A missão de alta altitude para salvar alpacas

Os pastos montanhosos outrora verdejantes onde as alpacas pastam estão a secar devido às alterações climáticas; mas os cientistas, pastores e ativistas estão a unir-se para encontrar soluções.

Publicado 21/01/2022, 12:36
Alina Surquislla Gomez embala uma alpaca

Alina Surquislla Gomez embala uma alpaca bebé. A família de Alina trabalha com alpacas há três gerações e tem testemunhado os impactos das alterações climáticas nos rebanhos de alpacas no Peru, desde épocas de chuvas imprevisíveis a pastagens a secar.

Fotografia por Alessandro Cinque

LAGUNILLAS, PERU – Rufino Quico lembra-se de quando as pastagens onde o seu rebanho de 380 alpacas pasta ficavam verdes em novembro, quando as chuvas da primavera chegavam às altas planícies andinas.

Rufino Quico nasceu em Lagunillas e vive na mesma casa de adobe dos seus antepassados. A sua família cuida de alpacas há várias gerações. Agora com 57 anos, Rufino Quico não sabe ao certo se os seus filhos irão conseguir seguir os seus passos – ou até se a sua adorada aldeia, que fica a mais de 4.260 metros acima do nível do mar e é o lar de 56 famílias de pastores de alpacas, conseguirá sobreviver durante as próximas décadas devido às mudanças provocadas pelo clima na paisagem.

“As nossas pastagens deviam ter ficado verdes, mas olhem para isto. Estão amareladas e têm pouca utilidade para o nosso rebanho”, diz Rufino Quico, enquanto observa a vasta extensão de vegetação primaveril a murchar debaixo do um sol intenso e do azul cristalino do céu na região de Puno, no sudeste do Peru.

Nos Andes, as alterações climáticas têm reescrito os padrões climáticos de formas que afetam as alpacas em todos os estágios de vida – desde o aumento da mortalidade nas crias recém-nascidas até ao desaparecimento das pastagens onde os rebanhos se alimentam. As mudanças abruptas na precipitação, bem como o degelo dos glaciares, estão a provocar estragos não só nas alpacas mas também nas comunidades que as criam.

Uma cria leva uma injeção durante a transumância, uma migração sazonal.

Fotografia por Alessandro Cinque

Uma alpaca que morreu na noite anterior é mantida pela organização não governamental Descosur para fins de investigação.

Fotografia por Alessandro Cinque

As terras altas peruanas não são exuberantes e os registos históricos mostram que a precipitação nunca foi abundante na região. Mas era suficiente para sustentar as alpacas. As alpacas dão à luz apenas nos três primeiros meses do ano, durante a época das chuvas. Agora, esta época que outrora era consistente e moderava as temperaturas, tornou-se errática. As alpacas são muito sensíveis ao frio, e as oscilações bruscas de temperatura, incluindo as vagas de frio que têm matado milhares de alpacas, estão a tornar os rebanhos vulneráveis a doenças e a contribuir para o aumento da taxa de mortalidade entre os animais recém-nascidos.

Rodolfo Marquina, diretor da Descosur, uma organização sem fins lucrativos que trabalha no desenvolvimento económico da região sul do Peru, diz que as alterações climáticas “têm impactos em todos os aspetos da criação de alpacas”.

Para complicar a situação, o recuo dos glaciares está a reduzir os fluxos de água que, segundo os especialistas, há muito sustentam os elevados prados e pântanos durante a longa época seca que vai de abril até novembro. Um hectare de capim espesso dos pântanos, que cresce durante o ano inteiro, pode alimentar facilmente 25 alpacas, mas um hectare de pastagem normal só consegue sustentar um animal, diz Oscar Cárdenas, que dirige os programas de alpacas no Instituto Nacional de Inovação Agrária (INIA), um centro governamental de investigação.

“Os glaciares são a base”, diz Oscar Cárdenas. “Se os pântanos desaparecerem, as alpacas desaparecem com eles.”

Oscar Vilca, do Instituto Nacional de Pesquisa de Ecossistemas de Glaciares e Montanhas do Peru, que é responsável pelo acompanhamento dos glaciares na região sul do país, já tinha alertado para esta situação há algum tempo. De acordo com o instituto, a cobertura dos glaciares do Peru passou de 2.400 quilómetros quadrados em 1962 para 1.110 quilómetros quadrados em 2016, o último ano para o qual há um inventário nacional sobre os glaciares. Isto representa uma redução de 53% em 54 anos.

“As alterações climáticas estão a afetar o potencial hidrológico da região”, diz Oscar Vilca. “Isto tem impacto não só nas alpacas, como nas pessoas e comunidades que dependem delas para sobreviver.”

Uma longa história

O Peru abriga cerca de quatro milhões de alpacas, mais de 70% da população mundial de alpacas, segundo o INIA. A vizinha Bolívia tem a segunda maior população, que é inferior a 10% da população total. A Austrália, onde as alpacas foram introduzidas em 1980, ocupa o terceiro lugar.

As alpacas foram domesticadas no Peru há pelo menos 6.000 anos. Este animal pertence à família dos camelos e tem uma aparência robusta, diz Oscar Cárdenas, mas basta alterar uma pequena variável, como o declínio de nutrientes nas pastagens, para dizimar rapidamente as suas populações. No século XVI, os rebanhos mantidos pelos Incas foram praticamente exterminados quando os conquistadores espanhóis chegaram à região em 1532. As alpacas eram abatidas para fins de alimentação e estavam expostas a doenças fatais – principalmente sarna, que foi levada para os Andes pelas ovelhas e cabras importadas pelos colonos europeus. No espaço de um século, as alpacas do Peru foram quase completamente eliminadas. As populações de alpacas começaram a expandir-se no início do século XX, sobretudo porque a demanda por lã de alpaca estava a aumentar.

Uma vista de drone da cidade de Antabamba, na província de Apurimac. Antabamba é um ponto importante para os criadores de alpacas venderem os seus produtos.

Fotografia por Alessandro Cinque

Devido ao encerramento das fronteiras peruanas e restrições nas viagens durante a pandemia, os mercados de artesanato feito de fibra de alpaca entraram em colapso. Os artesãos que vendem artesanato foram os mais afetados pelo declínio do turismo.

Fotografia por Alessandro Cinque

Oscar Cárdenas diz que as alterações climáticas podem não desencadear uma extinção, mas uma das suas consequências imediatas pode ser uma mudança na pelagem dos animais, afetando o valor da lã. Existem duas variedades de alpacas: a huacaya, de pelo curto, e a suri, de pelo comprido. Cerca de 80% das alpacas no Peru são huacaya e 12% são suri, o número restante é representado pelos cruzamentos com lhamas e vicunhas, um primo não domesticado da família dos camelos.

Os rebanhos de alpacas do Peru produzem cerca de 7.600 toneladas de lã por ano. Os animais adultos, que podem pesar mais de 60 quilos, produzem cerca de 2 quilos de lã por ano. O pelo é categorizado por tonalidade e qualidade. Existem 22 tons de pelo, mas o branco é o mais comum e o mais procurado. A lã é classificada em sete categorias de textura, desde superfina, que obtém o maior preço, até curta e espessa, que é descartada.

A lã é usada maioritariamente na confeção de vestuário, mas também para fazer cobertores e utensílios domésticos. Nos primeiros sete meses de 2021, o Peru faturou aproximadamente 121 milhões de dólares em exportações de alpaca, equivalente aos valores das exportações de 2019, ainda em pré-pandemia. Contudo, a pandemia afetou gravemente a indústria de lã de alpaca. As exportações vão principalmente para a China, Itália e Estados Unidos.

Ajuda a caminho

Nos últimos anos, vários cientistas, pastores e ativistas começaram a testar soluções para salvaguardar a sobrevivência das alpacas, algo que, por sua vez, irá ajudar a salvar as comunidades que as criam, como é o caso de Lagunillas. No Centro de Pesquisa e Produção Quimsachata do INIA, sediado na região de Puno, que abriga a maior reserva genética de raças de alpaca, a equipa de Oscar Cárdenas está a trabalhar num projeto de genética. Os investigadores estão a usar cerca de 3.200 animais para preservar os genes de alpacas coloridas, para garantir que as cores não desaparecem. Este centro também está focado no desenvolvimento de métodos para ajudar as alpacas a adaptarem-se à subida das temperaturas nas altas altitudes e a prosperar nas regiões mais baixas.

“O clima está louco – instável – e isso dá origem a inúmeros problemas. Para além dos problemas nutricionais provocados pela fraqueza das pastagens, estamos a lidar com questões parasitárias devido às alterações climáticas. Estamos a observar um aumento de sarna, piolhos e larvas em elevações onde não existiam antigamente”, diz Oscar Cárdenas.

Uma alpaca é tosquiada.

Fotografia por Alessandro Cinque

Durante a época das chuvas, são colocados coletes nas alpacas para as proteger do clima frio e gelado. As famílias que gerem os rebanhos deslocam-nos para altitudes mais elevadas para evitar que as alpacas comam a vegetação que cresce mais abaixo nas montanhas, dado que os animais vão precisar desse pasto no final do ano.

Fotografia por Alessandro Cinque

As alpacas conseguem sobreviver em altitudes mais baixas, aliás, foi assim que os rebanhos se expandiram em lugares como a Austrália e os Estados Unidos, mas a sua pelagem fica mais espessa. Este tipo de pelo pode ser usado para fazer chapéus e luvas, ou cobertores e tapetes, mas não pode ser fiado para fazer vestuário de alta qualidade. Com temperaturas mais quentes, as alpacas também sofrem de doenças que não estão presentes nas áreas montanhosas, exigindo medicamentos dispendiosos e difíceis de obter que podem afetar a qualidade da lã.

O INIA também tem cooperado com as comunidades para desenvolver soluções de baixa tecnologia, incluindo a construção de estábulos que consigam abrigar rebanhos e o cultivo de vegetação mais resistente, como trevos, que podem complementar as dietas dos animais durante a estação seca. Em 2020, o Ministério da Agricultura do Peru lançou um programa de três anos para instalar 2.300 currais nas comunidades andinas das terras altas.

Os criadores de alpacas também estão a trabalhar em soluções. Os que possuem terras amplas conseguem movimentar os rebanhos para procurar vegetação para pastar. Alina Surquislla, de 35 anos, trabalha com a sua família na gestão de 500 alpacas num pedaço de terra acidentado na região de Apurimac, a oeste de Puno. Durante a época das chuvas, a família de Alina cuida do rebanho em altitudes mais baixas, a cerca de 4.200 metros, movendo gradualmente os animais para cima à medida que a precipitação termina e os pastos começam a ficar amarelados. Alina Surquislla pastoreia as alpacas até altitudes de mais de 5.000 metros à procura de pastagens. A sua família também tem perfurado poços onde encontram água.

Algumas das famílias que fazem criação de alpacas migram com os seus rebanhos para cima e para baixo nas montanhas quatro vezes por ano, porque as alterações climáticas afetam a quantidade e qualidade da comida disponível para os animais. Durante os movimentos sazonais, estas famílias podem ficar até três meses longe de casa.

Fotografia por Alessandro Cinque

Em Lagunillas, Cristina Condori, de 49 anos, depende da precipitação da época das chuvas para cuidar das suas 200 alpacas. Agora, Cristina e a sua família viraram as suas atenções para a tecnologia pré-colombiana para construir canais de terra que retêm a água em pequenos reservatórios revestidos com plástico, para evitar a sua penetração no solo. E também têm perfurado poços onde conseguem.

“A minha família tem tentado encontrar soluções, porque este é o nosso sustento e é o que fazemos há gerações”, diz Cristina Condori.

Geralmente, as alpacas vagueiam livremente pelos campos. Mas agora, acrescenta Rufino Quico, a comunidade está a construir vedações pela primeira vez para gerir melhor onde é que os rebanhos pastam, para dar uma oportunidade de rejuvenescimento às pastagens. Junto aos degraus de uma pequena capela trancada a cadeado na aldeia, Rufino Quico olha para os picos áridos expostos à distância, agora despojados do seu gelo glaciar.

“As alterações climáticas são alarmantes”, diz Rufino Quico. “Mas estamos a fazer os possíveis para nos adaptarmos. Estamos constantemente à procura das melhores soluções.”

Este artigo foi produzido em parceria com o Pulitzer Center.

Alessandro Cinque, sediado no Peru, fotografa as consequências ambientais das alterações climáticas, particularmente nas populações indígenas.
A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho de Alessandro Cinque.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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