Uma bizarra floresta de mangais longe da costa oferece pistas sobre a futura subida do nível do mar

Esta floresta com 100.000 anos mostra que o nível do mar já esteve muito mais elevado, um alerta sobre quanto pode subir com as alterações climáticas.

Publicado 8/10/2021, 12:22
Lagoa El Cacahuate

Esta lagoa, chamada El Cacahuate, faz fronteira com o rio San Pedro Mártir, no estado de Tabasco, no México. Os mangais em torno desta lagoa estão a 160 quilómetros do seu habitat costeiro habitual.

Fotografia de Octavio Aburto

A equipa de investigação estava a mais de 160 quilómetros da costa no interior, ao longo do rio San Pedro Mártir, perto da fronteira entre o México e a Guatemala, quando encontrou algo de inesperado: uma floresta de mangais ao longo das margens de uma enorme lagoa junto ao rio.

Não era suposto estas árvores estarem aqui. Os mangais geralmente estão em estreitas zonas costeiras onde prosperam sob os violentos efeitos da água salgada e ondas de tempestade.

Por alguma razão, as árvores estão neste local, dezenas de metros acima do atual nível do mar e acima de um conjunto de quedas de água. Após uma análise minuciosa, a equipa descobriu algo ainda mais surpreendente: estes mangais são uma relíquia viva de um mundo antigo. Os seus antepassados chegaram a este local há cerca de 100.000 anos, quando o planeta era tão quente quanto é hoje, mas o nível do mar estava muitos metros mais elevado. À medida que os mares foram recuando, esta população conseguiu sobreviver.

“Identificámos a imagem de um mundo perdido”, diz Octavio Aburto-Oropeza, investigador do Instituto de Oceanografia Scripps e autor principal do novo estudo, que foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Esta antiga costa marítima, longe da costa atual, pode ajudar os investigadores de todo o mundo a compreender exatamente o quão elevado esteve o nível do mar durante o último período quente, um tópico muito debatido e de extrema importância para quem tenta perceber até que ponto os oceanos da atualidade podem subir conforme o planeta aquece.

‘Uma relíquia viva de um mundo antigo’

Embora os mangais consigam sobreviver fora da sua estreita faixa costeira habitual, não conseguem competir bem com outras plantas, diz Véronique Helfer, especialista em mangais do Centro Leibniz de Pesquisa Marinha Tropical. “Normalmente, os mangais estão limitados à zona entremarés.”

Um mangal perto de quedas de água, parte de uma floresta de mangais que vivem em torno de uma lagoa. Esta floresta é descendente de antigos mangais que viviam na região quando o nível do mar estava vários metros mais elevado e esta área era uma praia – há cerca de 100.000 anos.

Fotografia de Octavio Aburto

Os mangais recém-descobertos conseguiram sobreviver a quilómetros de distância de qualquer costa graças aos solos circundantes que coam enormes quantidades de cálcio nas águas da lagoa e do rio, criando um ambiente semelhante o suficiente com a água do mar para as árvores conseguirem persistir.

Mas estes mangais não estão sozinhos. Existem também orquídeas elegantes, plantas delicadas, uvas-do-mar – plantas que atualmente coexistem com os mangais. Há conchas de ostras da antiguidade alojadas nos sedimentos por baixo das raízes lenhosas dos mangais e antigas dunas de areia com seixos de praia em torno da lagoa.

Para Octavio Aburto-Oropeza e os seus colegas, a grande questão passava por saber como e quando é que os mangais chegaram a este local. Os mangais geralmente não se propagam para muito longe ou depressa; normalmente ficam no mesmo local. As sementes – que brotam ainda na árvore – caem nas águas das marés e costumam flutuar uma curta distância até fincarem raízes nas proximidades, diz Neil Saintilan, especialista em mangais da Universidade Macquarie da Austrália.

A água não conseguiria transportar mangais jovens rio acima e subir quedas de água elevadas, pelo que os antepassados destas árvores devem ter chegado aqui quando este lugar era uma zona costeira, especularam os investigadores.

Para testar esta teoria, a equipa comparou a composição genética dos mangais com a de outros que ficam na distante costa de Yucatan. “A história de qualquer organismo do nosso planeta está escrita no seu ADN”, diz Felipe Zapata, biólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que fez as análises genéticas.

Se os mangais recém-descobertos cresceram durante o estágio quente anterior e ficaram encalhados quando o nível do mar desceu, então deviam ser geneticamente distintos das árvores modernas – e a análise do genoma comprovou isso claramente.

Mas a equipa foi ainda mais longe. As células cometem erros insignificantes quando copiam material genético, e estas pequenas alterações acumulam-se a um ritmo surpreendentemente regular, como um relógio molecular que assinala o tempo genético. Este relógio sugere que os mangais da lagoa ficaram isolados dos seus parentes mais próximos há cerca de 100.000 anos, tornando-os “uma relíquia viva de um mundo antigo”, diz Octavio.

Esta datação alinha-se com um período no passado da Terra em que os níveis do mar eram muito mais elevados do que são atualmente. Mas saber exatamente qual era essa elevação é uma questão que permanece em aberto.

Níveis antigos do mar

Uma tartaruga-pintada encontra refúgio nas raízes submersas da floresta de mangais.

Fotografia de Octavio Aburto

Ao longo da sua história, a Terra passou por enormes mudanças climáticas que foram impulsionadas por alterações na sua órbita instável. Por vezes, o planeta inclinava-se mais para o sol e absorvia o calor de forma mais eficaz. Em outras ocasiões, a sua órbita estendia-se ao longo de um eixo, ficando mais longe do calor do sol. As temperaturas globais acabaram assim por aumentar e diminuir.

Estas mudanças de temperatura tiveram efeitos dramáticos no nível do mar. Durante as grandes eras glaciais, como a que atingiu o planeta há cerca de 20.000 anos, gigantescas camadas de gelo cobriam a América do Norte até aos Grandes Lagos e Long Island. O gelo da Antártida espalhava-se para além dos seus limites atuais. Vastas quantidades de água estavam retidas no gelo, fazendo com que o nível do mar descesse. Os oceanos mais frios também eram mais pequenos, com zonas costeiras que se estendiam ao longo de quilómetros para além das suas localizações atuais. Por outro lado, durante as fases quentes, o gelo derretia e a água do oceano expandia, levando à subida do nível do mar.

A fase quente mais recente da Terra atingiu o pico há cerca de 120.000 anos, quando as temperaturas globais eram de 0,5 até 1,5 graus Celsius mais elevadas do que o verificado antes da Revolução Industrial. Estas temperaturas enquadram-se perto de 1 grau Celsius acima da era pré-industrial que o planeta aqueceu até agora. A maioria dos países que assinaram o Acordo de Paris concordaram em limitar o aquecimento total a uma temperatura inferior a 2 graus e, idealmente, inferior a 1,5 graus.

“O mundo não era muito diferente em termos de estado climático”, diz Alex Simms, geólogo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara que estudou a história do nível do mar no Golfo do México. “Portanto, será que isto significa que podemos contar com um nível do mar cinco metros mais elevado, ou até mais, nos próximos mil anos ou mais?”

Há diferenças que são muito importantes. Basta um metro de elevação para inundar enormes extensões de costa com grandes cidades, centros económicos e recursos culturais. Há cerca de 770 milhões de pessoas que vivem em altitudes inferiores a cinco metros acima do atual nível do mar. Uma subida de nove ou dez metros seria catastrófica. Portanto, quaisquer dados que nos ajudem a identificar o que aconteceu no passado podem ajudar os investigadores a fazer previsões mais apuradas sobre os riscos futuros.

Até onde chegava o nível do mar?

É complicado determinar onde é que estavam os níveis do mar há mais de 100.000 anos, quando os antepassados desta floresta de mangais assentaram raízes. Os investigadores costumam procurar evidências de litorais antigos, como corais ou dunas de areia. Depois, medem a distância entre esses litorais e os da atualidade para determinar a diferença nos níveis do mar, mas há uma miríade de questões que complicam esta medição, como mudanças nas marés e na geologia local. A origem do degelo – Gronelândia ou Antártida, por exemplo – também pode afetar os registos do nível do mar em locais distantes.

Os mangais da lagoa foram encontrados a mais de nove metros acima do atual nível do mar. A equipa também encontrou outras evidências geológicas – uma família que estava a cavar um poço nas proximidades encontrou uma camada espessa de conchas e areia, algo que os investigadores confirmaram ser parte de uma antiga praia a cerca de 10 metros acima do mar nível.

As águas calmas e ricas em cálcio do rio San Pedro Mártir permitem a estes mangais sobreviver sem água salgada.

Fotografia de Octavio Aburto

Estes valores estão no ponto mais alto da subida estimada do nível do mar que muitos cientistas acreditam ter sido possível durante o Último Período Interglacial. Mas é provável que a elevação que a equipa encontrou não represente nove metros completos da subida anterior do nível do mar, explica Nicole Khan, especialista da Universidade de Hong Kong. Estes valores podem ser artificialmente elevados devido a mudanças geológicas profundas no manto da Terra.

Esta região de Yucatan é provavelmente afetada por um processo chamado ajuste isostático glacial. Quando os enormes mantos de gelo se formam, como o que cobriu a América do Norte durante o último período glacial, são tão pesados que fazem pressão na crosta por baixo de si, como um corpo a afundar-se num colchão. A crosta, por sua vez, empurra o manto para baixo. Em resposta, o manto projeta-se para fora da área que está a ser esmagada, criando um caroço ou uma crista que é mais elevada do que o normal.

Este local em Yucatan está provavelmente na faixa da crista daquele enorme manto de gelo, o que significa que a região está provavelmente mais alta do que costumava ser, porque foi elevada pelo manto de gelo agora desaparecido. Um estudo feito recentemente nas Caraíbas sugere que este efeito consegue atingir alguns metros de altitude. Se estiver a acontecer o mesmo neste local recém-descoberto, a praia de nove ou dez metros de altura que os investigadores encontraram pode na realidade representar um nível do mar mais baixo.

Nicole Khan diz que também há outras questões à espera de resposta em relação à história do nível do mar. Mas a parte mais importante é a de que esta investigação vem juntar-se aos inúmeros dados que mostram a possibilidade de grandes mudanças no nível do mar em condições não muito diferentes das atuais.

“Em relação ao nível do mar, este e outros trabalhos deixam bem patente que os níveis já estiveram bastante mais elevados do que estão hoje, mesmo sem afetarmos o clima, pelo que devemos estar realmente preparados para níveis do mar muito mais elevados”, diz Alex Simms.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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