As borboletas da Europa estão a desaparecer à medida que as pequenas quintas desaparecem

As quintas industriais e as quintas abandonadas são ambas más para as borboletas. Em Espanha, os investigadores estão a tentar combater esta tendência, uma “micro-reserva” de cada vez.

Por Bridget Huber
Publicado 22/11/2021, 11:55
Prado de flores silvestres, Pirinéus

Nos Pirenéus, a norte de Barcelona, está a surgir um prado de flores silvestres que atrai borboletas para campos agrícolas abandonados. Este prado foi criado por uma organização sem fins lucrativos chamada Paisatges Vius, que recolheu sementes de outros prados nas proximidades.

Fotografia de Paisatges Vius

CASTELLÓ D'EMPÚRIES, ESPANHA – Todas as semanas, durante os últimos 25 verões, o biólogo Constantí Stefanescu atravessou uma série de campos na Catalunha para contar borboletas. Num dia de sol em julho deste ano, perto de onde as montanhas dos Pirenéus se aventuram pelo mar Mediterrâneo, Constantí Stefanescu estava no prado que outrora era o mais rico de todos em borboletas. Nos primeiros anos, neste prado, o biólogo podia facilmente contar 50 ou 60 borboletas Plebejus argus, juntamente com muitos outros polinizadores, todos atraídos por uma série de tremoceiros, trevos e outras flores silvestres.

Este prado era muito hospitaleiro porque era mantido por um agricultor que fazia as coisas à moda antiga – arava o campo apenas uma ou duas vezes por ano e usava feno para alimentar os seus animais durante o inverno. Porém, alguns anos depois de Constantí Stefanescu ter começado a monitorizar as borboletas nesta região, o agricultor abandonou o campo. As amoreiras rapidamente sufocaram as flores silvestres, depois vieram os arbustos e, por fim, emergiu uma floresta. Algumas espécies de borboletas adaptadas à vida na floresta começaram a visitar este prado. Mas a enorme diversidade que Constantí Stefanescu outrora observou já tinha desaparecido.

“Se eu olhar para os registos de há 25 anos atrás, é um choque”, diz Constantí Stefanescu, que dirige o Programa de Monitorização de Borboletas Catalãs, que rastreia populações de borboletas em mais de 140 locais na região com a ajuda de dezenas de cidadãos cientistas.

Cerca de 90% das espécies de borboletas da Catalunha vivem em espaços abertos e prosperam nas pastagens ricas em flores, como acontece na maioria dos climas temperados. No entanto, por toda a toda a Europa, estas borboletas estão a sofrer um enorme declínio. De acordo com um dos índices mais abrangentes da União Europeia, a abundância de borboletas nas pastagens caiu 39% entre 1990 e 2017. A Catalunha é um exemplo extremo da perda de biodiversidade registada em todo o continente europeu. Nesta região, nos últimos 25 anos, as populações de espécies mais comuns diminuíram 71%.

As borboletas, tal como acontece com outros polinizadores, estão a ser pressionadas em duas frentes. Em alguns lugares, à medida que as quintas de gado de pequena escala dão lugar à agricultura industrial, os prados adequados para as borboletas estão a ser agregados a campos muito maiores de uma só cultura, como milho ou girassóis. Noutros locais, as pastagens e os campos estão a ser abandonados e a transformarem-se lentamente em floresta. Ambas as tendências ameaçam as borboletas.

Abrigado na sombra da floresta, com uma rede numa mão e uma prancheta na outra, Constantí Stefanescu diz que há poucas probabilidades de este local alguma vez regressar ao habitat primordial das borboletas que era há uma geração. E é provável que esta zona se deteriore ainda mais. “Este é o início da extinção local.”

Declínio por todo o continente

Os programas de monitorização de borboletas como o que Constantí Stefanescu coordena estão em vigor por toda a Europa, alguns remontam a décadas. Como todos estes programas usam uma metodologia semelhante, investigadores e cidadãos cientistas geraram um robusto conjunto de dados que fornece informações cruciais sobre o estado das borboletas. Estas informações servem cada vez mais para fazer estimativas sobre a saúde de outros polinizadores, como as abelhas, e para o ambiente em geral. Contudo, os dados apresentam sinais preocupantes.

Uma em cada cinco borboletas europeias está em perigo de extinção ou perto de atingir esse estatuto. Desde 1990, os Países Baixos perderam metade da sua população de borboletas. E as populações de insetos em geral estão a entrar em colapso, de acordo com um corpo cada vez mais crescente de investigações, sobretudo o estudo de Krefeld feito em 2017, que descobriu que a abundância de insetos nas reservas naturais alemãs caiu 75% num período de 27 anos.

Numa “micro-reserva” de borboletas, na Catalunha, uma enorme Phengaris arion extrai néctar de tomilho selvagem. Esta reserva é administrada pela organização Paisatges Vius em parceria com proprietário do terreno – e também preserva o habitat de outra borboleta, a Phengaris alcon.

Fotografia de Paisatges Vius

O número de aves do campo, que também partilham muitos dos mesmos habitats das borboletas e alimentam-se de lagartas, também diminuiu drasticamente. França, por exemplo, perdeu um terço destas espécies de aves nos últimos 30 anos.

O habitat que sustenta muitas espécies de insetos e pássaros também está com problemas. Mais de três quartos das pastagens na União Europeia (UE) estão em estado de conservação “desfavorável” – uma designação ampla que pode significar várias coisas, desde a necessidade de melhorias até à perda total. No Reino Unido e nos Países Baixos, por exemplo, restam menos de 5% das pastagens semi-naturais.

A agricultura é considerada a grande responsável pela perda de espécies em todo o mundo, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Mas quando se trata de proteger pastagens, borboletas, aves e outros insetos que vivem nestes ecossistemas, a agricultura pode ser uma força positiva ou negativa, dependendo da forma como é praticada.

A agricultura intensiva é obviamente nociva para a biodiversidade. São poucas as plantas e animais que conseguem sobreviver a práticas como a plantação de vastos campos com uma só cultura, utilização de pesticidas e aragens frequentes. A poluição por nitrogénio, que vem tanto dos fertilizantes como das quintas de gado, estimula o desenvolvimento de ervas daninhas que impedem o crescimento das plantas das quais as borboletas dependem.

Por outro lado, muito pouca intervenção humana também afeta estes ecossistemas de pastagens – como mostram os dados de Constantí Stefanescu – e, consequentemente, as populações de borboletas. “O aumento da floresta é uma das razões responsáveis por este colapso, mas a agricultura intensiva é outra.”

Quando Constantí Stefanescu termina a sua contagem de borboletas, conduz durante alguns minutos ao longo de uma estrada que serpenteia por campos de milho e girassóis – um terreno que já foi um campo de feno. Constantí Stefanescu para ao lado de um milheiral que chega até à beira da estrada. “Os limites da cultura desapareceram completamente.”

Uma das razões pelas quais as paisagens agrícolas tradicionais menos intensivas têm tanta biodiversidade deve-se ao facto de estarem plantadas em mosaicos: os campos, lotes de mata e pomares são delimitados por rochas, sebes e margens não cultivadas. Os diferentes usos humanos deixam espaço para as plantas e animais selvagens prosperarem porque encontram refúgio nestas zonas intersticiais. O resultado é uma espécie de selva domesticada.

Um denso tapete de fetos cresce numa terra que, até ser abandonada há 15 anos, era um prado habitado por enormes borboletas azuis e outras perto do maciço de Montseny, a norte de Barcelona. O organização Paistges Vius está a tentar restaurar este local.

Fotografia de Paisatges Vius

Mas a mecanização e os subsídios agrícolas encorajaram os agricultores a fundir as parcelas mais pequenas em campos maiores e uniformes, para concentrar mais animais em espaços ainda mais apertados. Apesar de a UE ter estabelecido metas específicas para proteger a biodiversidade, os programas têm fracassado na sua maioria. Para abordar o papel desempenhado pela agricultura na crise de biodiversidade, a UE adotou recentemente medidas como a “Estratégia da Quinta para o Prato” e a Estratégia de Biodiversidade. Contudo, aquilo que governa realmente a forma como os alimentos são produzidos na Europa é o programa de subsídios agrícolas, ou Política Agrícola Comum, que custou mais de 60 mil milhões de euros em 2019 e representa mais de um terço do orçamento da UE.

Em vez de incentivar os agricultores a abrir espaços para a vida selvagem, este programa continua a incentivar de forma abrangente a expansão das monoculturas, como o gigantesco milheiral onde Constantí Stefanescu parou o carro.

“Este é só um habitat”, diz Constantí Stefanescu, apontando para o mar de caules verdes de milho. “E é um habitat hostil.”

Os prados também armazenam carbono

Para além de serem focos de biodiversidade, as pastagens e savanas armazenam enormes quantidades de carbono – cerca de 660 mil milhões de toneladas globalmente. Na América do Norte, as pastagens podem armazenar quase tanto carbono no solo quanto as florestas tropicais armazenam biomassa. No entanto, são um dos ecossistemas menos protegidos do planeta, e são mantidos em grande parte por agricultores. A antiguidade dos habitats de pastagens é geralmente desvalorizada, mas muitos antecedem os humanos modernos. Estes ecossistemas foram moldados por glaciares, herbívoros gigantes já extintos e incêndios.

Irene Figueroa, da organização Paisatges Vius, recolhe sementes num prado em Pardines, na Catalunha. Para compensar o proprietário do terreno por arar os campos mais tarde, permitindo a recolha de sementes, Irene Figueroa forneceu-lhe doze fardos de feno de outro prado.

Fotografia de Paisatges Vius

Algumas das gramíneas de pradaria mais comuns podem viver centenas ou até milhares de anos. Mas, ao contrário das florestas antigas, a riqueza das pastagens antigas e o potencial de armazenamento de carbono estão escondidos no subsolo em vastos sistemas de raízes, diz Joseph Veldman, professor assistente de ecologia e biologia de conservação na Universidade Texas A&M.

Recentemente surgiu uma nova ameaça para as pastagens: as campanhas de plantação de árvores. Há dois anos, Joseph Veldman foi um dos muitos críticos de um artigo que considerava a plantação de árvores a forma mais eficaz para mitigar as alterações climáticas, artigo que também afirmava que era possível plantar um bilião de árvores na Terra. Este estudo era “impreciso e enganador”, de acordo com Joseph Veldman, e o esforço de plantação de árvores que implicaria teria “ameaçado seriamente” as pastagens e savanas.

Desde então, os autores do estudo corrigiram o trabalho e retiraram algumas das suas afirmações mais abrangentes. Mas a ideia de que plantar árvores nos pode salvar ainda persiste, diz Joseph Veldman, e é particularmente atraente para os líderes da indústria e legisladores que não querem reduzir a nossa dependência de combustíveis fósseis.

Enquanto isso, em lugares como Espanha, nos prados cobertos de vegetação onde Constantí Stefanescu conta borboletas, as terras agrícolas abandonadas estão a transformar-se em floresta. Após décadas de despovoamento rural, um quarto do país está agora coberto por floresta – três vezes mais do que no século XX. A cobertura florestal de Espanha, que inclui plantações, está a aumentar cerca de 1% por ano, sobretudo através de regeneração natural.

Para alguns conservacionistas, isto parece uma vitória: é uma oportunidade para ceder terras indesejadas à natureza. As espécies de aves da floresta e mamíferos maiores como lobos e íbex já estão a recuperar em Espanha.

Mas deixar simplesmente os terrenos agrícolas ao abandono não é a resposta, diz Deli Saavedra, chefe do departamento paisagístico da organização sem fins lucrativos Rewilding Europe. Esta organização, que muitas vezes restaura habitats introduzindo predadores de topo e grandes herbívoros como cavalos selvagens em paisagens degradadas – tem ganhado força por toda a Europa nos últimos anos. Em Portugal, a organização estabeleceu-se em 2019 e trabalha atualmente nas áreas do Riba-Côa e Beira Alta. Os animais mantêm as paisagens “funcionais”, diz Deli Saavedra, e como mantêm os campos abertos, reduzem o risco de incêndios.

O grupo de Deli Saavedra está nos estágios iniciais de um projeto que visa reintroduzir animais de pasto semisselvagens em mais de 80 mil hectares de pastagens abandonadas nas Terras Altas Ibéricas, na região centro-oeste de Espanha. “Há aqui uma peça em falta que são os herbívoros”, diz Deli Saavedra.

Proteção pop-up

No alto dos Pirenéus, perto da fronteira entre Espanha e França, outro esforço, muito mais fragmentado, está a tentar salvar uma das borboletas mais icónicas da Catalunha – a borboleta Phengaris rebeli, que tem enormes asas azuis e bege. Os biólogos Irene Figueroa e Guillem Mas percorrem uma íngreme estrada de terra batida num veículo de tração às quatro rodas ao qual chamam Tete – um termo catalão carinhoso para designar irmão. Quando chegam a um pasto remoto onde as flores silvestres crescem até à altura da nossa cintura, Irene Figueroa avista a planta hospedeira da borboleta Phengaris rebeli, a genciana cruzada.

Depois de estacionar o veículo perto das resistentes flores azuis, Irene Figueroa encontra ovos de borboleta – minúsculos pontos brancos do tamanho de cabeças de alfinete – colocados perto de um botão. As borboletas Phengaris rebeli estão em perigo de extinção na Europa, com um declínio populacional em grande parte da sua faixa de alcance. Parte do problema desta borboleta reside no facto de esta só prosperar num habitat muito estreito, que foi drasticamente reduzido, e depende de uma planta hospedeira única para se reproduzir. As borboletas Phengaris rebeli também têm uma relação parasitária com algumas espécies de formigas. Através de feromonas e do som, as borboletas enganam as formigas para estas abrigarem as suas lagartas nas colónias durante o inverno. “Existem poucos locais que preencham todos os critérios necessários”, diz Irene Figueroa.

Irene Figueroa e Guillem Mas especializam-se em algo que se pode chamar “proteção pop-up” da natureza. Em vez de recorrerem aos canais oficiais do governo para proteger as espécies, algo que pode demorar anos, os biólogos fazem a prospeção de plantas e animais ameaçados, incluindo habitats como prados floridos. Na sua organização de conservação e restauração sem fins lucrativos, a Paisatges Vius, ou “Paisagens Vivas”, os biólogos criam micro-reservas para proteger rapidamente espécies em risco nos fragmentos de terra onde ainda sobrevivem.

A Paisatges Vius negoceia diretamente com os proprietários dos terrenos a forma de gerir a paisagem. Na melhor das hipóteses, basta um simples acordo para continuarem a fazer o que quer que estivessem a fazer e contactar Irene Figueroa e Guillem Mas se planearem fazer alterações. Noutros casos, os biólogos pedem aos proprietários de terrenos para alterarem as suas práticas e indemnizam-nos por quaisquer custos que isso possa acarretar.

Neste prado, por exemplo, a organização pediu a um agricultor para adiar e reduzir a aragem. Isto vai permitir à borboleta Phengaris rebeli viver todo o seu ciclo de vida e permitir a Irene Figueroa e Guillem Mas recolher sementes de flores silvestres que depois serão usadas para restaurar pastagens degradadas nas proximidades, tentando assim expandir o habitat da borboleta. Para compensar o agricultor, a organização oferece-lhe feno comprado noutras quintas. E para cimentar a boa vontade com os agricultores locais, os biólogos arranjaram recentemente algumas das estradas que serpenteiam pelas pastagens.

Este trabalho não é rápido ou fácil, diz Guillem Mas. Os ambientalistas e agricultores costumam ter uma relação antagónica, e alguns dos agricultores com quem colaboram também acham que este esforço não vale a pena. A conservação é cada vez mais complexa, diz Guillem Mas. “Antigamente era só a perda de habitat, mas agora são diversas coisas: plantas invasoras, alterações climáticas, produtos químicos... mesmo se fizermos tudo corretamente, pode haver um fator como as alterações climáticas que simplesmente muda tudo.”

As formigas das quais a borboleta Phengaris rebeli depende também são sensíveis às mudanças de temperatura do solo, por exemplo.

“Trata-se de algo que não seremos realmente capazes de controlar no futuro”, diz Guillem Mas.

Naquele momento, parados numa encosta enquanto borboletas e abelhas se alimentavam de flores azuis e roxas, o trabalho destes biólogos parecia assustador: recolher sementes, replantar pradarias e cultivar alianças com agricultores relutantes enquanto oferecem fardos de feno. Mas encontrar um equilíbrio entre humanos e natureza no terreno talvez seja exatamente isso.

“Nestas paisagens antigas, usadas pelos humanos há séculos ou até mesmo milénios, o maior nível de diversidade só é alcançado quando existe colaboração”, diz Constantí Stefanescu.

Este artigo foi produzido em colaboração com a Food & Environment Reporting Network, uma organização noticiosa sem fins lucrativos.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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