Pequenas alterações na nossa dieta podem beneficiar o planeta

O melhor de tudo é que estas escolhas também nos podem ajudar a ser mais saudáveis (e não se trata apenas de comer menos carne vermelha).

Por Alejandra Borunda
Publicado 29/12/2021, 16:02
Alterações na alimentação em benefício do planeta

Os vegetais não são apenas bons para a nossa saúde, também são bons para o ambiente.

Fotografia por Andrea Frazzetta, Nat Geo Image Collection

Os alimentos que comemos todos os dias mantêm-nos vivos, mas também podem representar grandes riscos para a saúde e para o ambiente – doenças cardíacas, emissões de carbono, degradação do solo e muito mais. Um estudo publicado recentemente na revista Nature Food descobriu que pequenas mudanças nas nossas escolhas alimentares podem ter benefícios enormes para a nossa saúde e para o planeta.

Como existem vários alimentos que apresentam riscos elevados para a saúde, incluindo carnes processadas ou carnes vermelhas, os custos ambientais também são elevados, e trocar apenas alguns deles – cerca de 10% da nossa ingestão calórica diária – pode reduzir a pegada ambiental derivada da alimentação de uma pessoa em mais de 30%, de acordo com o estudo.

“A parte realmente boa é a de que para muitos itens alimentares, mas não todos, os alimentos mais saudáveis e nutritivos tendem a ser os mais sustentáveis do ponto de vista ambiental, acabando por resultar numa situação vantajosa para ambas as partes”, diz Michael Clark, investigador de sistemas alimentares da Universidade de Oxford, que não participou no estudo.

A produção de alimentos, incluindo o cultivo, embalamento, transporte, confeção e, muitas vezes, desperdício, representa cerca de 20 a 30 por cento de todas as emissões anuais de gases de efeito estufa a nível mundial. Por exemplo, nos EUA, a pegada de gases de efeito estufa da alimentação de uma família representa quase tanto como a da eletricidade. A produção de alimentos é responsável pelos grandes problemas na quantidade e qualidade da água, necessitando muitas vezes de herbicidas e pesticidas que colocam em risco a biodiversidade e geram perdas florestais e de áreas silvestres quando os terrenos são convertidos para a agricultura.

“O impacto dos alimentos é substancial”, diz Olivier Jolliet, cientista ambiental da Universidade do Michigan e um dos autores do estudo. “É como dizem os astronautas: Houston, temos um problema... e precisamos mesmo de levar isto a sério. Até agora, os EUA ainda não o levaram a sério.”

“Não cabe apenas a uma pessoa, nem é responsabilidade de uma só pessoa, resolver as crises de saúde e ambientais nacionais ou globais”, sublinha Olivier Jolliet. Mas os métodos desenvolvidos por Olivier Jolliet e pela sua equipa podem ajudar pessoas, instituições e até mesmo governos a descobrir para onde devem direcionar as suas energias para obter um impacto mais acelerado.

Observar duas questões ao mesmo tempo

Para descobrir como podemos reduzir os impactos negativos da produção e consumo de alimentos no planeta e na nossa saúde, os investigadores começaram por avaliar os danos relacionados com os alimentos. Contudo, coisas simples, como descobrir de onde veio uma maçã, sem falar sobre qual é o seu impacto no planeta, tornou-se numa questão cada vez mais complexa à medida que o sistema alimentar global evolui. Por exemplo, os investigadores do Instituto Ambiental de Estocolmo demoraram anos a desvendar as cadeias de abastecimento de culturas como o cacau e o café, mesmo que venham de um só país.

Nas últimas décadas, Olivier Jolliet e outros cientistas desenvolveram formas de “analisar o ciclo de vida” de itens específicos – por exemplo, brócolos ou uma caixa de cereais – que levam em consideração todas as etapas desde o produtor ao consumidor e atribuem aos itens um valor que representa o seu impacto ambiental, incluindo uma estimativa das emissões de gases de efeito estufa derivadas da sua produção e o volume de água utilizado.

Ao mesmo tempo, epidemiologistas e especialistas em saúde pública têm feito análises semelhantes ao corpo humano. Os vários estudos sobre a ligação entre alimentação e saúde revelam como diferentes dietas e até mesmo alimentos específicos podem influenciar coisas como o risco de doença, a saúde em geral ou a esperança de vida; e estes riscos também têm valores atribuídos.

Durante anos, investigadores e governos consideraram estas duas questões em separado: os especialistas em saúde concentraram-se nas suas prioridades e os cientistas ambientais nas suas (embora na década de 1970 os cientistas já estivessem a associar as escolhas alimentares à saúde planetária). Mas tem ficado cada vez mais aparente que o que comemos está intimamente ligado à saúde do planeta, diz Sarah Reinhardt, especialista em sistemas de saúde e alimentares da organização sem fins lucrativos Union of Concerned Scientists.

A demanda global por carne bovina, por exemplo, aumentou a demanda pela proteína de soja para alimentar o gado e, para responder a esta demanda, vastas áreas da Amazónia são anualmente desflorestadas para clarear terreno para as novas quintas de gado e soja, acelerando a perda de uma floresta única e da sua capacidade de absorver carbono.

“A agricultura é uma peça enorme do puzzle climático, e tanto a agricultura como os alimentos e a nossa dieta estão intimamente relacionados”, diz Sarah Reinhardt.

Olivier Jolliet e os seus colegas desenvolveram um sistema que mescla ambas as preocupações, observando simultaneamente a saúde e os impactos ambientais de alimentos específicos.

Esta equipa já tinha trabalhado com outros investigadores numa vasta base de dados que quantificava os encargos que as escolhas dietéticas têm na saúde, como por exemplo comer demasiada carne processada ou poucos cereais integrais. A equipa da Universidade do Michigan transformou estes riscos dietéticos numa estimativa de “anos de vida ajustados à deficiência”, ou DALY, uma medida que avalia a forma como a esperança média de vida de uma pessoa pode encurtar ou aumentar consoante as suas opções mudam. Os investigadores observaram como a escolha de comer ou não alimentos específicos – não apenas categorias, como vegetais – pode impactar a medida DALY, detalhando as vantagens de alguns alimentos e os impactos nocivos de outros se a dieta básica de uma pessoa mudar. Comer demasiada carne vermelha, por exemplo, está relacionado com diabetes e doenças cardíacas, ao passo que a substituição de vários vegetais ajuda a diminuir o risco de doenças cardíacas. Porém, os cientistas alertam que as suas análises são apenas relevantes para a população em geral, não necessariamente para um só indivíduo – cada pessoa tem o seu próprio conjunto único de riscos de saúde que podem mudar a sua suscetibilidade devido a alterações na dieta.

A equipa da Universidade do Michigan analisou a composição nutricional de quase 6.000 alimentos, desde cachorros-quentes a asas de frango fritas, sanduíches de manteiga de amendoim, compotas e beterraba. Um cachorro-quente provavelmente custa cerca de 35 minutos de vida; a maioria das frutas pode ajudar uma pessoa a ganhar alguns minutos extra; e as sardinhas cozinhadas em molho de tomate podem acrescentar cerca de 82 minutos de vida. De acordo com estes cálculos, a tarte de maçã é quase neutra – ganha-se um pouco com as maçãs, mas perde-se com a manteiga, a farinha e o açúcar.

Esta análise não é particularmente surpreendente. Os epidemiologistas já sabem há muito tempo que as carnes processadas, as carnes vermelhas e os alimentos altamente processados e com alto teor de açúcar estão associados aos maiores riscos de doença. Contudo, ao analisar os efeitos potenciais de tantos produtos alimentares, os investigadores podem classificá-los, encomendá-los e criar uma análise detalhada de como determinados hábitos em específico podem afetar os consumidores.

A equipa também avaliou paralelamente os efeitos ambientais de milhares de alimentos. A análise foi para além dos custos do carbono, incorporando 15 maneiras diferentes pelas quais o ambiente absorve o impacto da produção de alimentos, desde os efeitos nos sistemas de água circundantes até aos minerais raros necessários para o cultivo de produtos, o processo de embalamento e a poluição do ar no local provocada pela produção.

Quando os investigadores analisaram as duas questões ao mesmo tempo, surgiu um padrão encorajador. Muitos dos alimentos que são bons para a nossa saúde também são relativamente brandos para o ambiente. Não será de surpreender que os feijões e vegetais – não os que são cultivados em estufas – e algum marisco criado de forma sustentável, como o bagre, estejam na denominada zona “verde”. Os alimentos da zona “âmbar”, como o leite, os iogurtes e alimentos à base de ovos e vegetais cultivados em estufas estão equilibrados entre os custos para a saúde e ambientais. Os alimentos da zona “vermelha”, que incluem carne bovina, carnes processadas, porco e borrego, têm custos elevados para a saúde e ambientais. Uma porção de guisado de carne, de acordo com os cálculos da equipa, tem um custo de carbono equivalente a conduzir mais de 20 quilómetros de carro.

Este padrão manteve-se para a maioria dos indicadores ambientais, exceto para a utilização de água. Alimentos como nozes e frutas têm benefícios substanciais para a saúde, mas costumam ser cultivados em locais com escassez de água, como na Califórnia. “Quando estamos a falar sobre os alimentos que estamos a comer em relação aos alimentos que devíamos comer, como nozes e frutas, há enormes implicações na utilização de água”, diz Sarah Reinhardt. “Isto não significa que não devemos comer mais, significa apenas que é um problema que temos de resolver.”

Não conseguimos parar de comer, o que devemos fazer?

Para alguns desafios climáticos existem soluções relativamente simples. Por exemplo, as fontes de energia renováveis podem substituir grande parte da energia necessária para abastecer edifícios, veículos e muito mais.

Não existe um substituto para a comida, mas podemos mudar o que comemos. Se fossemos todos veganos, as emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo sistema alimentar poderiam ser reduzidas em mais de metade; um planeta de vegetarianos reduziria as emissões da produção de alimentos em 44%. Se parássemos de comer “comida” como a conhecemos, subsistindo inteiramente de uma pasta nutricional cultivada em laboratório em vez de no solo ou na água, poderíamos evitar cerca de 1 grau de aquecimento, de acordo com uma publicação recente que considera esta experiência.

“O que este trabalho revela é que continuamos a conseguir obter grandes benefícios, mesmo sem alterações realmente grandes na nossa dieta”, diz Michael Clark. “Eu creio que isso é muito poderoso, porque muitas pessoas, por diversos motivos, simplesmente não querem fazer grandes mudanças na sua dieta.”

Apesar de as dietas vegetarianas e veganas se estarem a tornar mais comuns nos EUA e na Europa, “é completamente absurdo pensar que daqui a 30 anos teremos todos uma dieta vegetariana”, diz Michael Clark.

As escolhas alimentares são pessoais e estão profundamente enraizadas na cultura, na religião, no sentimento, em questões económicas e muito mais. “Em vez de ditarmos o que as pessoas devem comer, é muito melhor tentarmos oferecer uma escolha”, diz Naglaa El-Abbadi, investigadora especializada em alimentos, nutrição e meio ambiente da Universidade Tufts. Esta abordagem visa informar as pessoas para que possam fazer escolhas alinhadas com os seus valores e necessidades. Em conjunto, todas estas escolhas podem beneficiar a saúde humana e o planeta.

“Porém, para isso acontecer, vai ser necessário trabalhar em conjunto com esforços em grande escala para remodelar a produção alimentar industrial”, acrescenta Naglaa El-Abbadi.

Contudo, o que as pessoas escolhem comer diariamente está longe de ser insignificante, diz Michael Clark. “Não precisamos todos de nos tornar veganos de repente. Mas as pequenas mudanças podem ter grandes impactos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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