Ativistas receiam nova ameaça para a biodiversidade – energias renováveis

Para combater as alterações climáticas, são desesperadamente necessárias fontes de energia mais limpas, mas alguns especialistas dizem que é preciso fazer mais para manter os ecossistemas intactos.

Por Sarah Gibbens
Publicado 3/06/2022, 12:47
energia solar

Turbinas eólicas e painéis solares produzem energia renovável no deserto Mojave, na Califórnia. A energia renovável é extremamente necessária para combater as alterações climáticas, mas alguns ambientalistas temem que a rápida construção sem uma escolha cuidadosa da localização possa colocar em risco espécies ameaçadas.

Fotografia por David Guttenfelder, Nat Geo Image Collection

Uma pequena flor silvestre do Nevada – chamada trigo sarraceno de Tiehm – podia continuar a viver na obscuridade se não crescesse em solo repleto de lítio. E pela forma como as coisas se estão a desenrolar, o facto de crescer neste local pode muito bem ser a sua desgraça.

O lítio é necessário para produzir as baterias de alta potência que estão a ajudar o mundo a fazer a transição para os veículos elétricos. A procura está a aumentar e as empresas de mineração estão ansiosas para extrair lítio em vários locais no Nevada, que já tem a única mina de lítio existente nos EUA.

Contudo, o trigo sarraceno de Tiehm é mais raro do que o lítio. Esta flor só cresce em aproximadamente 4.4 hectares de terra em Rhyolite Ridge, no sudoeste do Nevada, exatamente onde está planeada uma das novas minas de lítio.

“Um homem com uma escavadora é capaz de extinguir estas flores numa tarde”, diz Patrick Donnelly, diretor do Centro de Diversidade Biológica de Great Basin e um dos maiores defensores desta flor.

Patrick Donnelly e outros conservacionistas encaram esta flor e a mina como emblemáticas de uma tendência mais ampla e perturbadora – existe um conflito crescente, dizem os ambientalistas, entre os esforços para lidar com duas crises ambientais – por um lado, temos um clima em rápido aquecimento, por outro, um aumento acentuado na extinção de espécies.

A mineração não é a única forma pela qual a revolução das energias renováveis está  a afetar a paisagem, quer seja no deserto ou em qualquer outro lugar. Na última década, a eletricidade gerada a partir de energia solar e eólica quadruplicou nos EUA – e isto é apenas o começo de algo que os especialistas dizem ser necessário para nos afastarmos da dependência dos combustíveis fósseis e evitar os piores impactos das alterações climáticas. Até 2030, o estado do Nevada planeia obter metade da sua eletricidade a partir de energia renovável, de acordo com a meta estabelecida pelo governo de Joe Biden para descarbonizar completamente a economia norte-americana até 2050.

Isto resulta em algo que alguns ativistas descrevem como uma ‘corrida às energias renováveis’, colocando em risco espécies raras e ecossistemas desérticos imaculados.

Historicamente, os pantanais e as pradarias foram sempre zonas negligenciadas; os pântanos eram drenados para o desenvolvimento e as pradarias eram aradas para as plantações. Agora, alguns conservacionistas veem a história a repetir-se em vales desérticos e praticamente intocados, que têm solos ricos em lítio e são pontos geotérmicos de interesse.

“Vamos fazer o que temos feito sempre com os nossos problemas ambientais, empurrar um problema para cima do outro”, diz Dustin Mulvaney, professor de estudos ambientais na Universidade de San José e autor do livro Solar Power. “Estamos a empurrar o problema climático para cima da crise de biodiversidade. É mais do mesmo.”

Dustin Donnelly acrescenta que “a única forma de o explicar é dizer que sou um enfermeiro a fazer a triagem numa sala de urgência, com espécies ameaçadas de extinção, no deserto, e os pacientes não param de surgir”.

Energias renováveis dirigem-se para oeste

Dustin Donnelly diz que ainda não viu uma lista abrangente com todas as espécies em risco devido ao desenvolvimento para as energias renováveis. Mas Dustin mantém a sua própria lista informal de pacientes no Nevada. Alguns estão listados como ameaçados pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, outros não – ou ainda não estão. Mas geralmente são espécies pouco conhecidas.

Ameaçadas pela mineração de lítio, de acordo com Dustin Donnelly, estão as espécies Eriogonum tiehmi (o referido trigo sarraceno de Tiehm), Cordylanthus tecopensis (uma erva anual), Crenichthys nevadae (um peixe pequeno), Anaxyrus nevadensis (um sapo endémico do Nevada), Pyrgulopsis imperialis (um caracol pequeno) e Spiranthes infernalis (uma orquídea).

Ameaçadas pela exploração de energia solar estão a tartaruga do deserto, a planta Astragalus geyeri e a flor Penstemon albomarginatus.

A exploração de energia geotérmica ameaça o sapo de Dixie Valley, o supracitado caracol Pyrgulopsis imperialis, o minúsculo peixe Rhinichthys osculus, o trigo sarraceno Eriogonum williamsiae, o tui chub de Lake Valley (outro peixe pequeno) e a borboleta Polites sabuleti sinemaculata.

“Em muitos casos, há muito pouca informação sobre estas espécies – todas são muito raras e um tanto ou quanto obscuras”, diz Dustin Donnelly. “Mas há uma potencial crise de extinção a acontecer no Nevada devido às energias renováveis, e estas pequenas criaturas e plantas estão na linha da frente.”

Dustin diz que, embora os ecossistemas já tenham enfrentado ameaças por parte de atividades como a pastagem de gado ou a mineração de ouro, a expansão devido às energias renováveis é a ameaça mais recente e de maior crescimento.

O governo dos EUA possui pouco menos de metade das terras em 11 estados da região Oeste, incluindo 80% das terras no Nevada, e a maioria é gerida pelo Departamento de Gestão de Terras (BLM). Em 2012, esta agência designou 17 locais em seis estados da costa oeste como Zonas de Energia Solar do Departamento de Gestão de Terras, identificadas como as melhores localizações para construir uma central de energia solar. Cinco destes locais ficam no Nevada.

Quando determina os locais, o Departamento de Gestão de Terras exclui sempre o habitat de espécies críticas, diz Lee Walston, ecologista do Laboratório Nacional de Argonne, do Departamento de Energia dos EUA. Os cientistas do laboratório Argonne ajudaram o Departamento de Gestão de Terras a mapear as suas zonas de energia solar e a preparar as declarações de impacto ambiental.

Pequenos caules de trigo sarraceno de Tiehm crescem na Universidade do Nevada, em Reno. Esta investigação foi financiada pela Ioneer, uma empresa australiana de mineração que quer extrair lítio no habitat desta planta. Neste estudo, os investigadores tentam perceber se este trigo sarraceno pode ser transplantado para outro local.

Fotografia por Scott Sonner, AP Images

Porém, algumas empresas estão pedir licenças para explorar fora destas zonas. “As razões para as licenças fora das zonas determinadas para a exploração de energia solar são muito variadas”, diz Heidi Hartmann, especialista em política energética  que trabalha com Lee Walston no laboratório de Argonne. Heidi Hartmann refere que a proximidade com linhas de energia ou estradas é um incentivo para pedir uma licença de exploração fora de uma zona.

O Departamento de Gestão de Terras informa que a agência emite licenças de acordo com as regras estabelecidas pela Lei Nacional de Proteção Ambiental (NEPA), que exige períodos de comentários abertos para que o público e as organizações ambientais possam expressar as suas preocupações.

“O Departamento de Gestão de Terras está profundamente comprometido com a conservação da vida selvagem, dos ecossistemas e das espécies ameaçadas nos mais de 999 mil hectares de terras públicas que gerimos”, diz a diretora do Departamento de Gestão de Terras, Tracy Stone-Manning, através de comunicado por email. “Ao colaborar com os diversos parceiros tribais, estaduais, federais e locais, conseguimos atingir este importante objetivo, ao mesmo tempo que combatemos as alterações climáticas e fornecemos energia limpa aos lares americanos através de projetos para as energias renováveis com localizações responsáveis.”

Criaturas raras, dados escassos

Alguns especialistas receiam que as concessões ambientais feitas pelas empresas de exploração não vão longe o suficiente para conservar a vida selvagem.

“Não estou satisfeita com a qualidade dos processos de monitorização e pré-construção, que determinam quais são as espécies existentes. Estes processos podem ser feitos de maneira apressada e incompleta”, diz Rebecca R. Hernandez, professora de ecologia na Universidade da Califórnia, em Davis, e codiretora da Wild Energy Initiative.

No ano passado, Rebecca Hernandez e os seus colegas publicaram um estudo na revista Biological Conservation onde revelaram que as zonas de conservação designadas dentro do Sistema Elétrico Solar de Ivanpah, uma enorme central de energia na Califórnia, podem não estar de facto a conservar espécies. Os pedaços de terreno intocados que foram deixados entre os painéis solares – criados para proteger plantas ameaçadas como a serralha de Mojave – não têm o mesmo número de insetos polinizadores que existem longe dos painéis solares.

Sem uma população saudável de polinizadores, a serralha pode não conseguir reproduzir e sobreviver nas zonas de conservação de Ivanpah, diz Rebecca Hernandez. “Isto levanta uma questão – qual é o propósito [das zonas de conservação] se não incluirmos áreas suficientes?”

Lee Walston, dos laboratórios Argonne, concorda com esta afirmação. “Estamos sempre a ouvir dizer que os impactos que aconteceram após a construção foram maiores do que os previstos inicialmente.” Lee Walston diz que tanto ele como outros biólogos, que avaliam o potencial impacto ambiental dos projetos energéticos, nem sempre têm dados suficientes sobre as possíveis consequências ecológicas de um desenvolvimento a longo prazo.

“As plantas raras nestes ambientes podem não aparecer num determinado ano, ou seja, podemos fazer um levantamento ambiental que negligencia estas espécies, e os dados vão dizer que podemos avançar com o desenvolvimento. Creio que existe a necessidade de obter dados mais aprofundados.”

Deixar intocada a terra intocada

Para alguns conservacionistas, a mais ínfima perturbação do deserto não é bem-vinda.

“A última coisa que devíamos fazer é construir projetos solares em terras públicas que têm ecossistemas com uma biodiversidade muito rica, como acontece no deserto Mojave”, diz Laura Cunningham, ativista e técnica de vida selvagem que vive no deserto do Nevada. “A destruição de uma simples planta é importante, e deve ser importante porque existem alternativas melhores.”

Laura Cunningham e o seu marido, Kevin Emerich, guarda florestal reformado, fundaram a Basin and Range Watch, uma organização que acompanha e luta contra os projetos energéticos nas terras intocadas da região Oeste dos EUA. Para além das minas de lítio, o Departamento de Gestão de Terras está atualmente a avaliar as licenças para seis projetos diferentes de energia solar que abrangeriam mais de 26.000 hectares, de acordo com informações da Basin and Range Watch. Estes projetos ficam todos no sudoeste do Nevada, não muito distante do Parque Nacional do Vale da Morte e fora das zonas de exploração de energia solar designadas para o local.

Laura Cunningham e outros ambientalistas referem que uma boa resposta seria instalar painéis de energia solar nas estruturas de sombra que estão nos milhões de parques de estacionamento encontrados pelas cidades. Um estudo feito no Connecticut descobriu que os painéis de energia solar sobre os parques de estacionamento podem fornecer até 37% da eletricidade usada anualmente por este estado.

Outra alternativa à instalação de painéis solares em terras imaculadas pode passar pela energia agrovoltaica, que combina a produção de energia fotovoltaica e o crescimento de culturas nos mesmos campos agrícolas. Um estudo publicado na revista Nature Sustainability em 2019 descobriu que os painéis solares podem fornecer benefícios agrícolas, como reduzir o stress hídrico nas plantas – porque sombreiam o solo.

Em 2035, a energia solar poderá fornecer até 40% da energia nos EUA, e Lee Walston diz que a análise feita pelos cientistas dos laboratórios Argonne mostra que os EUA têm terras já desenvolvidas para fornecer energia solar suficiente sem ser necessário explorar outros terrenos.

“Os terrenos perturbados já lá estão. É apenas uma questão de convencer a indústria [a usá-los]”, diz Lee Walston.

História de duas cidades

Nem todos os ambientalistas veem a expansão das energias renováveis como uma enorme ameaça à biodiversidade.

“Acredito que, ao ritmo com que o desenvolvimento está a acontecer neste momento, nem sequer estamos perto do ponto em que começamos a falar sobre uma extinção ligada a este desenvolvimento”, diz Helen O’Shea, especialista em desenvolvimento sustentável de energias renováveis no Conselho de Defesa de Recursos Naturais dos EUA. “Mas quero realçar que estamos perante um caso delicado, e os casos delicados não são fáceis.”

Helen O'Shea refere que a construção de estruturas para energias renováveis em parques de estacionamento, por exemplo, ou a instalação de painéis solares nas residências não está a acontecer com a rapidez suficiente para atingir as metas climáticas.

“As coisas estão a avançar a um ritmo surpreendentemente lento”, diz Helen O'Shea. “Há muito trabalho para fazer em termos de distribuição, mas não creio que isso resolva todas as nossas necessidades energéticas no tempo que temos para lidar com as alterações climáticas.”

O desenvolvimento em habitats importantes é uma ameaça direta à biodiversidade, mas esta também está ameaçada pelas mudanças nas condições climáticas provocadas pelas emissões dos combustíveis fósseis, diz Lori Bird, diretora do programa energético dos EUA no World Resources Institute.

“Temos de limpar o setor energético para travar as alterações climáticas, que têm muitos impactos na biodiversidade e nas secas”, diz Lori Bird. “Se não abordarmos as emissões dos gases de efeito estufa, vamos ter ainda mais problemas.”

No Nevada, porém, alguns ambientalistas estão a tomar medidas para proteger o deserto.

Em resposta a uma petição do Centro para a Diversidade Biológica, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem propôs listar o trigo sarraceno de Tiehm como uma espécie ameaçada e designar perto de 370 hectares de Rhyolite Ridge como habitat crítico – os 4.4 hectares onde a planta vive, para além de enorme uma zona de amortecimento para sustentar os insetos polinizadores. A decisão final ainda está pendente. A empresa de mineração Ioneer disse através de comunicado que esta designação não vai ter um “impacto material” nas suas atividades de mineração.

Enquanto isso, a organização Basin and Range Watch tem um processo em tribunal que visa interromper a construção da Mina de Lítio de Thacker Pass, no noroeste do Nevada. Se for construída, esta será a maior mina de lítio nos EUA – numa época em que a maior parte do lítio mundial vem da Austrália, Chile e China. Mas os ambientalistas dizem que a mina pode colocar em risco as populações de tetrazes-cauda-de-faisão.

Laura Cunningham e Kevin Emmerich também estão a tentar travar os projetos de exploração solar no deserto Mojave, bem como a Greenlink West – uma linha de alta tensão que percorreria mais de 560 km entre Reno e Las Vegas, e ligaria todos os novos projetos à rede elétrica.

“Já nos chamaram de ‘vendidos do petróleo’” diz Laura Cunningham sobre a oposição que faz aos projetos de exploração de energias renováveis no deserto.

“Se os projetos energéticos no nosso quintal fossem oleodutos ou fábricas de carvão, estaríamos a fazer o mesmo”, diz Laura. Curiosamente, o tipo de energia contra o qual Laura e o marido estão a protestar ajuda a combater as alterações climáticas, em vez de as provocar.

 

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