A seca na região oeste dos EUA pode durar até 2030

Depois de um ano de 2021 brutalmente quente e seco, a região está agora a atravessar a pior “mega-seca” dos últimos 1.200 anos. A culpa é das alterações climáticas.

Publicado 23/02/2022, 16:32
Seca na região oeste dos EUA

Em junho de 2021, uma vaga de calor escaldante tornou as condições de seca em grande parte da região oeste dos EUA ainda piores. O calor e a seca continuam a stressar rios como o Colorado, dificultando a manutenção das centrais hidroelétricas.

Fotografia por Kyle Grillot, Bloomberg via Getty Images

Têm sido poucos os momentos de alívio na seca que já se estende desde o ano 2000 na região oeste dos Estados Unidos – 2011 foi rico em água, 2019 veio carregado de neve – mas estes intervalos só servem para realçar a característica mais dramática das últimas décadas: uma seca implacável.

Sem as alterações climáticas provocadas pelo homem, que forçam as temperaturas da Terra a subir, esta seca continuaria a ser complicada. Mas não seria invulgar no grande esquema dos últimos 1.200 anos. Um novo estudo publicado na revista Nature Climate Change mostra que o aquecimento do clima na Terra tornou a seca na região oeste dos EUA cerca de 40% mais severa, fazendo deste o período mais seco na região desde 800 d.C. E há uma probabilidade muito forte de a seca continuar até 2030.

“Esta seca não está apenas a arrastar-se, está a avançar a todo o vapor”, diz Park Williams, cientista climático da Universidade da Califórnia em Los Angeles e autor da nova investigação.

Humidade do solo em mínimos históricos

Durante milénios, a realidade climática mais proeminente no oeste dos EUA tem sido a de que as condições mudam. Alguns meses ou anos de humidade tornam as montanhas e os vales verdejantes, mas um período de seca pinta novamente tudo em tons de castanho.

A compreensão sobre o que controla esta variabilidade e respetiva relação com as alterações climáticas é extremamente importante para todas as pessoas que vivem nesta região que está à mercê de um ciclo de expansão e retração de água.

Park Williams e os seus colegas queriam perceber o quão intensa tem sido a seca atual em comparação com os eventos do passado por todo o sudoeste dos EUA, desde o norte do México até ao estado de Idaho. Em 2020, os investigadores publicaram um estudo que examinava 1.200 anos de seca regional conforme registada pelos padrões de crescimento das árvores.

As árvores registam o tempo e o clima nos seus anéis, depositando camadas mais grossas de madeira nos anos em que a humidade é abundante. Um ano stressante de seca ou calor extremo geralmente resulta num anel mais fino e pequeno – um sinal de que a árvore usou a sua energia para sobreviver em vez de crescer. Os cientistas usam os anéis das árvores para descobrir alterações históricas na temperatura, na precipitação e outras informações relevantes sobre o clima. Ao analisar os anéis de mais de 1.500 árvores por toda a região oeste dos EUA, algumas das quais já existiam no século IX, e compondo a história que estes anéis contavam, a equipa criou um mapa que representa a humidade do solo – uma forma de medir a intensidade da seca – de toda a região.

A humidade do solo é uma forma particularmente útil de avaliar a seca, diz Brad Udall, cientista climático da Universidade do Colorado. A maioria das pessoas não dá muita importância à humidade do solo, mas é “o reservatório do qual toda a vida depende”, diz Brad, porque sustenta as plantas, que são a base de todas as outras formas de vida.

Mas o ar quente e seco suga a humidade do solo. E se a chuva ou a neve não reabastecerem este reservatório invisível, o défice cresce, inchando uma espécie de balde vazio que tem de ser reabastecido para a água poder fluir para os rios, riachos e aquíferos. As investigações recentes mostram que nos anos com pouca humidade do solo, os rios e riachos fluem menos, “porque qualquer água disponível é simplesmente sugada pelo solo”, diz Brad Udall. Este é um problema enorme para o rio Colorado e outros cursos de água na região oeste, cujos fluxos têm diminuído para mínimos históricos nos últimos anos.

No seu artigo de 2020, Park Williams e os seus colegas relatam que, entre os anos 800 e 2018, houve 40 períodos de seca, quatro das quais foram “mega-secas” particularmente severas: a primeira no final dos anos 800, outra em meados dos anos 1100, outra em 1200 e uma quarta mega-seca – a mais intensa de que há registo – de 1575 até 1593.

Quando este estudo foi publicado, a seca atual parecia que iria ser classificada como uma das piores secas de que havia registo, mas não é exatamente assim: a quarta mega-seca no século XVI foi pior, e todas as mega-secas anteriores duraram mais. Mas o ano de 2019, quando os investigadores estavam a analisar os dados, foi um ano com humidade. “Acreditámos realmente que a seca ia acabar”, diz Park Williams.

Mas a seca não acabou: 2020 e 2021 foram anos ainda mais secos. O verão de 2021 trouxe vagas de calor históricas que sugaram qualquer vestígio de humidade do solo e os reservatórios de água desceram tanto que muitos agricultores receberam pouca ou nenhuma água para irrigar as suas plantações. Os escassos níveis de água nos principais reservatórios ao longo do rio Colorado provocaram cortes obrigatórios na quantidade de água que estados como o Arizona e o Nevada podem usar.

Quando Park Williams e os seus colegas adicionaram estes anos mais recentes à sua análise, ficou bastante claro que a seca atual é agora a mais seca de que há registo (embora ainda não seja a mais longa, já que várias das mega-secas anteriores duraram mais tempo). De facto, os registos mostram que 2002 e 2021 foram anos particularmente secos, dois dos anos mais secos no registo histórico, e que provavelmente foram os mais secos dos últimos 300 anos.

“Esta seca teria sido uma coisa de jardim”, diz Connie Woodhouse, cientista climática da Universidade do Arizona, que não esteve envolvida no estudo. “Mas com o aquecimento global... e isto é culpa nossa.”

Esquerda: Superior:

De acordo com os agricultores, a seca que atinge a região oeste dos EUA está a ter um impacto devastador na agricultura.

Fotografia por David Paul Morris, Bloomberg via Getty Images
Direita: Fundo:

Um homem caminha por casas que foram queimadas pelo chamado Incêndio Marshall, no dia 31 de dezembro de 2021, em Louisville, no Colorado. Os incêndios florestais são um efeito da seca severa na região oeste dos EUA.

Fotografia por Helen H. Richardson, MediaNews Group, The Denver Post, Getty Images)\

Alterações climáticas sobrecarregam seca extrema

As coisas podiam ser diferentes.

A equipa descobriu que as alterações climáticas provocadas pelo homem transformaram uma seca má numa seca terrível. Sem este empurrão extra das alterações climáticas, os últimos 20 anos teriam sido secos, ficando algures entre os 10 períodos mais secos dos últimos 1.200 anos.

Mas as alterações climáticas tornaram a atmosfera na região ainda mais quente e seca, e exacerbaram a perda de humidade do solo. As alterações climáticas foram responsáveis por cerca de 42% da secura do solo no período de 2000 até 2021 – tornando 2021 por si só cerca de 20% mais seco do que teria sido.

É aproximadamente o mesmo efeito encontrado por outros estudos que se focam nas alterações climáticas ao nível regional, diz Brad Udall. Por exemplo, estima-se que as alterações climáticas tenham provocado cerca de metade das perdas de fluxo no rio Colorado nos últimos anos – um efeito com enormes consequências no mundo real. A quantidade de água disponível para os estados dependentes do rio Colorado está agora a ser renegociada devido à escassez induzida pela seca. No Arizona, os agricultores já estão a reajustar as suas expectativas e práticas. O perigo de incêndio está em alerta máximo. Comunidades inteiras estão a reavaliar os seus planos hídricos.

As temperaturas globais aumentaram cerca de 1,1 graus Celsius desde o final do século XIX – até agora. Prevê-se que aumentem muito mais nas próximas décadas, a menos que os governos façam cortes rápidos e decisivos nas emissões de gases de efeito estufa.

Quando a equipa publicou a sua primeira análise há alguns anos, parecia que o fim da seca poderia estar para breve. Mas mesmo neste curto período de tempo, os efeitos intensificadores do aquecimento climático alteraram as circunstâncias do jogo. “(Os autores do estudo) só tiveram de esperar dois anos para perceber que aqueles valores recorde estavam agora a ser quebrados”, diz Danielle Touma, cientista climática do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica em Boulder, no Colorado. “É incrível a rapidez com que estamos a observar estes eventos tornarem-se cada vez mais extremos.”

Os tipos de impactos que os cientistas climáticos só esperavam ver daqui a décadas já estão a acontecer agora, acrescenta Danielle Touma.

Em 2021, um barco navegava perto das linhas que registam os níveis anteriores de água no lago Mead, no Nevada. O nível deste reservatório, na icónica Barragem Hoover, no sudoeste dos EUA, caiu para o nível mais baixo desde 1937, devido à pior seca a atingir a região em décadas.

Fotografia por Kyle Grillot, Bloomberg via Getty Images

Quando é que a seca vai terminar?

Ninguém sabe realmente quando é que esta seca vai terminar, mas se usarmos a história como referência, eventualmente vai acabar.

Porém, ao contrário do passado, o clima subjacente é agora muito mais quente e os efeitos da seca são muito mais profundos – e recuperar o défice de humidade no solo depois de mais de 20 anos de aridez vai ser mais difícil do que nunca.

“É pouco provável que a inércia de uma seca com esta magnitude seja interrompida por um ano de boa precipitação”, diz Park Williams. “Vamos precisar de vários anos com humidade para sair disto.”

Esta linha de pensamento é assustadora para muitos dos agricultores e outros que já esperam há anos para recuperar. Para avaliar a probabilidade de a região sair desta fase árida nos próximos anos, a equipa do estudo examinou os padrões húmido-seco nos vários trechos de secas no seu registo de 1.200 anos. E depois colocaram os padrões históricos em cima do estatuto atual para estimar as probabilidades de a seca durar mais um ano ou dois, ou até mais. A equipa repetiu este exercício várias vezes para ter uma noção mais apurada das probabilidades.

Sem as alterações climáticas na equação, havia uma probabilidade muito elevada de a seca durar até 2023: em 94% das simulações, a seca continuava até 2024, e em 33% das simulações durava até 2030. Contudo, a pressão adicional das alterações climáticas sobrepõe-se e, de repente, é muito mais provável (94%) que a seca se estenda para além de 2023. Em 75% das simulações, a seca dura até 2030.

“Isso seria completamente devastador”, diz Don Cameron, agricultor de San Joaquin Valley, na Califórnia. “Se durasse tanto tempo, iriamos ver a agricultura na Califórnia devastada. Não há outra forma de o dizer.”

As alterações climáticas têm remodelado a costa oeste dos EUA de uma forma tão profunda que já não basta pensar no que vai ser necessário para recuperar após esta seca, diz Danielle Touma.

“Talvez consigamos recuperar durante alguns anos. Mas vai haver sempre o ano seguinte, e vai ser um ano pior por causa da subida das temperaturas”, diz Danielle. “A questão é… como é que nos vamos adaptar a um mundo onde isso é ainda mais frequente e normal?”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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