento de alimentos estão a ser considerados pela Sanergy, que nos testes feitos no Quénia usa larvas de mosca-soldado-negro para decompor resíduos fecais e orgânicos em instalações sanitárias – antes de processar as larvas em alimento rico em proteínas para o gado. A cadeia de eficiência deste projeto vai ainda mais longe, com qualquer subproduto a poder ser usado como fertilizante ou convertido em blocos de combustível de biomassa.

Finalista: Cidade de Milão
Ideia: O desperdício gerado pelos supermercados, restaurantes e habitações é colossal: um relatório da ONU estima que um terço dos alimentos produzidos anualmente ao nível global não são consumidos, juntando-se a um problema de fome mundial onde cerca de 2.5 mil milhões de pessoas vivem com diversos graus de insegurança alimentar. A cidade de Milão enfrentou este problema ao nível local, introduzindo centros portáteis de resíduos alimentares para recuperar o excesso de produtos de retalhistas e pontos de venda alimentares e redistribuir por aqueles que mais precisam. Esta iniciativa – liderada pelo presidente da câmara, Giuseppe Sala – visa combater o desperdício de alimentos e a insegurança alimentar, com o objetivo de reduzir o desperdício em 50% até 2030. A redução indireta na produção também reduz as emissões.

Desafio: Reparar o nosso clima

 

Finalista: AEM Electrolyser
Ideia: A eletricidade renovável não pode ser usada para alimentar tudo. Os problemas em torno da sua disponibilidade e confiabilidade, juntamente com a necessidade de descarbonização, significam que muitas das aplicações industriais estão a virar as suas atenções para o hidrogénio, para satisfazer necessidades energéticas em grande escala. Embora o hidrogénio em si seja limpo – extraído da água através de eletrólise – vale a pena perguntar como é obtido se o seu objetivo for uma energia realmente livre de carbono. O Eletrolisador AEM (Anion Exchange Membrane), produzido pela Enapter, tem como objetivo tornar acessível a geração de hidrogénio através de eletricidade renovável com unidades modulares do tamanho de micro-ondas, capazes de produzir pouco mais de 1 quilograma de hidrogénio cada para uma vasta gama de aplicações a cada 24 horas.

Finalista: Cápsulas Reeddi
Ideia: ‘Uma máquina de venda automática de cápsulas de energia’ é o argumento da Reeddi, uma startup focada em soluções à base de energia modular, ou ‘tecnologia limpa’, desenvolvida na Nigéria por Olugbenga Olubanjo. A unidade Reeddi é basicamente um carregador movido a energia solar com baterias de lítio extremamente eficientes, cada uma do tamanho de um livro de capa dura, que são alugadas por cerca de 35 cêntimos por dia. Capaz de carregar telemóveis, computadores portáteis ou qualquer coisa que exija uma tomada elétrica, o objetivo da empresa é lidar com a demanda crescente – e oportunidades de receita – pela queima de combustível fóssil, fornecendo uma fonte eficiente e acessível de energia limpa para as comunidades em desenvolvimento.

Finalista: SOLbazaar
Ideia: Ligar painéis solares de casas individuais a uma rede partilhada de energia – permitindo aos proprietários das casas vender eletricidade através de uma rede multicêntrica eficiente – não é um conceito novo. Mas a ideia de ‘nano grelhas’ em comunidades rurais, porém, é uma coisa mais recente. Com o objetivo de combater a queima de carvão e madeira por parte das famílias que se encontram repentinamente ou habitualmente fora da rede elétrica, o SOLBazaar é mais uma inovação com várias soluções, fornecendo energia limpa e uma fonte de rendimento para as comunidades empobrecidas que precisam de ambos. Com uma meta de 10.000 nano grelhas até 2030 – e ambições de expansão para o carregamento de riquexós elétricos, para reduzir ainda mais as emissões – começando no Bangladesh, onde mais de cinco milhões de casas já são alimentadas a energia solar, o SOLBazaar tem um campo de testes perspicaz para o seu modelo, pois tem de fornecer infraestrutura eficiente em regiões complicadas.

Desafio: Proteger e restaurar a natureza

 

Finalista: Restor
Ideia: A restauração de habitat, o fortalecimento de ecossistemas e plantio de árvores terapêuticas é uma ambição excelente – contudo, sem os conhecimentos necessários para o fazer corretamente, é difícil ter sucesso. Estima-se que as taxas de sobrevivência dos projetos de restauração ecológica sejam inferiores a 30% – um número que a Restor pretende mudar. Descrita pelos seus criadores no Crowther Lab como “um ecossistema online para o movimento global de restauro da natureza”, esta startup sediada na Suíça tem como objetivo munir as pessoas que plantam com informações de qualidade e oportunidades de trabalho em rede. Isto funciona ao tornar os principais conjuntos de dados científicos acessíveis aos conservacionistas, para apoiar nos esforços de restauro – de qualquer coisa, desde o plantio de árvores na vizinhança até à regeneração de zonas pantanosas – e juntando projetos semelhantes no mundo inteiro.

Finalista: Fundação Pole Pole
Ideia: Um problema geralmente dá origem a vários, como aconteceu na República Democrática do Congo. A escassez de alimentos e a má situação económica levaram ao aumento da desflorestação e à caça furtiva de espécies valiosas e vulneráveis – como o gorila-das-planícies-orientais – devido à sua carne e ao comércio ilegal de animais selvagens. Moderar a dependência que as comunidades têm da floresta tropical é o objetivo da Fundação Pole Pole (Kiswahili para ‘devagar, devagar’). Esta ação inclui o plantio de uma zona tampão de árvores maduras para a colheita e combustível, e o combate à fome através de incentivos para uma dieta rica em nutrientes, ou seja, à base de plantas com produção local de espirulina e cogumelos para as comunidades próximas.

Finalista: Governo da Costa Rica
Ideia: Dois projetos pioneiros na Costa Rica – o Pagamento por Serviços Ecossistémicos e o Sistema Nacional de Áreas de Conservação – pagam aos seus cidadãos, incluindo os que vivem nas comunidades indígenas, para plantarem árvores e cuidar da ecologia local. Este modelo, de acordo com o Ministério do Ambiente do país, 'torna a proteção da natureza lucrativa'. Com uma economia turística de vários milhares de milhões de dólares impulsionada pelas viagens ecológicas e de vida selvagem, a Costa Rica – com o seu lema nacional, Vida Pura – tem sido elogiada pelos seus esforços de conservação, que deram lugar a uma extensa restauração florestal na última década. Agora, o país quer importar as suas ideias para os seus próprios centros urbanos e aumentar estes esforços além fronteiras, num esforço para proteger 30% da terra e mares do planeta.

O que acontece agora?

 

Os 15 finalistas mencionados serão agora apresentados ao júri do Earthshot Prize para uma avaliação final, com os cinco vencedores – um por cada categoria – a serem anunciados em Londres no dia 17 de outubro. Os cinco vencedores vão receber 1 milhão de libras cada para investirem e expandirem as suas ideias – e, alinhados com as aspirações dos organizadores, fazer a diferença.

De acordo com David Attenborough, este prémio é uma grande fonte de esperança. “Esperemos que se espalhe pelo mundo.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados