Crise alimentar global pode estar no horizonte devido à escassez de fertilizantes

As sanções à Rússia, o mau tempo e os cortes nas exportações têm fomentado uma grave escassez de fertilizantes, que faz com que os agricultores tenham dificuldades em manter o mundo alimentado.

Por Joel K. Bourne, Jr.
Publicado 25/05/2022, 12:21
fertilizante

Fertilizantes são misturados nas instalações da Golden Fertilizers em Lagos, na Nigéria. A escassez de fertilizantes está a ameaçar o sucesso das colheitas mundiais e pode levar a uma escassez generalizada de alimentos, segundo os especialistas.

Fotografia por Peter Essick, Nat Geo Image Collection

Pensa que a escassez mundial de fertilizantes é o problema de outras pessoas? Olhe bem para o espelho. Se estiver a ler este artigo na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina ou na Ásia, é provável que o reflexo de aminoácidos que vê no espelho esteja atualmente vivo por causa dos fertilizantes químicos.

De facto, de acordo com o reconhecido investigador canadiano Vaclav Smil, dois quintos da humanidade – mais de três mil milhões de pessoas – estão vivos devido aos fertilizantes nitrogenados, o ingrediente principal da chamada Revolução Verde que impulsionou o setor agrícola na década de 1960. O fertilizante químico que triplicou a produção global de grão – composto por nitrogénio (N), fósforo (P) e potássio (K) – permitiu o maior crescimento populacional humano de todos os tempos. Contudo, agora escasseia e tanto agricultores como empresas de fertilizantes e governos por todo o planeta estão a tentar evitar a perda aparentemente inevitável das colheitas.

“Não sei ao certo se continua a ser possível evitar uma crise alimentar”, diz Theo de Jager, presidente da Organização Mundial de Agricultores. “A questão é saber o quão abrangente e profunda poderá ser. Mais importante ainda, os agricultores precisam de paz. E a paz precisa de agricultores.”

A invasão da Ucrânia levada a cabo por Vladimir Putin foi um golpe para uma indústria que já lidava com vários problemas há mais de um ano. A Rússia exporta normalmente quase 20% dos fertilizantes nitrogenados do planeta e, juntamente com a vizinha Bielorrússia, 40% do potássio exportado em todo o mundo, segundo analistas do Rabobank. A maior parte destas exportações está agora inacessível aos agricultores de todo o lado devido às sanções ocidentais e às recentes restrições na exportação de fertilizantes da Rússia.

“Se falarmos com um agricultor na América do Norte ou na Oceânia, a conversa vai girar em torno dos fertilizantes, especificamente o preço e a disponibilidade de fertilizantes”, disse recentemente Theo de Jager numa conferência virtual sobre este tema. “Os preços estão mais ou menos 78% mais elevados do que a média verificada em 2021, e isso está a afetar o lado da produção agrícola. Em muitas regiões, os agricultores simplesmente não têm rendimentos para comprar fertilizantes para as quintas, mas mesmo que tivessem, não há fertilizantes disponíveis. E não são apenas os fertilizantes, também se trata dos agroquímicos e dos combustíveis. Esta é uma crise global e requer uma resposta global”.

Até agora, grande parte dessa resposta tem sido bastante variada, com cada quinta e cada governo a fazer as coisas individualmente. Contudo, na semana passada, os EUA e os bancos globais de desenvolvimento anunciaram um “plano de ação” para a segurança alimentar global, totalizando mais de 30 mil milhões de dólares em ajuda, na esperança de evitar uma repetição dos motins alimentares que derrubaram governos durante as últimas crises de preços em 2008 e 2012.

Agricultores norte-americanos em dificuldades

Este ano, Rodney Rulon está melhor do que muitos agricultores. Rodney Rulon é um agricultor progressista em Arcadia, no estado de Indiana, e usa técnicas de plantação direta, culturas de cobertura e camas de frango nos 2900 hectares de campos de milho e soja da sua família desde 1992. Juntamente com os extensos testes feitos ao solo anualmente, Rodney reduziu o uso de fertilizantes químicos em 20 a 30 por cento – mas os fertilizantes continuam a ter uma presença relevante nas suas culturas.

“Vamos fazer grandes cortes nos gastos em fertilizantes este ano”, diz Rodney Rulon. “Uma tonelada de fósforo e potássio custa 1200 dólares. No ano passado gastámos 450 dólares. O nitrogénio estava a 500-550 dólares a tonelada no ano passado. Agora está muito acima dos mil dólares. É o mesmo que pegar na nossa maior despesa e duplicar os custos.” Rodney não consegue sequer obter as 3000 toneladas de cama de frango que normalmente usa em vez do fósforo e potássio químicos. Este agricultor também tinha um acordo apalavrado com o seu fornecedor para comprar a quantia habitual por 60 dólares a tonelada, mas o produto foi vendido a um licitante mais alto.

Nos EUA, os elevados preços dos fertilizantes têm provocado uma corrida ao estrume em muitas partes do país, consoante os agricultores procuram alternativas e maneiras de reduzir as despesas em fertilizantes. Isto pode não ser uma coisa má, diz Antonio Mallarino, cientista de solo e especialista em nutrientes de plantas da Universidade de Iowa, que tenta fazer há décadas com que os agricultores parem de fertilizar em excesso.

“Em 50 a 60 por cento dos campos no Iowa, podemos abdicar do P (fósforo) e K (potássio) durante dez anos que os campos ficam bem”, diz Antonio Mallarino.

Embora os preços do milho tenham atingido os 8 dólares por alqueire em fevereiro, chegando perto do recorde registado em 2012, muitos agricultores estão a mudar para a soja, que requer menos nutrientes e, portanto, menos fertilizantes. A sondagem feita pelo Departamento da Agricultura dos Estados Unidos sobre as plantações, divulgada no dia 31 de março, mostra que os agricultores pretendem plantar um recorde de 36.8 milhões de hectares de soja este ano, 4% a mais do que no ano passado, ao passo que a plantação de milho desce para os 36.2 milhões de hectares – o valor mais baixo em cinco anos.

“Se esta situação continuar, pode ser bom para o ambiente”, diz Antonio Mallarino. “Pode ser que deixemos de ter todo este excesso de nitrogénio e fósforo a escoar para os rios e lagos.”

Bert Frost tem ouvido muitas críticas por parte dos agricultores em relação aos preços dos fertilizantes. Bert Frost é o vice-presidente do departamento de vendas, cadeia de abastecimento e desenvolvimento de mercado da CF Industries, um dos maiores produtores de fertilizantes nitrogenados do mundo. “O equilíbrio frágil entre a oferta e a procura que manteve os preços do nitrogénio numa margem estreita nos últimos dez anos já não está a funcionar”, diz Bert Frost – porque tanto a oferta como a procura foram afetadas por fatores externos.

“O que temos atualmente é uma confluência de todos os fatores que não funcionam em conjunto”, diz Bert.

A procura tem aumentado devido ao abrandar da pandemia, à recuperação da atividade industrial que usa os ingredientes brutos dos fertilizantes e devido às baixas reservas globais de grão alimentar. Os fornecedores, por outro lado, têm sido afetados por um evento climático extremo após o outro. Em fevereiro de 2021, a tempestade de inverno Uri congelou literalmente a produção nas fábricas de fertilizantes desde o Iowa ao Texas, deixando várias instalações completamente paradas durante um mês ou mais. Seis meses depois, o furacão Ida atravessou o Louisiana, prejudicando vários produtores de fertilizantes, incluindo o complexo Donaldsonville da CFI. Este complexo, com as suas seis fábricas de amónia e quatro de ureia (ureia é um fertilizante quimicamente derivado do nitrogénio), é a maior instalação deste tipo no mundo. Contudo, a empresa foi forçada a cancelar os seus contratos durante algum tempo.

“Mas ainda há mais”, diz Bert Frost. “A China e a Rússia impuseram restrições à exportação de fertilizantes. A China exporta 10% da oferta de ureia mundial, mas as suas exportações foram zero. E depois a Rússia invadiu a Ucrânia e ficou tudo descontrolado.”

Por outras palavras, o mercado já estava em maus lençóis antes da guerra, antes das sanções e do bloqueio russo aos portos do Mar Negro na Ucrânia.

“Todos os fatores que acabei de expor, nós nunca lidámos com isto antes”, diz Bert Frost. “Portanto, a logística não está a funcionar. E eu não creio que isto se resolva por conta própria.”

América Latina a beira da escassez?

Os agricultores norte-americanos vão acabar por receber os fertilizantes de que necessitam para esta época, diz Bert Frost, mesmo que tenham de pagar mais caro por isso. Contudo, as potências agrícolas da América Latina são as mais vulneráveis às perturbações na cadeia de abastecimento de fertilizantes, sobretudo o Brasil, que importa perto de 85% dos seus fertilizantes, e cerca de um quarto vem normalmente da Rússia.

Se os agricultores nesta região reduzirem a utilização de fertilizantes e os seus rendimentos caírem, isso poderá ter um impacto significativo no abastecimento global de alimentos. O Brasil está entre os três maiores exportadores mundiais de soja, milho e açúcar, para além de carne bovina, de frango e suína, de acordo com um relatório publicado recentemente pelo Departamento de Agricultura dos EUA.

A época de plantação no Hemisfério Sul começa em setembro, e o governo brasileiro está a ter dificuldades em encontrar novas fontes de abastecimento de fertilizantes. No início deste ano, o governo brasileiro chegou a fechar um acordo de troca comercial com o Irão – contornando as sanções impostas pelos EUA a este país – no qual o Irão enviaria 400.000 toneladas de ureia para o Brasil em troca de milho e soja. Contudo, os fertilizantes vindos da Rússia são tão importantes para o Brasil e para o abastecimento mundial de alimentos que o governo de Joe Biden abriu uma lacuna para a sua exportação no conjunto de sanções à Rússia criado em finais de março. Embora as sanções financeiras continuem a dificultar as entregas, os analistas esperam que esta medida alivie a pressão sobre os preços globais dos alimentos.

“É impossível fazer previsões sobre esta situação”, diz Micaela Bové, diretora do departamento de soluções agrícolas do grupo de investimento Yara na América Latina, sediada em Buenos Aires. “Nunca imaginei que a COVID ainda estivesse por cá, mas continua por cá. Nunca imaginei que esta invasão se transformasse numa guerra, mas tornou-se numa guerra. Contudo, os agricultores são os heróis no meio disto tudo. Porque têm sido os mais atingidos por tudo o possamos imaginar e continuam sempre a  produzir comida.”

Micaela Bové diz que a sua divisão da Yara, uma gigante norueguesa de fertilizantes, não está a registar escassez na região, que vai desde as pequenas quintas no México às vastas estâncias na Argentina, exceto o Brasil. Mas os preços elevados estão a fazer com que muitos agricultores usem menos fertilizantes. É por esta razão que Micaela Bové e a sua equipa estão a promover ferramentas e aplicações digitais para ajudar os agricultores a usar os seus produtos com mais eficiência. “As decisões de fertilizar dependem da cultura”, diz Micaela, “e um agricultor de milho no México tem necessidades diferentes das de um agricultor de citrinos ou de um agricultor de bananas noutros lugares”.

África – de pouco a nada

Os agricultores africanos usam em média menos fertilizantes por hectare no mundo e têm alguns dos rendimentos mais baixos, nomeadamente para o milho e outros grãos que fornecem a maior parte das calorias ao continente africano. Desta forma, apesar de ter 60% das terras aráveis do planeta, quase metade dos países africanos depende do trigo importado da Rússia e da Ucrânia, com 14 países africanos a receberem mais de metade do seu trigo vindo das duas nações em guerra. O aumento dos preços dos alimentos ameaça agora empurrar milhões de famílias africanas para a pobreza e desnutrição.

A guerra longínqua não é o único desafio, diz Agnes Kalibala, presidente da Alliance for a Green Revolution in Africa (AGRA), uma organização sem fins lucrativos sediada em Nairobi que trabalha com governos africanos e agências estrangeiras com o objetivo de fazer com que os agricultores usem mais fertilizantes e sementes melhoradas, para aumentar os rendimentos por todo o continente. “A parte mais importante para mim, mais importante que os fertilizantes, é o quanto os agricultores estão a sofrer com a perspetiva das alterações climáticas”, diz Agnes Kalibata, ex-ministra da agricultura do Ruanda. “Nos países onde não choveu no ano passado, houve geralmente uma queda no interesse por fertilizantes. Portanto, a questão agora é saber se esse interesse irá aumentar à medida que as chuvas começam a chegar a algumas dessas áreas.”

“Ainda assim, mesmo que os países consigam obter fertilizantes, os agricultores muitas vezes não os conseguem pagar.” Os governos que normalmente financiam a compra de fertilizantes estão a enfrentar uma enorme dívida pós-COVID que, em alguns países, é superior a 50% do seu produto interno bruto. A organização de Agnes Kalibata está a trabalhar com a União Africana, o Banco Africano de Desenvolvimento e as nações do G7 para ajudar a criar uma linha de financiamento de emergência, mas também está a incentivar os agricultores a procurarem alternativas.

“Em África, a nossa produtividade é muito baixa e temos um esgotamento elevado de nitrato nos nossos solos”, diz Agnes Kalibata. “É muito difícil cultivar milho ou arroz sem nutrientes. Mas há outras opções, como as favas, que são cultivadas na Etiópia e no Sudão, e que podem cobrir 100% das necessidades de nitrogénio. Esta é uma oportunidade fantástica.”

A fixação de nitrogénio é um processo simbiótico natural que distingue as leguminosas dos grãos de cereais, que são da família das gramíneas. As bactérias de rizóbio que vivem nas raízes das plantas convertem o nitrogénio atmosférico em amónia que as plantas podem usar, ao passo que as plantas fornecem açúcares às bactérias. Os grãos são ótimos fixadores de nitrogénio: a soja fornece até 70 ou 80 por cento das suas necessidades. O feijão comum, um feijão básico cultivado por toda a África, pode ajudar em até 30%.

“Continuamos a usar nutrientes, mas usamos menos”, diz Agnes Kalibata.

Como sempre, o clima continua a ser a grande incógnita. Sem chuva, os fertilizantes têm pouco ou nenhum efeito.

“Se chover em algumas destas áreas, esses países poderão encontrar alternativas”, diz Agnes Kalibata. “Senão chover, teremos diversas crises em mãos.”

É melhor orgânico

Os únicos agricultores que não estão a reclamar sobre os fertilizantes são os produtores orgânicos, cujos números continuam a aumentar. O lema destes agricultores tem sido alimentar o solo, não as plantas, e evitar os fertilizantes químicos e pesticidas nas plantas leguminosas de cobertura, fazer a rotação de culturas diversificadas e promover a presença de insetos e micróbios benéficos nos seus campos. Algumas culturas de cobertura podem produzir até 135 quilos de nitrogénio por cada 4 mil metros quadrados, de acordo com Jeff Moyer, diretor executivo do Instituto Rodale em Emmaus, na Pensilvânia.

O Instituto Rodale, com a ajuda da Universidade da Pensilvânia, tem realizado comparações diretas de sistemas de cultivo convencionais e orgânicos desde 1981 – o ensaio de campo mais antigo na América do Norte. Após um período de transição de cinco anos, a equipa do instituto descobriu que as colheitas orgânicas não só eram competitivas com as colheitas convencionais, como também tinham uma produção 40% mais elevada durante as secas. Mais importante, renderam aos agricultores entre três a seis vezes mais lucro, sem libertar ou escoar químicos tóxicos para rios ou riachos.

“Os fertilizantes são apenas a ponta do icebergue dos problemas que os agricultores enfrentam”, diz Jeff Moyer. “Basta olhar para o Kansas e para o Nebraska. Este ano, ambos os estados estão a lidar com incêndios florestais, mas supostamente estamos na época das chuvas. Com os padrões climáticos a mudar e os custos energéticos a subir, ao invés de diminuir, precisamos de revolucionar os nossos modelos de produção para minimizar esses impactos.”

Porém, a conversão para culturas orgânicas demora tempo, e tempo é algo que também escasseia para muitos agricultores.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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