As alterações climáticas estão a afetar um bem precioso: o sono

Basta estar uma noite um pouco mais quente do que o habitual para afetar o nosso sono. Um novo estudo feito ao nível mundial observa esta ligação.

Por Alejandra Borunda
Publicado 1/06/2022, 12:38
clima, sono

Trabalhadores de um armazém de arroz fazem uma pausa durante o calor do dia em Jacabob, no Paquistão. A subida das temperaturas noturnas já está a afetar o nosso descanso, e as alterações climáticas provavelmente significam ainda mais noites mal dormidas.

Fotografia por Matthieu Paley

Todos nós conhecemos aquela sensação horrível: uma noite abafada, um pouco mais quente do que o habitual, que resulta numa noite mal dormida e, na manhã seguinte, estamos exaustos.

Esta sensação não é apenas desagradável. Anos de investigação mostram que a privação de sono pode aumentar o risco de doenças cardíacas, intensificar os transtornos de humor, afetar as capacidades de aprendizagem e muito mais – problemas com enormes custos pessoais, sociais e económicos.

Agora, um novo estudo faz a ligação entre a privação de sono – e todos os problemas que isso acarreta – e as alterações climáticas. Investigadores da Universidade de Copenhaga descobriram que as temperaturas noturnas cada vez mais elevadas, impulsionadas pelas alterações climáticas, fazem com que adormeçamos mais tarde e acordemos mais cedo, custando-nos tempo precioso de descanso noturno.

Os “dorminhocos” acompanhados no estudo, que foi publicado na revista One Earth, perderam tempo de descanso mesmo em locais onde as temperaturas não eram muito elevadas; e tiveram problemas de adaptação a temperaturas de sono ligeiramente acima do normal. Os efeitos no sono, alertam os investigadores, vão aumentar à medida que as temperaturas também aumentam, custando potencialmente a todos os dorminhocos – ou seja, a todos nós – entre 13 a 15 dias adicionais de noites mal dormidas por ano até ao final deste século.

É um exemplo bastante evidente de como as alterações climáticas estão a afetar a vida quotidiana das pessoas, segundo os especialistas – e não se trata apenas das coisas mais catastróficas, como mais secas e inundações, mas também dos efeitos mais pequenos que se vão acumulando. A privação de sono devido às alterações climáticas “já está a acontecer, está a acontecer agora, não é que algo que vai acontecer no futuro, está a acontecer hoje”, diz Kelton Minor, autor principal do estudo e investigador da Universidade de Copenhaga.

Uma questão de graus

Entre 2015 e 2017, Kelton Minor e os seus colegas analisaram dados recolhidos pelo mundo inteiro de cerca de 50.000 pessoas com pulseiras de registo de atividades. Estes dispositivos registam quando as pessoas adormecem, quando acordam e a forma como dormem. Embora os dados dos utilizadores sejam anónimos, os investigadores podem comparar as localizações dos participantes com os dados climáticos específicos de cada local.

Isto permitiu aos investigadores comparar os dados sobre o sono com as temperaturas exteriores locais – sem informações sobre as condições no interior ou se havia ar condicionado ligado. Como os investigadores estavam a observar os registos contínuos de pessoas individuais, conseguiam ver como é que alguém dormia numa noite fria em junho em relação a uma noite quente alguns dias depois, ou como reagiam a uma noite quente fora de época em fevereiro.

Este conjunto de dados é único, porque não depende dos depoimentos dos participantes, que geralmente não são muito fidedignos. E também abrange o mundo inteiro, ao passo que os poucos estudos feitos anteriormente – que analisaram a relação direta entre o clima e o sono – concentraram-se apenas em poucos individuos, ou apenas nos Estados Unidos.

Mas o mais interessante são os resultados. As pessoas dormem mais quando as temperaturas exteriores estão abaixo dos 10 graus Celsius. Acima deste limiar, as probabilidades de dormirmos menos de sete horas aumentam. Acima dos 25 graus, as dificuldades em dormir são mais acentuadas. Quando as temperaturas noturnas exteriores atingem os 30 graus, as pessoas perdem em média cerca de 15 minutos de sono por noite.

“Pode não parecer muito, mas na verdade é importante”, diz Sara Mednick, investigadora do sono da Universidade da Califórnia, em Irvine. “Em primeiro lugar, os estudos sugerem que estes 15 minutos provavelmente vêm do estágio de sono de onda lenta, que é extremamente importante”, diz Sara Mednick. Nós só temos cerca de uma hora deste tipo de sono por noite, ou seja, tirar 15 minutos – ou até cinco – corta uma fatia importante deste tempo de recuperação.

O calor também atinge desproporcionalmente os grupos demográficos. Os impactos aumentam com a idade – as pessoas com mais de 70 anos são cerca de duas vezes mais suscetíveis, de acordo com os estudos, perdendo cerca de 30 minutos em vez de 15 perante pressões de calor semelhantes. As mulheres também são mais afetadas, perdendo cerca de 25% a mais de sono do que a média com temperaturas mais quentes. (As pessoas mais ricas e sobretudo os homens têm mais propensão para usar estes tipos de pulseiras – ou seja, é provável que os resultados subestimem os impactos.)

E os habitantes dos países de baixo e médio rendimento sofrem cerca de três vezes mais interrupções no sono do que as pessoas nos países desenvolvidos – em parte, talvez, devido a um acesso mais restrito a aparelhos de ar condicionado.

“Isto faz com os efeitos das alterações climáticas passem do catastrófico para o existencial e mostra como tudo isto nos afeta diariamente”, diz Jamie Mullins, economista ambiental da Universidade de Massachusetts, em Amherst, que não esteve envolvido na investigação. “Vai custar-nos a todos de pequenas formas que se vão acumulando.”

Os corpos não se adaptam

Possivelmente mais preocupante, porém, é outra descoberta: os corpos das pessoas não parecem adaptar-se às temperaturas mais elevadas durante o sono – mesmo as pessoas que vivem em climas quentes o ano inteiro, ou mesmo depois de terem passado um verão expostas a noites quentes. As noites mais quentes do que o habitual continuam sempre a afetar o sono.

“Não encontrámos evidências de que as pessoas estejam a adaptar-se”, diz Kelton Minor, pelo menos ao nível fisiológico.

Isto faz sentido, explica Kelton Minor, dada a forma restrita como os nossos corpos regulam a sua temperatura interna. Alguns graus demasiado acima ou abaixo fazem com que os nossos órgãos comecem a funcionar mal, ou até a parar. A nossa temperatura corporal é um dos principais controlos do sono: antes de adormecermos, desviamos o sangue para as nossas extremidades e arrefecemos ligeiramente o nosso núcleo corporal. Sem esta mudança, é mais difícil entrar no estado de sono.

É esta necessidade, a de um controlo tão rígido sobre a nossa temperatura corporal, que nos torna menos flexíveis perante o agravamento das condições de sono.

Desde o século XIX, as alterações climáticas provocadas pelo homem já fizeram com que o planeta aquecesse cerca de 1.1 graus Celsius. Mas as noites têm aquecido mais do que os dias na maior parte do mundo; nos EUA, as noites de verão têm aquecido duas vezes mais do que os dias.

“Antigamente, as noites eram uma oportunidade para arrefecer o corpo. Mas quando [o calor] é o fator de stress crónico, o corpo não consegue arrefecer e recuperar – esta é uma peça fundamental que afeta a saúde das pessoas”, diz Rupa Basu, especialista em saúde pública do Gabinete de Avaliação de Riscos de Saúde Ambiental da Califórnia.

Os investigadores dinamarqueses estimam que as noites mais quentes já custam a todos os dorminhocos cerca de 44 horas de descanso por ano. E também temos 11 dias extra de “sono curto”, noites em que dormimos menos de sete horas.

Contudo, à medida que o planeta continua a aquecer, estes efeitos irão aumentar. Até ao final do século, podemos perder até 50 horas de sono por ano se as emissões de carbono continuarem ao ritmo verificado atualmente.

“Os humanos são incrivelmente adaptáveis”, diz Kelton Minor. “Mas existem limites físicos reais para esta adaptação, limites aos quais devemos estar atentos.” O sono em condições mais quentes, segundo a análise dos investigadores, é uma tema ao qual também devemos estar atentos.

Uma solução problemática

Não se trata de algo que encaramos de ânimo leve, diz Jose Guillermo Cedeno Laurent, investigador de saúde ambiental em Harvard. Jose Laurent e os seus colegas fizeram uma experiência na Faculdade de Harvard durante uma vaga de calor em 2016. Os alunos que dormiam nos dormitórios mais novos, com ar condicionado, tiveram melhores notas nos testes cognitivos feitos nos dias seguintes do que os alunos que viviam nos edifícios mais antigos, “construídos para outro clima”, diz Jose Laurent.

“Mesmo as pessoas mais jovens e saudáveis são afetadas de uma forma que é verdadeiramente importante – afeta a forma como pensam.”

O estudo de Jose Laurent refere uma possível solução para os problemas de sono induzidos pelo clima: colocar mais dispositivos de ar condicionado nos lares de todo o mundo. Contudo, trata-se de um enorme desafio económico e ambiental. Os aparelhos de ar condicionado devoram muita energia e, portanto, dinheiro; um estudo feito recentemente mostra que as famílias de baixo rendimento nos EUA esperam até que as temperaturas subam entre 3 a 5 graus antes de ligarem os sistemas de refrigeração. Para além disso, os aparelhos de ar condicionado aquecem o ambiente exterior tanto globalmente – porque a maior parte da eletricidade vem da queima de combustíveis fósseis – como localmente – porque o excesso de calor sugado das divisões das casas é expelido para o ar exterior.

Para Jose Laurent, as ligações entre a privação de sono e uma saúde mais precária, tanto física como mental, estão tão bem estabelecidas que é inconcebível ignorar questões que a possam piorar. Esclarecer a ligação entre clima e sono faz com que seja impossível ignorar a nossa responsabilidade social em corrigir a raiz do problema, bem como os seus impactos.

“Como é óbvio, a melhor solução é travar as alterações climáticas. Contudo, neste momento, trata-se basicamente de uma questão de direitos humanos”, acrescenta Jose Laurent.

 


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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