Um ‘corpo climático’ nacional? A Califórnia dá o exemplo.

O Corpo de Conservação da Califórnia mostra o que um Corpo Climático Civil pode alcançar a nível nacional: uma grande vitória para o ambiente e um trabalho com significado para os jovens – ao ar livre.

Por David Helvarg
Publicado 4/01/2022, 11:59
Incêndio perto de Oroville

Bombeiros do Corpo de Conservação da Califórnia observam uma linha de fogo no incêndio perto de Oroville em setembro de 2020. Fundada em 1976, esta corporação de jovens tem agora mais de 1.500 membros. O combate aos incêndios ocupa agora uma parte cada vez maior do seu trabalho.

Fotografia por Max Whittaker, T​he New York Times

MARKLEEVILLE, CALIFÓRNIA – Uma chuva gelada cai ininterruptamente sobre os veículos incinerados, edifícios e a floresta de pinheiros queimados no Parque Estadual de Grover Hot Springs. No verão passado, quase a 1.800 metros de altura na cordilheira da Sierra Nevada, este parque foi devastado pelo incêndio Tamarack, que consumiu 27.500 hectares a leste do lago Tahoe.

Apesar da chuva torrencial, há pilhas de detritos de madeira com 2,5 metros de altura que incendiaram recentemente e estão a arder de forma intensa, com os estalos da madeira a arder acompanhados pelo zumbido constante do som de motosserras. Os 14 membros da Brigada de Incêndios Tahoe Nº 1 do Corpo de Conservação da Califórnia estão a derrubar centenas de “árvores perigosas” que arderam e foram assinaladas com tinta cor de laranja. Devido ao risco de queda, as árvores precisam de ser cortadas para os trabalhadores poderem limpar a zona.

Com um aviso – “Segundo corte. Árvore a cair!” – cai outro pinheiro queimado de 25 metros de altura ao longo da estrada.

Este trabalho na lama entre pilhas de toros e troncos deixa os membros da corporação encharcados e as suas roupas e capacetes azuis enlameados. Os operadores das motosserras usam equipamentos protetores de Kevlar e coletes amarelos.

“Temos a certeza de que estamos a fazer jus à mensagem”, diz Elizabeth Wing, de 21 anos, indiciando um sorriso. A “mensagem” é o lema oficial do Corpo de Conservação da Califórnia: “Trabalho árduo, salário baixo, condições miseráveis e muito mais.”

“Já tive muitos trabalhos maus, mas este não”, diz Martin Castellon, que foi criado entre Tijuana e San Diego e passou o seu 26º aniversário a trabalhar na remoção de neve com a corporação. “É verdade, algumas condições são más. Mas isso faz com que apreciemos ainda mais as coisas.”

Integrado no plano Build Back Better dos EUA, que atualmente está pendente no Congresso, o presidente Joe Biden pediu a criação de um Corpo Climático Civil para melhorar a resiliência ambiental dos Estados Unidos, fornecendo ao mesmo tempo emprego para centenas de milhares de jovens americanos. Esta premissa básica não é nova, mesmo ao nível nacional. Em 1933, durante a Grande Depressão, o presidente Franklin Roosevelt criou o Corpo de Conservação Civil que, nos seus nove anos de atividade, empregou três milhões de jovens rapazes – excluindo mulheres e a maioria dos negros – e construiu os trilhos e infraestruturas dos parques nacionais do país. Esta corporação iria mais tarde fornecer um grupo de tropas treinadas e disciplinadas para servir na Segunda Guerra Mundial.

Esquerda: Superior:

Franklin Roosevelt, presidente dos EUA, visita um acampamento do Corpo de Conservação Civil, fundado por si em 1933. O seu CCC – tal como o da Califórnia – são modelos para um novo corpo climático nacional previsto na legislação “Build Back Better” que está pendente no Congresso.

Fotografia por Bettmann
Direita: Fundo:

De 1933 até 1942, o chamado CCC construiu inúmeras infraestruturas nos parques nacionais dos EUA. Nesta imagem, um membro da corporação planta uma árvore.

Fotografia por PhotoQuest, Getty Images

Inspirado no modelo de Franklin Roosevelt, mas tornando-o mais inclusivo, o ex-governador da Califórnia Jerry Brown estabeleceu o Corpo de Conservação da Califórnia (CCC) em 1976, durante os primeiros dias do movimento ambientalista e no seu primeiro mandato enquanto governador. Hoje, os “C” (como os membros chamam à corporação) recrutam rapazes e raparigas dos 18 aos 25 anos. E tem mais de 1.500 membros a trabalhar em 24 centros por todo o estado da Califórnia.

Mudar vidas

Os membros do CCC têm origens muito variadas. Muitos costumavam trabalhar na venda a retalho, na construção civil, em oficinas mecânicas, restaurantes e lojas de pneus. Alguns frequentaram a universidade, mas a maioria queria algo mais.

“Eu andava a saltar de emprego em emprego e queria fazer parte de algo maior”, diz Louie Valez, de 26 anos. “Vi um anúncio no Facebook, aceitei e nunca mais olhei para trás.” No verão passado, a corporação de bombeiros de Louie Valez esteve a combater o incêndio de Dixie durante dois meses e o incêndio de Caldor durante um mês, trabalhando longos turnos – por vezes de 24 horas – a proteger habitações. “Tem sido uma loucura.”

Se os novos membros da corporação não tiverem completado o ensino secundário (cerca de 15 a 20 por cento não completaram), são obrigados a obter um diploma através de uma das escolas com quem o centro faz parceria e que dão aulas nas zonas residenciais e não residenciais do CCC. Isto acrescenta 10 horas de trabalho na sala de aula às 40 horas semanais de trabalho. Os alunos que completem pelo menos um ano do programa também ficam elegíveis para receber até 8.000 dólares em bolsas para estudos superiores ou formação profissional. O próprio “salário baixo” melhorou em outubro – passou de 1.905 dólares para 2.265 dólares por mês.

As alterações climáticas, que têm dado origem a incêndios cada vez mais frequentes e intensos pelo mundo inteiro, afetaram significativamente a corporação da Califórnia. Há cinco anos, a maioria dos membros desta corporação trabalhava em áreas florestais, energia, transportes, pesca e artes culinárias; só uma brigada é que estava dedicada ao combate a incêndios. Agora, 400 membros do CCC, mais de 25% da corporação, formam 12 brigadas que colaboram com o Departamento de Silvicultura e Prevenção de Incêndios da Califórnia (Cal Fire).

Esquerda: Superior:

Elizabeth Wing, de 21 anos, juntou-se ao Corpo de Conservação da Califórnia em junho de 2020 e começou a construir trilhos no interior que, segundo a própria, é melhor do que fazer cursos de arte online no sótão dos seus pais.

Direita: Fundo:

Luke Alley, de 25 anos, entrou no CCC em 2015 e esteve na corporação dois anos – regressando depois no início de 2021 a tempo de combater os incêndios de Dixie, Caldor e River. Luke Alley espera fazer carreira nos bombeiros.

fotografias de David Helvarg

Em setembro, no auge da época de incêndios do estado californiano, o CCC tinha 40 equipas nos acampamentos-base do departamento Cal Fire a desdobrar mangueiras, a reabastecer mantimentos, a ajudar com a água e as refeições, a recolher o lixo e muito mais. Vinte e seis brigadas de bombeiros também estiveram na linha da frente, abrindo clareiras com motosserras e ferramentas manuais.

Os membros desta corporação também receberam formação para controlar inundações e estão prontos para encher e colocar estrategicamente dezenas de milhares de sacos de areia durante o próximo grande dilúvio.

“As alterações climáticas não eram o nosso foco há 35 ou 40 anos, mas o meio ambiente sempre foi”, diz Bruce Saito, diretor do CCC. Bruce Saito espera que a corporação da Califórnia – juntamente com outras 130 organizações estaduais e não só – seja integrada no Corpo Climático Civil de Joe Biden, caso este venha a ser aprovado. Com 45 anos de experiência de campo, a corporação da Califórnia pode oferecer lições valiosas a um corpo nacional.

Criar conservacionistas

Apesar de os membros se alistarem no CCC devido a uma variedade de razões, muitos deles, assim que se veem envolvidos no trabalho, desenvolvem uma ética ambiental.

“Se me perguntasse há dois anos o que é um conservacionista, eu não fazia ideia”, diz Naomi Muratalla, que trabalha num centro em Stockton que cobre o delta do rio Sacramento. “Aos 19 anos, eu trabalhava a cuidar de idosos com deficiências e era um bocado pesado. Entrei para o programa [do CCC] e mudei-me para um centro residencial. Nós trabalhamos com as pessoas com quem vivemos, e agora a minha brigada é como se fosse a minha família.”

Esquerda: Superior:

Connor Poe trabalhou dois anos numa pizzaria antes de se alistar no CCC em abril do ano passado. No outono, Connor Poe já tinha passado 84 dias a combater os incêndios de Dixie, Caldor e River.

Direita: Fundo:

Jamesley Giblin, de 20 anos, entrou para o CCC em abril de 2021. Os seus pais disseram-lhe para fazer aquilo que o deixasse feliz – e Jamesley Giblin gostou sempre de estar ao ar livre.

fotografias de David Helvarg

“Para ser sincera, isto mudou a minha vida. Eu pensava que queria uma carreira em medicina, mas agora quero construir trilhos e plantar árvores e, daqui a 20 anos, poder regressar e dizer que plantei este bosque.”

Com luvas de couro pesadas, Naomi Muratalla usa uma picareta e uma pá para colocar pedras de um rio num dos trilhos do Zoo de Micke Grove, num parque municipal na cidade agrícola de Lodi. A sua brigada está a reconfigurar um lago de tartarugas para incluir um jardim de borboletas. Outro membro da brigada está no lago a envernizar uma plataforma de madeira para os visitantes que foi reconstruída pela corporação. As tartarugas aguardam em enormes contentores azuis num recinto nas proximidades.

“Os chamados C, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não são um grupo de jovens problemáticos”, diz John Alviso, de 24 anos, um membro da brigada de incêndios que estava na reserva do Exército dos EUA. “São pessoas que querem aprender e ter uma carreira e estão dispostas a trabalhar arduamente para o conseguir.”

O esforço físico é um dos grandes atrativos para alguns membros da corporação. “Eu estava a frequentar lições de arte online e a viver no sótão dos meus pais, em São Francisco, mas queria uma coisa mais ativa”, diz Elizabeth Wing, que acabou por participar no Programa de Trilhos do Interior do CCC, onde as brigadas passam em média seis meses a reparar trilhos nas regiões mais remotas do estado da Califórnia.

Para além dos incêndios

Para além dos incêndios, os C têm respondido a outros tipos de desastres ao longo dos anos, incluindo sismos, distúrbios em Los Angeles e inundações. Desde o início da pandemia de COVID que a Califórnia tem enviado membros desta corporação para ajudar nos bancos alimentares e centros de vacinação. Os membros do CCC também já responderam a desastres fora do estado californiano – em Iowa, Nebraska, Texas, Louisiana e Porto Rico.

Esquerda: Superior:

Renae Perez-Gallardo é supervisora da Brigada de Incêndios Tahoe Nº 1 do CCC. As suas tarefas incluem ensinar aos membros mais jovens a derrubar árvores mortas em segurança.

Direita: Fundo:

Martin Castellon, de 26 anos, é de San Diego. O CCC cumpre as condições de trabalho “miseráveis” que publicita, diz Martin Castellon, mas ainda assim ele continua a gostar do trabalho.

fotografias de David Helvarg

Nos EUA, enquanto o debate em torno de um Corpo Climático Civil nacional tende a focar-se no desenvolvimento de empregos bem remunerados e energia limpa, resiliência urbana, restauração de pântanos e áreas florestais, a experiência da corporação da Califórnia indica que a resposta aos desastres num mundo em aquecimento vai desempenhar um papel cada vez mais fundamental em qualquer programa deste género – e que é algo que precisa de ser antecipado e planeado.

A carreira de bombeiro no departamento Cal Fire ou no Serviço Florestal dos EUA tornou-se numa meta importante para alguns dos membros da corporação. E há outras oportunidades de emprego no governo estadual que incluem trabalhos no Departamento de Transportes da Califórnia, em parques estaduais, no Departamento de Pesca e Vida Selvagem dos EUA ou até no sistema correcional. As empresas privadas de silvicultura, de energias limpas e de outras áreas também estão interessadas em contratar membros desta corporação.

“Os empregadores, quando veem a candidatura de uma pessoa que trabalhou no CCC, sabem que se trata de alguém que vai aparecer para trabalhar, existe esta consistência”, diz Bruce Saito. “Para além disso, são todos jogadores de equipa.”

Madeira a cair

No meio dos destroços queimados de Grover Hot Springs, este trabalho em equipa é novamente necessário. A supervisora da brigada, Renae Perez-Gallardo, pede ajuda quando uma árvore cortada fica presa nos ramos de outra árvore maior. “Corporação, reúnam-se”, grita outra pessoa, e os voluntários enlameados correm para ajudar.

O CCC de Franklin Roosevelt desenvolveu trabalho florestal, construiu estradas, alojamentos, trilhos e bancos em parques nacionais e estaduais por todo o país. Três milhões de homens, todos desempregados e praticamente todos brancos, participaram neste programa entre 1933 e 1942, quando a Segunda Guerra Mundial obrigou ao seu encerramento.

Fotografia por Corbis, Getty Images

Várias lonas e uma corda são lançadas estrategicamente sobre a Árvore #104. Quinze jovens começam a puxá-la, até que finalmente a árvore cai no chão da floresta. O som da queda é acompanhado por uma ovação coletiva.

Foi Renae Perez-Gallardo que ensinou John Alviso a trabalhar com a motosserra – e instruiu-o para direcionar o ângulo de queda de uma árvore com cortes estratégicos e um ponto de mira na serra. Quando questionado se quer ser bombeiro quando sair do CCC, John Alviso olha com admiração para a sua professora, que tem menos 30 centímetros que ele e é uma década mais velha.

“Eu quero fazer o que a Renae faz”, diz John Alviso. “Quero ter uma carreira a ajudar as pessoas a aprender.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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