O Bahrain não tem terra, decidindo assim construir mais ilhas artificiais luxuosas

O plano desta nação do Golfo Pérsico visa duplicar a sua massa terrestre – com um custo elevado para a sua vibrante vida marinha.

Nesta imagem, captada em 2021 pela Estação Espacial Internacional, vemos o Durrat Al Bahrain, um arquipélago artificial em construção há mais de uma década na ponta sul do Bahrain. Esta nação insular do Golfo Pérsico quer construir mais ilhas artificiais.

Fotografia por Sergey Kud-Sverchkov, Roscosmos via NASA
Por Richa Syal
Publicado 5/09/2022, 12:58

Na vila piscatória de Karranah, na costa norte do Bahrein, Haji Saeed, de 72 anos, um dos pescadores mais antigos desta comunidade, atravessa a maré baixa para verificar as suas armadilhas.

Há vinte anos, o mar que Haji Saeed tem agora pela frente abrigava uma abundância de peixes locais, incluindo hamour, um tipo de bacalhau, e safi, um peixe-coelho. Haji Saeed conseguia facilmente apanhar mais de 100 quilos num dia.

Depois, o governo do Bahrain construiu duas ilhas artificiais que alteraram o leito marinho, afastando assim as populações de peixes das águas costeiras.

Quando regressa à costa, Haji Saeed vê que recolheu pouco mais de três quilos de peixe nas suas cinco armadilhas, chamadas hadrahs. No dia seguinte, Haju apanha apenas três peixes que pesam cerca meio quilo.

“Tem sido assim desde que fizeram as ilhas”, diz Haji. “Antigamente, podíamos pescar em todo o lado… mas agora o peixe não dá rendimento suficiente.”

Uma tempestade de areia envolve o horizonte da capital e maior cidade do Bahrain, Manama, na região nordeste do país. As tempestades de areia no Médio Oriente estão a tonar-se mais frequentes e intensas, uma tendência associada ao pastoreio em excesso e à desflorestação, ao uso excessivo de água dos rios e à construção de mais barragens.

Fotografia por Mazen Mahdi, AFP via Getty Images

A pesca pode vir a tornar-se ainda mais complicada à medida que esta nação do Golfo Pérsico com uma população de 1.8 milhões de pessoas se prepara para construir cinco novas ilhas artificiais com cinco novas cidades até ao final desta década. No total, estas ilhas vão aumentar a massa de terra desta pequena nação em 60%. As autoridades governamentais dizem que a adição de novos imóveis é fundamental para o desenvolvimento económico do Bahrein, porém, a construção destas ilhas também acarreta custos ambientais significativos numa zona do mundo onde a vida marinha já enfrenta dificuldades de adaptação às alterações climáticas.

“O Golfo Pérsico no seu todo já está bastante stressado, porque é salgado e quente. Qualquer stress adicional (para as espécies que aqui vivem) geralmente tem impactos mais profundos do que acontece noutros lugares”, diz Charles Sheppard, professor de ciências marinhas da Universidade de Warwick, que passou sete anos a investigar os recifes de coral nesta região.

Construção de ilhas no Golfo Pérsico

Recuperar a terra ao mar, o termo usado na criação de novas ilhas através de dragagens no fundo do mar, é um processo familiar no Bahrain. Este país passou por várias alterações costeiras em 1963 e, desde então, expandiu a sua área de 670 quilómetros quadrados para mais de 775 quilómetros quadrados em 2021, tornando atualmente a área do Bahrain um pouco maior que Singapura.

Este pequeno arquipélago já tem mais de 30 ilhas naturais e artificiais. Muharraq, a cidade-ilha mais a norte do Bahrein, tem vindo a expandir-se lentamente desde a década de 1960 e agora tem quatro vezes o seu tamanho original devido à chamada recuperação.

As alterações costeiras no Bahrain são motivadas devido ao seu tamanho, mas a construção de ilhas já é praticada pelos seus vizinhos costeiros há décadas, muitas vezes numa escala bem maior. Algumas são particularmente impressionantes, como a Palm Jumeirah do Dubai, que começou a ser construída em 1990 como um grupo de ilhas ao largo da costa que fazem lembrar uma palmeira estilizada e abriga vilas e hotéis de luxo. A Arábia Saudita também está a construir a Oxagon, a maior estrutura flutuante do mundo, que vai ser um centro industrial de 46 quilómetros quadrados. Outros projetos têm sido mais convencionais, como o Novo Aeroporto Internacional de Doha no Qatar, construído em terrenos recuperados em 2006.

Vilas luxuosas alinham-se nos canais da Cidade Flutuante, o novo empreendimento residencial na ilha Amwaj, uma ilha artificial no Bahrain. Os canais são profundos o suficiente para acomodar o tráfego de embarcações.

Fotografia por Iain Masterton, Alamy

As cinco novas ilhas propostas pelo Bahrain fazem parte de um plano ambicioso com um custo a rondar os 30 mil milhões de dólares para ajudar o país a recuperar da pandemia e ajudar a mudar o Bahrain de uma economia baseada no petróleo para uma economia impulsionada pelas empresas privadas, manufaturação e turismo. Em 2020, o Banco Mundial disse que a economia do Bahrain tinha reduzido 5%, principalmente devido às quedas acentuadas na demanda por petróleo durante a pandemia. Este ano, o Fundo Monetário Internacional estima um crescimento de 3,3%.

“O Bahrain está a emergir da pandemia com uma ambição ousada que vai para além da recuperação económica, visando um futuro mais próspero”, disse em novembro passado através de comunicado o xeique Salman bin Khalifa Al Khalifa, ministro das finanças e da economia, onde descreveu o plano para a Visão Económica 2030 do governo.

Parte dos referidos 30 mil milhões de dólares vai servir para financiar 22 novos projetos de desenvolvimento, incluindo o primeiro sistema de metro do Bahrein e uma nova estrada elevada de 24 km entre o Bahrain e a Arábia Saudita.

Mais do que duplicar a área de terra do Bahrein é uma tarefa ambiciosa. As novas ilhas vão adicionar mais de 465 quilómetros quadrados de área. O Conselho de Desenvolvimento Económico do Bahrein considera que as cinco cidades vão ser sustentáveis; e estão atualmente a ser projetadas para abrigar um aeroporto, residências de luxo e estâncias à beira-mar, enquanto supostamente protegem os habitats naturais.

Esquerda: Superior:

Um homem está à sombra de uma árvore Prosopis cineraria com 400 anos, conhecida por “árvore da vida”. Esta também é a árvore mais solitária do Bahrain, dado que está completamente sozinha, sem qualquer árvore à vista numa encosta árida, a cerca de 24 km a sul da capital do Bahrein, Manama. Esta árvore sobrevive porque a sua raiz principal consegue alcançar as águas subterrâneas que ficam a 35 metros abaixo da superfície.

Direita: Inferior:

Canais de água fluem através de pântanos na costa de Askar, na região leste do Bahrain, onde os pântanos salgados sustentam populações de vida selvagem marinha e terrestre.

Fotografia por Gareth Dewar, Alamy

Consequências ambientais das dragagens

Os cientistas que estudam a história de construção de ilhas artificiais dizem que há motivos de preocupação devido aos impactos de recuperação de terras ao mar para a construção de ilhas. O material dragado que é usado para criar as chamadas terras recuperadas geralmente vem das águas costeiras rasas, onde as ervas marinhas fornecem alimentos e viveiros de proteção para peixes e outras espécies marinhas, diz Charles Sheppard.

Das novas cinco ilhas, as duas maiores vão ser construídas sobre – e batizadas com o nome – dos maiores recifes de coral do Golfo Pérsico, Fasht Al Adhm e Fasht Al Jarim. Estes recifes rasos e ocos estendem-se ao longo de mais de 103 quilómetros quadrados no Golfo Pérsico. E fornecem locais ricos de criação e habitats marinhos vitais para centenas de espécies tropicais, incluindo peixes-palhaço e raias. Em 2000, um relatório sobre o estatuto de recifes de coral por todo o Golfo Pérsico, publicado na Global Coral Reef Monitoring Network, mostrava que os anos de dragagem de areia entre 1985 e 1992 danificaram significativamente o recife Fasht Al Adhm, o maior dos dois recifes.

“É o mesmo que enterrar um milheiral sob três metros de terra e betão. O milheiral vai morrer”, diz Charles Sheppard.

No Bahrain, os leitos de areia perto de Muharraq são áreas populares de dragagem, resultando na perda de 182.000 metros quadrados de área de recife devido à cobertura de lodo. A remoção destes sedimentos faz com que o lodo flua diretamente para os corais, “queimando e sufocando efetivamente os pólipos de coral”, diz Hameed Al Alawi, biólogo marinho e consultor aquático do Bahrain.

Mohammad Shokri, especialista em corais que trabalhou no estudo dos recifes do Golfo Pérsico e professor de biologia marinha na Universidade Shahid Beheshti, no Irão, diz que os esforços contínuos de dragagem também podem aumentar a agitação e a sedimentação em torno dos recifes, provocando mais stress.

“Os esforços devem concentrar-se em preservar o que resta, e em esforços ativos para restaurar os recursos dos recifes de coral no Golfo”, diz Mohammad Shokri.

Estes impactos ambientais, porém, não se limitam aos recifes. Num artigo publicado em maio deste ano na Science Direct, os cientistas concluíram que as dragagens para os projetos de recuperação feitas entre 1967 e 2020 contribuíram para a perda de 95% dos pântanos na Baía de Tubli, na costa nordeste do Bahrain, onde foram construídas casas de luxo à beira-mar.

Estas alterações traduzem-se na perda significativa de biodiversidade e produtividade, diz Hameed Al Alawi. Uma avaliação de impacto ambiental realizada pelo parlamento do Bahrain e pela Fishermen’s Protection Society (FPS) para os projetos de recuperação de terras entre fevereiro de 2008 e dezembro de 2009 mostrou uma redução na diversidade de peixes – passando de 400 espécies para menos de 50.

“Isto significa que as pessoas só vão perceber o que está a acontecer depois de os danos terem sido feitos”, diz Hameed Al Alawi, estimando outra perda de 10% com as novas ilhas.

Charles Sheppard diz que os projetos de recuperação no Bahrain e por todo o Golfo Pérsico podiam ter sido geridos de forma diferente e usar locais ecologicamente pobres, em vez dos locais ricos em vida selvagem. “O mais triste é que muitos dos danos provocados podiam ter sido evitados”, diz Charles. “Existem vários métodos de mitigação que podem ser utilizados.”

O Ministério das Obras Públicas, o Departamento de Pesca e o Conselho Supremo do Meio Ambiente, a agência governamental que licencia e aprova os projetos de recuperação de terras ao mar, não responderam aos vários pedidos para comentar. Numa declaração publicada no site do Conselho Supremo do Meio Ambiente, as autoridades dizem que o programa de monitorização de dragagens do conselho visa verificar se os projetos são construídos de acordo com os protocolos ambientais descritos no licenciamento, e que são erguidas barreiras em torno das operações no local para evitar a agitação dos sedimentos.

Os peixes estão a migrar para o mar

Para os pescadores no Bahrain, o declínio na reserva de peixe força-os a embrenharem cada vez mais longe no mar, resultando por vezes em conflitos mortais com os estados vizinhos. Na última década, cerca de 650 barcos do Bahrain foram detidos pelas patrulhas costeiras do Qatar por invadirem as suas águas, com dois navios detidos recentemente em abril. Outros recorrem a métodos mais arriscados como equipamentos de pesca ilegais – armadilhas de fio de nylon – e ignoram ativamente as proibições na pesca.

“Compreendemos que a areia é como se fosse ouro”, diz Abdul Amir Al Mughani, diretor da Sociedade de Proteção dos Pescadores, que representa mais de 500 pescadores. “Contudo, para nós, esta recuperação é um atentado contra o mar.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Meio Ambiente
Equipamentos agrícolas cada vez mais pesados estão a esmagar solos férteis
Meio Ambiente
Cinco modos de as grandes marcas poderem obter materiais de forma mais sustentável
Meio Ambiente
As embalagens dos produtos de beleza podem tornar-se ecológicas?
Meio Ambiente
Os biocombustíveis, explicados
Meio Ambiente
O fenómeno El Niño, explicado

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados