Poderá uma nova forma de medir a vulnerabilidade das florestas tropicais ajudar a salvá-las?

Uma equipa de cientistas de renome, reunida pela National Geographic Society, construiu um índice para detetar quais são as florestas que precisam urgentemente de ajuda.

Publicado 13/12/2021, 22:21 , Atualizado 3/01/2022, 17:32
Vulnerabilidade das florestas tropicais

Em 2019, os tocos das árvores eram tudo o que restava na floresta da Bacia do Congo depois de 850 hectares de floresta terem sido derrubados para plantar óleo de palma, no nordeste da República Democrática do Congo. Um novo estudo estabeleceu um índice que mede a pressão sobre qualquer floresta tropical do mundo.

Fotografia de Samir Tounsi, AFP/Getty Images

Não é apenas a Amazónia.

As florestas nos trópicos, desde a Indonésia à América Central e de Madagáscar às selvas em torno do rio Mekong, estão a ser derrubadas ou queimadas – para dar lugar a quintas, ranchos e plantações de óleo de palma, ou para serem cortadas pela sua madeira ou desflorestadas para a construção de estradas e outros desenvolvimentos humanos. Em todo o mundo, desde a década de 1990, cerca de 20% das florestas tropicais foram eliminadas, ao passo que outros 10% ficaram danificados porque as alterações climáticas são sinónimo de temperaturas mais elevadas e estações secas mais longas e frequentes.

Agora, uma análise feita por uma equipa de mais de 50 cientistas de renome sugere que todas estas alterações estão a atingir fortemente as florestas húmidas. Na maioria dos trópicos, as florestas estão a perder a sua capacidade de armazenar carbono e reciclar água – e estão mais vulneráveis ao colapso do que se pensava. Com a taxa projetada para as alterações climáticas e o aumento das atividades de utilização da terra, as florestas podem até vir a tornar-se numa fonte de carbono para a atmosfera.

Algumas áreas estão a mudar mais depressa do que outras. A referida equipa de especialistas, reunida pela National Geographic Society com o apoio da Rolex, combinou 40 anos de dados de satélite com outras observações florestais para criar um “índice de vulnerabilidade”, que os cientistas planeiam usar nos próximos anos para determinar quais são os trechos de floresta tropical que precisam mais urgentemente de ajuda. A investigação foi publicada na revista One Earth.

Se a pressão ambiental se mantiver, vastas extensões de floresta tropical podem vir a testemunhar a morte generalizada de árvores, ou podem fazer a transição para um novo estado, tornando-se florestas mais secas, semelhantes a savanas. Isto pode devastar algumas das regiões mais ricas em vida selvagem da Terra e pode piorar as alterações climáticas, porque as florestas tropicais intactas absorvem enormes volumes de dióxido de carbono da atmosfera. Embora estas mudanças provavelmente aconteçam gradualmente, os cientistas receiam que algumas florestas, sobretudo a Amazónia, se possam transformar rapidamente em algo novo.

“Acho que todos temos a perspetiva de que as coisas não estão boas”, diz Kristofer Covey, ecologista e bioquímico do Skidmore College e coautor do estudo. “O nosso objetivo é compreender o que está a acontecer. Quais são as coisas nocivas? Queremos saber até que ponto podemos usar estas informações para tomar decisões mais informadas no futuro.”

Os cientistas esperam que esta abordagem possa fornecer um sistema de alerta precoce para direcionar os recursos de conservação, que são limitados, para as florestas em maior risco.

“O público precisa de compreender que não se trata apenas de desflorestação”, diz Sassan Saatchi, autor principal do estudo e especialista em carbono florestal do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. “A forma como as florestas funcionam está a mudar. Desde o ano 2000 que estamos a observar um novo fenómeno. O impacto das alterações climáticas acelerou.”

Exame às florestas tropicais

O estado das florestas tropicais difere de um continente para o outro. As florestas africanas estão a ser fustigadas por mais incêndios do que outros lugares, enquanto que a Amazónia está a ter mais perda de água do que as florestas asiáticas. A produtividade florestal está a diminuir significativamente por toda a Amazónia, mas essa mesma produtividade permanece estável no Congo e está até a aumentar nas florestas tropicais da China, em parte graças à recuperação dos danos provocados anteriormente e aos esforços significativos de replantação de árvores.

A vulnerabilidade das florestas tropicais pode ser medida de várias formas diferentes, e as investigações anteriores geralmente estavam focadas em pequenas áreas. Tudo isto, de acordo com Sassan Saatchi, costuma confundir os investigadores e conservacionistas que tentam priorizar a restauração florestal.

Agora, os cientistas recorreram aos dados de satélite e a outros modelos e medições para avaliar a temperatura da terra, a fotossíntese, a produção acima do solo e as mudanças na abundância e diversidade geral de espécies selvagens. Os investigadores também examinaram a perda de cobertura florestal devido à desflorestação e aos incêndios, bem como as alterações na quantidade de carbono e a água transferida entre as plantas e a atmosfera.

Este conjunto massivo de informações permitiu à equipa estabelecer um sistema uniforme e detalhado para avaliar a saúde da floresta, da mesma forma que um médico verifica o peso, a frequência cardíaca, a pressão arterial e o colesterol durante um exame físico a uma pessoa.

Contudo, apesar de algumas pessoas enfrentarem problemas cardíacos e outras terem problemas pulmonares, todas as florestas “estão a lidar com vários fatores stressantes em diferentes escalas temporais”, diz Katia Fernandes, coautora do estudo e especialista em incêndios e secas da Universidade de Arkansas.

Por exemplo, na Ásia, as mudanças no uso da terra provocam atualmente mais danos do que as alterações climáticas. Enquanto isso, na África central, as florestas estão a registar uma maior perda de água e subidas mais elevadas de temperatura do que na Ásia. Porém, o Congo permanece praticamente intacto enquanto um todo – embora esteja a revelar algumas consequências das alterações climáticas. Muitas árvores no Gabão, por exemplo, estão a produzir menos fruta, o que significa menos comida para alguns animais selvagens. Os cientistas suspeitam que a longa história de stress hídrico em África pode, na verdade, ter deixado as suas florestas mais adaptadas às secas.

“O Congo pode parecer que está bem porque a desflorestação foi menos intensa e a atmosfera mais seca não é suficiente para afetar as árvores – e pode até fazê-las crescer mais depressa porque limpa as nuvens, deixando atravessar mais luz solar”, diz Kristofer Covey.

Para a equipa de cientistas, não foi uma surpresa ver que a região mais afetada é a Amazónia.

A Amazónia continua em maior perigo

“A Amazónia destaca-se por estar particularmente em risco, mesmo quando comparada com outros desafios enfrentados pelas florestas tropicais a nível global”, diz Kristofer Covey. “A desflorestação generalizada, juntamente com um clima em rápida mudança, está a impactar as funções dos ecossistemas de formas visíveis em várias métricas.”

Com os seus micos-leões-dourados, aves coloridas e vespas gigantes, a riqueza e a biodiversidade da Amazónia são incomparáveis. Este é o lar de 10% de todas as espécies do mundo e de mais de dois milhões de tipos de insetos. As suas árvores e solos armazenam o equivalente a quatro ou cinco anos de emissões humanas de carbono, e a floresta cria muita da sua própria água à medida que a humidade vinda do Oceano Atlântico é sugada pelas raízes das plantas e depois devolvida à atmosfera através das folhas. Uma só molécula de água pode circular pela floresta quatro ou cinco vezes.

Mas a desflorestação, que tem aumentado com o governo do presidente Jair Bolsonaro, atingiu o recorde em 12 anos no ano passado. As árvores de crescimento rápido e tolerantes à seca estão a superar as espécies pequenas que prosperam em condições de chuva. As chuvas surgem em rajadas violentas, provocando inundações. Mas as secas duram mais e são mais frequentes – com três grandes secas em apenas 16 anos. Os incêndios também estão mais intensos e a taxa de mortes de árvores está a aumentar.

Tudo isto levou dois investigadores a concluir em 2017 que, se a desflorestação não fosse interrompida e a queima de combustíveis fósseis não fosse contida, uma alteração no ciclo de humidade em partes da Amazónia poderia iniciar uma espiral autossustentada que mataria milhões de árvores ou transformaria a floresta num bosque seco. Os investigadores também acreditavam que este ponto de inflexão poderia acontecer se apenas 20% da Amazónia fosse desflorestada, que é aproximadamente o volume perdido até agora.

Os referidos investigadores são Thomas Lovejoy, professor da Universidade George Mason e investigador sénior da Fundação das Nações Unidas, e Carlos Nobre, investigador sénior da Universidade de São Paulo – que também são coautores do novo estudo.

Sassan Saatchi diz que é imperativo parar com a desflorestação – um desafio que acarreta o seu próprio conjunto de complicações. E mesmo que a desflorestação abrande, isso não é suficiente para travar os danos. A reflorestação ativa é desesperadamente necessária. “Ainda não sabemos o suficiente sobre a forma ou com que rapidez o sistema vai reagir”, diz Sassan Saatchi. “Precisamos de restaurar estes sistemas.”

Ao observar todas estas medições juntas pela primeira vez, os cientistas conseguiram perceber melhor o que está a acontecer na Amazónia e noutros lugares. E apesar de os resultados confirmarem amplamente o que outros cientistas já tinham antecipado, “agora é mais preocupante porque é ainda mais credível", diz Nate McDowell, especialista florestal e cientista do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico, que não participou no estudo.

“Estes investigadores, sobretudo os autores principais, são conhecidos por serem muito, muito cuidadosos”, diz Nate McDowell. “E estão a sugerir algo muito alarmante: conforme aquecemos o planeta, algumas áreas florestais estão a aproximar-se de um comportamento no limite.”

“O sistema está a abrandar”, diz Nate McDowell.

Porém, não é tarde demais para alterar o rumo dos acontecimentos. A equipa de Sassan Saatchi espera que esta análise rigorosa convença as pessoas de que estamos a alterar significativamente paisagens importantes. Mas os investigadores também esperam que a sua nova ferramenta seja usada para ajudar a monitorizar outras mudanças – e ajudar a direcionar recursos rumo à recuperação.

A National Geographic Society, empenhada em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou este trabalho.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Meio Ambiente
Será que o compromisso global de desflorestação da COP26 vai salvar as florestas?
Meio Ambiente
A segunda maior floresta tropical vai reabrir para a exploração madeireira em grande escala
Meio Ambiente
Estudo inédito sugere que a floresta amazónica danificada está a piorar as alterações climáticas
Meio Ambiente
Jane Goodall junta-se a campanha para plantar um bilião de árvores até 2030
Meio Ambiente
Uma bizarra floresta de mangais longe da costa oferece pistas sobre a futura subida do nível do mar

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados