‘Cabra-antílope’ mumificada com 500 anos encontrada no degelo de glaciar europeu

Esta pequena camurça, uma espécie de antílope-cabra, pode revelar mais descobertas espetaculares neste verão – ou até outro Ötzi, o Homem do Gelo – à medida que os glaciares dos Alpes derretem a um ritmo recorde.

Esta camurça mumificada, uma jovem fêmea, jaz exposta no Gepatschferner, o segundo maior glaciar da Áustria, perto da fronteira com a Itália e do cume do Weißseespitze. Estima-se que este animal tenha cerca de 500 anos.

Fotografia por Ciril Jazbec, National Geographic
Por Denise Hruby
Publicado 17/08/2022, 13:05

GEPATSCHFERNER, ÁUSTRIA – Com os pés bem assentes no glaciar, Andrea Fischer retira a lâmina da sua motosserra de um círculo feito no gelo, com pequenos detritos a voar em direção ao seu rosto. No interior do círculo jaz uma camurça mumificada, uma mistura entre cabra e antílope perfeitamente adaptada aos Alpes. Mas era um animal jovem – uma jovem fêmea com pouco mais de sessenta centímetros de altura.

“Acreditamos que tenha cerca de 500 anos”, diz Andrea Fischer, glaciologista alpina do Instituto de Investigação Interdisciplinar de Montanha da Academia Austríaca de Ciências em Innsbruck.

A pele deslizou na zona da cabeça do animal arrastando consigo um chifre e expondo as suas órbitas profundas, mas permanece esticada e retém couro sobre as vértebras e a caixa torácica. Tufos de pelo a ondular ao vento cobrem as suas pernas unguladas – membros poderosos e ágeis que, em vida, teriam projetado esta camurça de rocha em rocha. Nos seus últimos momentos de vida, o animal encolheu os membros. Esta jovem fêmea tinha provavelmente cerca de dois anos de idade.

Andrea Fischer, glaciologista e líder da equipa de investigação, coloca a camurça sobre uma lona de plástico para transporte.

Fotografia por Ciril Jazbec, National Geographic
Esquerda: Superior:

Uma imagem aproximada mostra o pescoço da camurça. Andrea Fischer recolheu os pedaços de pelo espalhados no gelo.

Direita: Inferior:

Ainda havia pelo agarrado às poderosas pernas do animal, que em vida lhe permitiam saltar de pedra em pedra na altitude dos Alpes.

“É impressionante, e é incrível que esteja exatamente onde estamos a fazer a nossa investigação e que tenhamos passado no local mesmo no momento em que ela estava a sair do gelo”, diz Andrea Fischer, que estuda há mais de duas décadas os glaciares cada vez mais pequenos da Áustria. Um colega seu, chamado Martin Stocker-Waldhuber, estava a verificar uma estação meteorológica quando viu os chifres da camurça a espreitar no gelo derretido, a mais de 3.350 metros de altitude em Gepatschferner, um enorme glaciar na fronteira com Itália.

Neste verão, os glaciares em todos os Alpes estão a derreter a um ritmo sem precedentes. A neve escassa do inverno passado derreteu cedo, deixando o gelo desprotegido contra as vagas de calor que fustigaram recentemente o continente. Até ao final desta época, diz Andrea Fischer, pelo menos até sete metros de gelo irão desaparecer da superfície dos glaciares nos Alpes orientais – muito mais do que em qualquer ano anterior.

Por muito dramática que esta perda seja, também existe uma sensação emocionante de antecipação – que outras relíquias do passado poderão emergir do gelo?

Nos últimos anos, caminhantes há muito perdidos têm sido encontrados nos Alpes, bem como soldados congelados da batalha a grande altitude que Itália e Áustria travaram durante a Primeira Guerra Mundial. Cerca de 150.000 homens morreram e muitos ficaram soterrados por avalanches ou congelaram até à morte devido às tempestades de neve. Alguns foram encontrados parcialmente mumificados no gelo.

“Com o degelo dos glaciares, devem surgir mais achados, e talvez também outros humanos no gelo”, diz Albert Zink, chefe do instituto de estudos de múmias da Eurac Research, em Bolzano, Itália. “Na verdade, é bem provável.”

O que todos esperam, acrescenta Albert Zink, é encontrar outro humano pré-histórico como aquele que ele próprio estuda há mais de uma década: o chamado Ötzi, o Homem do Gelo, descoberto por puro acaso em 1991. Ötzi tem cinco mil anos, é dez vezes mais velho do que a camurça encontrada por Andrea Fischer... mas há gelo com milhares de anos a derreter nos Alpes neste verão.

A camurça pode ser apenas o início.

Um helicóptero para a camurça

Ao início do dia 4 de agosto, o fotógrafo Ciril Jazbec e eu juntámo-nos a Andrea Fischer e à sua equipa para voarmos de helicóptero até ao topo do Gepatschferner, onde as nuvens ficam à altura da vista.

Na realidade, Martin Stocker-Waldhuber avistou pela primeira vez os chifres a sair do gelo no verão passado, mas havia muito pouco do animal a emergir para que este pudesse ser extraído em segurança antes de a neve do inverno o enterrar novamente. Depois de todo o degelo registado este verão, os investigadores aproveitaram uma estreita janela de oportunidade para tentar recuperar a camurça.

“Temos dois dias, talvez três”, dizia Andrea Fischer quando me falou pela primeira vez sobre a descoberta.

Os investigadores preparam-se para carregar a camurça para o helicóptero, para descer a montanha e depois regressar a Innsbruck.

A 3.500 metros de altitude, o clima pode mudar num instante, tornando os voos de helicóptero muito perigosos. Para além disso, assim que ficar completamente exposta ao ar devido ao degelo, a múmia decompõe-se rapidamente – isto se os abutres-barbudos que circulam nos céus por cima do glaciar não a devorarem primeiro.

Isto faz com que Andrea Fischer não tenha tempo para trabalhar tão meticulosamente como um arqueólogo. Depois de libertar a camurça congelada com a motosserra e o machado de gelo, Andrea retira o animal do gelo e coloca-o sobre uma lona de plástico. Andrea apercebe-se do mau cheiro – e envolve rapidamente a múmia e sela-a com fita adesiva.

Natural dos Alpes, Andrea Fischer atravessou estes glaciares pela primeira vez na adolescência. Grande parte desse gelo já desapareceu há muito tempo, diz Andrea.

Os 4000 glaciares nos Alpes estão a recuar, em grande parte, desde cerca de 1850, mas as alterações climáticas provocadas pelo homem têm acelerado rapidamente o seu desaparecimento. Em 2100, a maioria terá perdido a maior parte do seu gelo, deixando apenas pequenas manchas que podem ou não ser consideradas glaciares, de acordo com um relatório especial feito em 2019 pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas.

Os glaciologistas como Andrea Fischer sabem tudo isto. “Ainda assim, creio que nenhum de nós conseguia imaginar o quão dramático este verão podia ser”, acrescenta Andrea.

Em Gepatschferner, os ruídos do gotejar e das fendas aumentam de volume à medida que o sol se eleva no horizonte – como se o glaciar estivesse a recitar o seu próprio requiem. Ao meio-dia, muito antes de embarcarmos no helicóptero para  voar montanha abaixo, já estamos a tropeçar em poças que chegam até aos tornozelos.

Martin Stocker-Waldhuber recolhe dados e ajusta a estação meteorológica automática. Foi numa visita a esta estação em 2021 que Martin avistou, por puro acaso, os chifres da camurça a emergir do gelo.

Restam cerca de oito metros de gelo abaixo da camurça com têm cerca de 6000 anos, diz Andrea Fischer. Andrea estima que este local pode perder aproximadamente 4000 anos de gelo este ano.

Achados como este são raros

No início do verão, acompanhei Andrea Fischer numa viagem a outro dos seus locais de pesquisa, o glaciar Jamtal, ao longo da fronteira austro-suíça. Enquanto subíamos um vale estreito, Andrea apontou para um cerco de pedra em ruínas, que estava coberto de vegetação, construído por humanos pré-históricos para proteger vacas, ovelhas e cabras dos ursos e lobos. Estes vestígios de assentamentos antigos estão espalhados pelos Alpes.

Há cerca de 6000 anos, grande parte dos Alpes orientais estava desprovida de gelo. Como os vales eram pântanos densamente arborizados, as encostas nas montanhas eram onde as pessoas viviam. Contudo, há 5000 anos, quando Ötzi foi perfurado por uma flecha e morreu de hemorragia no glaciar Similaun, a poucos quilómetros a sudeste de Gepatschferner, o gelo começou a surgir novamente.

Quando Ötzi foi descoberto, há 31 anos, acreditava-se que era um alpinista ou esquiador do século XX que tinha morrido num acidente. Um polícia local partiu-lhe as ancas enquanto o tentava retirar do gelo. Para facilitar o transporte pelas montanhas, o arco foi partido ao meio. Depois, o agente funerário da aldeia partiu-lhe o braço para o conseguir colocar num caixão.

Os erros cometidos na recuperação deste tesouro arqueológico parecem agora absurdos, e os cientistas ficaram estupefatos quando perceberam que Ötzi era uma múmia antiga completamente intacta. Nunca tinha sido encontrado algo semelhante num glaciar. Mas há motivos para isso, diz Lars Holger Pilø, arqueólogo glaciar norueguês.

O taxidermista Peter Morass, do Ferdinandeum, o museu estadual tirolês em Innsbruck, mede um chifre da camurça.

Sem dúvida que morreram inúmeros humanos e animais nos glaciares, explica Lars Pilø, mas não é expectável encontrarmos muitos deles, porque o gelo num glaciar está em constante movimento, fluindo lentamente para o vale enquanto é reabastecido de neve fresca no topo. Ao longo dos séculos, o gelo leva os animais e humanos mortos consigo.

“Os corpos são danificados e esmagados pelo movimento do gelo”, diz Lars Pilø.

Porém, desde que Ötzi foi encontrado, os cientistas perceberam que existem exceções a esta regra: manchas imóveis adjacentes ou mesmo no meio de um mar de gelo em movimento. São lugares onde o leito rochoso é plano e o gelo é frio o suficiente para congelar sobre o mesmo, mas não é espesso ao ponto de fluir sob o seu próprio peso.

O taxidermista Peter Morass no seu laboratório, no centro de pesquisa do museu do Tirol.

Esquerda: Superior:

A glaciologista Andrea Fischer liderou a equipa que recuperou a camurça.

Direita: Inferior:

Martin Stocker-Waldhuber foi a pessoa que descobriu a camurça.

Lars Pilø já identificou mais de 60 manchas de gelo imóveis no seu condado norueguês de Innlandet. Descobrir uma múmia humana num deles, diz Lars, é o seu “santo graal”.

Outro Ötzi este ano?

A camurça de Andrea Fischer está agora armazenada em segurança numa arca frigorífica a menos de 20ºC nos arredores de Innsbruck, no centro de pesquisa de Ferdinandeum, o museu estadual tirolês. O animal irá depois ser examinado através de uma tomografia computadorizada para examinar as suas entranhas. Através do estudo deste animal, juntamente com o de uma camurça mumificada com 400 anos que a equipa de Albert Zink recuperou em 2020, os cientistas esperam aprender mais sobre a história pouco conhecida desta espécie e talvez até descobrir porque é que ambos os animais se aventuraram e morreram nos glaciares.

“Até agora, a melhor coisa na qual trabalhei foi um panda do zoo”, disse Peter Morass, taxidermista-chefe do Ferdinandeum. “Mas esta camurça supera tudo.” No futuro, a camurça será colocada numa exibição especial no museu de Innsbruck.

A camurça está guardada numa arca frigorífica no centro de investigação Ferdinandeum e, eventualmente, será exibida no museu.

Para Albert Zink, as duas camurças são uma oportunidade para aprender mais sobre os mesmos processos de mumificação que produziram Ötzi – e sobre a melhor forma de recuperar e preservar múmias de gelo pelo mundo inteiro. O instituto de Albert já desenvolveu caixas de conservação que podem manter espécimes orgânicos selados e estáveis com custos mínimos.

“Assim, quando surgirem mais, estamos preparados”, diz Albert Zink.

Encontrar múmias nunca fez parte do plano de Andrea Fischer. Enquanto glaciologista, Andrea estava interessada nos pontos imóveis nos glaciares por um motivo diferente – são lugares onde pode perfurar gelo antigo e extrair um registo de como o clima aqueceu e arrefeceu nos Alpes ao longo dos milénios.

Andrea Fischer recolhe pedaços de pelo no local onde extraiu a camurça. Andrea também encontrou alguns pedaços antigos de madeira e couro.

Contudo, agora que o clima está a aquecer rapidamente, Andrea percebe que o seu trabalho enquanto glaciologista a posiciona perfeitamente para encontrar o próximo Ötzi.

Mais tarde neste verão, quando os glaciares atingirem o pico do degelo, Andrea planeia sobrevoar os pontos imóveis de gelo que conhece – já encontrou cerca de uma dezena nos Alpes austríacos. Andrea vai ficar a examinar o gelo à procura de sinais de outro homem do gelo – ou mulher – a emergir.

“Se acontecer”, diz Andrea, “vai ser este verão”.

Depois de fazer reportagens durante anos na Ásia, a escritora austríaca Denise Hruby regressou a casa para se focar nos desafios ambientais da Europa. O esloveno Ciril Jazbec fotografou os esforços urgentes para salvar o inverno nos Alpes numa peça da edição de março de 2022, para o qual Denise Hruby escreveu o texto.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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