Como a sobrepesca ameaça os oceanos mundiais – e como pode acabar em catástrofe

As décadas de exploração dos mares têm afetado o frágil equilíbrio dos ecossistemas marinhos – apesar dos esforços globais para mitigar os danos.

Por Amy McKeever, National Geographic
Publicado 9/02/2022, 11:26
Pesca

Um pescador recolhe uma rede cheia de peixe enquanto faz pesca de arrasto no Canal da Mancha. O aumento da pesca industrial levou à captura de animais selvagens com taxas demasiado elevadas, não dando tempo às espécies para recuperar. Atualmente, mais de um terço das reservas globais foram exploradas em excesso, representando uma ameaça para a biodiversidade e desequilibrando os ecossistemas de forma perigosa.

Fotografia por Jason Alden, Bloomberg/Getty Images

Os cientistas já soam o alarme há muito tempo sobre uma catástrofe iminente devido à sobrepesca oceânica – a captura de vida selvagem marinha com taxas demasiado elevadas, que não permitem a substituição das espécies. Contudo, os líderes globais estão há duas décadas num impasse em relação aos seus esforços para reverter os danos provocados.

Os cientistas marinhos sabem quando é que esta pesca excessiva se tornou extremamente abrangente. E têm noção de quando, se esta atividade não for travada, tudo irá terminar. Eis um olhar sobre as questões mais críticas da sobrepesca – desde os seus efeitos na biodiversidade aos poucos sucessos alcançados pelos esforços de mitigação.

As razões que alimentam a sobrepesca

O primeiro caso de sobrepesca aconteceu no início do século XIX, quando os humanos, à procura de gordura para obter óleo para a iluminação, dizimaram a população de baleias em torno de Stellwegen Bank, na costa de Cape Cod. Algum do peixe consumido nos Estados Unidos, incluindo bacalhau do Atlântico, arenque e sardinha da Califórnia, também foi explorado até à beira da extinção em meados do século XX. Estes esgotamentos isolados e regionais foram altamente perturbadores para a cadeia alimentar – que ficou ainda mais fragilizada no final do século XX.

Em meados do século XX, países de todo o mundo começaram a desenvolver as suas capacidades pesqueiras para garantir a disponibilidade e acessibilidade de alimentos ricos em proteínas. As políticas favoráveis, incluindo empréstimos e subsídios, geraram um rápido crescimento das grandes operações de pesca industrial, que rapidamente ultrapassaram os pescadores locais como a principal fonte mundial de alimentos vindos do mar.

Estas frotas comerciais enormes com fins lucrativos eram agressivas, e perscrutavam os oceanos mundiais enquanto desenvolviam tecnologias e métodos cada vez mais sofisticados para encontrar, extrair e processar as suas espécies alvo. Os consumidores rapidamente se habituaram a ter acesso a uma vasta seleção de peixes a preços acessíveis.

Mas em 1989, quando cerca de 90 milhões de toneladas de peixe foram retiradas do oceano, a indústria atingiu o seu ponto alto e os lucros começaram a cair ou a estagnar desde então. A pesca das espécies mais procuradas, como o robalo chileno e o atum-rabilho, entrou em colapso devido à falta de peixe. Em 2003, um relatório científico estimava que a pesca industrial tinha reduzido o número de grandes peixes oceânicos para apenas 10% da sua população pré-industrial.

(A pesca em alto mar é destrutiva e nada rentável.)

Como a sobrepesca afeta a biodiversidade

Perante o colapso das populações de peixes grandes, as frotas comerciais começaram a procurar mais fundo no oceano e mais abaixo na cadeia alimentar para encontrar capturas viáveis. Esta chamada “pesca para baixo” desencadeou uma reação em cadeia que está a perturbar o antigo e delicado equilíbrio do sistema biológico do mar.

Os recifes de coral, por exemplo, são particularmente vulneráveis à sobrepesca. Os peixes que comem plantas mantêm estes ecossistemas em equilíbrio, porque comem algas, mantendo assim o coral limpo e saudável para que este possa crescer. A pesca de muitos destes peixes – quer seja intencionalmente ou como captura acidental – pode enfraquecer os recifes e torná-los mais suscetíveis aos efeitos dos eventos climáticos extremos e das alterações climáticas. Os equipamentos e detritos derivados da pesca também podem destruir fisicamente os frágeis corais que compõem as fundações dos recifes.

A sobrepesca também pode afetar outras espécies marinhas. A pesca de arrasto, um método no qual os barcos puxam redes enormes atrás de si pela água, atrai mais do que apenas camarão e atum-rabilho – este método captura praticamente qualquer coisa no seu caminho. Tartarugas marinhas, golfinhos, aves marinhas, tubarões e outros animais têm enfrentado ameaças existenciais enquanto capturas acessórias.

Esforços para prevenir a sobrepesca

Ao longo dos anos, à medida que as operações pesqueiras iam capturando cada vez menos, os humanos começaram a compreender que os oceanos, considerados infinitamente vastos e ricos, eram de facto altamente vulneráveis. Em 2006, um estudo sobre os dados de captura publicado na revista Science previa que, se estas taxas insustentáveis de pesca continuassem, todas as pescarias do mundo entrariam em colapso até ao ano de 2048.

Muitos cientistas alegam que a maioria das populações de peixes pode ser restaurada com uma gestão agressiva da pesca e uma aplicação reforçada das leis que regem as capturas, incluindo a instituição de limites para a captura. Um foco maior na aquicultura também pode ajudar. E em muitas regiões há motivos de esperança.

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) – que estabelece padrões internacionais para a gestão pesqueira – referiu no seu relatório de 2020 que houve um ligeiro aumento na percentagem de reservas que estão a produzir de forma sustentável o máximo de alimentos possível, que é exatamente o objetivo da gestão pesqueira.

Ainda assim, há vários desafios pela frente. Cerca de um terço das reservas globais são alvo de sobrepesca – e a proporção geral de reservas de peixe com níveis sustentáveis tem continuado a diminuir. O relatório da FAO diz que esta deterioração das reservas de peixe pode ser observada em particular “em locais onde a gestão pesqueira não está em vigor ou é ineficaz”. Entre as áreas monitorizadas pela ONU, o Mediterrâneo e o Mar Negro apresentaram a maior percentagem de reservas – 62.5% – exploradas com níveis insustentáveis.

Conseguimos travar a sobrepesca?

Os subsídios governamentais dados à indústria pesqueira continuam a ser um desafio significativo na tentativa de reverter esta tendência preocupante. Uma sondagem feita ao nível global descobriu que, em 2018, as nações mundiais gastaram 22 mil milhões de dólares nos chamados subsídios nocivos que alimentam a sobrepesca – um aumento de 6% em relação a 2009.

Tal como foi reportado pela National Geographic na altura, os subsídios nocivos são aqueles que financiam práticas que de outra forma não seriam lucrativas, como os custos do combustível dos arrastões industriais. A China, por exemplo, aumentou os seus subsídios nocivos em 105% na última década.

Os membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) já discutem formas de limitar estes tipos de subsídios desde 2001 – com poucos progressos. E apesar das promessas feitas pelos países membro das Nações Unidas para delinear um acordo até 2020, a data passou e não houve resoluções.

Em 2021, Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da OMC, pediu aos países membros para chegarem a um acordo, argumentando que “se não o fizessem iriam comprometer a biodiversidade do oceano e a sustentabilidade das reservas de peixe das quais tantos dependem para fins de alimentação e rendimento”.

Não se sabe se as nações irão ter vontade política para seguir em frente. Mas sabe-se que esta é uma das inúmeras medidas críticas para salvar os oceanos mundiais.

Nota editorial: Este artigo foi publicado originalmente no dia 27 de abril de 2010 e os dados foram agora atualizados.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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