Glaciar mais alto do Evereste perdeu dois mil anos de gelo em apenas três décadas

A descoberta surpreendente de que o gelo de maior altitude da Terra pode ter desaparecido em poucas décadas é “um verdadeiro alerta”.

Por Kieran Mulvaney
Publicado 11/02/2022, 11:41
Mariusz Potocki e uma equipa de xerpas perfuram o núcleo de gelo de maior altitude alguma ...

Mariusz Potocki e uma equipa de xerpas perfuram o núcleo de gelo de maior altitude alguma vez recuperado, com o cume do Evereste em pano de fundo. Este núcleo revelou que 2.000 anos de gelo do Evereste desapareceram em cerca de 30 anos.

Fotografia por Dirk Collins

É inegável que as alterações climáticas já chegaram ao teto do mundo no Monte Evereste: o glaciar de maior altitude na montanha mais alta da Terra está a perder décadas de gelo anualmente, de acordo com um novo estudo feito por investigadores que extraíram um núcleo de gelo do glaciar.

O estudo, publicado na Nature Portfolio Journal Climate and Atmospheric Research, descobriu que o Glaciar do Colo Sul do Evereste, o trajeto usado pelos alpinistas para chegar ao cume, pode ter perdido metade da sua massa desde a década de 1990 devido à subida das temperaturas na região. E o gelo pode desaparecer completamente em meados deste século.

Esta descoberta é fruto da Expedição Evereste Perpetual Planet feita em 2019 com o apoio da National Geographic e da Rolex, que reuniu 34 cientistas internacionais e nepaleses, vários sherpas e enfrentou uma série de desafios logísticos.

A expedição foi abrangente nas investigações e, juntamente com o núcleo de gelo, também incluiu a recolha de amostras biológicas, a criação de um mapa de alta resolução e um estudo da qualidade da água, bem como da história dos glaciares do Evereste, diz Paul Mayewski, cientista e líder da expedição. A equipa também instalou cinco estações meteorológicas (duas delas nas elevações mais altas do mundo).

“Foi a experiência científica mais completa alguma vez realizada no lado sul do Evereste”, diz Paul Mayewski.

De acordo com o montanhista Ryan Waters, que escalou o Evereste seis vezes, mas que não participou neste estudo, o Glaciar do Colo Sul oferece uma vista impressionante para os alpinistas que se aproximam do estágio final da sua escalada. “Rapidamente observamos a neve e o gelo do glaciar a descer do Evereste por cima do acampamento de alta altitude”, diz Ryan.

Este glaciar foi um dos focos da expedição porque os glaciares de montanha pelo mundo inteiro estão a recuar rapidamente devido às alterações climáticas. Mas, segundo Paul Mayewski, glaciologista e diretor do Instituto de Alterações Climáticas da Universidade do Maine, há relativamente pouca informação sobre os glaciares de alta altitude.

“E uma das questões era: à medida que subimos tão alto, obviamente que fica muito mais frio. Portanto, será que os glaciares do Evereste, alguns em elevações de 8000 metros, que é onde fica o Colo Sul, também estão a recuar?”

Paul Mayewski com uma amostra de gelo recolhida no Acampamento Base do Evereste.

Fotografia por Rebecca Hale, National Geographic

Recolher amostras no glaciar mais alto

Um dos componentes vitais da investigação passava pela extração de um pedaço cilíndrico de gelo do glaciar, numa altitude cerca de 1000 metros superior àquela onde o núcleo de gelo mais alto tinha sido recolhido. Este processo exigia adaptações no equipamento de perfuração para ser o mais leve possível, de maneira a poder ser transportado manualmente montanha acima e operar no ar rarefeito. Embora a equipa já tivesse realizado testes em condições de frio extremo no Maine, na Islândia e nos Himalaias, não havia garantias de que o equipamento iria funcionar quando fosse realmente necessário.

“Foi de facto muito stressante”, diz Mariusz Potocki, glaciologista químico e doutorando da Universidade do Maine, que recolheu o núcleo. “Foi um alívio quando funcionou.”

Os resultados, porém, chocaram Mariusz Potocki e a equipa. Quando o núcleo de gelo com 10 metros foi analisado, a datação por radiocarbono revelou que o gelo na superfície tinha aproximadamente 2.000 anos. Por outras palavras, qualquer gelo que tenha sido depositado no glaciar nos últimos dois milénios simplesmente desapareceu. O núcleo contém as camadas de crescimento anual de gelo – um pouco como os anéis das árvores – e ao medir a sua espessura, a equipa calculou que, assumindo que a taxa de colocação de gelo permaneceu consistente ao longo do tempo, perderam-se aproximadamente 55 metros de gelo.

Estes frascos contêm amostras derretidas de uma fatia de todos os núcleos recolhidos no Evereste. O gelo derretido vai ser submetido a análises químicas.

Fotografia por Rebecca Hale, National Geographic

Com base nas medições que avaliam a subida da temperatura e o degelo noutras partes dos Himalaias, os investigadores estimam que a maior parte desta perda tem ocorrido desde a década de 1990. Paul Mayewski diz que, se esta taxa de degelo continuar, o Glaciar do Colo Sul provavelmente irá desaparecer em poucas décadas. “É uma transição bastante notável.”

Os resultados podem ter surpreendido os cientistas, mas refletem o que alpinistas como Ryan Waters e outros já observam há anos, não apenas no Glaciar do Colo Sul, mas em todo o lado nos Himalaias.

“Desde a primeira vez que visitei os Himalaias, há 20 anos, que me apercebo que muitos dos glaciares no Evereste e áreas circundantes têm mudado bastante”, diz Ryan Waters. “A cascata de gelo de Khumbu também mudou bastante ao longo destes anos, portanto não se trata apenas do glaciar mais alto de todos, aparentemente são todos.”

O que está a acontecer?

Os investigadores argumentam que o degelo provavelmente é acelerado por um processo chamado sublimação, no qual a neve e o gelo evaporam sem passar pela fase de água líquida. A sublimação é comum nos climas frios e secos, principalmente em grandes altitudes, que recebem muita luz solar e ventos fortes – todos estes elementos estão presentes no Evereste. E este efeito é exacerbado no Glaciar do Colo Sul, explica Mariusz Potocki, devido à perda quase completa da cobertura de neve na superfície do glaciar.

A neve tem uma albedo elevada, ou seja, reflete a maior parte da radiação solar de regresso para a atmosfera. “Se perdermos a neve fresca, o gelo fica mais escuro e só absorve mais radiação solar, pelo que o degelo e a sublimação parecem intensificar e a perda de gelo aumenta”, diz Mariusz.

“O Mariusz e eu já perfurámos amostras de gelo pelo mundo inteiro e desenvolvemos o equipamento de perfuração para esta expedição com a ideia de que provavelmente iria perfurar neve e gelo”, diz Paul Mayewski. “Foi um choque ver aquela superfície de gelo exposta.”

Para Paul Mayewski, esta descoberta vem juntar-se a um catálogo cada vez maior de evidências de que as alterações climáticas estão a mudar fundamentalmente até as áreas mais remotas do mundo.

“Sabemos que os oceanos estão poluídos – sabemos que estão a aquecer e a acidificar. Sabemos que há momentos, mesmo no pico do inverno, em que as massas de ar quente atingem o Polo Norte e as temperaturas sobem acima de zero. Sabemos que há determinadas épocas no verão em que toda a superfície do manto de gelo da Gronelândia está a derreter”, diz Paul.

 “E agora temos evidências de que até o glaciar mais alto na montanha mais alta do mundo está a perder rapidamente o seu gelo. Portanto, sim, é um verdadeiro alerta.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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