Austrália entrega o controlo dos seus novos parques nacionais aos povos indígenas

Esta ação histórica inclui esforços focados no turismo que destacam os 60.000 anos da cultura nativa e faz parte de uma tentativa de reconciliação com o legado colonial do país.

Por Ronan O’Connell
Publicado 11/10/2022, 11:42
Talbot Bay

Talbot Bay está entre as milhares de ilhas que compõem o imaculado arquipélago de Buccaneer na Austrália Ocidental, onde os povos indígenas vão gerir três novos parques marinhos em parceria com o estado.

Fotografia por Auscape International Pty Ltd., Alamy Stock Photos

Durante 60.000 anos, os povos indígenas da Austrália cuidaram das regiões mais espetaculares da sua terra natal, repletas com recifes gigantes, florestas tropicais intocadas e desfiladeiros colossais. Agora, mais de 220 anos depois de terem sido retirados à força pelos colonizadores britânicos, os povos indígenas estão a ganhar mais controlo sobre as suas terras ancestrais.

Neste verão, dois estados australianos devolveram mais de 9.600 quilómetros quadrados de terra aos nativos australianos. Pela primeira vez no estado de Austrália Ocidental (AO), o governo criou três novos parques marinhos em colaboração com os povos indígenas, totalizando 6.000 quilómetros quadrados, uma área semelhante à do estado de Delaware nos EUA. No nordeste do país, o estado de Queensland devolveu 3.620 quilómetros quadrados e a maioria é parque nacional.

Estas iniciativas representam um grande impulso para a criação e preservação de mais parques nacionais e atua como uma forma de reconciliação com a traumática história colonial do país. Os líderes indígenas dizem que este controlo mais alargado sobre a natureza representa um progresso crucial.

Localizados no remoto arquipélago de Buccaneer, na Austrália Ocidental, a 1.900 quilómetros a norte de Perth, os novos parques marinhos – Mayala, Maiyalam e Bardi Jawi Gaarra – vão ser geridos com o estado, recorrendo tanto ao conhecimento aborígene tradicional como às práticas ambientais modernas. A liderar este esforço estão guardas florestais indígenas formados para controlar incêndios, monitorizar a biodiversidade, proteger locais culturais aborígenes, ensinar técnicas indígenas de gestão de terras e educar os turistas sobre a herança aborígene.

“A criação destes parques marinhos é um marco importante para a Austrália, pois mostra que pode ser alcançada uma verdadeira cooperação entre o governo e os seus proprietários tradicionais”, diz Tyronne Gartsone, chefe-executivo do Kimberley Land Council, o órgão máximo indígena, ou associação de defesa dos direitos indígenas, na região de Kimberley da Austrália Ocidental.

Um paraíso para os golfinhos-australianos, baleias-jubarte, raias-manta e várias espécies ameaçadas de tartarugas, esta região costeira está profundamente ligada ao folclore aborígene australiano. Muitas pessoas continuam a praticar as antigas tradições ligadas ao mar, como a pesca costeira, a caça de dugongos ou tartarugas e a recolha de conchas de pérolas Pinctada, que há 20.000 anos são esculpidas em obras de arte cintilantes e usadas em cerimónias.

Estes costumes e fenómenos naturais estão entre os elementos que o Departamento de Biodiversidade, Conservação e Atrações (DBCA) da Austrália Ocidental e as comunidades indígenas esperam destacar ao desenvolver um turismo cultural e ambientalmente sustentável.

As “Cataratas Horizontais”, no arquipélago de Buccaneer, têm este nome devido à subida das marés que cria um efeito de queda de água entre as fendas do penhasco.

Fotografia por Genevieve Vallee, Alamy Stock Photos

O parque marinho de Maiyalam, por exemplo, é conhecido pelas suas “Cataratas Horizontais”, um fenómeno natural que acontece quando a subida da maré força a água através de duas fendas estreitas na cordilheira McLarty, provocando uma queda de água de quase quatro metros de altura.

Os modernos barcos de turismo passam agora a rugir por estas águas, mas antigamente os aborígenes navegavam pelos mares perigosos da região nas suas jangadas de madeira, ou gaalwa. Isto exigia conhecimento na previsão das marés, um conhecimento passado de geração em geração em parte através do costume Ilma de cantar e dançar.

Estas tradições podem ser salvaguardadas pelos novos parques marinhos, diz Kevin George, presidente da Corporação Aborígene Bardi Jawi Niimidiman, que representa dois dos povos indígenas da região. “Isto ajuda-nos, enquanto proprietários tradicionais, a continuar a nossa vida da maneira tradicional, a cuidar dos recursos e do ambiente que cuidou de nós”, diz Kevin.

(A poluição está a ameaçar parte da arte rupestre mais antiga do mundo.)

Mergulhar na história indígena em Cabo York

Na região norte, em Queensland, outras comunidades indígenas estão a celebrar o novo controlo sobre terrenos que cuidam há muito tempo. A Península do Cabo York, uma extensão gigante de natureza intocada, está coberta por floresta tropical, cumes, vales e praias magníficas.

Durante milénios, esta península tem sido o lar de indígenas australianos – tanto aborígenes como o povo das ilhas do Estreito de Torres, um arquipélago a norte de Cabo York. Este é o único lugar na Austrália onde estes grupos vivem lado a lado.

Quase 430 quilómetros quadrados de Cabo York foram devolvidos como terras livres, o que significa que os povos indígenas da área são detentores da propriedade. Outros 3.190 quilómetros quadrados tornaram-se no Parque Nacional de Apudthama e no Parque Nacional das Ilhas Yamarrinh Wachangan, ambos geridos pelos indígenas e pelo estado. Todos os parques nacionais de Cabo York são agora controlados em parceria, com 43.000 quilómetros quadrados da península devolvidos aos seus proprietários tradicionais nas últimas três décadas.

Tudo isto beneficia imenso as cinco comunidades indígenas de Cabo York, diz Reginald Williams, um ancião aborígene da tribo Yadhaigana da região. O aumento do controlo indígena sobre a península reduz o risco dos danos ambientais provocados pelo aumento da mineração, permite às comunidades indígenas erguer vedações em torno das áreas sagradas e a prática de métodos antigos de proteção de espécies ameaçadas. Este processo também cria espaço para os indígenas celebrarem as suas tradições culturais, como as cerimónias de iniciação e ensinar os jovens a caçar, colher e cozinhar.

Os grupos indígenas, para além de destacarem a biodiversidade dos parques e a sua vida selvagem rara, incluindo o marsupial cuscus, a tartaruga-pintada de Jardine e o casuar-do-sul, estão a planear novos passeios por Cabo York que irão mostrar alguns dos costumes indígenas. “Acreditamos que os turistas devem visitar Cabo York para testemunhar em primeira mão a singularidade de dois povos culturalmente diferentes [os aborígenes e os habitantes das ilhas do Estreito de Torres] a viver juntos na mesma área”, diz Reginald Williams.

Inspirada por estes desenvolvimentos, a Strait Experience, uma empresa indígena de viagens, vai lançar em breve a visita “O Estreito num Dia”, um passeio que leva os viajantes desde Cairns até às Ilhas do Estreito de Torres. “A maioria dos turistas na região norte de Queensland só visita a Grande Barreira de Coral e a Floresta Tropical de Daintree, mas perde a interação com a cultura indígena local, ou seja, é isso que pretendemos mudar”, diz Fraser Nai, cofundador da empresa.

“Ainda há um longo caminho para percorrer até que nós, os proprietários tradicionais, sintamos que temos as nossas terras de volta”, acrescenta Reginald Williams. “Mas estamos a ficar mais perto, e isso é entusiasmante.”

Ronan O'Connell é um jornalista e fotógrafo australiano sediado entre a Irlanda, a Tailândia e a Austrália Ocidental.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Viagem e Aventuras
A poluição está a ameaçar parte da arte rupestre mais antiga do mundo
Viagem e Aventuras
Práticas de conservação indígena podem significar um turismo de vida selvagem mais rico no Canadá
Viagem e Aventuras
Granada: uma antiga cidade de sultões e uma maravilha do século XXI
Viagem e Aventuras
Será que alguns dos lugares mais ameaçados do mundo deviam estar vedados a turistas?
Viagem e Aventuras
Caminhar à luz das estrelas é a atividade que precisamos neste momento

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados