“Precisamos apenas de mais mãos”: especialistas em alterações climáticas avaliam o que podemos salvar

Duas especialistas explicam as razões pelas quais o aquecimento global está mais presente na mente das pessoas e o que o público pode fazer para ajudar a mitigar as alterações climáticas.

Por Robert Kunzig
Publicado 4/10/2021, 15:30
Barcos de habitação no lago Oroville

Barcos de habitação no lago Oroville fustigado pela seca, na Califórnia, no dia 5 de setembro de 2021. Grande parte da Califórnia tem sido afetada pelo calor excessivo durante o verão.

Fotografia de Josh Edelson, AFP/Getty Images

No esforço de décadas para mitigar as alterações climáticas, alguns momentos pareceram pontos de inflexão. Em 1992, com muito alarido, as nações mundiais assinaram um tratado no Rio de Janeiro que prometia ações climáticas; em 2015, após negociações contenciosas, as nações comprometeram-se em Paris a adotar planos nacionais para limitar as suas emissões de gases de efeito estufa. Ainda assim, as emissões globais continuaram a aumentar até 2020, ano em que desceram cerca de 7% devido à redução na utilização de combustíveis fósseis durante os confinamentos globais da COVID-19.

Na antecipação de outro encontro internacional em Glasgow em novembro, com o objetivo de reduzir as emissões de carbono, o Congresso dos EUA está agora a considerar uma importante ação legislativa sobre as alterações climáticas. E o debate na praça pública parece estar a tomar um rumo esperançoso. Na semana passada, uma investigação das universidades de Yale e George Mason descobriu que, pela primeira vez, a maioria dos americanos acredita que as pessoas nos EUA estão a ser afetadas pelas alterações climáticas. É provável que um ano de eventos climáticos extremos e mortais tenha levado o problema para demasiado perto de casa.

Alejandra Borunda, repórter do meio ambiente da National Geographic, e eu conversámos recentemente com duas observadoras sobre se 2021 irá finalmente marcar uma mudança na ação e opinião públicas. Katharine Hayhoe é cientista climática na Universidade de Tecnologia do Texas, cientista-chefe da Nature Conservancy e autora de Saving Us, um livro que aborda a forma como devemos falar sobre as alterações climáticas. Katharine Wilkinson, autora de best-sellers sobre o clima e apresentadora de um podcast, é uma das editoras de All We Can Save, um livro de ensaios sobre o clima feito por mulheres.

Robert Kunzig:
Alejandra, o clima este ano continuou a encontrar novas formas de nos assustar.

Alejandra Borunda:
É apenas a continuação de uma tendência onde cada vez há mais e mais extremos. Aqui na Califórnia ficou bem patente desde cedo que seria um ano muito seco e provavelmente muito quente. Estávamos a ver riachos a secar, crias de salmão a morrer, poços a secar. Quando o calor começou a chegar, testemunhámos vagas de calor completamente sem precedentes no noroeste do Pacífico. Depois, como é óbvio, começaram os incêndios, que é outro problema ao qual já nos habituámos.

E estamos apenas a falar do oeste americano. Há coisas a acontecer por todo o planeta – inundações devastadoras na Europa e na China que ceifaram centenas de vidas. E durante o furacão Ida, que foi desde a Costa do Golfo até à região nordeste dos EUA, aconteceu a mesma coisa. Todos os anos, enquanto repórteres do meio ambiente, catalogamos todos os desastres.

Robert Kunzig:
Não nos podemos esquecer de que tudo começou com um inverno extraordinário no Texas. Katharine Hayhoe, como foi passar por isso?

Katharine Hayhoe:
O mais invulgar foi o frio que se arrastou durante tanto tempo. Costuma nevar onde eu vivo no Texas, mas normalmente não temos temperaturas negativas durante longos períodos. Todas as pessoas repararam no que estava a acontecer. E isto foi imediatamente politizado quando o governador foi à televisão dizer que as turbinas eólicas tinham congelado e que era por isso que não tínhamos energia. No rescaldo disto tudo ficou bastante evidente que foi maioritariamente o gás natural que falhou no sistema, não as turbinas eólicas.

O que nós, cientistas, estamos a começar a fazer é colocar números sobre a forma como as alterações climáticas estão a piorar eventos específicos. Os números são avassaladores. Nas inundações mortais que se verificaram na Alemanha, o estudo de atribuição mostrou que essas inundações eram nove vezes mais prováveis devido às alterações climáticas. Em relação aos incêndios florestais e às terríveis vagas de calor no oeste dos EUA, são eventos com uma probabilidade 150 vezes maior de acontecer devido às alterações climáticas.

Em relação às temperaturas negativas no inverno, sabemos agora que, como o Ártico está a aquecer duas vezes mais depressa do que o resto do mundo, isso afeta o vórtice polar. Portanto, existe uma ligação que se estende até essa região. É por isso que, na minha opinião, a melhor forma de falar sobre o que está a acontecer não é falar sobre o aquecimento global – mas sim sobre o “estranho” global. Não é possível viver em qualquer parte do mundo sem reconhecer que as coisas estão definitivamente a ficar mais estranhas.

Robert Kunzig:
Neste verão, o clima extremo também foi um dos focos do novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, o IPCC.

Katharine Hayhoe:
O primeiro relatório do IPCC foi publicado em 1990. Desde então, tivemos seis relatórios de avaliação. Cada um destes relatórios é uma coleção de toda a ciência que foi feita entretanto, trabalhos que são revistos por milhares de cientistas do mundo inteiro, bem como por entidades governamentais. Portanto, estes trabalhos são a autoridade sobre o que está a acontecer.

O último relatório diz que as alterações climáticas são reais e que [são provocadas pelos] humanos. O que há de novo é o seguinte: Nós, humanos, nunca passámos por mudanças tão rápidas como as que estão a acontecer atualmente. Estas mudanças estão a afetar todos os aspetos das nossas vidas, mais concretamente através do impacto dos eventos extremos. Mas o futuro está nas nossas mãos. São as nossas escolhas que vão ter mais impacto sobre o que vai acontecer no futuro. Cada ano é importante, cada detalhe sobre o aquecimento é importante, cada escolha é importante.

Robert Kunzig:
No passado, Katharine Wilkinson chegou a falar de um “grande despertar”. Já chegámos a esse ponto?

Katharine Wilkinson:
A intensidade crescente dos eventos climáticos espelha o que estamos a testemunhar na opinião pública, mas também, mais importante, no envolvimento do público. Ninguém quer despertar desta forma – com cientistas aos berros, embora em tons abafados, ou com tempestades violentas que podem arrasar uma cidade inteira. E, no entanto, estas são as causas para despertar. A meu ver, há cada vez mais e mais pessoas a perguntar o que podem fazer, a perguntar como podem ajudar.

Muitas das lojas e serviços em Barataria, no Louisiana, foram encerrados porque a energia em Nova Orleães e na região circundante ficou cortada depois de o furacão Ida de Categoria 4 ter atingido a costa no dia 29 de agosto.

Fotografia de Brandon Bell, Getty Images

É um momento igualmente terrível e magnífico para se estar vivo neste planeta, porque temos muito poder. Creio que a maioria das pessoas se sente impotente perante a crise climática, mas há muitas coisas que podemos fazer. Portanto, muito do meu trabalho passa agora por tentar ajudar realmente as pessoas a perceber como podem participar nesta grande transformação.

Katharine Hayhoe:
Também sinto que a maré está a mudar. Em primeiro lugar, porque vemos [as alterações climáticas] a acontecer e a afetar as nossas vidas. Mas também vemos que as soluções estão aqui. As soluções não passam pela destruição da economia e pelo regresso à Idade da Pedra. As soluções passam pelas energias limpas que podem ajudar a purificar o ar e a água, fornecendo mais empregos nas zonas rurais do que os combustíveis fósseis. As soluções passam por um regresso a algumas das formas pelas quais costumávamos fazer as coisas no passado, ações que faziam muito mais sentido e que nos tornavam melhores gestores dos nossos recursos. Quando temos estas conversas sobre alterações climáticas, em vez de enchermos as cabeças das pessoas com dados científicos terríveis, o que realmente une as pessoas e muda as suas mentalidades é ajudá-las a perceber como os riscos as afetam pessoalmente e como as soluções têm benefícios imediatos.

Robert Kunzig:
A pandemia também mostrou que até as coisas mais impressionantes podem ser politizadas.

Katharine Hayhoe:
O negacionismo das alterações climáticas também faz parte de um elemento tóxico nestas questões. As pessoas não acordam de manhã a pensar que vão negar as alterações climáticas, até porque conhecemos esta ciência desde a década de 1850. As pessoas acordam de manhã e verificam a sua página de Facebook para ver o que as pessoas com quem concordam estão a dizer, as pessoas que conhecem e em quem confiam. As pessoas dão ouvidos ao seu comentador preferido, ao seu programa de notícias favorito. O que ouvem no meio disto tudo é: “Se formos este tipo de pessoa, eis o que pensamos sobre a imigração, a Rússia, a COVID-19, o uso de máscara, vacinas – e alterações climáticas.”

Nos EUA, o indicador número um para perceber se estamos dispostos a usar máscara ou sermos vacinados depende do nosso espectro político. Mas isso é exatamente o que tem acontecido com as alterações climáticas.

Robert Kunzig:
Tanto Katharine Wilkinson como Ayana Johnson editaram em conjunto um livro de ensaios sobre o clima do ponto de vista de um grupo diversificado de mulheres.

Katharine Wilkinson:
Grande parte do diálogo sobre o clima tem sido moldado por homens brancos. Sabemos que precisamos da maior equipa possível e precisamos de um caleidoscópio de perspetivas. Tem sido incrivelmente encorajador ouvir mulheres jovens que pegaram neste livro e disseram que estavam a tremer quando leram o primeiro ensaio, porque sentiram que também estavam incluídas e sentiram-se capacitadas.

Para chegarmos realmente às pessoas a um nível humano, temos de usar os nossos corações, a nossa empatia e as nossas histórias.

Katharine Hayhoe:
Quando se trata de alterações climáticas, estamos sobrecarregados com histórias repletas de desgraças que têm muito pouco que ver connosco e acabamos por nos dissociar delas. Acabamos por acreditar que não podemos fazer nada para salvar os ursos-polares. Na realidade, [precisamos] de histórias sobre como isso nos está a afetar de formas com as quais nos identifiquemos imediatamente e com as quais nos relacionemos, e também de histórias sobre todas as soluções incríveis que estão disponíveis.

Isto não depende apenas da comunicação social. Cabe-nos a todos fazer isto. Porque a única forma pela qual o mundo alguma vez mudou no passado foi quando as pessoas comuns decidiram que estava na hora de mudar. Não foram as pessoas mais influentes e famosas. Não foram as pessoas mais abastadas. A razão pela qual não temos escravatura atualmente, a razão pela qual as mulheres podem votar, a razão pela qual a Lei dos Direitos Civis foi aprovada, foi porque as pessoas comuns decidiram que o mundo tinha de mudar. Cada um de nós tem de ter uma participação ativa. Obviamente que, se pensarmos que não existem riscos, porque é que faríamos qualquer coisa?

Katharine Wilkinson:
A verdade [é] que foi a queima de combustíveis fósseis que nos colocou nesta trapalhada, e há pessoas no poder que estão a tentar garantir que continuamos a queimar combustíveis fósseis durante o maior tempo possível. Creio que este tipo de responsabilidade é importante, porque senão as pessoas vão dizer que as alterações climáticas são más e que é algo que está a acontecer. Mas isso não é verdade, isto é algo que está a ser feito por nós.

Há muitos dias em que não nos sentimos genuinamente otimistas. Há dias em que não nos sentimos genuinamente esperançosos. Mas podemos ter coragem para continuar a colocar um pé à frente do outro e tentar fazer parte da solução. Acho que a maneira de permanecermos corajosos é estarmos unidos. Porque temos muito trabalho para fazer e precisamos de muitas mais pessoas para ajudar a fazer esse trabalho.

Robert Kunzig:
Qual foi para vocês a maior inspiração este ano?

Alejandra Borunda:
Para mim foi a reportagem que fiz sobre os locais sombreados em Los Angeles – onde estão as zonas sombreadas e quem tem acesso às mesmas. Existem algumas comunidades que têm toneladas de árvores e espaços muito bonitos, mas também existem comunidades que têm muito poucos locais com sombra. Uma das coisas mais notáveis que fiz foi passar imenso tempo com as pessoas que estão a tentar resolver este problema. Há jovens em comunidades que estão a plantar árvores e que dizem que estão a fazer algo num lugar que é importante para eles. Estão a fazer algo para as pessoas de quem gostam. Estão a fazer algo para a avó que que tem de caminhar até ao autocarro debaixo de um sol escaldante.

Katharine Hayhoe:
No ano passado, durante a pandemia, houve uma feira virtual de ciências. Uma turma do sexto ano da cidade onde vivo em Lubbock, no Texas – que é a segunda cidade mais conservadora dos EUA – venceu na sua categoria, numa feira nacional de ciências, com um projeto que analisava como podemos armazenar carbono no solo. A turma autodenomina-se Carbon Keepers e desenvolveu um programa de divulgação para falar com os agricultores locais sobre a agricultura de plantio direto e práticas agrícolas regenerativas. Se um aluno do sexto ano de Lubbock, no Texas, consegue fazer a diferença nas soluções climáticas, consegue aumentar a consciencialização, quer seja a colocar na mente das pessoas o conceito de que os agricultores podem ser heróis quando se trata de soluções climáticas – se estes alunos conseguem fazer isso, porque é que não o fazemos todos?

Mas depois olho para as coisas numa escala macro. Em 2020, durante a pandemia de COVID-19, 90% das novas energias instaladas em todo o mundo eram energias limpas. É aqui que percebemos que a ação climática não é um pedregulho gigante no sopé de uma colina incrivelmente íngreme com poucas pessoas a empurrar. Este pedregulho já está no topo da colina. Este pedregulho já tem milhões de mãos sobre si, já está a ser empurrado na direção certa. Precisamos apenas de mais mãos.
 

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza. Foi publicada originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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