Baleias-jubarte enfrentam novo revés devido às alterações climáticas

Estas baleias icónicas estão a recuperar – depois de estarem muito perto da extinção – mas o aquecimento dos mares pode forçá-las a afastarem-se dos seus locais históricos de reprodução.

Por Kieran Mulvaney
Publicado 14/06/2022, 12:06
Baleia

Uma mãe baleia-jubarte e a sua cria nadam numa baía protegida em Vava'u, no Reino de Tonga.

Fotografia por Brian Skerry, National Geographic Creative

Depois de recuperar de décadas de atividade baleeira, uma das espécies de baleias mais emblemáticas pode estar em risco devido às alterações climáticas, dado que o aquecimento das águas pode forçar as baleias a afastarem-se dos seus locais tradicionais de reprodução nos trópicos.

De acordo com um novo estudo, publicado na Frontiers in Marine Science, a subida da temperatura estimada para a superfície do mar significa que muitas das áreas de reprodução das baleias-jubarte vão sair da sua faixa histórica de temperatura até ao final deste século. Se adicionarmos o aquecimento das suas áreas de alimentação, bem como os impactos de outras atividades humanas, estas mudanças podem significar que, depois de anos de recuperação, o futuro das baleias-jubarte está longe de estar assegurado.

Provavelmente a mais conhecida das grandes baleias, com longas barbatanas peitorais e propensão para saltar fora de água – comportamento conhecido por brecha – as baleias-jubarte também são famosas pelas suas longas canções, que são complexas e assustadoras. Como nadam principalmente em águas costeiras, estas baleias foram sempre presas fáceis para os baleeiros comerciais, que começaram a caçá-las no século XVI – só no século XX mataram cerca de 250.000 baleias – reduzindo a sua população global para poucos milhares de individuos. Mesmo que outras populações de baleias tenham recuperado lentamente, ou não tenham recuperado, as baleias-jubarte recuperaram consistentemente em toda a sua extensão de alcance.

“Por exemplo, as populações de baleias-jubarte que migram da Antártida ao longo das costas leste e oeste da Austrália podem muito bem ter ficado reduzidas a algumas centenas de individuos quando os russos, na então União Soviética, terminaram de as abater ilegalmente na década de 1960. Porém, hoje em dia, existem dezenas de milhares de baleias-jubarte e o seu crescimento é forte e contínuo”, diz Philip Clapham, que trabalhou no Centro de Ciências de Pescarias do Noroeste e agora é Cientista Sénior da SeaStar Scientific. “Nos últimos anos, até a própria (ilha) Geórgia do Sul – na Antártida, onde começou a caça à baleia em 1904, e onde as baleias-jubarte foram praticamente exterminadas em 1915 – tem assistido ao regresso de números significativos de baleias após décadas sem qualquer avistamento.”

Uma baleia-jubarte petisca peixe nas águas quentes da baía de Monterey, na Califórnia.

Baleias-jubarte defendem o seu território

No verão, as baleias-jubarte alimentam-se em águas frias nas altas latitudes, como no Alasca, Antártida, Islândia, Noruega e na costa leste do Canadá e dos Estados Unidos, migrando anualmente para águas mais quentes para reproduzir. Não se sabe exatamente porque é que as baleias migram, embora algumas teorias especulem que o fazem para evitar as orcas assassinas – que aparecem em maior abundância nas áreas frias de alimentação – ou até para rejuvenescer a pele.

Outra teoria sugere que as águas tropicais permitem às crias recém-nascidas canalizar as suas energias para algo diferente que não seja manterem-se aquecidas. “Isto não quer dizer que uma cria iria morrer se nascesse em águas frias, ou seja, em águas quentes pode canalizar mais energia para o seu crescimento”, explica Philip Clapham. A água quente em si é um fator importante, como se pode observar pelo facto de a temperatura da superfície do mar em todas as áreas de reprodução das baleias-jubarte ao nível global estar aproximadamente entre os 21 e 28 graus Celsius.

A presença das baleias-jubarte nestes locais de reprodução deu origem à enorme indústria global de observação de baleias. No Havai, a partir de onde aproximadamente 10.000 baleias-jubarte viajam todos os anos para as suas áreas de alimentação no Alasca, este setor injeta mais de 11 milhões de dólares por ano na economia deste estado norte-americano.

De acordo com o novo estudo, porém, tudo isto – a recuperação das baleias-jubarte, as suas migrações para as áreas de reprodução, a indústria de observação de baleias – pode estar em risco devido às alterações climáticas. Neste estudo, Hannah von Hammerstein e Renee Setter, doutorandas da Universidade do Havai, no Departamento de Geografia e Meio Ambiente de Manoa, trabalharam com especialistas em baleias da universidade e da Fundação Pacific Whale para estimar o aumento da temperatura da superfície do mar nas áreas de reprodução das baleias-jubarte.

As investigadoras descobriram que, num cenário “intermédio” para as alterações climáticas – no qual o crescimento económico continua em níveis históricos mas faz-se acompanhar por esforços limitados para reduzir o aquecimento global – 36% das áreas de reprodução das baleias-jubarte no Hemisfério Norte e 38% no Hemisfério Sul vão estar consistentemente sujeitas a temperaturas iguais ou acima dos 27.7 graus até ao final do século. Contudo, num cenário em que as emissões dos combustíveis fósseis continuam a um ritmo acelerado, estes números aumentam para os 64% no Hemisfério Norte e 69% a sul do equador.

Os resultados foram surpreendentes para as investigadoras.

“Esperávamos encontrar impactos em alguns locais de reprodução”, diz Hannah von Hammerstein. “Mas quando analisámos as nossas projeções e vimos um local após o outro a ficar vermelho, foi bastante surpreendente.”

Uma baleia-jubarte exibe a sua barbatana caudal antes de mergulhar no Estreito de Gerlache, na Antártida.

Impactos desconhecidos

Com pouco conhecimento sobre as razões pelas quais as baleias-jubarte escolhem locais específicos para reproduzir, é difícil determinar os impactos exatos destes cenários. Apesar de teoricamente ser possível as baleias simplesmente escolherem novos lugares para procriar, Stephanie Stack, coautora do estudo, argumenta que as coisas não são assim tão simples.

“Se este habitat estiver indisponível, não fazemos ideia para onde é que as baleias podem ir”, explica Stephanie, bióloga-chefe da Fundação Pacific Whale. “O habitat pelo mundo inteiro está a degradar-se, ou seja, simplesmente não sabemos como é que as baleias vão reagir. Para além disso, em alguns locais – sobretudo no Havai, onde a massa de terra mais próxima é a Califórnia, que fica a mais de 3.200 quilómetros de distância, e o Japão, a quase 6.400 quilómetros de distância – simplesmente não existem áreas perto para onde as baleias se possam dirigir.

Também é importante referir que quaisquer mudanças nos locais de reprodução não acontecem de forma isolada. As baleias-jubarte, tal como as outras baleias, enfrentam ameaças cumulativas, que vão desde colisões com navios, atividade pesqueira, ruído subaquático e outras atividades humanas. Se a temperatura aumentar nas suas áreas de reprodução, também aumenta nas áreas de alimentação, com impactos potencialmente ainda mais graves.

“Embora o limite da temperatura não esteja acima da temperatura ideal para as suas áreas de alimentação, já estamos a observar mudanças devido ao aquecimento do oceano”, diz Stephanie Stack. A região sudeste do Alasca, por exemplo, passou por uma série de eventos de águas quentes nos últimos anos; um deles, um lago de água morna que ficou conhecido por “bolha”, estendia-se até ao sul do México e afetou a cadeia alimentar marinha, interrompendo a pesca, devastando um grande número de salmões e resultando em mamíferos marinhos famintos e moribundos.

“Depois deste acontecimento, os avistamentos de baleias-jubarte no Havai e no sudeste do Alasca começaram a baixar, e até hoje não regressaram aos números verificados antigamente”, diz Stephanie Stack. “Não sabemos se as baleias morreram devido a isto ou se começaram a ir para áreas diferentes onde não as procuramos, ou talvez uma combinação entre estas duas coisas.”

É assustador imaginar que estas mudanças podem aumentar de frequência e intensidade, e que podem propagar-se ao ponto de afetar os locais de reprodução das baleias, diz Hannah von Hammerstein. “Não vejo isto como uma coisa puramente negativa, porque os resultados também mostram que, se implementarmos medidas de mitigação e reduzirmos as emissões, conseguimos alcançar resultados positivos.”

As autoras do estudo recomendam mais proteção para os locais de reprodução das baleias-jubarte, com o objetivo de fornecer uma resiliência adicional perante as ameaças climáticas e permitir um estudo mais aprofundado sobre as razões pelas quais as baleias recorrem a estes locais.

“As baleias-jubarte têm sido celebradas como uma história de sucesso da conservação, e com todo o mérito”, diz Stephanie Stack. “Creio que agora é da nossa responsabilidade manter esta tendência e fazer o que for possível para reduzir os fatores adicionais de stress que estão a povoar o oceano. O nosso trabalho ainda não acabou.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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