O que é a COP26 – e por que razão é tão importante?

Em novembro, o Reino Unido organiza uma conferência internacional sobre alterações climáticas. Num mundo fustigado por uma pandemia e num ponto crítico ecológico, eis porque é do interesse de todos que a conferência corra bem.
Fotografia de JAMES P. BLAIR, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION
Publicado 12/10/2021, 16:49

Um nome sonante. O que significa?

COP significa “Conferência das Partes” – as partes são os 197 países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC). A primeira conferência deste género foi realizada em 1995 em Berlim, pelo que 2021 assinala o 26º encontro.

Este ano, o evento é organizado pelo Reino Unido e vai decorrer no Scottish Events Campus (SEC) de Glasgow entre 31 de outubro e 12 de novembro. A conferência é feita em parceria com Itália, país que organizou no início de outubro diversos eventos em Milão – como o Youth4Climate e o PreCOP26.

Embora a COP seja um evento anual, a COP26 é a primeira reunião deste tipo realizada desde que surgiu a pandemia de COVID-19. Isto dá à conferência uma perspetiva adicional, quer seja do ponto de vista da aprendizagem feita durante este período sem precedentes, como pela reafirmação das metas climáticas após a COP25, que foi realizada em Madrid em dezembro de 2019.

Como foi a COP25?

O consenso é que não foi brilhante. A 25ª Conferência das Partes, que foi organizada pelo governo chileno e realizada em Madrid em dezembro de 2019, terminou de forma inconclusiva. Foram aprovadas resoluções para a redução de emissões de gases de efeito estufa e propostas de ajuda para os países mais pobres que já estão a sentir os efeitos das alterações climáticas. Mas quando as negociações – marcadas pelos protestos de ativistas climáticos frustrados – se prolongaram mais dois dias, a questão dos mercados de carbono permaneceu em aberto e foi adiada para a cimeira de Glasgow. Assim, muitas das reportagens feitas em torno da conferência rotularam-na como um fracasso, algumas até de forma contundente.

Os delegados assistem ao plenário de encerramento da COP25 em Madrid, no dia 15 de dezembro de 2019. Esta conferência, organizada pelo Chile, foi prolongada devido a negociações demoradas que, em última análise, não chegaram a uma conclusão.

Fotografia de UNFCCC

Para além dos óbvios mercados de carbono – o que vai ser discutido na COP26?

A UNFCCC identificou quatro objetivos gerais no seu manifesto para a COP26. Estes são:

- Assegurar a neutralidade de carbono global em meados do século e manter a meta de não ultrapassar 1,5 graus de aquecimento
- Medidas de adaptação para proteger comunidades e habitats naturais
- Mobilização financeira
- Trabalhar conjuntamente para obter resultados

O primeiro objetivo engloba medidas como a eliminação gradual do carvão e a redução da desflorestação, por exemplo, reduzindo as emissões de carbono para ‘zero líquido’ em relação às emissões de 1990 – e permitir respeitar a meta de não ultrapassar 1,5 graus Celsius de aquecimento em relação ao período registado na era pré-industrial. A ideia de um acordo coletivo para limitar o aquecimento global com uma meta foi apresentada na COP21 em 2015; o local da conferência desse ano dá agora nome ao que se conhece por Acordo de Paris.

O segundo objetivo reconhece que as comunidades nos países delegados – tanto as povoações humanas como os ambientes circundantes – vão continuar a sentir os efeitos das alterações climáticas e precisam de apoio nos seus esforços de proteção e recuperação de danos. O terceiro objetivo está relacionado com as verbas necessárias para atingir estes objetivos. E o último objetivo – potencialmente o mais complicado de todos – enfatiza a necessidade de uma verdadeira cooperação global para possibilitar tudo isto.

Nos termos do Acordo de Paris, firmado na COP21 em 2015 e assinado em 2016, as nações concordaram em cooperar para atingir uma série de medidas que visam limitar a subida da temperatura global. Isto inclui uma maior adoção de energias renováveis, a restauração de habitats biodiversificados e reduções nas emissões de carbono por parte da indústria e dos transportes.

Fotografia de NASA

Porquê complicado? Não querem todos salvar o planeta?

Apesar de o grande objetivo ser um acordo, os países também precisam de ter em consideração a forma como as decisões globais afetam as suas circunstâncias individuais – por uma série de razões. E com quase 200 países obrigados a assinar cada decisão num total de 2.217 organizações presentes, a COP pode ser uma máquina monumental, mas também é frágil. Isto significa que a união pode ser extremamente positiva – como se pode ver pelo desenvolvimento do Acordo de Paris. Mas as negociações também podem ser afetadas pela burocracia e exacerbadas por reviravoltas políticas, como aconteceu quando a administração de Trump iniciou o processo de retirada dos EUA – o segundo maior emissor de carbono do mundo – do Acordo de Paris em 2017.

Como acontece com qualquer organização gigantesca que procura consenso, há sempre pontos individuais de discórdia que podem consumir tempo precioso. Podemos usar como exemplo os mercados de carbono, a questão que descarrilou a COP25. Este conceito é controverso porque os países que alcançarem as suas metas nas emissões podem adquirir uma licença para emitir carbono adicional por parte dos países menos poluentes, como se fosse uma espécie de crédito adicional. Esta questão é claramente polarizadora. Alguns especialistas encaram a estrutura do mercado de carbono como um incentivo para os países adotarem uma energia mais ecológica, para evitar ultrapassar o limite imposto pelas metas; mas outros acreditam estar perante um sistema pobre e cheio de lacunas, um sistema que pode ser facilmente manipulado; e também há quem ache que toda esta ideia é uma falsa solução e que não passa de uma “capitalização ecológica”.

Esta questão também já perdura desde as reuniões anteriores da COP e sublinha não só os obstáculos diplomáticos entre as nações, como gera críticas de que uma questão tão complexa e com benefícios inatingíveis absorve um tempo considerável, que é precioso, por parte dos delegados. Resta saber se vai acontecer o mesmo na COP26. É provável que existam outras questões em cima da mesa, porque um mês após a conclusão da COP25, surgiu um problema que poucos conseguiram prever.

“Desde a última COP, realizada em 2019, morreram quase cinco milhões de pessoas devido a suspeitas de doenças zoonóticas a circular entre espécies.”

O coronavírus vai estar no centro das atenções?

“A maioria dos especialistas acredita que a COP26 tem uma urgência única.” Esta frase, retirada do site da conferência, sublinha que a presidência da Grã-Bretanha da COP26 acontece num momento que muitos consideram ser um ponto crítico no clima, sobretudo depois de 18 meses sem precedentes na história moderna. (Dois eventos marcantes para os mais novos: COVID-19 e alterações climáticas.)

Desde a última COP, realizada em 2019, morreram quase cinco milhões de pessoas devido a suspeitas de doenças zoonóticas a circular entre espécies. Para os mais desatentos, isto pode parecer que não está relacionado com as questões ambientais, mas os cientistas concordam que as probabilidades de eventos de transbordo entre espécies aumenta quando os humanos interagem com os reservatórios de vírus – os animais. Isto significa que a extração de madeira, a mineração, a aquisição de carne de animais selvagens e outras invasões de habitat colocam-nos em maior risco de dar origem à próxima pandemia.

Inevitavelmente, grande parte das ações de preparação para a COP26 – e o contexto financeiro atual, que vai afetar os debates – foram reconfiguradas devido a uma pandemia que se tornou no evento económico mais danoso desde a Segunda Guerra Mundial.

A própria logística da conferência, que foi adiada em 2020 devido à pandemia, atraiu críticas porque alguns dos delegados e ONG das nações do ‘sul global’ podem não comparecer no evento devido a restrições nas viagens. Muitas destas nações incluem as mais afetadas pelas alterações climáticas.

Esquerda: Em agosto de 2021, deflagraram mais de 500 incêndios florestais por toda a Grécia, incluindo este incêndio perto de Atenas, que ardeu vários dias até ser controlado. Este ano, a Grécia registou a temperatura mais elevada no dia 3 de agosto, chegando aos 46,3 graus.
Direita: Um pescador verifica a espessura do gelo em Ilulissat Icefjord, na Gronelândia. O manto de gelo da Gronelândia tem passado por uma desestabilização nos últimos anos e apresenta o degelo mais acentuado dos últimos 12.000 anos. O degelo completo deste manto resultaria numa subida do nível do mar a rondar os sete metros.

Fotografia de ANASMEISTER ON UNSPLASH (ESQUERDA) ANINGAAQ ROSING CARLSEN / VISIT GREENLAND (DIREITA)

Mas a pandemia também trouxe consigo uma clareza renovada de propósito para aquilo que a conferência foi projetada – e um precedente para a rapidez com que o mundo consegue dar a volta por cima face a um perigo diferente, um perigo que superficialmente é mais urgente.

“A pandemia colocou a descoberto que o ‘normal’ era profundamente frágil e perigoso”, afirma o Grupo de Especialistas Independentes em Finanças Climáticas da ONU no relatório de dezembro de 2020. “Se o mundo deixar de agir agora, os danos provocados pelas alterações climáticas e a perda de biodiversidade serão muito maiores e mais duradouros do que os danos infligidos pela COVID-19.”

Este cenário também contém um ano de incêndios florestais, inundações, degelo acelerado dos mantos, pragas de gafanhotos, temperaturas que bateram recordes e um mundo que falhou as suas metas e perdeu biodiversidade. Tudo isto faz com que este momento crítico para agir seja cada vez mais difícil de ignorar por parte de qualquer nação.

Milhares de pessoas encheram as ruas de Westminster no dia 20 de setembro de 2019, um protesto englobado na Greve Climática Global.

Fotografia de SIMON INGRAM / NATIONAL GEOGRAPHIC

Mas também há algumas coisas positivas no trajeto para a COP26 – o regresso de Joe Biden ao Acordo de Paris no seu primeiro dia enquanto presidente dos EUA foi uma declaração evidente do que sentia em relação à retirada do seu antecessor. E também temos as iniciativas proativas, como o Earthshot Prize, o crescimento global da produção de energia renovável, um aumento na responsabilidade de investimento ético por parte de algumas das maiores instituições financeiras do mundo e medidas para proteger mais a superfície do planeta – como a decisão tomada pelo Reino Unido em novembro 2020 para proteger 4.3 milhões de quilómetros quadrados de oceano, com o apoio da iniciativa Pristine Seas da National Geographic. Todos estes sinais indicam que as intenções ambiciosas estão lentamente a transformar-se em ações decisivas.

(Estas 15 ideias disputam o prémio ambiental mais prestigiado da história.)

A COP26 é importante. Qual é a responsabilidade da Grã-Bretanha?

Tal como acontece com um juiz no tribunal, muito do bom funcionamento das negociações da COP26 reside na capacidade diplomática da nação presidente, que deverá estar focada na gestão dos temas em debate. Alguns dos fracassos em eventos da COP já foram atribuídos aos governos anfitriões, assim como são elogiados quando há progressos.

Boris Johnson, no seu discurso de lançamento da conferência em fevereiro, destacou as ambições que tinha para a Grã-Bretanha: ser líder mundial em energias renováveis, na adoção de transportes elétricos e tecnologia de captura de carbono – reiterando também o compromisso do Reino Unido em atingir a neutralidade de carbono até 2050. Esta etapa, assumida em junho 2019, tornou o Reino Unido na primeira nação do G7 a fazê-lo, atraindo algumas vozes de discórdia. Mas esta atitude também foi reconhecida como uma posição moral dado o papel do Reino Unido na Revolução Industrial – e uma declaração vital de intenções para encorajar outras nações a seguirem o seu exemplo, caso isso estivesse em questão.

Em novembro, na COP26, é esta a posição do Reino Unido.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

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