Como a guerra na Ucrânia está a acelerar a transição da Alemanha para as energias renováveis

Já não se trata apenas da crise climática: por questões de segurança nacional, o país precisa urgentemente de se livrar do gás, petróleo e carvão russos.

Publicado 11/05/2022, 11:44
energia, turbina eólica

O governo alemão quer facilitar a construção de turbinas eólicas, como estas em construção perto de Angermünde, a cerca de 65 km a nordeste de Berlim. As novas leis que visam acelerar a transição para as energias renováveis vão reduzir o impacto climático da Alemanha – e a dependência dos combustíveis fósseis vindos da Rússia.

Fotografia por Photo by Sean Gallup, Getty Images

BERLIM – Quando as tropas russas invadiram a Ucrânia às primeiras horas do dia 24 de fevereiro, a Alemanha acordou para uma realidade desagradável: a Rússia é o seu principal fornecedor de energia, responsável por mais de metade do abastecimento de gás natural e carvão e um terço do seu petróleo bruto. Em troca, a Alemanha envia à Rússia mais de 200 milhões de dólares por dia – dinheiro que está agora a ajudar a financiar uma invasão que os alemães consideram intolerável.

No mês passado, a ministra das Relações Externas da Alemanha, Annalena Baerbock, líder do partido Os Verdes, que entrou num governo de coligação no outono passado com os social-democratas do primeiro-ministro Olaf Scholz, prometeu que a Alemanha ia deixar de importar petróleo da Rússia até ao final de 2022 e livrar-se do gás natural o mais depressa possível. A curto prazo, isto pode significar encontrar fornecedores alternativos de combustíveis fósseis, incluindo os Estados Unidos.

Contudo, a longo prazo, esta crise só veio reforçar a determinação da Alemanha em abandonar completamente os combustíveis fósseis e acelerar a chamada Energiewende – a transição para energia limpa que começou há cerca de 30 anos. O governo anunciou planos para abandonar completamente a utilização de carvão até 2030, oito anos antes da meta estabelecida pelo governo anterior. O objetivo da Alemanha é obter 80% da sua eletricidade a partir de energia renovável até essa data, acima da meta estabelecida anteriormente nos 65% – e quase o dobro da participação fornecida em 2021 que ficou nos 42%.

Um pacote legislativo anunciado no mês passado – e que deve ser aprovado neste verão – visa aumentar os subsídios para as energias renováveis e reduzir a burocracia que tem atrasado estes projetos no passado.

“O que mudou agora é que todos perceberam que precisamos de aumentar a capacidade de produção de energia renovável ainda mais depressa”, diz Matthias Buck, diretor da divisão europeia da organização Agora Energiewende, um laboratório de ideias que se concentra na transição energética. “A guerra está a deixar bem patente que, se desejamos controlar o nosso próprio destino, é melhor priorizarmos as energias renováveis e acabar com a dependência dos combustíveis fósseis.”

A Alemanha não está sozinha: a França, país há muito dependente de reatores nucleares para obter 70% das suas necessidades energéticas, prometeu apostar na produção de energias renováveis. Durante a recente campanha de reeleição, o presidente francês Emmanuel Macron prometeu que a França seria “a primeira grande nação a abandonar o gás, o petróleo e o carvão”. A Áustria, ainda mais dependente da energia russa do que a Alemanha, está a investir na produção de energia renovável. Até a Polónia, um dos maiores consumidores de carvão da Europa, está a investir fortemente em energia eólica ao largo da costa.

Na Alemanha, a guerra na Ucrânia veio acrescentar o argumento da segurança energética ao problema da crise climática, convencendo assim as pessoas da necessidade urgente da chamada Energiewende. “Estamos bem adiantados, mas não tão longe quanto devíamos”, diz Kathrin Henneberger, deputada parlamentar dos Verdes e ex-ativista climática.

Uma dependência doentia

Antes de a guerra começar, a Alemanha dependia cada vez mais da energia russa, principalmente do gás natural. É difícil para este país fugir da dependência do gás: em Berlim, as chaminés de uma fábrica de gás natural pontilham o horizonte a menos de três quilómetros do edifício do parlamento, o Bundestag; e a capital ainda ilumina algumas das suas ruas com 20.000 postes antigos a gás. Uma rede de oleodutos com 511.000 km de comprimento atravessa o país, fornecendo gás a casas, fábricas e centrais de energia.

Durante décadas, quase toda a instituição política alemã acreditou na ideia de que era correto e até estrategicamente sensato importar a maior parte do gás da Rússia. Porém, desde a invasão russa da Ucrânia, esta atitude tem sido criticada por muitas pessoas.

 “Todos nós sabíamos que o Putin não era um defensor dos direitos humanos. Sabíamos que estávamos a encher o seu cofre de guerra”, diz Kathrin Henneberger. “Já sabíamos que as coisas eram assim, mas a Alemanha continuou a ficar cada vez mais dependente ao longo dos anos. Agora, de repente, as pessoas perceberam que era uma ideia terrível.”

O partido de Kathrin Henneberger e os seus parceiros no novo governo de coligação estão agora a cumprir as promessas feitas pré-invasão de aumentar o apoio às energias renováveis, um esforço liderado por outro líder dos Verdes, o ministro da Economia e Clima, Robert Habeck. O novo projeto de lei declara que a energia renovável é “do interesse primordial do público e serve a segurança pública” – algo que parece inócuo, mas vai facilitar a vida aos projetos focados em energias renováveis e ajudar a superar desafios legais e ambientais na obtenção de licenças.

No dia 6 de abril, manifestantes reuniam-se em frente ao edifício do parlamento alemão em Berlim para protestar contra a invasão russa da Ucrânia. Os manifestantes exigiam um embargo aos combustíveis fósseis russos – embora a Alemanha continue fortemente dependente deste tipo de importações, sobretudo do gás natural.

Fotografia por Photo by Annette Riedl, picture alliance, Getty Images

O referido pacote legislativo também inclui incentivos mais concretos. Regressando às raízes da Energiewende, o objetivo é incentivar os cidadãos a apostarem novamente na energia solar nos telhados ou a construir centrais comunitárias de energia solar; os novos edifícios comerciais, por outro lado, vão ser obrigados a incluir painéis solares. O governo federal também está a pressionar alguns estados alemães a relaxarem as leis que proíbem os moinhos de vento a menos de um quilómetro dos edifícios já existentes – neste país densamente povoado, tem-se tornado cada vez mais difícil instalar novas turbinas eólicas.

Os legisladores esperam que todas estas mudanças, combinadas com a queda constante dos preços das instalações solares e eólicas, possam gerar o dobro da energia eólica terrestre até 2030 e quadruplicar a produção de energia solar. A produção de energia eólica ao largo da costa também vai ser alvo de uma grande expansão.

O problema do gás

Tendo em consideração que estes planos já estavam em vigor antes do início da guerra na Ucrânia, os alemães dependiam obviamente do gás natural russo para permitir que o país encerrasse as suas centrais a carvão para mitigar as pesadas emissões enquanto construía o setor renovável. Este conceito está agora a ser questionado.

“O gás natural era encarado como uma ponte para um futuro de energia limpa”, diz Matthias Buck. “Essa ponte cedeu. E isso está a reformular todo este debate.” A Alemanha já congelou o processo de aprovação de um oleoduto de 11 mil milhões de euros vindo da Rússia chamado Nordstream 2, que estava quase concluído quando a Rússia invadiu a Ucrânia.

Agora, até os ambientalistas mais obstinados estão abertos a manter as centrais a carvão abertas para além da meta estabelecida até 2030 – mas apenas em caso de crise a curto prazo, diz Kathrin Henneberger: “Tomámos uma decisão a longo prazo de nos afastarmos do carvão, e isso não pode mudar.”

Um regresso à energia nuclear, diz Kathrin, também está fora de questão. A Alemanha decidiu há uma década, após o desastre de Fukushima no Japão, eliminar gradualmente as suas centrais nucleares. As três últimas devem ser desligadas até ao final deste ano.

Desta forma, a única opção da Alemanha para substituir o gás natural russo nos próximos anos é encontrar novos fornecedores de gás natural – e pressionar ainda mais para mudar para as energias renováveis.

Não se trata apenas de eletricidade

A transição Energiewende está mais adiantada no setor elétrico, mas a guerra na Ucrânia também tem colocado a descoberto o trabalho que ainda é necessário fazer noutros setores – nos transportes, na manufaturação, no aquecimento – para fazer com que a Alemanha atinja a sua meta de emissões-zero até 2045. Os especialistas dizem que a opinião pública está a mudar, podendo assim possibilitar alguns passos mais ambiciosos num futuro próximo.

Por exemplo, a ideia de introduzir um limite de velocidade por toda a rede Autobahn da Alemanha, onde os condutores podem acelerar livremente até aos 160 km/h, é uma questão tão divisiva na Alemanha – um país louco por carros – quanto o direito à posse de arma nos EUA.

“Antes da guerra na Ucrânia, os alemães estavam divididos em relação a esta ideia”, diz Volker Quaschning, professor de sistemas de energias renováveis da Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim. “Agora, dois terços dizem que é uma boa ideia. Acontece o mesmo com o aquecimento derivado dos combustíveis fósseis ou dos carros a gasóleo, ou a instalação de mais turbinas de energia eólica. Tem havido uma grande mudança na opinião pública.”

Ao mesmo tempo, acrescenta Volker Quaschning, ainda não foi pedido aos alemães para fazerem grandes sacrifícios – pelo menos até agora. “Dizemos que gostamos da Ucrânia, mas se a gasolina ficar a 2,50 [euros] por litro, as opiniões vão mudar novamente.”

Felizmente, o apoio da opinião pública em relação à transição energética está a aumentar, assim como o custo das energias renováveis está a descer. A Alemanha e outros países europeus continuam a importar gás russo, e está a ficar cada vez mais dispendioso mudar para outros fornecedores, incluindo os EUA, porque isso significa enviar gás natural na forma líquida, que custa ainda mais. “Mesmo antes da guerra, os preços já estavam a subir no mercado energético europeu”, diz Simone Peter, diretora da Federação Alemã de Energia Renovável e ex-líder do partido Os Verdes. “O novo governo viu aqui uma grande oportunidade.”

E depois de anos a financiar as energias renováveis, a eletricidade eólica e solar são agora mais baratas do que a energia gerada a partir de combustíveis fósseis. “Esta tecnologia é tão barata que, globalmente, as energias renováveis se tornaram competitivas”, diz Simone Peter. “Os investidores estão a mover-se nessa direção, incluindo os países produtores de petróleo e carvão.”

As necessidades energéticas de outras regiões da Alemanha vão ser mais difíceis de satisfazer a curto prazo. Metade das casas alemãs usa gás natural para aquecimento. Antes de chegar o próximo inverno, os esforços para equipar as casas com bombas de calor elétricas e melhorar o isolamento estão a assumir outra urgência. A partir de 2025, o governo alemão planeia exigir que os edifícios usem principalmente energia renovável para fins de aquecimento.

“Também precisamos de fazer uma transição ao nível do aquecimento”, diz Kathrin Henneberger. “Isso por si só poderia poupar-nos muito gás.”

Preparar para o inverno

Outra mudança de paradigma pode surgir do corte repentino no fornecimento de gás russo – quer seja imposto pelos países da UE como uma forma de sanção à Rússia, ou por parte da Rússia como uma forma de retaliar contra a Europa por esta apoiar a Ucrânia. A Rússia já cortou o gás à Polónia e à Bulgária.

“Se a energia fosse cortada amanhã, iriamos enfrentar uma enorme crise social e económica”, diz Simone Peter. “Creio que o apelo para poupar energia vai ficar mais intenso no outono... porque quando sabemos que um embargo ao gás significa que a nossa casa vai ficar congelada, isso muda a nossa maneira de pensar.”

Até agora, os políticos têm sido relutantes em impor requisitos de poupança energética aos eleitores, como aconteceu com os domingos sem carros na década de 1970 ou durante a campanha nacional para desligar os radiadores. Numa sondagem feita pela revista alemã Der Spiegel no mês passado, apenas 49% dos entrevistados disseram que estariam dispostos a fazer sacrifícios para cortar o abastecimento de energia russo. Porém, ao final do dia, isto pode nem sequer ser uma escolha.

“Parece que a ideia de que não fazia diferença de onde é que importávamos os combustíveis estava errada. Olhando para trás, conseguimos perceber que foi errado depositar tanta confiança na Rússia enquanto parceiro para a Alemanha e para os outros países europeus neste projeto de transição energética”, diz Matthias Buck. “Mas também é sempre mais fácil analisar as coisas em retrospetiva.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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