Construir mais barragens é a forma de salvar os rios?

Conforme os rios ficam agitados ou desvanecem devido ao clima extremo provocado pelas alterações climáticas, o debate sobre o papel que as barragens devem ou não desempenhar na sua gestão está a subir de tom.

Por Stefan Lovgren
Publicado 13/10/2022, 11:02
Suíça

A Suíça tem centenas de centrais hidroelétricas espalhadas pelos Alpes. Esta vista aérea mostra duas dessas instalações – a barragem de Vieux-Emosson e a barragem de Emosson. Os defensores das barragens dizem que estas são uma alternativa ecológica para os combustíveis fósseis; mas os seus opositores dizem que as barragens emitem gases com efeito de estufa significativos.

Fotografia por Fabrice Coffrini, AFP, Getty Images

Pelo mundo inteiro, parece que os rios ou estão a ficar mais agitados ou a recuar.

Enquanto as inundações catastróficas provocadas pelos rios no Paquistão deixam um terço do país submerso e dezenas de milhões de pessoas sem casa, uma seca que não era testemunhada há 500 anos está a deixar os principais cursos de água da Europa quase secos. Nos Estados Unidos, o rio Kentucky provocou inundações no verão com consequências mortais, ao passo que o ressequido rio Colorado desceu para níveis tão baixos que obrigaram a cortes na alocação de água em vários estados.

Não existe propriamente discordância sobre o que está a acontecer; os cientistas têm vindo a alertar há anos para o facto de as mudanças no nosso clima fazerem com que as chuvas e as secas se intensifiquem, tornando o húmido mais húmido e o seco mais seco, com impactos cada vez mais extremos nos rios. A questão pode passar agora por uma forma de gerir estes canais de água alterados pelo clima e, especificamente, determinar qual é o papel que as barragens devem ou não desempenhar na mitigação dos tipos de desastres que temos observado ultimamente, e que iremos ver mais.

Nesta matéria, as opiniões divergem. Os defensores dizem que as barragens de armazenamento de água vão ser mais essenciais como amortecedores para travar os fluxos extremos de água, porque absorvem a água durante as inundações e libertam-na em tempos de seca. As barragens, segundo os seus defensores, podem ajudar a combater as alterações climáticas, que aumentam as emissões de gases com efeito de estufa, porque produzem energia hidroelétrica renovável, que é mais limpa do que a energia derivada dos combustíveis fósseis.

Uma cascata de água na barragem de Sau, em Vilanova de Sau, Espanha. Devido ao  calor que bateu recordes por toda Europa neste verão, os rios do continente europeu estão a secar.

Fotografia por Angel Garcia, Bloomberg, Getty Images

“As barragens e a energia hidroelétrica não são um remédio para todos os males, mas são fundamentais na mitigação e adaptação climática”, diz Richard Taylor, um dos grandes especialistas em energia hidroelétrica que gere uma empresa de consultoria sediada no Reino Unido chamada RMT Renewables.

Não é bem assim, contradizem os críticos, que afirmam que as barragens fazem mais mal do que bem. Os seus argumentos concentram-se há muito tempo no impacto negativo que a maioria das barragens tem sobre a biodiversidade e os ecossistemas fluviais, e cada vez há mais evidências científicas de que as barragens pioram os efeitos tanto das inundações como das secas. Os críticos também referem os estudos que mostram que os reservatórios criados pelas barragens emitem muitas vezes gases com efeito de estufa muito mais nocivos do que se presumia anteriormente.

“As barragens são uma solução climática falsa”, diz Isabella Winkler, codiretora da organização International Rivers, um grupo de defesa sediado nos EUA. “[As barragens] têm sido apontadas como uma fonte de energia ecológica quando são tudo menos isso.”

Mais vulnerável

Há milénios que barragens ou comportas são construídas em rios e riachos para irrigar quintas, fornecer água potável e evitar inundações. Durante a industrialização na Europa, em finais do século XIX, foram construídas barragens enormes para gerar eletricidade, e o início do século XX impulsionou uma era de grandes projetos hidroelétricos nos Estados Unidos.

O calor extremo do verão e a ausência de chuva afetaram os níveis de água do rio Yangtze. Este rio chinês, o mais longo da Ásia, tem uma extensão de aproximadamente 6.276 quilómetros e alimenta quintas que fornecem metade dos alimentos do país e milhares de centrais hidroelétricas, incluindo a Barragem das Três Gargantas – a maior do mundo.

Fotografia por Bloomberg

Nas últimas décadas, foram construídas poucas barragens grandes na América do Norte ou na Europa, com a maioria dos rios já na sua capacidade máxima. Noutras partes do mundo, o desenvolvimento hidroelétrico tem aumentado, embora tenha atingido o pico global em 2013 com as mega barragens construídas na China e no Brasil. Atualmente, a energia hidroelétrica fornece 17% da geração global de eletricidade, a terceira maior fonte a seguir ao carvão e ao gás natural.

Países tão diversos como o Paraguai, Nepal, Noruega e República Democrática do Congo dependem da energia hidroelétrica para quase toda a sua produção de eletricidade. Noutros locais, como nos Países Baixos, uma nação que está em grande parte ao nível do mar ou abaixo, as estruturas de controlo de enchentes, incluindo as barragens, são encaradas como uma necessidade existencial.

Na região Sudoeste dos EUA, a agricultura e uma população de 40 milhões de pessoas dependem da água extraída das barragens ao longo do Baixo Rio Colorado. “A Costa Oeste seria um lugar muito diferente se aquelas [barragens] não estivessem lá”, diz Upmanu Lall, diretor do Centro Water Colúmbia, da Universidade Colúmbia, em Nova Iorque.

Os especialistas dizem que muitos dos rios que estão mais ameaçados pelas alterações climáticas passam por países que carecem das infraestruturas vitais, dos meios financeiros e do conhecimento técnico para lidar com eventos climáticos extremos. Alguns especialistas referem o Paquistão como um país particularmente vulnerável; esta nação fica numa região que, conforme as alterações climáticas progridem, pode ser desproporcionalmente afetada tanto pela intensificação das chuvas como pela seca.

Esta fotografia aérea captada no Paquistão a 5 de setembro de 2022 mostra áreas residenciais inundadas depois de as fortes chuvadas das monções na província do Baluchistão terem destruído casas, empresas, estradas e pontes. Quase um terço do Paquistão está submerso após meses de chuvas que bateram recordes. Pelo menos 1.500 pessoas perderam a vida.

Fotografia por Fida HUSSAIN, AFP, Getty Images

As inundações devastadoras registadas este verão no Paquistão, que mataram pelo menos 1.500 pessoas, resultaram de chuvas torrenciais que foram quatro vezes mais pesadas do que a média a longo prazo e seguiram-se a uma vaga de calor invulgarmente forte no início da primavera.

O Paquistão não fez muitos investimentos em sistemas de controlo de enchentes após as enormes inundações registadas em 2010, mas não se sabe se mais barragens num rio Indo já de si saturado com comportas, e principal hidrovia do país, teriam aliviado a devastação que está a acontecer este ano. “Algumas das inundações no sul do Paquistão foram provocadas por chuvas excessivas nas mesmas áreas, ou seja, as barragens não teriam ajudado muito”, diz Moetasim Ashfaq, cientista computacional do clima do Laboratório Nacional de Oakridge, no Tennessee.

Porém, Moetasim Ashfaq acrescenta que os danos devido às inundações provocadas pela precipitação extrema nas regiões a montante da Bacia do Indo podiam ter sido amplamente evitados se tivessem sido construídos reservatórios mais pequenos de controlo de enchentes em alguns dos afluentes. “Os reservatórios pequenos podem ser muito eficazes no controlo de enchentes repentinas”, diz Moetasim, porque oferecem espaço extra para a água escapar.

Moetasim Ashfaq também salienta a importância de controlar o fluxo vindo dos afluentes no momento certo. Um sistema controlado por humanos pode regular a libertação gradual de fluxos no rio principal, evitando assim inundações repentinas.

Corrente de jato enfraquecida

Os cientistas alertam que muitas das barragens já existentes, que foram construídas com a promessa de reduzir as inundações, usam regras operacionais arcaicas que se baseiam em antigas suposições climáticas. Algumas barragens, por exemplo, podem ter sido construídas sem escoadores adequados para lidar com inundações extremas. Os especialistas concordam que as novas barragens devem ser construídas tendo em mente o aumento dos níveis de precipitação do futuro.

“Temos de projetar as coisas para os piores cenários”, diz Auroop Ganguly, professor de engenharia civil e ambiental da Universidade Northeastern, em Boston.

Contudo, a imprevisibilidade das alterações climáticas dificulta as previsões exatas sobre os piores cenários.

No início deste ano, um estudo publicado na revista Nature Communications mostrava que as barragens podem, em alguns casos, aumentar realmente o risco de inundação, porque alteram a composição e a estrutura dos leitos dos rios a jusante. Apesar de o pensamento convencional sustentar que a água libertada nas barragens aumenta os cursos de inundação a jusante e, desta forma, reduz o risco de enchentes, o estudo sugere que estas represas removem partículas finas da água e fazem com que os leitos dos rios se tornem mais espessos, algo que pode impedir o fluxo do rio e piorar os efeitos das inundações.

“Embora as barragens consigam atenuar o pico de uma inundação, o canal a jusante já não consegue transportar tanta água vinda da enchente”, diz Hongbo Ma, professor de engenharia hidráulica da Universidade de Tsinghua, em Pequim, e autor principal do referido estudo.

A seca prolongada registada na Europa, com rios como o Loire, em França, o Reno, na Alemanha, e o Po, em Itália, a desaparecer vertiginosamente – com enormes consequências económicas para o transporte marítimo e outras atividades industriais – também parece ter exposto as limitações das barragens na mitigação da escassez de água, sem esquecer que a Europa é o continente com mais barragens do planeta.

Com as alterações climáticas a enfraquecer a corrente de jato que traz a humidade do Atlântico para a Europa, os especialistas preveem que as secas podem tornar-se mais comuns no continente europeu. Os períodos de final de verão podem vir a ser particularmente maus na Europa central, segundo os especialistas, porque os escoamentos vindos dos Alpes, que geralmente começam a encher os rios na primavera, provavelmente irão acontecer mais cedo, à medida que a neve derrete ou é substituída por chuva devido à subida das temperaturas.

A maior central hidroelétrica do Sudeste Asiático está a ser construída ao longo do rio Kayan, em Kalimantan do Norte, na Indonésia.

Fotografia por Anton Raharjo, Anadolu Agency, Getty Images

Para responder às alterações constantes nas condições, alguns países europeus, incluindo o Reino Unido, têm planos para construir enormes reservatórios adicionais para recolher água durante o ano inteiro, água que mais tarde pode ser libertada durante os períodos de seca para ajudar a indústria e o consumo humano. Mas os estudos têm mostrado que este tipo de abordagem pode levar a um ciclo de oferta e procura em espiral, no qual o aumento da oferta de água leva a uma maior procura da mesma, algo que pode rapidamente descompensar os benefícios iniciais dos reservatórios.

“A maioria dos cientistas concorda que estes ciclos de procura e oferta, ou aquilo a que chamamos efeito ricochete, podem piorar os impactos da seca e da escassez de água”, diz Giuliano Di Baldassarre, professor de hidrologia de águas superficiais e de análise ambiental na Universidade de Uppsala, na Suécia.

Reivindicações ecológicas

Os próprios projetos hidroelétricos também estão ameaçados pelas alterações climáticas. Um estudo realizado no início deste ano pelo World Wildlife Fund (WWF) descobriu que quase duas em cada três barragens hidroelétricas planeadas globalmente vão estar localizadas em bacias hidrográficas com riscos muito elevados ou extremos de seca, inundações ou ambos, até ao ano de 2050.

A geração de energia hidroelétrica já está a diminuir drasticamente em muitas regiões devido à descida dos níveis de água nos rios. Para alguns países, como é o caso da Zâmbia, que obtém a maior parte da sua eletricidade a partir da energia hidroelétrica, as perdas na quantidade de energia gerada podem levar a enormes perturbações económicas, que foi exatamente o que aconteceu neste país da África Austral devido a uma década de seca que diminuiu a sua produção energética em 40%.

“As mudanças prováveis nas estimativas sobre custo e benefício podem certamente tornar as barragens menos competitivas enquanto opções para gerar [eletricidade], incluindo os investimentos mais arriscados em locais com níveis de risco cada vez maiores”, diz Jeff Opperman, cientista principal da iniciativa Global Freshwater do WWF e autor do relatório da mesma instituição.

Com as tecnologias eólicas e solares a ficarem cada vez mais acessíveis enquanto alternativas de energia renovável, o crescimento do setor hidroelétrico deve diminuir globalmente em mais de 20% até 2030. Contudo, em muitos lugares, como acontece no Sudeste Asiático, a energia hidroelétrica continua a expandir-se rapidamente. Ainda assim, muitos dos projetos financiados pelo estado ou privados nestas regiões não têm por base uma razão económica sólida, segundo alguns observadores, e os custos ambientais, como a perda da pesca, são frequentemente ignorados.

“A motivação por trás destes projetos é muitas vezes alimentada por políticos de elite e por práticas corruptas que têm pouca procura real”, diz Brian Eyler, diretor do programa Sudeste Asiático do Centro Stimson em Washington D.C., que monitoriza a construção de barragens ao longo do rio Mekong no Sudeste Asiático.

Como não há combustíveis queimados durante as suas operações, as barragens continuam a ser frequentemente vistas como uma forma limpa para gerar eletricidade. E também são consideradas uma forma mais benigna de armazenar energia do que as baterias, cuja produção exige extrações potencialmente destruidoras de minerais.

Porém, os críticos dizem que as credenciais ecológicas das barragens são exageradas. E referem que não só as grandes quantidades de betão usadas para construir barragens deixam enormes pegadas de carbono, como também há evidências crescentes de que as emissões de gases com efeito de estufa das barragens são muitas vezes muito superiores ao que se pensava anteriormente, com algumas instalações a alcançarem níveis equiparáveis aos das centrais de combustíveis fósseis. Isto porque a vegetação inundada que se decompõe sob os reservatórios atrás das barragens produz geralmente enormes quantidades de metano, um gás com efeito de estufa que é pelo menos 25 vezes mais potente do que o dióxido de carbono.

“O termo energia hidroelétrica ecológica é uma contradição, e desvia a nossa atenção de soluções mais viáveis para as alterações climáticas”, diz Isabella Winkler, da organização International Rivers.

Soluções naturais

Com as mega barragens a revelarem-se muitas vezes demasiado dispendiosas e ambientalmente nocivas, cada vez há mais construtores de barragens que podem estar a virar as suas atenções para a tecnologia “de passagem”, na qual a água do rio flui continuamente através de uma central hidroelétrica sem um reservatório para a armazenar. Estes projetos são geralmente considerados ecologicamente mais corretos, mas não são flexíveis;  porque não permitem que a água seja gerida consoante as condições meteorológicas.

O Instituto Low Impact Hydropower, sediado em Massachusetts, defende que a geração de energia hidroelétrica deve ser adicionada às barragens já existentes nos Estados Unidos, onde atualmente só 3% das barragens geram eletricidade. “As barragens podem desempenhar um papel fundamental tanto na produção de energia como na conservação da natureza”, diz Shannon Ames, diretora executiva do Instituto Low Impact Hydropower. “Quando isto for feito de uma forma sustentável, a adição de uma nova central hidroelétrica a uma barragem já existente pode realmente melhorar o rio circundante”, acrescenta Shannon, salientando também que repensar coisas como o fluxo de água e evitar a destruição das linhas costeiras pode fazer parte deste processo.

Depois, também há pessoas que dizem que nos devemos afastar completamente das barragens e procurar formas de melhorar a eficiência da água através de soluções baseadas na natureza. Muitos ecologistas dizem que a proteção das áreas húmidas, por exemplo, deve ser uma prioridade, dado que estes ecossistemas atuam como esponjas naturais para as águas de uma bacia hidrográfica.

“Transformámos as bacias hidrográficas em máquinas económicas que servem apenas as pessoas e não a natureza, e isso cria mais problemas, como secas e inundações”, diz Herman Wanningen, fundador do grupo de defesa ambiental Dam Removal Europe.

“Temos de trabalhar com a natureza e não continuar a trabalhar contra ela."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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