5 Vitórias ambientais de 2021 que oferecem esperança

Num ano de más notícias aparentemente intermináveis, existem muitas razões para estarmos esperançosos em relação ao ambiente.

Um Toyota Land Cruiser transformado em veículo elétrico faz um test drive na Estação de Energia Eólica de Ngong Hills, no Quénia. A utilização de veículos elétricos está a aumentar à medida que os países começam a levar a sério a redução das emissões dos combustíveis fósseis.

Fotografia por Nichole Sobecki, National Geographic
Por Kieran Mulvaney
Publicado 10/12/2021, 11:44

É fácil ficarmos desanimados com o estado global do ambiente em 2021. Mais de um milhão de espécies estão em perigo de extinção, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera continuam a aumentar e o planeta foi atormentado por uma série de eventos climáticos extremos impulsionados pelas alterações climáticas. Enquanto isso, o mundo continua a enfrentar uma pandemia mortal que parece não ter fim.

Contudo, à medida que nos aproximamos do final do ano, há motivos para nos sentirmos cautelosamente otimistas em relação às áreas onde o meio ambiente conseguiu vitórias em 2021.

É importante salientar que estes desenvolvimentos promissores envolvem compromissos que podem vir a ser diluídos, falsos ou ficar simplesmente por cumprir. Ainda assim, há sinais de sucesso neste longo e difícil trajeto. Seguem-se cinco razões para ter esperança.

1. Reduzir os combustíveis fósseis

O carvão vendido nas ruas de Ulaanbaatar, na Mongólia, acaba por poluir o ar quando é queimado. Os países que participaram na Cimeira do Clima da ONU em Glasgow, em novembro, prometeram reduzir a sua produção de carvão.

Fotografia por Matthieu Paley, Nat Geo Image Collection

Adiada um ano devido à COVID-19, a COP26 de novembro – a Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, em Glasgow – acolheu o segundo maior emissor de combustíveis fósseis do mundo, os Estados Unidos, de regresso à mesa das negociações após quatro anos de inação. No final da cimeira, os EUA e a China fizeram uma surpreendente declaração conjunta de cooperação para cumprir as metas do Acordo de Paris.

Embora o nível de ambição apresentado em Glasgow tenha sido alvo de muitas críticas, sobretudo no que toca à proteção dos países em desenvolvimento dos impactos do clima e nos apoios às suas transições para sistemas de energia limpa, a meta de manter o aquecimento nos 1,5 graus é indiscutivelmente mais alcançável agora. Na cimeira, os países concordaram em “reduzir gradualmente” a sua utilização de carvão – algo que ficou aquém do projeto inicial para “eliminar” o carvão – e mais de cem nações concordaram em reduzir as suas emissões de metano em 30% até 2030.

Longe de Glasgow, a administração de Joe Biden cancelou o polémico oleoduto Keystone XL e suspendeu os licenciamentos para a perfuração de petróleo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico, embora também esteja a clarear milhões de hectares para a prospeção de petróleo e gás. O governo norte-americano estabeleceu uma meta para gerar 30 gigawatts de energia eólica ao largo da costa até 2030 e anunciou a intenção de reduzir os custos da energia solar em 60% na próxima década; estas duas declarações fazem parte de um plano para os EUA serem alimentados por uma rede limpa até 2035. Além disso, o presidente Joe Biden determinou em agosto que, até 2030, metade de todos os novos veículos vendidos nos EUA devem ser elétricos.

Globalmente, espera-se que a utilização de energia renovável aumente em 8% em comparação com 2021, o crescimento anual mais rápido desde a década de 1970. Nos EUA, um novo relatório descobriu que este valor quase que quadruplicou na última década.

Nos Países Baixos, um tribunal ordenou a Royal Dutch Shell a reduzir as suas emissões de carbono em 45% até 2030 em relação aos níveis de 2019, um resultado que um dos advogados descreveu como um “ponto de viragem na história”.

2. Progressos no plástico

Vários estados dos EUA aprovaram uma legislação em 2021 para reduzir a quantidade de plástico que acaba no ambiente; alguns estados enviam os seus resíduos plásticos para países como as Filipinas, onde foi tirada esta fotografia. Os EUA são o maior poluidor plástico do mundo.

Fotografia por Randy Olson, Nat Geo Image Collection

Nos EUA, nos últimos 12 meses, foram aprovadas várias leis para reduzir a poluição por plástico. No estado de Washington, o governador Jay Inslee assinou uma lei que proíbe os produtos de poliestireno, como caixas térmicas de espuma e embalagens de amendoins; exigindo aos clientes que solicitem os utensílios descartáveis, como palhinhas, tampas para copos e condimentos; e exige uma reciclagem mínima dos conteúdos pós-consumo, incluindo dos produtos de higiene pessoal e limpeza.

A Califórnia aprovou um projeto de lei que, entre outras coisas, proíbe os fabricantes de colocar o símbolo da reciclagem ou a palavra reciclável em itens que não são realmente recicláveis; e proíbe que as exportações de resíduos plásticos para outros países sejam contadas como “resíduos reciclados” – porque assim os governos locais podiam reivindicar o cumprimento das leis estaduais; exigem que os produtos rotulados como compostáveis se decomponham em condições reais; e proíbe o uso de químicos PFA extremamente duradouros, conhecidos por químicos eternos, nos produtos infantis.

Este tipo de ações pode ter repercussões a nível federal com a Lei de Libertação da Poluição por Plástico; uma proposta de dois legisladores dos EUA que proibiria alguns produtos de plástico descartável e suspenderia as licenças para as novas fábricas de plástico.

Em novembro, o Secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, anunciou que os EUA apoiariam um tratado global para combater a poluição por plástico; a administração de Donald Trump repudiava esta ideia. O apoio dos EUA é fundamental, dado que este país é o maior contribuidor mundial para a poluição por plástico, conforme revelado num relatório mandatado pelo Congresso que foi divulgado em dezembro. O tratado parece agora seguir em frente, e as Nações Unidas vão reunir em Nairobi em fevereiro para iniciar as negociações formais.

Em dezembro, as Academias Nacionais de Ciências pediram urgentemente aos EUA, que geram mais lixo plástico do que todos os estados da União Europeia juntos, para desenvolverem uma estratégia para reduzir o plástico, incluindo um limite nacional para a produção de plástico virgem.

3. Proteção das florestas

Alguns governos locais na Indonésia estão a retirar as licenças de exploração de óleo de palma às empresas que querem construir plantações na floresta.

Fotografia por Pascal Maitre, Nat Geo Image Collection

De longe as melhores notícias sobre conservação florestal vindas da Cimeira do Clima da ONU em Glasgow foram o compromisso de acabar com a desflorestação até 2030; incluindo a promessa de fornecer 12 mil milhões de dólares para “ajudar a libertar o potencial das florestas e a utilização sustentável da terra”. No entanto, este compromisso foi recebido com um ceticismo generalizado, até porque as taxas de desflorestação aumentaram após um acordo feito em 2014 com a mesma meta.

Ainda assim, 2021 tem sido um ano com várias vitórias no terreno. Em outubro, o presidente da República Democrática do Congo (RDC), Felix Tshisekedi, pediu uma auditoria sobre as suas vastas concessões florestais e a suspensão de todos os “contratos questionáveis” até a auditoria terminar. Algumas semanas depois, o mesmo governo desistiu do plano de suspender a moratória de 19 anos sobre a concessão de novas licenças de extração de madeira na Floresta da Bacia do Congo. “Não queremos mais contratos com parceiros que vieram para cortar as nossas florestas de forma selvagem; vamos acabar esses tipos de contratos”, disse Eve Bazaiba, Ministra do Ambiente do país. Os grupos ambientalistas permanecem cautelosos e a Greenpeace pede que a moratória da RDC se torne permanente.

O governo da província indonésia de Papua Ocidental revogou as licenças de 12 contratos de exploração de óleo de palma que abrangem mais de 265.000 hectares (uma área duas vezes maior que Los Angeles), três quintos dos quais permanecem florestados. Os grupos de direitos ambientais e indígenas estão a pedir ao governo para ir mais longe e reconhecer os direitos dos povos indígenas nestas áreas, para que possam fazer a gestão das florestas por conta própria. Três dos 12 detentores de contratos continuam a lutar contra a decisão do governo em tribunal.

E o supremo tribunal do Equador decidiu que os planos de mineração de cobre e ouro numa floresta protegida afetaria a sua biodiversidade e violaria os direitos da natureza, que estão consagrados na constituição equatoriana. Esta decisão significa que as concessões de mineração e licenças ambientais para a exploração de aquíferos na floresta devem ser canceladas.

4. Restauração de habitats

Nesta imagem vemos tetrazes-cauda-de-faisão no Wyoming. Este ano, um tribunal anulou uma decisão da administração de Donald Trump que afetava o habitat dos tetrazes.

Fotografia por Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

A administração de Joe Biden passou parte do seu primeiro ano a restaurar as proteções de habitat que tinham sido canceladas pelo seu antecessor. Talvez o mais proeminente tenha sido o restabelecimento da proteção completa aos monumentos de Bears Ears e Grand Staircase-Escalante no sul de Utah, bem como aos Northeast Canyons e ao Monumento Nacional de Seamounts em Nova Inglaterra.

O governo de Joe Biden já restaurou a proteção de mais de 1.3 milhões de hectares de floresta antiga no noroeste do Pacífico, um habitat crítico para a coruja-pintada do norte. E também reverteu um esforço que visava enfraquecer o Tratado de Aves Migratórias que o gabinete de Donald Trump colocou em ação nos seus últimos dias na Casa Branca. Enquanto isso, um tribunal anulou uma decisão do governo de Trump que retirava a proteção a 4 milhões de hectares, sobretudo no Nevada e em Idaho, e permitia a mineração em habitats críticos para os tetrazes.

Em maio, a administração de Joe Biden revelou a sua iniciativa “America the Beautiful” que estabelece a primeira meta nacional de conservação: conservar 30% das terras e águas dos EUA até 2030. Isto reflete o objetivo das Nações Unidas de proteção da mesma percentagem de terras e do oceano, objetivo com o qual mais de 100 nações se comprometeram em setembro.

Em novembro, a Colômbia comprometeu-se com a proteção de 30% das suas terras até 2022. O Panamá deu passos importantes rumo ao mesmo objetivo ao triplicar o tamanho da sua Área Marinha Protegida na Cordilheira de Coiba. E no mesmo mês, também Portugal estabeleceu a maior reserva marinha completamente protegida da Europa.

5. Proteção da vida selvagem

As populações de pandas-gigantes recuperaram o suficiente para a China remover estes animais da lista de espécies em perigo de extinção.

Fotografia por Ami Vitale, Nat Geo Image Collection

As populações de algumas das espécies mais icónicas do mundo estão a apresentar algumas melhorias devido às medidas de proteção. Em julho, a China anunciou que já não considera o panda-gigante – o símbolo da World Wildlife Fund – em perigo de extinção, elevando o seu estatuto para vulnerável. Atualmente, restam pouco mais de 1.800 pandas na natureza, uma melhoria em relação aos 1.100 que se acreditava existirem até 2000. A China também anunciou a criação do Parque Nacional do Panda-gigante, parte de um sistema de novos parques que irão cobrir uma área quase do tamanho do Reino Unido. Estes parques estão projetados para proteger espécies nativas, como o tigre-siberiano, o leopardo-de-amur e o gibão de crista negra de Hainan.

As populações de baleias-jubarte, cujas melodias ajudaram a angariar apoios para a campanha “Salvem as Baleias” que deu início ao movimento ambientalista moderno, estão a aumentar em muitas partes da sua área de distribuição, incluindo ao largo da Austrália (onde o governo está a considerar removê-las lista de espécies ameaçadas do país) e nas suas áreas de alimentação no Atlântico Sul. Ainda assim, o número de crias na população do Atlântico Noroeste diminuiu nos últimos 15 anos.

De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, várias espécies de atum já não estão em vias de extinção. Duas espécies de atum-rabilho, um atum-albacora e um atum-voador, já não estão classificadas como estando em perigo crítico ou saíram completamente da lista internacional de espécies ameaçadas de extinção, resultado de décadas de esforços para limitar os impactos da pesca comercial.

Cerca de três mil anos depois de a espécie ter sido eliminada de todos os lugares, exceto na ilha homónima, sete diabos da Tasmânia nasceram numa reserva na Austrália continental. Os cientistas esperam que, se um dia estes marsupiais se estabelecerem novamente no continente, possam desempenhar um papel vital no controlo de espécies invasoras.

Por fim, no Reino Unido, um relatório do governo concluiu que as lagostas, os caranguejos e os polvos são seres sencientes que sentem dor e, portanto, devem receber proteção ao abrigo do Projeto de Lei de Bem-estar Animal do país.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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