COP26 termina com sinais contraditórios e frustração

As negociações climáticas tiveram um “progresso lento”, mas ficaram aquém do esperado, dizem os especialistas.

Publicado 16/11/2021, 12:01
Água de Tuvalu

Tuvalu, uma nação insular no Pacífico Sul com cerca de 11.000 habitantes, é “extremamente vulnerável” às alterações climáticas, de acordo com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. Em Tuvalu, a subida do nível do mar já está a provocar inundações, intrusão de água salgada e erosão costeira; e alguns cientistas estimam que esta nação pode ficar inundada e inabitável dentro de 50 a 100 anos.

Fotografia de Mario Tama, Getty Images

As expectativas para a cimeira do clima COP26 em Glasgow eram elevadas, assim como os níveis de cinismo e esperança.

Esta cimeira, um seguimento vital para o Acordo de Paris de 2015, decorreu num momento em que os impactos devastadores do aquecimento global são mais óbvios do que nunca: este ano, inundações, vagas de calor e incêndios intensificados pelo clima afetaram milhões de pessoas pelo mundo inteiro. Estes desastres enfatizaram a importância e a necessidade de ações imediatas para corrigir o problema subjacente, ajudando também as pessoas a adaptarem-se às alterações que já estão em jogo.

Ativistas, investigadores, defensores climáticos, mediadores – todos esperavam que a cimeira conseguisse acelerar ações para lidar com a crise climática. Mas, à medida que a reunião se aproximava da sua conclusão, os resultados eram decididamente contraditórios.

“Queremos reconhecer que estamos a progredir”, diz Sameera Savarala, especialista em políticas climáticas do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. “Mas não é suficiente, e nem sequer estamos a agir com a rapidez necessária.”

Todos os temas que emergiram das duas semanas de conferências refletem essa realidade. Conforme os mediadores ajustavam os textos finais – documentos cruciais que tinham de ser aceites por todas as 197 partes do Acordo de Paris – os detalhes podiam mudar. Mas o resultado final não iria mudar drasticamente.

Ainda conseguimos “manter os 1,5”?

A questão central passa por saber se existem sequer planos reais para cumprir as promessas feitas, que visam manter a subida da temperatura a um nível tolerável.

Nas semanas que antecederam a cimeira, o líder da conferência, Alok Sharma, do Reino Unido, sublinhou o seu objetivo principal: “manter os 1,5”. Alok Sharma queria que os líderes mundiais assumissem novos compromissos na redução de emissões, ações que evitariam que o planeta aquecesse para além dos 1,5 graus. Esta é a meta mais ambiciosa de dois limites de temperatura identificados no Acordo de Paris, limites que, se forem ultrapassados, podem aumentar dramaticamente a frequência e intensidade das vagas de calor, tempestades e outros riscos climáticos. Até agora, o mundo já aqueceu 1,1 graus.

Apesar de alguns progressos, o objetivo dos 1,5 graus está muito longe do nosso alcance.

A China continua a obter muito mais de metade da sua energia a partir do carvão, um combustível fóssil altamente poluente. Na cimeira climática COP26 em Glasgow, mais de 40 países, sem incluir os EUA e a China, prometeram começar a eliminar rapidamente o uso de carvão.

Fotografia de Wang Chun, Costfoto, Barcroft Media, Getty Images

Antes da cimeira, muitos países atualizaram as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas, ou NDC na sigla em inglês – planos que delineiam as suas metas para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Se forem atingidas, estas metas resultam num aquecimento global de cerca de 2,7 graus até ao final do século, muito para além da meta menos ambiciosa adotada em Paris, que se fixa nos 2 graus.

Durante a cimeira, os líderes mundiais anunciaram inúmeras iniciativas, promessas e planos para alcançar as emissões líquidas zero, algumas mais credíveis e importantes do que outras. A Índia, o terceiro maior emissor de gases com efeito de estufa do mundo, alega que vai atingir o zero líquido em 2070 – é muito tempo – mas apresentou um plano ambicioso para obter metade da sua energia a partir de fontes renováveis até 2030.

Mais de 100 países assinaram um compromisso para reduzir as emissões de metano – um poderoso gás com efeito de estufa – em 30% até 2030, algo que pode reduzir o aquecimento em 0,2 graus nas próximas décadas (embora algumas análises sugiram que esse impacto pode ser menor).

Mais de 130 países prometeram acabar com a desflorestação até 2030, preservando florestas que são redutos de biodiversidade e retêm muito carbono.

E um grupo de mais de 40 países – com a ausência notável dos Estados Unidos, China e Índia – prometeu eliminar gradualmente o carvão. Uma coligação de países afirmou que ia deixar de financiar o desenvolvimento de fábricas internacionais de carvão; e uma pequena aliança anunciou que ia começar a eliminar a produção de combustíveis fósseis. Também foram apresentadas outras promessas sobre veículos elétricos e muito mais.

Se todos os compromissos para atingir o líquido zero e as novas metas de longo prazo anunciadas se tornassem realidade, a subida da temperatura global poderia ser mantida nos 1,8 graus, de acordo com analistas independentes da organização Climate Action Tracker (CAT). Mas é um enorme “se”, diz Niklas Höhne, especialista em políticas climáticas do New Climate Institute e um dos analistas do relatório da CAT.

“Estas metas são credíveis? Não, ainda não”, diz Niklas Höhne. “Embora os países estejam a fornecer visões úteis, nenhuma nação tem políticas de curto prazo em vigor que a coloque no caminho certo para atingir essa meta de zero líquido.” De facto, segundo as políticas atuais, os países podem até emitir o dobro do que deviam até 2030.

Em teoria, os compromissos e promessas são quase todos bons, diz Kaveh Guilanpour, especialista em política climática e antigo mediador climático que agora trabalha no Center for Climate and Energy Solutions. “É mais importante medir a ambição pelas políticas que estão realmente em cima da mesa”, diz Kaveh Guilanpour.

Quando a análise da CAT incorpora apenas os NDC que têm planos reais para 2030, percebemos que o planeta continua a caminho de aquecer 2,4 graus até 2100.

“Temos de ser a voz da consciência, mostrar a realidade”, diz Maria José de Villafranca, analista de política climática do New Climate Institute que trabalhou na análise da CAT. “É importante não celebrar antes de tempo.”

Finanças e equidade

Alguns dos países que têm sentido os piores impactos das alterações climáticas, como é o caso de Tuvalu, que sofre inundações no Pacífico, ou Antígua e Barbuda, que foi devastada por um furacão nas Caraíbas, foram os que menos contribuíram para a poluição por carbono. Portanto, de acordo com estas nações, os grandes culpados precisam de assumir mais os custos para reparar o problema e ajudar os países menos desenvolvidos na sua adaptação.

Após a contenciosa cimeira climática de Copenhaga em 2009, os países em desenvolvimento conseguiram uma promessa por parte de nações mais ricas como os EUA, que são responsáveis por quase um quarto de todas as emissões históricas: os países mais ricos têm contribuído com 100 mil milhões de dólares anuais para ajudar as nações em desenvolvimento. Porém, esta soma está longe de ser suficiente, diz Harjeet Singh, especialista em clima global da Climate Action Network. Neste momento, a OCDE estima que anualmente são necessários biliões de dólares para financiar uma transição ecológica e adaptações adequadas para um mundo mais quente.

Mas a própria promessa preliminar de 100 mil milhões de dólares por ano não tem sido cumprida, aprofundando a desconfiança; em 2019, o ano mais recente para o qual existem registos sólidos, só foram entregues 80 mil milhões de dólares. O total de 100 mil milhões de dólares anuais só deve ser alcançado em 2023.

Em Glasgow, os representantes dos países em desenvolvimento fizeram muita pressão para garantir que recebem o dinheiro em falta – e para traçar um plano que aumente os valores a partir de 2025, ano em que terminam os atuais compromissos. Para além disso, estas nações também pediram que pelo menos 50% do dinheiro fosse especificamente destinado para a adaptação a inundações, vagas de calor e outras pressões climáticas inevitáveis. (Atualmente, apenas um quarto de todo o financiamento é usado nos esforços de adaptação.) Os países africanos sugeriram contribuições de mais de 1 bilião de dólares até 2030; a Índia pediu pelo menos 1 bilião só para si.

“Precisamos de trabalhar em prol de uma estrutura onde todo o financiamento para o desenvolvimento precisa de estar focado na resiliência climática”, diz Taylor Dimsdale, analista de política climática da organização europeia E3G. “Este é um começo importante. Contudo, precisamos mesmo de mudar todo o sistema para que qualquer investimento, quer seja público ou privado, ajuda humanitária ou financiamento de risco de desastre, tudo isso deve ser aplicado naquilo a que chamamos resistência climática.”

Durante a cimeira, os países prometeram 351 milhões de dólares para um fundo de adaptação, mais do dobro da quantia que os organizadores esperavam. E foi estabelecido um fundo para os países menos desenvolvidos a rondar os 270 milhões de dólares.

“Estes valores estão na casa dos milhões. Mas são necessários biliões ou triliões”, diz Helen Mountford, especialista em políticas climáticas do World Resources Institute. Outras negociações estão a ser encaminhadas para a cimeira que se vai realizar em 2022 no Egito.

Porém, ainda mais controverso, algumas coligações entre países altamente vulneráveis forçaram debates sobre “perdas e danos”. De acordo com estas nações, os impactos climáticos estão a deixar alguns lugares sem salvação, e essa perda deve ser compensada – uma espécie de indemnização climática. “A situação tornou-se desesperante”, diz Harjeet Singh. “[Os países desenvolvidos] arruinaram o planeta e agora precisam de pagar aos países em desenvolvimento para financiar a sua transição.”

Apesar de este tema ter ocupado um dia inteiro de negociações, os progressos foram poucos, diz Helen Mountford. “Os EUA e quase todos os outros países desenvolvidos não falam sobre isso.” Uma discussão mais abrangente provavelmente também será adiada para a COP do próximo ano.

Alguns países frustrados também procuram outras formas de obter justiça climática. Tuvalu e Antígua e Barbuda anunciaram na cimeira que planeiam pedir uma indemnização aos países mais ricos num tribunal internacional.

Forjar as regras

Esta cimeira também devia solidificar alguns aspetos cruciais do Acordo de Paris: regras sobre a forma como os países relatam o seu progresso, para poderem ser responsabilizados, e regras sobre como estabelecer um mercado global de carbono que, segundo os seus proponentes, pode canalizar mais dinheiro para as reduções nas emissões e condições de adaptação.

Mas os avanços nesta área também têm sido escassos. No que diz respeito ao mercado de carbono, tanto ativistas como mediadores de alguns países em desenvolvimento dizem que preferem a ausência de decisões à tomada de decisões erradas, deixando esta questão por resolver.

Também não estão estabelecidos prazos vitais. No Acordo de Paris, os países decidiram rever os seus NDC a cada cinco anos. À medida que as alterações climáticas se intensificam, alguns especialistas alertam que esse cronograma é demasiado longo e defendem verificações mais frequentes para cumprir metas mais ambiciosas; especificamente, esperam obter pelo menos algumas novas metas até ao final do próximo ano.

A disputa sobre as regras revela o padrão mais abrangente desta cimeira, diz Helen Mountford: o “progresso lento” é sustentado por uma angústia real. Os riscos para muitos países são incrivelmente elevados; e para outros, toda a sua existência depende do sucesso desta e de outras COP. Estas cimeiras são a melhor oportunidade que esses países têm para confrontar os representantes das nações mais desenvolvidas, que são responsáveis pela maior parte dos perigos que o planeta enfrenta.

“As coisas estão todas muito interligadas”, diz Sameera Savarala.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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