A subida do nível do mar está a devorar esta cidade brasileira

O Oceano Atlântico está a forçar perdas existenciais em Atafona, uma tragédia que se verifica pelo mundo inteiro à medida que as alterações climáticas aceleram.

Habitantes de Atafona brincam nas ruínas da cidade, que perdeu 14 quarteirões devido à subida do nível mar e erosão da areia. Durante a maré baixa, é possível ver edifícios que foram tomados pelo mar há décadas.

Fotografia de Felipe Fittipaldi
Por Caio Barretto
Fotografias Por Felipe Fittipaldi
Publicado 27/10/2021, 12:33

ATAFONA, BRASIL – A maré está alta e as ondas aproximam-se cada vez mais da casa à beira-mar onde vive José “Nenéu” Rosa, que se levanta da mesa depois de almoçar peixe que apanhou de madrugada. Descalço e sem camisa, com a pele bronzeada de 46 anos passados ao sol, este pescador verifica a estabilidade de um paredão de rocha com mais de um metro de altura em torno da sua casa, que a protege de um Oceano Atlântico turbulento. José Rosa suspira de alívio quando vê que a sua propriedade está segura, pelo menos mais um dia.

Durante a tarde, as fortes rajadas de vento vindas de nordeste levantam ondas de quase três metros de altura que tocam no muro de José Rosa. Os seus cinco cães ladram assustados, enquanto que os três gatos se escondem no telhado. José Rosa sobe uma barreira que foi parcialmente destruída por uma tempestade há cerca de um ano e aponta para o fundo do mar, para o que resta da casa onde ele e os seus sete irmãos pescadores nasceram. A casa foi levada pelo oceano há 30 anos, diz José Rosa, assim como duas habitações suas nos anos seguintes.

Uma rua enterrada pela areia em Atafona. Desde a década de 1960, 14 quarteirões desta cidade desapareceram no mar.

Fotografia de Felipe Fittipaldi

José Luiz Rosa é pescador e vive na Praia de Atafona. José perdeu três casas nos últimos anos devido às ondas.

Fotografia de Felipe Fittipaldi

Desta vez, José Rosa decidiu resistir. Com o dinheiro que ganhou com a pesca e o fabrico de redes, José Rosa investiu quase 3 mil euros no muro que ele espera poder salvar a sua casa, embora saiba que se trata de uma solução efémera. “O mar não está errado; quer o que lhe pertence”, diz José Rosa. “Vai engolir tudo, mas eu vou resistir.”

Esta pequena cidade brasileira com 6.000 habitantes, a cerca de 320 quilómetros das famosas praias de Copacabana e Ipanema, é um cenário apocalíptico: casas abandonadas e em ruínas, ruas que terminam abruptamente na areia. Em Atafona, o avanço do oceano devido às alterações climáticas, que forçam a subida do nível do mar e a erosão da areia, é um fenómeno que assusta os habitantes, intriga os cientistas e fascina os turistas que chegam ansiosos por um vislumbre da destruição. Aos fins de semana, autocarros lotados vindos de cidades nas proximidades estacionam junto à praia, e os visitantes tiram selfies no meio de destroços cobertos com grafítis que fazem alusão ao fim do mundo e têm citações bíblicas do Livro do Apocalipse, com mensagens que avisam que “Jesus vai regressar”.

Atafona está a passar por uma tragédia ambiental implacável que se repete por muitas outras regiões costeiras do planeta. No Texas, por exemplo, a cidade de Freeport sofre cerca de 15 metros de erosão por ano – uma média que tem aumentado nos últimos 30 anos e é considerada a mais severa do mundo. Os especialistas alertam que, em 2050, mesmo que a humanidade consiga controlar as emissões de gases de efeito estufa que aquecem o planeta, 200 milhões de pessoas poderão sofrer com a subida do nível do mar e inundações frequentes. Em 2100, se as emissões aumentarem e o degelo acelerado dos glaciares continuar, o número de pessoas afetadas pode chegar aos 480 milhões, de acordo com um estudo da organização Climate Central publicado na revista Nature Communications em 2019.

Desalojados pelo mar

A erosão costeira em Atafona está a provocar uma destruição sem precedentes ao longo de 11.200 quilómetros de costa brasileira. Todos os anos, o mar avança em média 2,7 metros, mas também já chegou a avançar cerca de oito metros em alguns anos, como aconteceu em 2008 e 2009. Desde que a erosão começou a acelerar, há cerca de 60 anos, as ondas destruíram mais de 500 edifícios. Cerca de 14 quarteirões da cidade estão agora completamente submersos.

A paisagem decadente de Atafona revela a crise entre homem e natureza. As dunas desta cidade ocultam cerca de 400 edifícios, incluindo casas, hotéis, um posto de abastecimento e igrejas.

Fotografia de Felipe Fittipaldi

O mar já devorou o farol histórico da praia, bares, discotecas, mercados, um hotel de quatro andares, um posto de abastecimento para barcos, uma escola, mansões de verão, duas igrejas e uma ilha onde viviam cerca de 300 famílias de pescadores. A Ilha da Convivência, como era conhecida, ficava a 200 metros da costa. José Rosa nasceu nesta ilha em 1974, quando os ilhéus, temendo um oceano que já estava a avançar, começaram a deslocar-se da ilha para o continente. Hoje, a única coisa que resta da ilha é uma estreita faixa de terra com ruínas abandonadas. Ao todo, os investigadores estimam que desde 1960 a erosão criou mais de 2.000 refugiados ambientais nesta região.

Muitos dos habitantes nunca recuperaram do trauma de perder os seus lares. Érica Ribeiro Nunes, de 48 anos, tem fugido do mar a vida inteira. Érica Nunes, que é filha, irmã e esposa de pescadores, foi novamente expulsa da sua casa há pouco tempo, desta vez devido a uma tempestade. Érica e a sua família já pescaram e venderam caranguejos, mas a subida do nível do mar devastou 90% do habitat dos caranguejos nos mangais de Atafona. Érica Nunes economiza um pouco da ajuda mensal que recebe do governo – cerca de 30 euros – dentro de uma Bíblia e reza a Deus para que o dinheiro se multiplique. Assolada por pesadelos, Érica Nunes raramente tem uma noite bem dormida.

“Ninguém sabe o que é perder tudo até que isso acontece. E depois perdemos tudo novamente. Não há um presidente, um prefeito que cuide de nós. A verdade é que ninguém quer saber de Atafona”, desabafa Érica Nunes com os olhos cheios em tristeza.

O problema de Atafona

A explicação para a subida do nível mar e para a erosão extrema em Atafona é algo que os investigadores já tentam decifrar desde a década de 1970. Alguns habitantes da cidade têm as suas próprias teorias, que se baseiam na crença de que a praia tem poderes curativos devido à sua areia de monazite.

“Em Atafona, sobretudo entre os moradores mais antigos, existe uma crença que envolve misticismo, religião e ciência. Para estes habitantes, o oceano é um ser vivo, e a erosão costeira é um castigo pelos erros cometidos pelo homem, como a construção da velha igreja junto à costa com as traseiras viradas para o oceano”, diz Gilberto Pessanha Ribeiro, engenheiro civil e coordenador do Observatório da Dinâmica Costeira da Universidade Federal de São Paulo, que investiga Atafona há 18 anos.

Uma casa em Atafona que foi destruída pelo mar.

Fotografia de Felipe Fittipaldi
Esquerda: Superior:

Sónia Ferreira, habitante na Praia de Atafona, junto à sua casa, a próxima na fila para ser levada pelo mar. As ondas já derrubaram uma parede, mas Sónia não pensa em partir. Sónia Ferreira é muito conhecida em Atafona por documentar o processo de erosão da cidade.

Direita: Fundo:

Sónia Ferreira, numa das fotografias que conseguiu salvar da destruição, costuma falar com jornalistas, cientistas e estudantes sobre a erosão da cidade e conta histórias sobre os vizinhos que perderam as casas.

Fotografia de Felipe Fittipaldi

“Não há uma explicação que englobe tudo”, diz Gilberto Ribeiro. “Temos as alterações climáticas, mas também os eventos regionais: a influência do vento, as ondas, os efeitos astronómicos nas marés (e) o transporte de sedimentos pelas correntes costeiras.”

Os cientistas acreditam que a convergência de todos esses fatores num só lugar, que é único na costa brasileira, ajuda a explicar o que tem acontecido em Atafona. Mas uma alteração feita pelo homem na geologia do rio pode ter tido o maior impacto.

Atafona fica na foz do rio Paraíba do Sul, o curso de água mais importante da região sudeste do Brasil, onde estão localizadas duas das cidades mais industrializadas e populosas do Brasil – São Paulo e Rio de Janeiro. Esta bacia de drenagem fornece água a mais de 15 milhões de pessoas em 184 municípios.

O rio Paraíba tem um percurso de pouco mais de 1.100 quilómetros desde a sua nascente no estado de São Paulo até ao Oceano Atlântico, e já transportou areia sedimentar suficiente para o delta para estabilizar a costa e formar uma barreira natural que protegia Atafona do mar.

Mas no final da década de 1950, cerca de 70% do fluxo do rio foi desviado para sul, para fornecer água à área metropolitana do Rio de Janeiro. As barragens e outros projetos industriais de agricultura também reduziram o outrora poderoso curso do rio a uma fração do que era. A diminuição da carga sedimentar e de areia já não consegue impedir a corrosão do Atlântico na praia de Atafona.

Nesta imagem vemos bancos de areia e o assoreamento do rio Paraíba do Sul perto da cidade de Campos dos Goytacazes. A acumulação de sedimentos provocada pelas barragens torna o fluxo do rio cada vez mais fraco perto do delta, incapacitando-o de proteger Atafona das ondas do oceano.

Fotografia de Felipe Fittipaldi

“O Rio de Janeiro consome 44 metros cúbicos por segundo, mas bombeia quatro vezes mais – 160 metros cúbicos por segundo. É isso que está a devastar o rio desde a década de 1960”, diz João Siqueira, secretário-geral do Comité do Baixo Paraíba do Sul. “Isto garante o abastecimento de água aos habitantes de Copacabana e Ipanema, mas como é óbvio, do ponto de vista ambiental e ecológico, é um desastre. O resultado é o que estamos a ver em Atafona.”

Em Atafona, a foz do rio já teve pelo menos 4.5 metros de profundidade, de acordo com os pescadores mais velhos. Hoje, tem apenas 40 centímetros e os barcos de pesca só conseguem chegar ao oceano através de um canal estreito.

Rezar por ajuda

É como se o tempo passasse mais depressa em Atafona, porque todas as manhãs a paisagem da praia está sempre um pouco diferente. As dunas deslocam-se em direção às casas, algumas ruínas emergem na areia e outras desaparecem. Todos os dias, os pescadores rezam para que o governador drague a foz do rio, para reabrir o canal de navegação e construir um quebra-mar que proteja a costa da força das ondas. Existe um projeto que está em fase de planeamento há quatro anos, mas que nunca se concretizou por falta de recursos.

Outra resposta pode estar na praia, no leito do rio, afirma o geógrafo Eduardo Bulhões, professor da Universidade Federal Fluminense que estuda esta situação há mais de 10 anos. Eduardo Bulhões recomenda uma solução usada nos Estados Unidos e nos Países Baixos: reabastecer a praia com o bombeamento da sua própria areia, que se acumula no fundo do rio Paraíba do Sul. “É uma resposta moderna, mas também é uma resposta que exige manutenção regular”, diz Eduardo Bulhões.

Esquerda: Superior:

Gervásio é pescador e construtor de barcos em Atafona. Devido à acumulação de lodo no delta, os barcos maiores como o de Gervásio já não conseguem chegar ao oceano porque a foz do rio está entupida e é muito rasa.

Direita: Fundo:

Fernando António Lobato Borges no interior da sua casa, que está condenada pelas ondas que se aproximam. Fernando Borges diz que só vai abandonar a casa quando a água estiver à porta.

Fotografia de Felipe Fittipaldi
Esquerda: Superior:

Emídio da Silva é um pescador reformado e refugiado ambiental. A sua casa na Ilha da Convivência foi destruída pelas ondas, obrigando-o a mudar-se para o continente em meados da década de 1990.

Direita: Fundo:

O Oceano Atlântico já devorou várias casas de Érica Nunes, que permanece em Atafona porque não tem para onde ir.

Fotografia de Felipe Fittipaldi

Qualquer que seja a solução, José “Nenéu” Rosa tem uma visão muito própria das causas.

“O homem provocou a ira do oceano. A culpa é nossa”, diz José Rosa pouco depois de sair da água com dois peixes enormes. José nutre um respeito profundo pelo mar, onde encontra o seu sustento, trabalho e modo de vida. “O mar leva-me a casa, mas eu fico com o seu peixe. Não sei ler nem escrever, mas consigo compreender isso. A minha única preocupação é saber que as ondas vão continuar a avançar.”

Ao final da tarde, José Rosa bebe uma chávena de café enquanto acaricia um gato ferido que não o larga. A sua vida mudou muito nos últimos anos. Antigamente, José Rosa pescava no mar durante um mês inteiro, onde consumia drogas e bebia muito enquanto pescava – até que decidiu começar uma nova vida depois de conhecer um pastor evangélico.

Os dois tornaram-se inseparáveis – o pastor muitas vezes não tem comida e costuma alimentar-se com o peixe que José Rosa apanha. Todos os dias, ambos rezam na casa do pescador. Enquanto oravam naquela noite, o pastor olhou pela janela e levantou as mãos em direção ao Oceano Atlântico. “Somos pecadores arrependidos, Pai. Pedimos misericórdia. Em nome de Jesus, não deixe o mar levar esta casa.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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