O metano sobrecarrega as alterações climáticas. Os EUA têm um novo plano para o reduzir.

Ao abrigo da Lei de Redução da Inflação, os EUA podem fazer com que o setor do petróleo e gás pague pelas fugas de metano – mas a lei ignora uma fonte controversa deste poluente.

Por Sarah Gibbens
Publicado 23/08/2022, 10:44
Poços de petróleo

Poços de petróleo no campo petrolífero de Belridge em McKittrick, na Califórnia. O metano escapa regularmente das operações de exploração petrolíferas, incluindo dos poços que não são utilizados. Mais de mil milhões de dólares concedidos pela Lei de Redução da Inflação, que foi assinada recentemente, vão ajudar as empresas de petróleo e gás a reparar, monitorizar e evitar as fugas deste potente e perigoso gás de efeito estufa.

Fotografia por Mario Tama, Getty Images

A Lei de Redução da Inflação é o investimento mais significativo que o governo dos EUA fez até agora no combate às alterações climáticas, alocando mais de 369 mil milhões de dólares para projetos que visam reduzir as emissões que aquecem o planeta.

Apesar de grande parte desta lei, assinada pelo presidente Joe Biden na terça-feira da semana passada, se debruçar mais sobre os incentivos fiscais para a construção de energias renováveis e compra de veículos elétricos, também introduz discretamente a primeira taxa do país sobre um gás de efeito estufa. As emissões de metano, que podem contribuir mais para o aquecimento do planeta num período muito mais curto do que o dióxido de carbono, podem estar sujeitas a uma taxa já a partir de 2024.

De acordo com um relatório da ONU divulgado no ano passado, reduzir a quantidade de metano libertado na atmosfera é uma das formas mais fáceis e eficazes de combater as alterações climáticas.

Os ambientalistas dizem que esta taxa é um passo na direção correta, mas a luta para controlar a libertação deste gás está apenas a começar. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA deve lançar os novos regulamentos no início do próximo ano, que irão definir o limite a partir do qual uma exploração de petróleo ou gás está sujeita à taxa sobre as emissões de metano.

“Creio que é um progresso enorme e transformador”, diz Dan Grossman, especialista em metano do Fundo de Defesa Ambiental. “Mas podemos sempre fazer mais. É um problema nocivo.”

Reduzir o metano é uma solução climática

Nos Estados Unidos, o dióxido de carbono representa 79% das emissões de gases de efeito estufa e o metano apenas 11%. Contudo, ao longo de um período de 20 anos, o metano é 80 vezes mais poderoso no aquecimento da Terra do que o dióxido de carbono, dado que a sua estrutura química o torna num absorvente de calor muito eficaz. Algum do metano é produzido naturalmente, escapando de pântanos e vulcões, mas até 65% do metano presente na atmosfera vem de atividades humanas, de acordo com a EPA

Nos últimos dois anos, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos EUA registou emissões recorde de metano a entrar na atmosfera. Em 2021, o metano atmosférico era 150% superior ao que existia antes da Revolução Industrial.

Nos EUA, o metano é produzido por uma variedade de indústrias, mas os maiores poluidores são as indústrias de petróleo e gás, a agricultura – principalmente devido às vacas – e os aterros sanitários, que emitem 32, 27 e 17%, respetivamente. Historicamente, porém, determinar exatamente quanto é que cada fonte produz tem sido complicado. De acordo com os regulamentos atuais da EPA, as empresas de petróleo e gás são obrigadas a declarar por conta própria as suas emissões.

“Temos estado a usar estimativas baseadas em especificações de engenharia e produção para fazer palpites, em vez de usarmos medições diretas”, diz Dan Grossman.

Um estudo publicado em 2020 descobriu que os EUA estavam a subestimar em até 40% a quantidade de metano libertada pela queima de combustíveis fósseis.

Contudo, à medida que os métodos de deteção foram melhorando devido à monitorização contínua no terreno, à vigilância aérea e observações por satélite,  reduzir as emissões de metano surgiu como uma solução tangível, e Dan Grossman e outros especialistas esperam que as novas regulamentações federais reformulem a forma como os EUA calculam as emissões.

“Ao longo do último ano e meio, houve um interesse crescente em torno do metano, que dantes não estava no radar. Passámos da negligência para uma taxa real. Estou impressionado”, diz Drew Shindell, cientista climático da Universidade Duke e diretor da Avaliação Global de Metano da ONU divulgada no ano passado.

O dióxido de carbono pode permanecer na atmosfera entre 300 a mil anos, mas o metano dissipa-se em cerca de dez anos. Resumindo, os esforços para reduzir as emissões de CO2 são recompensados a longo prazo, mas controlar o metano é uma solução imediata.

Na cimeira climática global realizada em novembro, uma centena de países, incluindo os EUA, concordaram em reduzir as emissões de metano em 30% até 2030, na tentativa de limitar o aquecimento aos 1.5 graus Celsius. Contudo, se o mundo conseguisse reduzir as emissões em 45% nesse mesmo período, podia ser evitado um aquecimento de 0.3 graus. A Terra já aqueceu 1.2 graus, ou seja, uma fração de grau faz diferença.

“Se fizermos algo sobre o metano”, diz Robert Kleinberg, especialista em política energética da Universidade de Colúmbia, “a temperatura vai subir mais lentamente do que aconteceria de outra forma”.

O que faz a nova lei

Os ambientalistas defendem há muito tempo a cobrança de uma taxa sobre as emissões de gases de efeito estufa – e lidar com o problema do metano pode economizar dinheiro às empresas de petróleo e gás, diz Drew Shindell. Quando o CO2 é libertado, trata-se de um subproduto da queima dos combustíveis fósseis e já não tem valor para as empresas. O metano, por outro lado, ainda está numa forma viável quando escoa das instalações de petróleo e gás – e se pudesse ser capturado, podia ser usado como energia. Isto significa que evitar as fugas economiza dinheiro para as empresas.

Para lidar com as emissões de metano nos EUA, a Lei de Redução da Inflação vai impor uma taxa de 900 dólares por tonelada métrica de metano a partir de 2024. Até 2026, esta taxa por tonelada métrica vai aumentar para os 1.500 dólares. Curiosamente, a taxa vai afetar apenas as grandes instalações de petróleo e gás, deixando de fora cerca de 60% das indústrias responsáveis pelas emissões de metano, segundo Robert Kleinberg.

Mas também há muitos incentivos para reduzir as emissões deste gás, e Robert Kleinberg diz que estes têm mais propensão para produzir resultados. Por exemplo, 1.5 mil milhões de dólares em subsídios estão incluídos na lei para ajudar as instalações sujeitas à taxa a pagar as correções tecnológicas necessárias para reduzir as emissões.

 

O que falta acontecer?

Um relatório sobre a provisão de metano compilado pelo Serviço de Pesquisa Congressional diz que as estimativas sobre a redução de emissão de gases de efeito estufa proporcionada pela nova lei climática da taxa de metano vai depender de fatores que vão desde os regulamentos finais da EPA até ao preço do gás natural.

A EPA deve publicar os regulamentos atualizados sobre o metano no início do próximo ano. Estas regras vão ditar o ponto a partir do qual as emissões de metano de uma instalação ficam sujeitas à taxa.

“As regulamentações devem ser abrangentes”, diz Dan Grossman. “E precisam de exigir a deteção e reparação rigorosas de fugas. E abordar a prática de desperdício e poluente da queima de rotina.”

Os especialistas dizem que os produtores de combustíveis fósseis são um bom lugar para começar, mas os regulamentos da nova lei não abordam a “vaca” na sala.

“As empresas que lidam com petróleo e gás são bem financiadas e têm os conhecimentos técnicos para minimizar as suas emissões de metano. É lógico que assumam a liderança”, diz Robert Kleinberg. Porém, acrescenta, “os setores da agricultura e aterros são igualmente importantes”.

Os aterros sanitários, que produzem metano à medida que os resíduos alimentares se decompõem, estão mesmo à nossa frente, diz Robert Kleinberg, e existem várias soluções tecnológicas que podem ser adaptadas para captar o gás dos aterros e usá-lo como combustível.

No entanto, entre todas as fontes que produzem metano nos EUA, a criação de gado gera quase tantas emissões como o petróleo e o gás. O sistema digestivo de uma vaca decompõe os alimentos através de um processo chamado fermentação entérica, que resulta em arrotos repletos de metano. Com quase 40 milhões de vacas a serem criadas para carne e laticínios nos EUA, estas necessidades produzem quase um terço das emissões de metano do país anualmente, de acordo com a EPA.

Há investigações que se debruçam sobre a forma como a ração de gado polvilhada com algas marinhas reduz o metano nos arrotos das vacas, mas quaisquer ações que exijam mudanças no setor agrícola são quase impossíveis de passar por um Congresso dividido. Existem poucas opções politicamente possíveis com uma escala capaz de reduzir significativamente as emissões.

“Penso que a agricultura é um tópico muito complicado”, diz Drew Shindell. “Vai ser necessário trabalhar muito para conseguir uma legislação que afete a agricultura.”

Por enquanto, o foco vai permanecer nas taxas de metano pagas pelos produtores de petróleo e nos subsídios que estes vão receber para reduzir ainda mais as suas emissões. É um grande passo na direção certa e um sinal para os outros países produtores de metano de que os EUA estão dispostos a dar o exemplo.

“Creio que no geral é um progresso tremendo”, diz Dan Grossman.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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