As Maldivas estão a ser engolidas pelo mar. Será que se conseguem adaptar?

Independentemente de as Maldivas sobreviverem ou não às alterações climáticas, o país nunca mais será o mesmo.

Por Tristan McConnell
Publicado 24/01/2022, 15:12
Turistas nas Maldivas

Um casal contorna uma casa abandonada nas Maldivas, com as fundações erodidas pela subida do nível do mar, para chegar à Bikini Beach, onde são permitidos biquínis.

Fotografia por Marco Zorzanello

HULHUMALÉ, MALDIVAS – “Os meus momentos mais tranquilos são na água”, diz a antropóloga Thoiba Saeedh, pouco antes de uma lancha nos levar pelo sereno Oceano Índico em direção à pequena ilha de Felidhoo, nas Maldivas. A lancha deixa um rasto de ondas entre as ilhas cobertas de palmeiras e franjas de areia – algumas com estâncias turísticas alinhadas com pontões de madeira – enquanto um grupo de golfinhos atravessa a suave ondulação e peixes-voadores se lançam no ar de formas completamente invulgares.

Cerca de dois mil e quinhentos anos de vida marítima moldaram a cultura e a identidade do povo das Maldivas, um país com 1.196 ilhas rasas dispostas numa cadeia dupla de 26 atóis de coral – as ilhas são tão planas que mal interferem no horizonte.

Os forasteiros geralmente conhecem estas ilhas por duas razões: férias na praia e a probabilidade de as Maldivas serem o primeiro país na Terra a desaparecer debaixo de água. Isto inclui a ilha de Felidhoo, onde Thoiba Saeedh me quer mostrar uma cultura e um modo de vida que já está a desaparecer.

Agora, à medida que o ritmo das alterações climáticas acelera, esta pequena nação está a tentar ganhar tempo, na esperança de que os líderes mundiais reduzam as emissões de carbono antes do inevitável desaparecimento das Maldivas. Este arquipélago apostou o seu futuro – juntamente com uma soma substancial do erário público – na construção de uma ilha artificial elevada que poderá albergar a maioria da sua população, que tem mais de 555.000 pessoas. Enquanto isso, uma empresa de design holandesa planeia construir 5.000 casas flutuantes em pontões ancorados numa lagoa por toda a capital.

Estas medidas podem parecer extremas, mas a situação nas Maldivas é extrema. Tal como disse o presidente Ibrahim Mohamed Solih aos líderes mundiais na cimeira climática das Nações Unida realizada no outono do ano passado na Escócia: “A diferença entre 1,5 graus e 2 graus (Celsius) é uma sentença de morte para as Maldivas.” E este foi apenas o pedido de ajuda mais recente. Há uma década, o antecessor de Ibrahim Solih, Mohammed Nasheed, convocou uma reunião do seu gabinete debaixo de água com equipamento de mergulho e depois propôs que se mudasse toda a população para a Austrália por questões de segurança.

Sair de lugares como Felidhoo e abandonar a vida na ilha para ir viver numa plataforma feita pelo homem repleta de construções elevadas – chamada Cidade da Esperança – também levanta o alerta de que vale a pena prestar atenção, pois as alterações climáticas provocam cada vez mais danos em todos os continentes, ou seja, podemos perder quem somos antes sequer de perdermos o local onde vivemos. E se as Maldivas conseguirem de facto sobreviver a um planeta em mudança, isso também levanta outra questão: o que iremos salvar e o que iremos perder?

Este bairro de 16 construções elevadas, chamado Hulhumalé Fase II, está a ser construído numa ilha artificial que foi criada com areia bombeada do fundo do mar. Os habitantes das Maldivas estão a ser gradualmente realojados nestes edifícios para escapar à subida do nível do mar.

Fotografia por Marco Zorzanello
Esquerda: Superior:

Hahmad tem cerca de 30 anos e é oriundo da ilha de Maafushi. Hahmad costumava trabalhar na indústria pesqueira, que agora está em declínio. Os pescadores têm de se aventurar mais longe no oceano para encontrar peixe, resultado da sobrepesca praticada durante muitas décadas.

Direita: Fundo:

Uma imagem do trânsito na estrada principal que passa pela cidade de Malé, a capital e cidade mais populosa das Maldivas. Esta cidade densamente povoada contrasta com as mais de 1.100 pequenas ilhas de coral que compõem a nação.

fotografias de Marco Zorzanello

Atóis formados por vulcões pré-históricos

Um milhão de anos antes da extinção dos dinossauros, a placa tectónica indiana desviou-se para norte, abrindo uma fenda na crosta terrestre da qual emergiu uma cordilheira de cumes vulcânicos. Com o passar do tempo, a erosão destes cumes formou os atóis incrustados de corais das Maldivas.

A área terrestre total das Maldivas cobre apenas cerca de 300 quilómetros quadrados sobre mais de 90.000 quilómetros quadrados de oceano, com poucas ilhas maiores do que 120 hectares. Em conjunto, a terra e o mar são o tecido que forma a identidade das Maldivas. Esta relação tem uma fluidez essencial. “Quando falo em terra, estou a incluir o mar”, diz Thoiba Saeedh. “Para nós, a água não está separada da terra; a ‘terra’ é a água e a ilha como um todo, porque é aqui que vivemos.” Por outras palavras, quando o oceano representa mais de 99% do nosso país, é bom que o apreciemos.

As próprias ilhas têm uma qualidade efémera: bancos de areia sobre corais vivos que crescem e encolhem, sobem e descem, dependendo das correntes oceânicas e dos depósitos de areia. (A lista de “ilhas desaparecidas” das Maldivas é longa.)

A maioria das ilhas – incluindo a capital Malé – fica a cerca de 10 metros acima do nível do mar; e os cientistas climáticos prevêem que estas ilhas podem ficar submersas até ao final do século. O bairro de Hulhumalé, na plataforma artificial de resgate, tem uma elevação de 20 metros.

Este empreendimento foi criado em 1997 através da dragagem hercúlea de milhões de toneladas de areia que foram usadas como aterro para transformar duas lagoas rasas adjacentes em 428 hectares de areia compactada, algo que nestas ilhas tem a denominação de terra nova.

“Dois terços da população podem ser realojados nestas duas ilhas principais”, diz Ismail Shan Rasheed, estratega de planeamento da Hulhumalé Development Corporation.  

De certa forma, o bairro de Hulhumalé é uma fantasia urbanista, semelhante à fase inicial de SimCity, o videojogo de desenvolvimento urbano. Tanto parques como apartamentos, mesquitas, lojas, pistas de skate, calçadas, escolas e estradas, foi tudo construído sobre algo que parece ser uma cidade costeira bem ordenada, que foi ligada a Malé em 2018 através de uma ponte de quase 2 quilómetros.

A Ponte Sinamalé, inaugurada em 2018, liga as ilhas Malé, Hulhulé e Hulhumalé. Esta ponte foi originalmente denominada Ponte da Amizade China-Maldivas devido ao financiamento vindo do governo chinês. Esta é a primeira ponte entre ilhas nas Maldivas.

Fotografia por Marco Zorzanello

A ilha Maafushi é o aterro local. As pessoas depositam os seus resíduos diretamente neste local, onde os podem incinerar. A gestão de resíduos é um dos principais desafios nas Maldivas.

Fotografia por Marco Zorzanello

O próprio Ismail Rasheed mudou-se para Hulhumalé em 2013, vindo de um apartamento apertado em Malé, onde os seus filhos não tinham espaço para brincar ao ar livre e a asma da sua filha mais nova era exacerbada pelos gases de escape. “Eu queria ter os parques públicos, os espaços verdes e o ar fresco da cidade planeada”, diz Ismail Rasheed, enquanto gesticula em direção a um modelo à escala do novo empreendimento, onde edifícios do tamanho de caixas de fósforos se alinham em enormes avenidas. “A partir do momento em que nos mudámos para Hulhumalé, ela ficou bem.”

Mas ainda há muitas novidades pela frente. A primeira fase já parece uma cidade costeira bem ordenada; e a fase dois é um trabalho em desenvolvimento. Em setembro do ano passado, Aishah Moosa mudou-se para a parte nova de Hulhumalé, onde um aglomerado de 16 edifícios de 24 andares está rodeado por dunas de cascalho, parques de estacionamento meio construídos e pilhas de detritos.

Cada torre de edifícios é o equivalente a várias ‘ilhas’ de pessoas. Aishah Moosa mudou-se de um apartamento T1 em Malé, que dividia com a sua irmã e dois sobrinhos, para um apartamento de três quartos no último andar da torre H-2. “Há tantas pessoas a viver aqui. Nem sequer conhecemos os nossos vizinhos”, diz Aishah Moosa.

Viver aqui pode ter as suas vantagens, mas não é muito melhor do que viver nas ilhas naturais. “Estamos a viver nestas torres porque não temos escolha. Gostávamos de poder viver nas ilhas, mas não há educação, nem hospitais”, diz Aishah Moosa. O seu novo lar não consegue substituir a comunidade que vive na ilha, mas a sua nova varanda oferece-lhe algo que anteriormente era impensável – uma altitude elevada num país praticamente plano. “Nós não estamos habituados a viver nas alturas”, acrescenta Aishah, enquanto espreita nervosamente por cima do parapeito da varanda.

Os sistemas de recifes rasos que já não são viáveis para abrigar recifes de corais vivos são trabalhados para os turistas poderem nadar no oceano perto da praia.

Fotografia por Marco Zorzanello
Esquerda: Superior:

Inga Dehnert, bióloga marinha da Universidade de Milano Bicocca, em Itália, trabalha num viveiro de corais. Este projeto visa melhorar a saúde dos corais, que em geral estão sob pressão devido ao aquecimento dos oceanos.

Direita: Fundo:

Os recifes de coral nas Maldivas foram dizimados pelo aquecimento das águas, pela dragagem de areia e destruição ocorrida durante a construção. As ilhas estão repletas de corais mortos e a vida subaquática resume-se a um azul claro, sem muitas espécies para ver.

fotografias de Marco Zorzanello

A harmonia com a natureza está ameaçada

Curiosamente, para um país que se está a afundar, a subida do nível do mar raramente é um tema de conversa no quotidiano. Os maldivos deixam esse tópico para os políticos ou ativistas. Como as Maldivas são um país maioritariamente muçulmano, muitos dizem que o seu futuro está nas mãos de Alá. E também não é a primeira vez que o oceano é considerado uma ameaça. Em 2004, por exemplo, antes de o nível do mar começar a subir, um tsunami matou cerca de 100 pessoas.

E, ao contrário da imagem de pés descalços de Robinson Crusoe das Maldivas, criada com a curadoria da indústria de viagens, a sua população enfrenta os mesmos problemas urbanos que afligem outras nações maiores e sem litoral. O turismo e o dinheiro que traz consigo estimularam o rápido desenvolvimento de estâncias exclusivas e o crescimento exponencial de Malé. Esta cidade está empoleirada em menos de 2.5 quilómetros quadrados de terra, mas é o lar de 193.000 pessoas, tornando-se numa das cidades mais densamente povoadas do mundo.

O sonho é o de que a Cidade da Esperança consiga resolver algumas das outras maleitas do país, oferecendo escolas melhores e bons empregos numa nação onde o desemprego ronda os 15%.

“O nosso desenvolvimento explodiu!” diz Fayyaz Ibrahim, de cinquenta e poucos anos, que é proprietário de uma loja de mergulho e ainda se lembra das ruas tranquilas com poucos carros, quando a sua família se mudou para a cidade em 1974 à procura de melhor emprego, ensino e serviços básicos. À medida que o turismo começou a aumentar, o mundo moderno assolou a região com um ritmo avassalador. O desenvolvimento urbano que deveria levar séculos aconteceu em poucas décadas.

Hoje, as ruas estreitas de Malé parecem uma corrida de lambretas, com edifícios cada vez mais altos pontilhados com saídas de ar condicionado e rodeados de andaimes, com o betão a estender-se até à beira da água. Os geradores a gasóleo do tamanho de armazéns mantêm a eletricidade a funcionar; a água da torneira é dessalinizada industrialmente; o lixo é carregado em batelões e despejado numa ilha nas proximidades; estruturas de betão, semelhantes a pedras gigantes, estão empilhados ao longo do quebra-mar para afastar a agitação do mar. Malé, tal como o coral sobre o qual se ergue, está constantemente em construção.

Esquerda: Superior:

Hussain Manik, de 51 anos, reza na Mesquita Old Friday de Malé. “Tento visitar todas as mesquitas, pois são todas importantes”, diz Hussain Manik. Esta e outras mesquitas locais foram construídas com rochas de coral resistentes.

Direita: Fundo:

A Mesquita Old Friday é uma das mesquitas mais antigas e ornamentadas de Malé. Nesta imagem aproximada, vemos a escrita do Alcorão nos blocos de coral da mesquita.

fotografias de Marco Zorzanello

A vida é fugaz na remota ilha de Felidhoo

Os 90 quilómetros de distância entre Malé e Felidhoo serpenteiam por entre algumas das 130 "ilhas de resorts" das Maldivas – ilhas geridas de forma privada e reservadas para os turistas, onde se pode andar de biquíni e consumir álcool – e por várias outras “ilhas habitadas” onde os maldivos vivem e trabalham, para além de aglomerados de “ilhas desabitadas”.

Mariyam Isha Azeez, escritora, poetisa, documentarista e arquiteta, diz que as ilhas habitadas é onde reside a identidade das Maldivas. “As Maldivas não são as estâncias ou esta cidade. As Maldivas são as ilhas.”

A migração entre ilhas já é uma trivialidade de longa data – as pessoas partem à procura de melhores oportunidades na pesca, no comércio, um novo lar. As ilhas ficam abandonadas quando se tornam inabitáveis ou são encontradas novas ilhas. “Navegar de uma ilha para outra é um modo de vida para os maldivos, e tem sido assim há séculos”, escreve a historiadora Naseema Mohamed, descrevendo um estilo de vida marítimo “em harmonia com o oceano”.

Abdul Shakoor Ibrahim, de 72 anos, que nasceu em Felidhoo e trabalhou como funcionário público na ilha de Malé, regressou à ilha quando se reformou para viver o sonho de regressar a casa.

A ilha de Felidhoo também está a passar por mudanças naturais e artificiais. A subida do nível do mar tem alguma responsabilidade nisso, mas Abdul Ibrahim também culpa a construção do porto da ilha, que colocou uma barreira sólida e imóvel no mar que bloqueia o fluxo natural das correntes, fazendo com que a areia se acumule onde não deve.

Estas mudanças preocupam Thoiba Saeedh, a antropóloga que me leva a visitar a ilha. Enquanto se balança numa cadeira suspensa tradicional feita de madeira e fibras de casca de coco, Thoiba fala com sinceridade e uma visão clara sobre a agitação que o seu país enfrenta – a subida do nível do mar, o ritmo da migração, as alterações climáticas, a urbanização. Mas Thoiba também salienta a compreensão inata dos seus compatriotas em relação à instabilidade do local onde vivem.

“É preciso compreender a nossa relação com o oceano. Nós coexistimos com o oceano e com as suas criaturas, os seus perigos e as suas ansiedades”, diz Thoiba, referindo-se à forma como os maldivos conseguem viver com a ameaça de desaparecer. “A ideia de que uma ilha vai durar para sempre é contranatura.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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