Cientistas estão a remover ‘ervas daninhas’ marinhas dos recifes de coral

As alterações climáticas estão a ameaçar os corais do planeta, mas a remoção de algas marinhas – como a monda de um jardim – pode estimular alguns recifes.

Por Sarah Gibbens
Publicado 7/03/2022, 15:09
Limpeza da Grande Barreira de Coral

Na Grande Barreira de Coral, um choco patrulha os corais que sobreviveram ao stress das altas temperaturas da água. Num sistema de recife saudável, as algas marinhas crescem moderadamente, mas conforme a poluição e as águas mais quentes ameaçam a sobrevivência dos corais, as algas marinhas podem engolir o recife.

Fotografia por David Doubilet, Nat Geo Image Collection

Ao largo da costa nordeste de Queensland, na Austrália, perto da Ilha Magnetic em Florence Bay, os corais da Grande Barreira de Coral estão a ter um baby boom.

“Todos os anos há cada vez mais e mais corais bebés”, diz a exploradora e ecologista da National Geographic, Hillary Smith, da Universidade James Cook, na Austrália.

Isto deve-se a uma estratégia simples, mas eficaz, de limpeza dos recifes de coral da região: “monda marinha”. Tal como acontece com a monda de um jardim – quando se limpa as ervas daninhas – este processo envolve arrancar grandes punhados de algas grandes, ou algas sargaço neste caso, dos recifes e transportá-las para longe.

Quando as ervas daninhas crescem no solo de um jardim, podem abusar do seu quinhão de água e luz solar, impedindo o crescimento das flores. Os recifes de coral, desgastados por atividades humanas como a poluição e a subida das temperaturas do oceano, também podem ser engolidos por algas marinhas que dificultam o crescimento dos corais.

Os especialistas dizem que controlar as alterações climáticas é fundamental para manter os recifes saudáveis. Mas, enquanto isso, os esforços locais de restauração, como a remoção de algas marinhas, podem ajudar a estimular a saúde dos corais. Hillary Smith diz que, embora só seja necessário um pequeno exército de cientistas cidadãos para cuidar de todos os recifes que precisam de limpeza, as investigações mostram que há potencial para escalar estes esforços e abranger as comunidades costeiras que dependem de recifes saudáveis para o turismo e a pesca.

Hillary Smith e os seus colegas publicaram recentemente uma investigação na revista Restoration Ecology. Entre as várias descobertas encorajadoras, os investigadores determinaram que a limpeza dos corais na Grande Barreira de Coral triplicou o número de corais bebés, conhecidos por recrutas, em 2019 e 2020.

A saúde dos recifes de coral em todo o mundo é muito precária. Em 2050, 95% dos corais mundiais poderão sofrer stress térmico, de acordo com um relatório de 2020 da Rede de Monitorização de Recifes de Coral. As algas são um dos grandes problemas: a cobertura de algas já aumentou em dois terços dos recifes de todo o mundo, e um estudo publicado em 2021 estimava que metade dos corais mundiais já tinha morrido desde a década de 1950. A remoção de algas marinhas dos recifes é árdua, mas não é complicada, tornando-a num projeto ideal para os cientistas cidadãos que estão ansiosos para ajudar a restaurar os recifes degradados.

“Estamos muito otimistas em relação a este tipo de iniciativa”, diz Fiona Wilson, CEO do grupo de ciência cidadã Earthwatch Institute, cujos voluntários ajudaram na remoção de algas marinhas. “Esta é uma forma realmente viável, e de baixa tecnologia, para apoiar na recuperação dos recifes, e isso é muito entusiasmante para os recifes de todo o mundo.”

Fiona Wilson acrescenta que a ciência cidadã é uma ferramenta poderosa para ajudar a combater a ansiedade e o receio em torno do clima.

“Estamos a ligar as pessoas à questão mais crítica do nosso tempo – as alterações climáticas”, diz Fiona. “A ação é o antídoto para esta crise quase existencial.”

É como fazer a monda a um jardim

A Ilha Magnetic – com o apelido Maggie – é um parque nacional com pouco mais de 50 quilómetros quadrados, no Mar de Coral, a oito quilómetros da costa de Queensland. Do outro lado de Maggie, no continente, fica a cidade de Townsville, a jusante de um rio e lar de uma importante zona portuária. Ao longo do século XX, o desenvolvimento humano e a poluição criaram condições subaquáticas mais hospitaleiras para as algas robustas do que para os frágeis corais.

Atualmente, a poluição interminável e o aquecimento das águas provocado pelas alterações climáticas continuam a ser uma fonte crónica de stress para este ecossistema, e os recifes da Ilha Magnetic foram classificados como alguns dos mais danificados no sistema da Grande Barreira de Coral, diz Hillary Smith. Contudo, dada a sua localização, também são alguns dos recifes mais acessíveis neste mesmo sistema.

À medida que a cobertura de corais tem diminuído ao longo dos anos, uma espécie de alga marinha chamada sargaço, que forma um manto espesso e castanho de “ervas daninhas”, tem-se estabelecido sobre os antigos recifes, dificultando a reprodução e o crescimento de corais.

“Se mergulharmos no recife, parece uma floresta de algas”, diz Hillary. “É enorme.”

Quando a cobertura das algas marinhas é muito espessa, as pequenas larvas de coral podem ter dificuldades em navegar por este dossel subaquático, enquanto tentam encontrar um lar no recife. As que conseguem estabelecer-se podem ficar demasiado sombreadas para crescer em condições, ou podem ser arranhadas por algas flutuantes e até serem prejudicadas pelos químicos e patógenos que o sargaço contém naturalmente.

Para testar se a remoção de algas marinhas fazia alguma diferença para o recife, Hillary Smith e a sua equipa usaram o processo de remoção em 12 parcelas submarinas com cerca de 25 metros quadrados cada, variando entre os 3 e os 5 metros de profundidade. Os mergulhadores voluntários removeram mais de 85 quilos de algas marinhas, incluindo 90% das algas maiores que crescem sobre os recifes.

“É muito simples. É como arrancar as ervas daninhas do jardim. Basta agarrar e puxar”, diz Hillary Smith, acrescentando que os especialistas supervisionam a “monda” para garantir que os voluntários não ficam demasiado entusiasmados e danificam os corais.

Hillary diz que em 2018, quando o projeto começou, os investigadores não sabiam se a remoção de algas beneficiaria o recife ou se este processo poderia até ter efeitos adversos.

“Mas agora parece tudo positivo para o recife”, diz Hillary, acrescentando que os dados que ainda não foram publicados mostram que os novos corais continuam a aumentar.

Os voluntários estão prontos e aguardam para ajudar perto de Townsville e noutros recifes australianos afetados, diz Fiona Wilson, do Earthwatch Institute.

“Precisamos de muitas pessoas dispostas a remover algas marinhas. Isto demora semanas”, diz Fiona. A limpeza de apenas cerca de 5 metros quadrados de recife demora três dias. “[Mas] como é óbvio, a recuperação da Grande Barreira de Coral é uma paixão para muitas pessoas, e isso atrai voluntários.”

Ganhar tempo

Apesar de a Grande Barreira de Coral já ter sofrido eventos de branqueamento em massa, também tem permanecido relativamente saudável em comparação com outros recifes, como os encontrados no Mar das Caraíbas e na costa da Flórida.

“Creio que podemos olhar para os recifes da Flórida quase como se fossem uma janela para o futuro da Grande Barreira de Coral”, diz Jason Spadaro, ecologista de recifes de coral do Laboratório e Aquário Marinho MOTE, na Flórida, que não esteve envolvido no estudo costeiro feito em Queensland.

“Muito do que vemos em grande parte das Caraíbas é menos coral, mais esponjas e inúmeras algas. É uma sombra do que era”, diz Jason Spadaro.

“Porém, como a destruição de corais nas Caraíbas e na Flórida é mais abrangente, a remoção manual das algas seria um processo irrealisticamente dispendioso.” Quando Jason e os seus colegas realizaram estudos semelhantes sobre o efeito da remoção de algas em recifes, descobriram que, sem a introdução de espécies que comam algas marinhas nos recifes danificados, como ouriços, caranguejos e peixes, as algas voltam simplesmente a crescer.

E apesar de as pessoas poderem ajudar a remover as algas sargaço – as algas estudadas na Austrália que são fáceis de arrancar – há outros tipos de algas marinhas que apresentam outros desafios.

Em alguns recifes das Caraíbas em torno das Ilhas Virgens dos EUA, Jamaica e Honduras, um tipo de macroalga de crescimento extremo agarra-se aos recifes degradados como se fosse uma carpete. “Para remover as algas, seria necessário esculpi-las do recife”, diz Bryan Wilson, especialista em recifes de coral da Universidade de Oxford, que não esteve envolvido no estudo de Hillary Smith.

Bryan Wilson está mais interessado no aumento dos chamados “recrutas” larvais registado no estudo de Hillary Smith e dos seus colegas. Mas Bryan adverte que a maior ameaça existencial para os recifes são as alterações climáticas provocadas pelo homem, “e para as quais só uma redução ao nível planetário nos distúrbios antropogénicos irá resultar em qualquer mudança significativa”.

“É a dura realidade dos recifes de coral em todo o mundo”, acrescenta Hillary Smith.

“Receio que não haja nada que consiga restaurar os recifes até um estado pré-industrial, porque as pressões das alterações climáticas e as dragagens ao nível local não vão desaparecer”, diz Hillary. “A restauração é uma espécie de penso rápido para ganhar algum tempo para as ações em larga escala que visam as emissões, e algo que pode ser implementado localmente para os recifes mais valiosos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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