Espécies de coral resilientes ao clima oferecem esperança aos recifes do planeta

Um novo estudo descobriu que há dois construtores comuns de recifes que conseguem lidar com 2 graus de aquecimento global.

Por Sarah Gibbens
Publicado 16/03/2022, 11:34
Coral lóbulo no recife Kingman

Um ecologista estuda um antigo coral lóbulo no recife Kingman, localizado entre o Havai e a Samoa Americana, no Oceano Pacífico. Um novo estudo indica que o coral lóbulo consegue sobreviver a uma quantidade limitada de alterações climáticas.

Fotografia por Brian Skerry, National Geographic Image Collection

Duas das espécies de corais construtores de recifes mais omnipresentes no mundo parecem surpreendentemente capazes de sobreviver e até de lidar com as alterações climáticas, de acordo com um novo estudo – pelo menos enquanto o aquecimento global for mantido abaixo dos 2 graus Celsius, a meta estabelecida pelo Acordo de Paris.

“Encontrámos esperança”, diz Rowan McLachlan, especialista em corais da Universidade de Oregon e autora principal do estudo publicado na Nature Scientific Reports

Recentemente, esperança tem sido uma coisa escassa para os recifes de coral. Devido às emissões de gases com efeito de estufa provocadas pelo homem, os recifes têm enfrentado águas cada vez mais quentes, vagas de calor marinhas mais intensas e um oceano cada vez mais ácido. Tudo isto vem juntar-se ao stress local provocado pela poluição e sobrepesca.

Até agora, o planeta aqueceu 1,1 graus e os recifes de coral já enfrentam mortes em massa. A Grande Barreira de Coral, o maior sistema de recifes do mundo, está atualmente em “crise”, segundo um relatório da ONU publicado recentemente. Este mesmo relatório, feito pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), alerta que alguns ecossistemas de recifes de coral podem enfrentar danos irreversíveis se o mundo aquecer mais de 1,5 graus. Um relatório de 2018 do IPCC concluía que com 2 graus ou mais de aquecimento, poderíamos perder 99% de todos os corais construtores de recifes – o que significa que os recifes de corais vivos basicamente desapareceriam do planeta.

Mas não foi isso que Rowan McLachlan e os seus colegas observaram quando submeteram os corais havaianos a um mundo simulado de 2 graus durante quase dois anos. Os investigadores descobriram que duas espécies comuns de corais são particularmente resistentes: dois terços destes corais sobreviveram ao futuro simulado.

“Estávamos à espera de ver mais mortalidade, de ver os corais com dificuldades”, diz Rowan McLachlan. “Ficámos extremamente chocados. Tiveram uma sobrevivência muito elevada.”

Ao que parece, dentro de determinados limites, alguns corais conseguem suportar um mundo mais quente.

Simular os oceanos do amanhã

Os oceanos absorvem parte do calor acumulado na atmosfera. As vagas de calor, que são exacerbadas pelas alterações climáticas, levam os corais a expelir as algas simbióticas que os nutrem – um efeito conhecido por branqueamento de corais, algo que os pode matar. Enquanto isso, os oceanos também absorvem parte do excesso de dióxido de carbono presente na atmosfera, acidificando a água do mar e enfraquecendo os esqueletos dos corais.

Em 2014 e 2015, as vagas de calor marinhas mataram mais de um terço dos corais nos recifes de coral do Havai. No final de 2015, para descobrir mais sobre a forma como o aquecimento e a acidificação poderiam comprometer os recifes, Rowan McLachlan e os seus colegas visitaram quatro recifes em diversos locais em torno de Oahu. Com um martelo e um cinzel, os investigadores recolheram amostras de três espécies comuns de corais: coral arroz, coral dedo e coral lóbulo.

Os investigadores colocaram os corais em tanques de 70 litros – não num laboratório, como fizeram outras experiências sobre a resiliência de corais, mas sim na Ilha do Coco, onde ficariam expostos ao mesmo clima que um recife costeiro. A equipa encheu um total de 40 tanques com areia, cascalho, peixes de recife, plâncton e outras características de recifes. A ideia era simular as condições do oceano da forma mais realista possível.

“É por isso que a nossa experiência é diferente”, diz Rowan McLachlan. “É mais informativa sobre a forma como os recifes havaianos podem realmente responder [às alterações climáticas].”

E também é a experiência mais longa com corais alguma vez realizada, acrescenta Rowan.

Durante 22 meses, os investigadores submeteram uns corais a 2 graus de aquecimento, outros a água acidificada e outros a ambas as condições. Um quarto conjunto de tanques foi deixado completamente intocado para servir de controlo.

Os tanques onde foi testado o aquecimento e a acidificação do oceano em conjunto foram as simulações mais realistas do futuro, diz Andréa Grottoli, biogeoquímica de corais da Universidade de Ohio e autora sénior do estudo. Em todos os tanques, Andréa Grottoli e os seus colegas monitorizaram um conjunto de indicadores fisiológicos para observar a resposta dos corais ao ambiente ao longo do tempo – e os resultados eram animadores.

“Observámos um arco a longo prazo onde havia respostas de stress, mas passado muito tempo houve uma aclimatização”, diz Andréa Grottoli. Isto sugere que, com tempo suficiente para se adaptarem ao ambiente, alguns corais podem sobreviver às condições stressantes provocadas pelas alterações climáticas.

No geral, entre os corais expostos a ambas as condições, a taxas de sobrevivência foram de 46% para o coral arroz, 56% para o coral lóbulo e 71% para o coral dedo. Muitos dos corais até estavam a prosperar.

“Os corais não estavam em dificuldades. E duas das três espécies estavam a dar-se muito bem”, diz Andréa Grottoli, referindo que a equipa pode ter subestimado a resiliência da terceira espécie, o coral arroz. Os corais arroz são nutridos não apenas pelas suas algas simbióticas, mas também pela ingestão de zooplâncton, mas nas experiências foram alimentados com menos zooplâncton do que obteriam normalmente na natureza.

“Este estudo confirma o que foi observado no Havai”, diz Ku'ulei Rodgers, especialista em corais da Universidade do Havai, em Manōa, que monitoriza os recifes deste estado e não esteve envolvida no estudo.

“No entanto, à medida que as temperaturas continuam a aumentar, existe um limite para a proteção conferida pela aclimatização na luta contra o branqueamento”, diz Ku'ulei Rodgers através de email, salientando que a vaga de calor marinha de 2014-2015 no Havai também matou muitos corais lóbulo e dedo.

“É esperançoso que algumas espécies consigam sobreviver a este século, porém, a menos que testemunhemos reduções dramáticas nas emissões, os corais vão acabar por perder a luta pela sobrevivência”, diz Ku'ulei Rodgers. As políticas atuais para reduzir as emissões colocam o mundo a caminho de um aquecimento a rondar os 2,7 graus até ao final do século, de acordo com o Climate Action Tracker – substancialmente acima dos 2 graus simulados por Rowan McLachlan e os seus colegas.

Apesar de muitos dos corais terem sobrevivido à experiência, o calor extremo continua a forçar os recifes até ao limite. Nesta imagem, cabeças saudáveis de coral lóbulo, Porites lobata, estão rodeadas por coral arroz branqueado, Montipora capitata, que foi enfraquecido por uma vaga de calor marinha.

Fotografia por Doug Perrine, Alamy Stock Photo

O que significam estas descobertas para os recifes?

O coral arroz é comum por todo o Havai e nas águas do Pacífico norte e central. Mas o coral dedo e o coral lóbulo são encontrados nos oceanos Pacífico e Índico, e a sua capacidade de sobreviver pode ser um sinal de que os recifes de coral no futuro poderão recuperar, diz o estudo. O coral lóbulo, em particular, é um construtor essencial de recifes no Oceano Pacífico.

Alan Friedlander, ecologista de recifes de coral da Universidade do Havai, que não esteve envolvido no estudo, argumenta que são necessárias mais áreas marinhas protegidas para garantir que estes corais resistentes ao clima não são afetados pela poluição e degradação locais. Alan Friedlander é cientista-chefe da iniciativa Pristine Seas da National Geographic, projeto que promove áreas marinhas protegidas.

“Este trabalho mostra que os recifes de coral podem sobreviver e até prosperar no futuro se conseguirmos reduzir as emissões de dióxido de carbono e gerir os focos locais de stress, como a sobrepesca e os efeitos da sedimentação e poluição”, diz Alan Friedlander por email.

“Sem os pontos locais de stress, há esperança para o futuro”, diz Rowan McLachlan. “Se não conseguirmos mitigar os efeitos locais de stress, o resultado para os corais será muito pior.”

Contudo, as descobertas de Rowan também podem fornecer um suporte para formas mais proativas de gestão de recifes.

Dado o estado terrível em que os corais se encontram atualmente, alguns conservacionistas argumentam que já não chega apenas protegê-los da poluição e da pesca, ou deixá-los em paz – é necessário um trabalho ativo de restauração. Saber que uma espécie de coral como o coral lóbulo consegue sobreviver às alterações climáticas significa que este é um candidato para os projetos de restauração que selecionam corais resistentes e plantam-nos em recifes degradados, sugere Andréa Grottoli.

“Introduzir um coral noutro lugar é agora o menor de dois males”, diz Andréa. “Alguns conservacionistas nem sequer considerariam este tipo de conversa há uma década atrás.”

Conforme a humanidade enfrenta dificuldades para eliminar as emissões de gases com efeito de estufa que podem condenar os recifes de coral em todo o mundo, os corais resilientes ao clima podem oferecer uma esperança de salvação para o futuro.

“Temos uma oportunidade para manter os sistemas de recifes durante tempo suficiente para que, quando o aquecimento abrandar, os recifes consigam recuperar”, diz Andréa Grottoli. “Temos uma janela para agir.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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