Enquanto Portugal ardia, este fotógrafo tentava salvar a sua quinta

Com as temperaturas a baterem recordes e os incêndios florestais a fustigar a Europa, Matthieu Paley, da National Geographic, combateu as chamas na sua quinta nos arredores de Lisboa.

As plantações medicinais, que ainda não se tinham estabelecido antes do incêndio, ficaram gravemente danificadas.

Fotografia por Matthieu Paley
Por Craig Welch
Publicado 26/07/2022, 10:38

PALMELA, PORTUGAL – Quando as chamas destruíram os barracões de ferramentas e começaram a avançar lentamente em direção a sua casa, Matthieu Paley já tinha encharcado os terrenos com água e aberto apressadamente a porta do seu galinheiro móvel para as galinhas poderem escapar.

Os portugueses já estão habituados aos incêndios florestais. Mas no dia 13 de julho, quando uma vaga de calor recorde começou a sua marcha pela Europa, partes do país ultrapassaram os 46 graus, temperaturas recorde para o mês de julho. Isto ajudou a deflagrar 170 incêndios num dia, incêndios que eclodiram desde a costa sul algarvia até ao extremo norte do país. Nos arredores de Lisboa, as chamas subiram as encostas cobertas de arbustos que rodeiam o histórico castelo de Palmela – um incêndio que Matthieu Paley viu enquanto corria apressadamente em direção à sua casa perto da vila.

O fotógrafo da National Geographic está ciente das alterações climáticas; e fotografou recentemente o sofrimento das pessoas devido ao calor extremo no Paquistão. Mas quando este incêndio eclodiu e atingiu a sua pequena quinta – e quando os bombeiros e a polícia insistiram para que ele fugisse – Matthieu Paley viu as alterações climáticas mesmo à porta de casa.

Matthieu Paley tem reabilitado uma pequena quinta nos últimos anos, concentrando-se na restauração de árvores nativas e no cultivo de plantas medicinais.

Fotografia por Matthieu Paley

“Vi umas chamas enormes a vir na minha direção”, diz Matthieu. “Antes disto, eu não pensava que isto me pudesse acontecer. Não pensei que fosse acontecer aqui.”

Na mesma semana, a cinzenta Grã-Bretanha atingiu os 40 graus Celsius pela primeira vez desde que há registo, e o calor abrasador provocou incêndios enormes por todo o sul da Europa. As chamas obrigaram a evacuações em Espanha, França e nos subúrbios de Atenas, e transformaram tanques de gasolina em bombas na Toscana e afetaram tantos bairros em Londres que o presidente da cidade, Sadiq Khan, disse à BBC que os bombeiros tiveram o dia mais movimentado desde a Segunda Guerra Mundial.

Contudo, apesar de os incêndios em alguns países, incluindo em França, terem sido os piores em décadas, uma nova investigação publicada no mês passado sugere que semanas como esta podem tornar-se numa característica mais frequente dos verões europeus.

Nesta fotografia, captada antes do incêndio, a propriedade está rodeada por canas invasoras (Arundo donax), que se instalaram na área há décadas e forneceram o combustível para os incêndios. Matthieu Paley planeia superar os caniçais com árvores de crescimento rápido e resistentes ao fogo, como salgueiros e choupos.

Fotografia por Matthieu Paley

Durante anos, as alterações climáticas têm aumentado a gravidade e duração das vagas de calor e das condições climáticas que promovem os incêndios. A capacidade do continente europeu em combater incêndios tem mantido em grande parte estes fogos sob controlo – mas as coisas mudaram.

Agora, tal como acontece com os incêndios na Austrália e na Califórnia, que se transformaram em monstros incontroláveis e que superam a capacidade dos bombeiros, “parece que estamos a começar a ver esta mudança também no sul da Europa”, diz Jonfre Carnicer, da Universidade de Barcelona,​​ autor principal da referida investigação, que foi publicada no mês passado na Scientific Reports.

O clima extremo está a gerar incêndios extremos que a região do Mediterrâneo tem dificuldades em apagar. Matthieu Paley, por exemplo, encara esta nova realidade como uma razão para tentar recalibrar a forma como ele próprio vive.

Refúgio em chamas

Matthieu Paley, um homem incansável nascido em França, mudou-se para Portugal há alguns anos. Inspirado pelas pessoas que conheceu enquanto trabalhava para um artigo sobre dieta humana, e como se queria tornar mais autossuficiente, Matthieu e a sua família compraram alguns hectares de terreno nos arredores de Palmela. Matthieu leu sobre agrofloresta, com o objetivo de incorporar mais plantas nativas e processos naturais na agricultura que queria fazer. Matthieu plantou mudas de salgueiro, álamo, sabugueiro, figo e outras árvores de fruto.

“Eu pensei sempre que era uma experiência muito espiritual cultivar coisas, alimentarmo-nos, ter as mãos sujas de terra”, diz Matthieu. “E esta tem sido a minha obsessão – viver da terra na minha casinha de madeira fora do sistema.”

Contudo, naquela fatídica quarta-feira, o dia estava tão quente de manhã que as autoridades governamentais, receando que qualquer faísca pudesse facilmente despoletar um incêndio, pediram às pessoas para nem sequer operarem máquinas como motosserras. Ao final da manhã, um incêndio irrompeu nos terrenos do castelo, e um vizinho pediu a Matthieu para o ajudar a molhar o telhado com uma mangueira. O calor era abrasador, e havia um vento sul invulgar. Cerca de 45 minutos depois, enquanto um pequeno grupo de amigos observava – amigos que tinham vindo a casa de Matthieu para fazer um workshop sobre agricultura regenerativa – o incêndio de Palmela já tinha ardido 400 hectares. “Foi tudo tão rápido”, diz Matthieu Paley.

Um helicóptero fez descargas de água, mas as chamas correram através das árvores e da vegetação invasora e, por volta do meio-dia, invadiram os terrenos de Matthieu. O fogo queimou dois barracões de ferramentas, arruinando equipamentos e sementes, e destruiu uma caravana onde amigos seus viviam. E queimou muitas das plantas e materiais de irrigação. Enquanto o fogo rumava em direção à casa de Matthieu, ele e o filho levaram apenas o portátil e algumas lembranças.

“Eu estava só a rezar para que o fogo poupasse a minha casinha de madeira”, diz Matthieu

As chamas não atingiram a casa. Ninguém ficou ferido. E embora um vizinho tenha perdido vários pombos, as nove galinhas de Matthieu sobreviveram e cerca de 70% das árvores que ele plantou também não arderam. Matthieu Paley diz que se sente extremamente felizardo, sobretudo sabendo o destino de milhares de outros europeus.

O futuro da Europa já chegou

A vaga de calor na Europa, embora de curta duração, foi devastadora em parte porque poucas pessoas no continente têm ar condicionado. Em Espanha e em Portugal o número de mortos ultrapassou os 1700, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

As plantações medicinais, que ainda não se tinham estabelecido antes do incêndio, ficaram gravemente danificadas.

Fotografia por Matthieu Paley

Enquanto isso, o continente europeu já registou quase o dobro dos incêndios e tem mais de duas vezes a área queimada do que aconteceu em qualquer ano desde 2006. As linhas de comboio pegaram fogo em Inglaterra, enquanto um incêndio na Eslovénia ativou munições por detonar, que tinham sido deixadas na Primeira Guerra Mundial, segundo a Associated Press.

Os cientistas expressam confiança de que as alterações climáticas foram um fator importante. Enquanto as máximas de verão no Reino Unido normalmente giram em torno dos 21 graus, a probabilidade de dias de 40 graus “pode ser até 10 vezes mais prevalente no clima atual do que com um clima natural não afetado pela influência humana”, diz Nikos Christidis, cientista de atribuição climática do Met Office do Reino Unido.

Nikos Christidis sabe do que fala, até porque fez parte da equipa que informou há apenas dois anos que a probabilidade de atingir o limite dos 40 graus no Reino Unido estava a aumentar rapidamente. Nikos Christidis diz agora que este calor extremo pode ocorrer uma vez a cada 15 anos até ao final do século, mesmo com as promessas atuais de redução nas emissões.

Na vila de Palmela, a partir da rua com vista para os terrenos de Matthieu Paley, um habitante observa o incêndio.

Fotografia por Matthieu Paley

Depois do incêndio, voluntários tentam recuperar os tijolos das paredes do barracão de ferramentas de Matthieu Paley.

Fotografia por Matthieu Paley

O calor, por sua vez, está a impulsionar a gravidade dos incêndios.

No seu estudo, Jonfre Carnicer, que trabalhou no capítulo europeu do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, descobriu que mesmo que mantenhamos a subida da temperatura média global derivada da queima de combustíveis fósseis nos 2 graus Celsius, o sul da Europa pode continuar a testemunhar mais de 20 dias por ano de perigo extremo de incêndio até ao final do século. Porém, se deixarmos o planeta aquecer 4 graus, pode haver mais 40 dias de incêndios extremos na região.

Das cinzas...

Poderíamos pensar que os incêndios na Europa e as projeções sombrias para o futuro deixariam Matthieu Paley um pouco desiludido. Mas não. Matthieu diz que é demasiado teimoso para se sentir derrotado.

“O incêndio não alterou a minha perspetiva sobre as alterações climáticas. Isto motivou-me. Abriu a minha mente.”

Uma área com oliveiras na extremidade da propriedade de Matthieu Paley foi devastada pelo fogo.

Fotografia por Matthieu Paley

Alguns dias depois, com o solo em torno da sua casa todo enegrecido, Matthieu Paley já estava a instalar novos sistemas de irrigação e a pensar em cultivar plantas que aumentem a resistência dos seus terrenos ao fogo. Matthieu está a pensar em colocar árvores em lugares que possam expulsar as gramíneas invasoras, que são secas e propensas a incendiar.

No final, Matthieu e os seus amigos fizeram na mesma o workshop. E fizeram-no em solo carbonizado, um dia depois de Matthieu Paley quase ter perdido a casa.

“Eram 15 ou 20 pessoas rodeadas de cinzas”, diz Matthieu, “a pensar em como podemos regenerar uma paisagem – e encontrar esperança”.

Quando Matthieu regressou aos terrenos, depois de o fogo ter passado, ficou chocado ao ver que as galinhas nem sequer saíram do galinheiro; permaneceram amontoadas ali enquanto as chamas e o fumo giravam em torno delas. “As galinhas também já estão quase a pôr ovos novamente”, diz Matthieu.

Para receber atualizações sobre Matthieu Paley e a sua quinta, pode segui-lo no Instagram.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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