Como os agricultores do país menos desenvolvido do mundo cultivaram 200 milhões de árvores

No árido Níger, a sul do Saara, os agricultores que permitiram o recrescimento das árvores abatidas nos seus campos viram o rendimento das colheitas disparar.

Agricultores plantam sementes de milhete num campo nos arredores de Aguié, na região de Maradi, no Níger. Nas últimas décadas, os agricultores desta região têm permitido que milhões de árvores voltem a crescer em terras que já tinham sido desflorestadas.

Fotografia por David Rose, Panos
Por Katarina Höije, Craig Welch
Publicado 2/05/2022, 15:12

MARADI, NÍGER – Durante séculos, florestas exuberantes pontilharam esta região empoeirada e ensolarada a sul do Saara. Entre estas florestas podíamos encontrar enormes alfarrobeiras-africanas, arbustos finos, manchas dispersas das chamadas árvores búrlè-­danédjo e tamarindos. Porém, na década de 1980, quando Ali Neino ainda era criança, havia apenas uma árvore solitária a brotar dos terrenos da sua família, e Ali Neino conseguia ver claramente o horizonte.

“Não havia qualquer vegetação entre a aldeia e os campos”, recorda Ali Neino, agora com 45 anos. “Não havia uma árvore, um arbusto, nada.”

As décadas de seca, desflorestação e a demanda por lenha devastaram praticamente as árvores do Níger. A agricultura intensiva para alimentar a população de maior crescimento no mundo acabou por fazer com as novas árvores não conseguissem assentar raízes. Na década de 1970, os esforços feitos pelo governo para reflorestar o país não deram frutos. Foram plantadas 60 milhões de árvores; mas a sua taxa de sobrevivência foi inferior a 20%.

Os agricultores no Níger, em vez de cortarem as árvores, deixam-nas crescer novamente a partir dos tocos, sabendo que o solo ao seu redor vai reter mais humidade e vai ser fertilizado pelas folhas. Nesta imagem, um agricultor inspeciona uma jovem árvore na região de Tahoua.

Fotografia por Sven Torfin, Panos

Contudo, num passeio feito recentemente pela quinta da sua família nos arredores de Dan Saga, Ali Neino apontou para as árvores que cresciam por toda a parte. Troncos de acácia branqueados pelo sol perfuravam o solo. Ramos e folhas caídas cobriam a terra amarela. Havia cinco tipos de acácias, árvores frutíferas e um tipo de arbusto verrugoso conhecido por dooki.

Nos últimos 35 anos, enquanto os cientistas imploravam a todas as nações para levarem a sério a recuperação das florestas, um dos países mais pobres da Terra, numa das regiões mais inóspitas do planeta, plantou uns surpreendentes 200 milhões de árvores – talvez mais. No Níger, numa área com cerca de 5 milhões de hectares, as florestas foram restabelecidas com pouca ajuda externa, quase sem investimento financeiro e sem expulsar as pessoas das suas terras. As árvores neste país não foram plantadas; foram encorajadas a regressar naturalmente e alimentadas por milhares de agricultores. Agora, há novas árvores a surgir por todas as aldeias. Tudo isto resulta em solos mais férteis e húmidos, traduzindo-se em melhores colheitas.

Os países vizinhos já estão a tentar seguir apressadamente o exemplo do Níger. Os especialistas dizem que os outros continentes também deviam olhar para o Níger como um modelo a seguir. “É uma história verdadeiramente inspiradora”, diz Sarah Wilson, investigadora de pós-doutoramento em florestas da Universidade de Victoria, no Canadá, que estuda o renascimento do Níger. “É o tipo de restauração que procuramos. E foi uma coisa que passou simplesmente de agricultor em agricultor.”

Regressar às raízes

Atualmente é raro encontrar Ali Neino em casa, onde a sua família cultiva milho, sorgo e amendoim. Ali Neino passa geralmente o tempo a visitar delegações de outras aldeias que querem aprender sobre a ressurreição das áreas arborizadas da região. Ali Neino também visita Tahoua ou Agadez, no centro do Níger, para ensinar os agricultores a fazerem o processo por eles próprios.

Para Ali Neino, o regresso da cobertura florestal no sul do Níger é fundamental para o futuro do país. A população do Níger, agora a rondar os 25 milhões de habitantes, está a caminho de duplicar nas próximas duas décadas. “A única forma de responder às necessidades nutricionais da crescente população do Níger é mudar o sistema”, diz Ali Neino.

Contudo, para compreender como é que o Níger recuperou as suas árvores, é importante perceber como é que o país as perdeu.

O Níger, que têm uma área do tamanho da Alemanha e da França juntos, atravessa o Sahel, a zona de transição entre o deserto do norte de África e a floresta húmida que se estende desde o Atlântico até ao Mar Vermelho. O Saara circunda dois terços do país, mas a região oeste, ao longo do fértil vale do rio Níger, e a região sul, perto da fronteira com a Nigéria, abrigaram sempre enormes manchas de árvores e arbustos.

Grande parte da população do Níger vivia nesta faixa arborizada. As árvores e os arbustos forneciam sombra, retinham a água no solo e criavam pasto para o gado. Os agricultores plantavam em torno dos troncos e, quando podavam as árvores para obter lenha, ou as cortavam ocasionalmente, as árvores voltavam rapidamente a brotar dos tocos. Em Zinder, na região sudeste, uma espécie era particularmente venerada: a búrlè-­danédjo, que durante a época das chuvas liberta folhas que depois se decompõem, nutrindo o solo com nitrogénio e deixando entrar a luz do sol.

Porém, no início do século XX, os agrónomos trazidos pelos governantes coloniais franceses instaram os agricultores a remover as árvores – a arrancar as mudas e a cortar os tocos. O governo, que tinha o objetivo de exportar amendoim, queria que o setor agrícola do Níger fosse comercializado. Isto pressionou as quintas para passarem do cultivo manual para os arados de aço puxados por animais, resultando em campos ordenados com linhas retas e sulcos perfeitos, que deixavam pouco espaço para as árvores. Muitas pessoas no Níger começaram a acreditar que árvores e plantações não coexistiam juntas.

Como uma parte do Níger mudou

Na segunda metade do século XX, a população do Níger, país que já tinha conseguido a sua independência, começou a aumentar exponencialmente. Uma série de secas severas com início em finais da década de 1960 levou ao fracasso das colheitas e à fome. As fontes de água desapareceram. Os poços secaram. Os agricultores continuaram a derrubar mais árvores para a agricultura, mesmo quando os solos secavam ou perdiam nutrientes. As famílias desesperadas viraram as suas atenções para o último ativo da região: abateram as árvores restantes para vender nas cidades próximas para servirem de combustível para cozinhar. Tanto mulheres como crianças caminhavam horas a fio para encontrar madeira.

O Níger é um lugar difícil para cultivar seja lá o que for, mesmo em locais onde há sombra; este país sem árvores parece o covil de um dragão. As temperaturas atingem regularmente os 37,7 graus Celsius e podem atingir os 60 graus ao nível do solo. Em meados da década de 1980, o Níger enfrentou um colapso ecológico. Mas dois eventos paralelos acabariam por alterar o seu destino.

Em 1983, um grupo de homens que tinha viajado para o estrangeiro à procura de trabalho durante a época das secas não regressou a tempo de retirar os troncos e mudas dos seus campos antes da época das chuvas. E não tiveram outra escolha a não ser plantar em torno das árvores. Mas rapidamente repararam em algo estranho. As culturas plantadas perto das árvores mais jovens pareciam crescer melhor e mais depressa. No ano seguinte, aconteceu o mesmo. Os outros agricultores rapidamente pararam de clarear os campos.

As folhas caídas fertilizavam e mantinham o solo humedecido. A vegetação bloqueava a entrada da areia vinda do Saara e protegia as plantações do vento. “Foi como se todo o clima tivesse mudado”, recorda Maimouna Moussa, agricultora de 60 anos, também de Dan Saga. No segundo ano, Maimouna já estava a desbastar e a podar os caules emergentes destas árvores de rápido crescimento, fornecendo a tão cobiçada lenha. Com o passar do tempo, as colheitas de milho de Maimouna Moussa duplicaram.

Foi por volta desta mesma época, no início da década de 1980, a cerca de 80 quilómetros de distância, que Tony Rinaudo tropeçou no toco do uma árvore.

Espalhar a palavra

Tony Rinaudo, na altura um jovem missionário vindo da Austrália, já estava em Maradi desde 1981 a tentar plantar árvores em vão. Tony sabia que as árvores arrefeciam o ar e emitiam humidade, para além de fornecerem sombra e potencialmente ajudar as plantações. Mas plantar árvores era cansativo, e as árvores novas morriam antes de assentarem raízes até ao lençol freático, que ficava a dezenas de metros de profundidade. Os agricultores locais, que estavam a lidar com uma crise, tinham pouco interesse em esperar anos até que as árvores bebés se transformassem em algo útil. “Eles estavam mais preocupados com o cultivo de alimentos”, diz Tony Rinaudo.

Contudo, um dia, Tony Rinaudo viu um arbusto do deserto, um caule novo a emergir de um toco cortado. E houve algo que clicou. “Eu já tinha visto árvores cortadas a crescer novamente”, diz Tony. “Mas foi como se tivesse sentido uma ligação com aquele arbusto – todos aqueles tocos podiam tornar-se árvores novamente.

Tony Rinaudo percebeu que a sua abordagem estava errada. Tony não precisava de um orçamento, equipas de trabalho ou inúmeras árvores jovens. E não precisava de lutar contra o clima. Só precisava de convencer os agricultores a confiarem na natureza. Os humanos precisavam simplesmente de dar um passo atrás. “A verdadeira batalha era sobre a forma como as pessoas pensavam sobre as árvores. Mas tudo o que precisavam estava mesmo à sua frente.”

Sale Tari cuida das suas acácias perto de Aguié. As árvores, para além de fornecerem lenha, também funcionam como corta-vento e reduzem a erosão do solo nesta região árida.

Fotografia por David Rose, Panos

Nada nesta abordagem era novo. A chamada regeneração natural gerida por agricultores já é praticada pelo mundo inteiro em sistemas de terras secas há séculos. E também era como os agricultores no Níger cultivavam antes da chegada do colonialismo. Tony Rinaudo limitou-se a popularizar e a promover o conceito – convencendo os agricultores a capitalizar nas raízes profundas deixadas no solo pelos seus antepassados, tanto em sentido figurado como literal.

Em 1983, Tony Rinaudo começou a oferecer comida a meia-dúzia de famílias em troca do seu compromisso em experimentar este conceito – não plantar árvores, mais deixá-las crescer novamente, pelo menos 16 por cada 5 mil metros quadrados. Esta prática teve inicialmente poucos adotantes. Os agricultores estavam céticos de que esta abordagem era capaz de gerar mais alimentos. Deixar as árvores crescer também era um convite para os ladrões, que as roubavam durante a noite para vender como lenha. Em 1984, devido à frustração, muitos agricultores cortaram as suas próprias árvores.

Porém, não demorou muito tempo até que se arrependessem. Quase de imediato, para os poucos agricultores que se mantiveram fieis ao conceito, “os rendimentos das colheitas foram melhores”, lembra Tony Rinaudo. A mandioca, a batata-doce e o sésamo cresciam melhor. Havia mais folhas, frutos e sementes comestíveis. Os ramos caídos eram usados como lenha; as mulheres e as crianças já não precisavam de se aventurar à procura de madeira.

Nos anos que se seguiram, até ao final da década de 1990, Tony Rinaudo iria visitar cerca de 100 aldeias, partilhando o que a sua primeira equipa tinha aprendido. Os voluntários do Corpo da Paz em Maradi fizeram o mesmo. Em menos de nada, todos os agricultores começaram a falar sobre esta prática. E um movimento começou a tomar forma – movimento que, de acordo com Dennis Garrity, ex-chefe do Centro Mundial Agroflorestal em Nairobi, “é a transformação ambiental mais notável de que me lembro em África”.

Ainda assim, fora do Níger, quase ninguém reparou no que estava a acontecer.

Florestas ameaçadas

Atualmente, as florestas estão sob pressão em todos os continentes onde há árvores. A extração de madeira e a desflorestação para abrir lugar para atividades pecuárias ameaçam os meios de subsistência de milhões de pessoas, incluindo o abastecimento de água e o habitat de animais selvagens. As alterações climáticas têm piorado os efeitos das secas, sem esquecer as infestações de insetos e incêndios florestais que também matam árvores. Em dois relatórios importantes divulgados recentemente, o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) enfatizou novamente que a proteção das florestas que armazenam carbono e a recuperação das florestas degradadas é vital para conter o aquecimento global, para além da rápida redução das emissões de dióxido de carbono.

Apesar de tudo isto, desde a Ásia até à América do Sul – e na maioria dos lugares que ficam pelo meio – os grandes esforços de governos, empresas e organizações sem fins lucrativos para plantar árvores estão repletos de problemas. Muitos programas de plantação de árvores desperdiçam milhões de dólares, destroem inadvertidamente terras imaculadas ou resultam em milhões de mudas mortas. Em alguns casos, os investidores investem o seu dinheiro em projetos de plantação de árvores que têm um histórico comprovado de má qualidade.

A transição do Níger não enfrentou nenhum destes problemas. E, no entanto, a sua disseminação foi tão orgânica que demorou décadas até que o mundo prestasse atenção. Ainda assim, esta descoberta aconteceu quase por acaso.

Pastores dão água ao gado num lago que fica em terras onde os agricultores permitiram a regeneração das árvores. A sombra proporcionada pelas árvores retarda a evaporação, mantendo a água no solo, elevando o lençol freático e permitindo o desenvolvimento de água permanente.

Fotografia por Sven Torfinn, Panos Pictures

Em junho de 2004, o cientista florestal neerlandês Chris Reij visitou o Níger para fazer dar uma palestra. Um reitor de uma universidade em Niamei, a capital do Níger, falhou-lhe sobre uma tendência intrigante: os agricultores de Maradi estavam a proteger as árvores. Chris Reij decidiu ver pelos próprios olhos.

Chris Reij já trabalhava na África Ocidental de forma intermitente desde o final dos anos 1970 e tinha visitado Maradi em 1988. “Era um lugar bastante desolado”, diz Chris Reij. O que viu em 2004 surpreendeu-o. Para onde quer que olhasse, havia árvores jovens a brotar.

Chris Reij estima que havia mais de 10.000 hectares de árvores novas, o que naquela época parecia muito. Chris entrou em contacto com Gray Tappan, do Serviço Geológico dos EUA, um geógrafo que mapeia o uso da terra e a vegetação. Gray Tappan viveu no Senegal e passou anos a estudar esta região.

Em poucas semanas, Gray Tappan estava a sobrevoar o Níger e a tirar fotografias com a sua câmara de 35 milímetros. Também Gray Tappan ficou surpreendido com o que viu. Nos dois anos seguintes, Gray Tappan, Chris Reij e outros investigaram mais a fundo, viajando desde a região oeste do Níger quase até ao lago Chade na zona sudeste.

Apesar de todos os anos que Gray Tappan passou a viver na zona do Sahel, nunca tinha ouvido falar sobre esta mudança. As imagens de satélite não tinham detetado nada; as imagens não tinham resolução suficiente. “Eu só percebi o que estava a acontecer quando fizemos aquelas viagens no terreno pelo Níger”, diz Gray Tappan. A reflorestação parecia atingir 80% das terras agrícolas do país.

Para começar a ter uma noção da extensão do reflorestamento, Gray Tappan procurou fotografias aéreas de 1957 e 1975. Só depois é que as pode comparar com as novas imagens e percebeu que se tratava de uma coisa impressionante. Em 2009, Gray Tappan já conseguia documentar novos crescimentos em quase 5 milhões de hectares. As viagens de campo permitiram calcular aproximadamente a quantidade de árvores por hectare. Algumas aldeias tinham 20 vezes mais árvores do que antigamente.

Hoje, Gray Tappan e os seus colegas, com base nas árvores que viram a surgir em novas aldeias durante as visitas de campo feitas adicionalmente, suspeitam que a regeneração pode ter-se expandido em quase 7 milhões de hectares. Gray Tappan acredita que 200 milhões é uma estimativa muito baixa para o número de novas árvores no Níger. E estes valores continuam a aumentar à medida que a tendência se espalha.

Ao contrário de outros esforços, este começou do nada. Ninguém está a pagar aos agricultores pelas suas árvores. “Esta reflorestação em grande escala é voluntária”, diz Chris Reij. E as evidências sugerem que pode abordar questões ambientais e de segurança alimentar no Níger muito melhor do que as campanhas mais dispendiosas de plantação de árvores.

Agricultores trabalham entre baobás numa horta na região de Zinder.

Fotografia por Sven Torfinn, Panos Pictures

A Grande Muralha Verde

Para combater a perda de árvores, os líderes africanos têm vindo a promover a sua plantação desde a década de 1970. Mas esta solução aparentemente simples tem-se revelado problemática desde o início. As árvores plantadas ou são da espécie errada, ou precisam de muita manutenção, ou as cabras desenterram-nas e as comunidades locais com poucos interesses em jogo arrancam-nas para vender a madeira. Mas principalmente porque as árvores plantadas morrem praticamente todas.

Há cerca de 15 anos, os líderes do governo do Níger duplicaram os seus esforços de reflorestação. Preocupados com o avanço do Saara para sul e, com a ajuda do Banco Mundial, propuseram um plano para plantar árvores para conter as areias: a “Grande Muralha Verde”. Esta faixa de bosques estender-se-ia ao longo de 5.6 quilómetros no Sahel.

Muitos cientistas estavam e continuam céticos, em parte pela forma como as alterações climáticas estão a afetar o Sahel. As temperaturas no Níger estão a subir 1.5 vezes mais depressa do que a média global. As chuvas, outrora previsíveis, diferem de ano para ano, à medida que a subida da temperatura do oceano altera os padrões climáticos. A precipitação é errática, chegando mais tarde e em rajadas que o solo não consegue absorver. Tudo isto torna as coisas mais quentes e secas – mas não necessariamente de uma forma que uma muralha de árvores consiga bloquear. “O deserto não se está a espalhar numa só frente”, diz Gray Tappan. “Está a espalhar-se em pequenas manchas, aqui e ali.”

Uma campanha multimilionária de plantação de árvores também parece descartar as lições aprendidas com o sucesso do Níger. Mais árvores é realmente o que o Sahel precisa. Mas a sua plantação é dispendiosa e dificilmente terá sucesso a longo prazo. Em vez disso, os agricultores por todo o Sahel – e noutras regiões de África – podem ser incentivados a deixar as árvores crescer naturalmente. As florestas pré-coloniais permanecem na região, as suas raízes profundas estão enterradas no solo, esperando uma eventual regeneração por conta própria. Até agora, estas árvores regeneradas estão a prosperar, mesmo com as alterações no clima.

Os benefícios estão à vista de todos. Livres das longas horas de caminhada para encontrar madeira, as mulheres no Níger estão agora a produzir mais remédios, óleos e sabão das árvores para complementar os seus rendimentos. A escassez de recursos registada nas últimas décadas tem aumentado as tensões entre agricultores e pastores nómadas; porque agora as árvores em Dan Saga estão a atrair pastores que apreciam a sombra enquanto o gado fertiliza os campos agrícolas com estrume.

Há três regiões ricas em árvores no sul do Níger que estão a produzir meio milhão de toneladas extra de cereais por ano – o suficiente para alimentar mais 2.5 milhões de pessoas. Na quinta da família de Ali Neino, “as colheitas de milho aumentaram cinco vezes”. As árvores de sorgo e amendoim também estão a prosperar.

“Antigamente, os agricultores costumavam semear as plantações duas e três vezes quando estas eram destruídas por fortes ventos que cobriam as plantações com areia”, diz Aichatou Amadou, um agricultor com 50 anos que vive em Droum, na região de Zinder. “Agora, só tenho de semear a colheita uma vez.”

Saidou Mallam Habou, também de Droum, sente que os agricultores estão a usar as terras agrícolas com muito mais eficiência do que antigamente.

Uma coisa boa e urgente

É importante referir que o Níger continua a ser um lugar onde a insegurança alimentar permanece entre as piores do mundo. O cultivo de árvores não é suficiente para alimentar um país cuja população se está a expandir a um ritmo tão acelerado. Mas pode certamente ajudar.

Em 2005 e 2011, o Níger foi novamente atingido pela seca. O déficit de grãos no país atingiu o meio milhão de toneladas. Chris Reij têm enviado uma equipa ao local para examinar os dados sobre os alimentos ao longo dos anos. Os dados revelam que, ao passo que muitos dos pequenos proprietários enfrentam a ruína, os distritos mais densamente povoados que regeneraram as árvores estão agora a produzir um excedente de várias toneladas.

Segundo Chris Reij, nos locais onde há uma densidade populacional baixa, as pessoas continuam a achar que os recursos naturais são abundantes, ou seja, não têm um incentivo para fazer o trabalho de gestão das árvores. Mas as quintas que o fazem são de facto mais resilientes.

É por esta razão que os ecologistas florestais estão a tentar fazer com que mais países sigam o exemplo do Níger. A World Vision, uma organização cristã sem fins lucrativos para a qual Tony Rinaudo trabalha agora, enviou agricultores senegaleses para o Níger para aprenderem o processo. Estes agricultores regressaram a casa e restauraram 60.000 hectares de floresta. Há histórias semelhantes a surgir no Burkina Faso e no Mali.

Esta abordagem também está a expandir-se para a África Oriental, Tanzânia, Quénia e Etiópia, e está a atrair muito interesse fora do continente africano. É uma abordagem barata, facilmente escalável e responde às necessidades dos agricultores. Pode não funcionar para todas as situações, mas também pode ser usada para fazer muito mais. Recentemente, Gray Tappan encontrou árvores a regenerarem naturalmente em quase 3 milhões de hectares no Malawi – muitas destas árvores têm menos de 20 anos.

“Parte do que está a acontecer no Malawi deve-se ao facto de este fenómeno ser completamente liderado por agricultores”, diz Tony Rinaudo. “Não há vestígios de intervenção do governo, de uma ONG ou de qualquer outra influência externa. Os agricultores simplesmente viram a necessidade e a oportunidade de replantar árvores a partir dos tocos, e fizeram exatamente isso.”

“É uma coisa urgente? Sim, muito urgente”, continua Tony Rinaudo. “Qual é o potencial? Absolutamente enorme.”

Katarina Höije é uma jornalista freelancer sediada em Abidjan, na Costa do Marfim. Pode encontrá-la no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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