O que deve saber antes de procurar cogumelos

Entre as mais de 3000 espécies de cogumelos selvagens registadas em Portugal, descubra porque são tão importantes para as nossas florestas.

Por Catarina Fernandes
Publicado 23/12/2021, 16:38
A maioria das espécies de cogumelos existentes em Portugal é mais visível no outono.

A maioria das espécies de cogumelos existentes em Portugal é mais visível no outono.

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Aproveitando um recurso que nasce e cresce espontaneamente nas nossas florestas, a colheita de cogumelos silvestres sempre foi uma atividade praticada pelas populações. Os cogumelos desempenham um papel vital na interligação e influência na vida das plantas e dos animais.

O reino dos cogumelos compreende cerca de 80.000 espécies conhecidas e estima-se que existam 1.500.000 de espécies desconhecidas.

Os fungos e a sua função no ecossistema

Os cogumelos pertencem ao reino Fungi, dos fungos, e têm um papel fundamental no ciclo biológico da Terra, contribuindo para a manutenção da fertilidade do solo. Sem a sua ajuda, o solo ficaria coberto de inúmeros cadáveres animais e vegetais, tornando a vida inviável.

Os fungos têm uma enorme capacidade de adaptação, habitando águas doces e salgadas, terra, madeira, estrume, resíduos queimados e muito mais. São também fontes valiosas de compostos químicos, como antibióticos e têm um grande potencial no controlo biológico de muitas pragas e doenças graves.

Os fungos superiores ou cogumelos, como também são conhecidos, surpreendem pelas suas cores vivas e pelas suas formas bizarras. Eles reproduzem-se muito rápido e é daí que surge a expressão “crescer como cogumelos”.

Os cogumelos são constituídos por:
- Chapéu ou Pileo
– é a parte mais importante do cogumelo e onde encontramos himénio, onde se encontram os esporos reprodutores da espécie.
- Parte inferior do chapéu – tem lâminas, tubos ou poros, agulhas ou dentes e pregas.
- Anel – quando existe, é um resto de um véu que cobre a parte inferior do chapéu do cogumelo no estado jovem. Ao abrir o chapéu, o véu rompe e forma o anel.
- Pé ou estipe – O pé do cogumelo pode ter várias formas e o que mais desperta interesse é a forma, a cor, a consistência, a superfície, os restos de véu e a base do pé.
- Volva – Quando existe, é o resto de um véu que cobre a parte inferior do chapéu do cogumelo no estado jovem. Ao abrir o chapéu, rompe o véu e pode formar um anel, deixando uma volva que envolve a base do pé.

A perspetiva ambiental 

Os cogumelos são fundamentais às florestas, essencialmente úteis às raízes das árvores, principalmente em solos podres. Diferentes árvores podem estar ligadas entre si pelo mesmo fungo, trocando alimentos como se tratasse de uma “internet florestal”. Desta forma, as árvores conseguem receber mais nutrientes e ficar mais resistentes a doenças. Para que uma floresta cresça vigorosamente, ela precisa, necessariamente, destes fungos.

Quando falamos de cogumelos silvestres, devemos observar que apresentam preferências quanto a determinado tipo de solo ou ao tipo de floresta onde frutificam, embora outros surjam indistintamente sob coberto de folhosas ou resinosas. Os do primeiro tipo são considerados específicos e os outros cosmopolitas.

O solo das nossas matas é excecionalmente rico em cogumelos. Cada uma das suas espécies tem as suas necessidades ambientais próprias e muitos desenvolvem-se em lugares soalheiros e sombrios e, outras espécies preferem lugares especiais, como turfeiras ou areais. As florestas ardidas também têm os seus espécimes característicos.

Alguns cogumelos silvestres desenvolvem-se sobre as folhas do pinheiro e pinhas caídas, entre os arbustos, matos e sob as árvores, sobretudo se estas estão mortas ou doentes. Da mesma maneira, enquanto algumas espécies só aparecem nas planícies, outras só é possível encontrá-las nas montanhas e algumas vivem em áreas urbanizadas, nos parques e jardins.

Estará o futuro dos cogumelos silvestres hipotecado?

Como vimos, é possível apanhar cogumelos silvestres em florestas, matas ou bosques, e alguns deles são até comestíveis, no entanto, para quem não tem experiência, o melhor é não arriscar a fazer a colheita para alimento sem ser na companhia de um técnico certificado. Isto não invalida que não se possa observá-los nos troncos das árvores ou escondidos entre a vegetação.

Tradicionalmente, a coleta de cogumelos silvestres estava restrita ao autoconsumo das populações rurais. No entanto, hoje em dia é uma prática de maior interesse, um lucro fácil e a coleta é feita sem qualquer regra. Esta falta de legislação, desproteção e ausência da preservação das espécies de cogumelos silvestres pode comprometer ou hipotecar a reprodução futura de algumas espécies.

Um estudo realizado na região de Quiaios, uma área com grande potencial micológico, tanto em termos de diversidade como em termos de quantidades produzidas, conclui que a espécie está sob ameaça, tanto pela excessiva pressão exercida pelo grande número de coletores, como pela ausência de gestão. Chega-se, portanto, à conclusão de que a colheita de cogumelos silvestres não deve ser vulgarizada, mas sim convertida numa atividade digna e profissionalizada.

O mesmo estudo resultou num Guia de Campo, inserido no projeto AGRIS 8 – “A Multifuncionalidade de Floresta através da Exploração dos Recursos Florestais, Silvopastoricia, Lazer e Turismo”, executado pela Federação dos Produtores Florestais de Portugal, com a finalidade de fazer um inventário dos recursos micológicos existentes na região de Quiaios.

O que saber antes da colheita

Antes da colheita de cogumelos silvestres, importa diferenciar quais as espécies seguras. Posto isto, devem ser apanhadas apenas as espécies que se conhecem bem, devem ser consumidas ou conservadas de imediato e nunca misturar espécies desconhecidas com exemplares para a alimentação, a fim de evitar contaminação.

Sempre que possível, deve evitar-se retirar o cogumelo completo do solo, mas sim cortá-lo pelo pé, de modo a evitar a perturbação da rede existente no solo. A colheita de exemplares imaturos também deve ser evitada, assim como recolher todos os exemplares da mesma espécie num determinado local. O transporte dos cogumelos silvestres deve ser feito, preferencialmente, num cesto de verga, para permitir que os esporos se vão libertando para o solo, à medida que caminhamos.

Cogumelos silvestres comestíveis vs. venenosos

As espécies de cogumelos silvestres mais vulgarmente consumidas no Minho, Douro, Beiras, Trás-os-Montes e Alentejo são a Amanita caesarea, Lepiota procera, Cantharellus cibarius, Craterellus cornucopioides, Tricholoma equestre, Boletus edulis, Boletus granulatus, Fistulina hepática, Agaricus campestris, Lactarius deliciosus, entre outras.

Entre as espécies venenosas, a Amanita muscaria é particularmente abundante e dispersa por quase todas as nossas florestas, mas é facilmente identificada pela cor vermelha berrante do chapéu e pelas escamas brancas que o salpicam. Apesar de venenosa, não é mortal.

Já a Amanita phalloides, embora sendo de frutificação escassa, é a espécie mais perigosa e responsável por 95% dos casos mortais de envenenamento por ingestão de cogumelos. A Amanita pantherina, embora não mortal, deve também ser excluída das colheitas.

Algumas curiosidades sobre os cogumelos silvestres

- Foi na Floresta Nacional de Malheur, no estado de Oregon (EUA), que foi descoberto, em 1996, um fungo subterrâneo que foi lentamente abrindo caminho entre as raízes das árvores durante séculos, acabando por se transformar no maior organismo vivo já encontrado no planeta. Trata-se de Armillaria ostoyae, conhecido como o cogumelo do mel e hoje cobre uma área de 880 hectares, o equivalente a 1.220 campos de futebol.

- Os cogumelos silvestres eram associados a receitas afrodisíacas em que eram fervidos com água de nascente e um sapo.

- Antigamente, jovens rapazes da Lapónia traziam à cintura Trametes suaveolens, uma espécie de cogumelos silvestres, com o intuito de impressionar uma determinada rapariga, graças ao odor a anis desta espécie.

- Durante séculos as pessoas acreditavam que a súbita aparição de cogumelos silvestres em torno das árvores devia-se a forças maléficas, ideia reforçada com os relâmpagos, meteoritos, estrelas cadentes e bruxas. No entanto, tal acontecimento era apenas a expansão do micélio do cogumelo para todas as direções em busca de nutrientes.

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