Relatório da ONU diz que as alterações climáticas estão a afetar a nossa saúde

Se não controlarmos as emissões de carbono, três quartos da população mundial podem ficar expostos ao stress das temperaturas até 2100, segundo o IPCC.

Por Sarah Gibbens
Publicado 3/03/2022, 12:18
Mulher desmaiada devido ao calor

No deserto da região oeste do Paquistão, uma mulher desmaia devido ao calor. As alterações climáticas estão a gerar vagas de calor mais intensas e frequentes, mas os cientistas dizem que podemos tomar medidas hoje para nos adaptarmos à subida das temperaturas.

Fotografia por Matthieu Paley, Nat Geo Image Collection

Quando uma vaga de calor sem precedentes atingiu o noroeste do Pacífico no verão passado, o departamento de emergência do Centro Médico de Harborview, em Seattle, começou a receber pacientes a um ritmo que não era registado desde os primeiros dias da pandemia de COVID-19, diz o médico Jeremy Hess.

“Foi a primeira vez em que senti que fazia parte de uma equipa de resposta ativa às alterações climáticas”, diz Jeremy, que também é investigador de saúde pública da Universidade de Washington. “Pessoalmente, foi um bocado triste.”

Esta “cúpula de calor” de 2021 resultou em mais de 1.000 mortes nos EUA e Canadá. Um estudo publicado um mês depois descobriu que este evento teria sido “praticamente impossível” sem as alterações climáticas.

O calor é apenas um exemplo de como as alterações climáticas estão a colocar vidas humanas em perigo, de acordo com um relatório abrangente publicado na segunda-feira pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU. Este relatório amplo, do qual Jeremy Hess é coautor, descreve como as alterações climáticas já nos estão a afetar e como nos podemos adaptar, abordando tudo, desde a agricultura ao desenvolvimento urbano.

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As emissões de dióxido de carbono, metano e outros gases de efeito estufa já aqueceram o globo em 1,1 graus Celsius. Com 1,5 graus de aquecimento, algo que neste momento será extremamente difícil de evitar, as consequências tornam-se ainda mais terríveis e algumas das estratégias de adaptação tornam-se menos eficazes.

As consequências diretas da nossa inação para a saúde humana serão graves e também irão agravar as desigualdades sociais, diz o relatório. Os que menos contribuíram para as alterações climáticas – indivíduos com salários baixos e nações em desenvolvimento – vão sofrer o impacto do calor extremo, das doenças transmitidas por vetores e uma saúde mental precária.

“É urgente aumentarmos os investimentos e fortalecermos os nossos sistemas de saúde”, diz Kristie Ebi, autora do relatório e especialista em saúde global da Universidade de Washington. “Já estamos a ver pessoas a morrer por causa das alterações climáticas e, a menos que nos adaptemos, mais pessoas irão morrer.”

O relatório acrescenta que atualmente cerca de 33% da população mundial já está exposta ao stress das temperaturas. Dependendo do tipo de ações adotadas para limitar as emissões, estes valores podem abranger entre 48% a 76% da população até 2100.

Conclusões do relatório

O relatório do IPCC é elaborado por alguns dos cientistas de topo do mundo, especialistas na sua área que fazem as revisões científicas das investigações mais recentes sobre alterações climáticas. O relatório representa o estado atual das alterações climáticas e oferece um prognóstico de como estas irão mudar as condições de vida no futuro.

O último relatório do IPCC que se concentrou em quem sofre os impactos das alterações climáticas e em como nos devemos adaptar foi publicado em 2014 e, desde então, os cientistas já reuniram muito mais evidências sobre a forma como as emissões estão a alterar o clima, podendo afirmar com mais confiança que as alterações climáticas estão a provocar desastres e doenças mortais. O capítulo sobre saúde deste relatório citava mais de 1.600 fontes.

Desde calor extremo, inundações, agravamento das tempestades, seca, poluição do ar devido aos incêndios florestais, proliferação de doenças transmitidas por vetores, como o vírus do Nilo Ocidental e a malária – o relatório é claro, diz Robert McLeman, um dos autores do relatório e cientista ambiental da Universidade Wilfrid Laurier, no Canadá. “Os riscos para o bem-estar humano são tremendos.”

Pela primeira vez, o relatório detalha o impacto das alterações climáticas na saúde mental. Os desastres naturais e as secas prolongadas estão cada vez mais a ser associadas ao transtorno de stress pós-traumático, ansiedade e depressão.

O relatório também sublinha que o calor extremo tem ficado mais intenso nas cidades, aumentando substancialmente o risco de morte por calor para os habitantes de bairros de baixo rendimento e principalmente para os indivíduos sem habitação.

O perigo de morte do calor

As vagas de calor matam mais pessoas anualmente do que qualquer outro tipo de clima. Um estudo publicado no verão passado descobriu que mais de um terço de todas as mortes relacionadas com o calor podem agora estar diretamente ligadas às alterações climáticas.

“Os humanos são animais tropicais. Evoluímos a partir um lugar quente no mundo”, diz Larry Kenney, fisiologista da Universidade da Pensilvânia que não participou no relatório do IPCC. “Em geral, os humanos conseguem suportar temperaturas muito elevadas durante um curto período de tempo, desde que consigamos suar e esse suor possa evaporar.”

Mas o suor não consegue evaporar quando a humidade é demasiado elevada – e à medida que o planeta aquece, mais pessoas correm o risco de ficarem expostas a combinações perigosas de calor e humidade. Nas experiências feitas recentemente, Larry Kenney encontrou evidências de que o limite letal pode ser significativamente mais baixo do que se pensava anteriormente.

Larry e os seus colegas monitorizaram as temperaturas corporais internas de indivíduos saudáveis enquanto estes caminhavam numa passadeira ou estavam sentados numa sala onde o calor e a humidade podiam ser controlados. Os estudos feitos anteriormente sugeriam que, com uma temperatura externa de 35 graus e 100% de humidade – ou 46 graus e 50% de humidade – os humanos já não conseguem evitar um aumento letal na sua temperatura interna.

Mas Larry Kenney descobriu que este limite pode ser mais baixo, ficando nos 31 graus com 100% de humidade em indivíduos jovens e saudáveis. Nos idosos ou pessoas com condições como pressão alta, o limite pode ser ainda mais baixo.

“Há pessoas que vão morrer. A realidade é esta. Muitas das vagas de calor foram claramente mortais”, diz Mojtaba Sadegh, climatologista da Universidade de Boise. Por exemplo, em 2003, na Europa, uma vaga de calor provocou mais de 70.000 mortes.

Mojtaba Sadegh, que não esteve envolvido no relatório do IPCC, publicou um estudo no início de fevereiro onde mostra que, no mundo inteiro, as pessoas com baixos rendimentos estão 40% mais expostas às vagas de calor em comparação com as pessoas com altos rendimentos, não só porque têm mais propensão para viver em regiões quentes como têm menos acesso a equipamentos de ar condicionado. Estima-se que esta desigualdade gritante aumente à medida que as alterações climáticas se intensificam.

“Se não nos adaptarmos, vamos continuar a testemunhar mais e mais perdas. Há vagas de calor piores a vir na nossa direção”, diz Mojtaba Sadegh.

O que fazer

“Temos pensado sobre as alterações climáticas e sobre a forma como irão afetar as nossas comunidades, e em como iremos ter de agir de maneira diferente durante algum tempo”, diz Lauren Jenks, do Departamento de Saúde Pública de Washington.

“Uma das coisas que descobrimos com a cúpula de calor [de 2021] foi o quão frágeis são as infraestruturas”, diz Lauren. “As arcas refrigeradoras nos restaurantes e supermercados, por exemplo, mostraram que tinham dificuldades em manter as temperaturas baixas devido ao calor abrasador, forçando as empresas a descartar alimentos perecíveis.”

Em Seattle, onde menos de metade das habitações tem ar condicionado, Lauren Jenks diz que a cidade está agora a procurar formas de todos terem acesso a ar condicionado em casa ou a um centro comunitário de refrescamento.

Embora as alterações climáticas se estejam a tornar cada vez mais mortais, o fornecimento proativo de mais igualdade de acesso à saúde e a criação de cidades mais resilientes pode salvar vidas, diz o relatório do IPCC.

O relatório acrescenta que os sistemas de alerta precoce – uma espécie de previsão meteorológica detalhada – são uma ferramenta que as agências municipais e estaduais podem usar para ajudar as pessoas a planear com antecedência para condições climáticas extremas e na procura de recursos como um centro de refrescamento caso seja necessário.

De acordo com Kristie Ebi, da Universidade de Washington, “a necessidade de preparar as redes energéticas e os sistemas de saúde para a subida das temperaturas é urgente e imediata… não estamos preparados”.

“As pessoas já estão a sofrer e a morrer por causa das alterações climáticas, e não estamos a ver um investimento que nos prepare para um futuro ainda mais quente”, acrescenta Kristie.

O seu colega Jeremy Hess, que testemunhou em primeira mão o impacto da chamada cúpula de calor de 2021 no interior de uma sala de emergência, diz que os socorristas precisam de estar melhor preparados para os desastres consecutivos que as alterações climáticas irão trazer.

“Vamos ser atingidos por uma onda de calor, e depois vem um incêndio florestal, a seguir a energia vai abaixo e repete-se tudo de novo”, diz Jeremy. “Parece uma coisa apocalíptica, mas é verdade.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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