Como é que as alterações climáticas afetam a produção de vinho no Douro?

O vinho português representa 2,4% do total de exportações nacionais. No entanto, com as alterações climáticas a impactarem as quintas do vale do Douro, cultivar este produto icónico tem-se tornado um desafio.

Por Bárbara Pinho
Publicado 23/06/2022, 16:27
Cientistas da UTAD estudam a fisiologia da videira

Cientistas da UTAD estudam a fisiologia da videira. As alterações climáticas provocam alterações no ciclo da videira.

Fotografia por João Paulo Santos, UTAD

Em maio de 2021, os agricultores de Vila Real experienciaram uma tempestade sem bonança. Uma queda de granizo intensa provocou danos irreparáveis a vários hectares de vinhas daquela zona. Para Lia Dinis, investigadora na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), foi algo como nunca antes visto: “Caíram pedregulhos que deram cabo de tudo. Estes eventos e fenómenos fazem parte das alterações climáticas.”

O mais recente Relatório sobre o Estado do Clima Europeu de 2021 confirma-o: as alterações climáticas já se fazem sentir. Das temperaturas altas às tempestades abruptas e chuvas intensas fora de época, o clima tem mudado. E se todos os setores da sociedade experienciam algum dano com esta mudança, a agricultura, que ocorre em grande parte, a céu aberto, sofre consideravelmente. E como foi o caso de Vila Real, um dos produtos em particular risco é o vinho português.

A biologia do vinho

Da raiz ao copo, existe um ciclo longo e laborioso que a videira percorre. O chamado ciclo fenológico - ciclo em que a planta se vai alterando ao longo do tempo em relação com o clima e condições ambientais - envolve cinco principais fases. Começando pelo repouso vegetativo, que ocorre no Inverno. De seguida, no início da Primavera e com o aumento das temperaturas, surge o abrolhamento, um processo no qual os gomos da videira aumentam de volume. Com o passar da Primavera, ocorre a floração, uma etapa crucial para o desenvolvimento de frutos de qualidade e de seguida, a maturação dos bagos. A maturação tende a acontecer durante a fase final do Verão e é durante esta fase que os bagos acumulam os açúcares e outros compostos essenciais que, após a vindima, são trabalhados e transformados no vinho portugês, um produto que representa 2,4% do total de exportações nacionais.

Douro Superior, região onde o ciclo da videira já está a ser afetado pelas alterações climáticas.

Fotografia por João Paulo Santos, UTAD

As zonas mais bem reconhecidas de produção de vinho Europeu (como é o caso de Portugal) apresentam condições únicas. Interações entre clima, solo e tipos de plantas influenciam os atributos de um vinho que é reconhecido e estimado por clientes por todo o mundo. No entanto, a qualidade e produção desta bebida tão apreciada está cada vez mais em causa em prol das alterações climáticas.

Alterações climáticas e o ciclo da videira

Para além do estrago causado por quedas de granizo intenso, como foi o caso de Vila Real em 2021, há outros fenómenos meteorológicos mais subtis que comprometem a produção de vinho no Douro. Um exemplo é a subida da temperatura média anual.

“Quando falamos em temperatura média anual, se os verões estão mais amenos, os invernos também estão muito mais amenos”, explica Lia Dinis. O inverno de 2022 não foi exceção: o Instituto Português do Mar e da Atmosfera qualificou o mês de janeiro como quente e muito seco, juntando-o ao top 5 de meses de janeiro mais quentes desde 2000. E estes invernos amenos desregulam o ciclo da videira. Por exemplo, as temperaturas altas das últimas décadas têm levado a que as etapas do ciclo da videira estejam a acontecer mais cedo e durante menos tempo. E ainda que na maior parte do território do Douro o impacto ainda não seja notório, o mesmo não se pode dizer da região do Douro Superior.

“No Douro superior, onde as condições são mais extremas, há mais falta de água e a temperatura é mais alta, a fase de abrolhamento tende a começar mais cedo”, explica Lia Dinis.

Cientistas da UTAD estudam a fisiologia da videira.

Fotografia por João Paulo Santos, UTAD

Quando a fase de abrolhamento ocorre precocemente, em princípio a floração ocorrerá demasiado cedo também. Aquilo que é suposto acontecer em maio, quando a temperatura já está mais amena e ideal para o processo de floração, começa a acontecer em abril. Os períodos de precipitação de abril (em abril, afinal de contas, águas mil) podem causar danos à flor. “Caindo a flor, não ocorre a fecundação nem o vingamento do fruto. Esses são os problemas relacionados com a antecipação do ciclo”, frisa Lia Dinis. Menos frutos levam a uma menor produção.

Para além da quantidade, as alterações climáticas também impactam a qualidade do vinho. Altas radiações solares podem provocar escaldões na folha, destruindo assim um fator de proteção dos bagos. A radiação alta incidente nos bagos desidrata-os, reduzindo o seu tamanho e influenciando a quantidade de açúcares nos frutos. Este desequilíbrio de compostos altera a qualidade final do vinho e o teor alcoólico tende a ser maior.

As soluções a curto e longo prazo

Ainda que o impacto das alterações climáticas na produção e qualidade do vinho português seja significativo, há estratégias que produtores podem utilizar para promover a adaptação da planta ao clima. Uma das estratégias a curto prazo e relativamente fácil de aplicar é a utilização de compostos como o caulino ou silício nas folhas das videiras. O caulino é uma argila que, ao ser aplicado no lado das folhas mais exposto ao sol, reduz o impacto das queimaduras solares. Um outro composto útil é o silício. “O silício é um mineral que forma uma camada de sílica na parede celular e impede que a planta perca tanta água na transpiração pelo excesso de calor”, explica Lia Dinis. “Isto são estratégias de curto prazo que ajudam quem já tem as plantações e não consegue fazer muito”, frisa.

A longo prazo, a chave da adaptação envolve a casta que se escolhe e o modo de como se constrói a vinha. Há castas que têm mais tolerância para temperaturas altas e radiações altas. Isto significa que mesmo sob condições extremas, a sua fisiologia não é anulada e conseguem fotossintetizar e consequentemente produzir e acumular açúcares em uvas.

“Dos estudos que temos feito, a Tinto Cão, uma casta que tem as folhas muito clarinhas, adapta-se bem”, explica Lia Dinis.

A casta Tinto Cão, explorada no Douro desde o século dezoito, tem menores teores de clorofila. Este é o pigmento que dá a cor verde às folhas e é essencial para que a planta fotossintetize e utilize a luz solar para produzir açúcares. Por ter menos clorofila, existe uma menor probabilidade da folha sofrer foto-oxidação - um processo que ocorre quando há um excesso de radiação a incidir na folha que provoca danos à planta. Assim, a planta adaptou-se de forma a ter uma quantidade de clorofila que reduz a probabilidade de sofrer danos sob altas radiações solares. Uma estratégia que, para Lia Dinis, enfatiza o lado extraordinário da biologia.

“As plantas são muito mais inteligentes do que aquilo que nós achamos. Elas têm uma capacidade incrível de se adaptar a diferentes condições. Parte do bom senso dos produtores, utilizar aquelas que têm capacidade de se adaptar melhor [às alterações climáticas].”

Para além de bem escolher a casta, novos produtores devem ainda procurar migrar a vinha para latitudes e altitudes mais altas onde as temperaturas são mais baixas e orientar a vinha para norte, de forma a escapar à alta incidência solar. O número de estratégias a implementar é vasto e oferece esperança a um setor que facilmente sofre com um clima instável.

“Se formos colocando a ciência em prática e adaptando, vamos minimizando os danos”, diz Lia Dinis. “Claro que a tendência não é propriamente melhorar. Aliás, está nas nossas mãos. Mas podemos amenizar o problema com estas pequenas estratégias.”

Bárbara Pinho é comunicadora de ciência e trabalha para clientes e cientistas um pouco por todo o mundo. Para além de desenvolver conteúdos digitais, escreve artigos para várias revistas nacionais e internacionais sobre ciência, alterações climáticas, ambiente e saúde.

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