Um bunker alemão cheio de sangue e urina tem o melhor registo de como os químicos nos contaminam

Cerca de 400.000 amostras de cidadãos alemães, recolhidas ao longo de quatro décadas e armazenadas num antigo bunker militar, registam o aumento – e por vezes a queda – dos poluentes químicos num país industrializado.

No Banco Alemão de Espécimes Ambientais, vemos Dominik Lermen entre os tanques de armazenamento criogénico que contêm milhares de frascos com sangue e urina. Dominik Lermen, cientista do Instituto Fraunhofer de Engenharia Biomédica, lidera a equipa que recolhe todos os anos amostras de estudantes e armazena-as neste local para a Agência Ambiental Alemã.

Fotografia por Esther Horvath, National Geographic
Por Florian Sturm
Publicado 3/10/2022, 11:49

MÜNSTER, ALEMANHA – A cerca de quinze minutos a sudeste desta cidade universitária, as ruas residenciais dão lugar a campos agrícolas, e a estrada serpenteia e vai estreitando. Ao lado de um bosque, por trás de uma vedação alta de arame, encontram-se cinco antigos bunkers militares – parecem colinas na paisagem com os telhados curvos cobertos de relva.

Dominik Lermen dirige-se a um destes bunkers e tira um molho de chaves do bolso. O barulho das chaves é absorvido pelo chilrear dos pássaros e pelo vento que sopra entre as árvores. Eventualmente, Dominik encontra a chave certa, e eu sigo-o através de uma porta verde – para entrar no melhor arquivo mundial sobre a forma como os humanos têm sido contaminados por poluentes químicos.

“Neste local”, diz Dominik Lermen, “temos cerca de 400.000 amostras de mais de 17.000 pessoas. Principalmente sangue, urina e plasma.”

Entramos numa sala enorme, sem janelas e mal iluminada, com paredes de betão com cerca de um metro e oitenta de espessura. Pilares brancos sustentam o telhado curvo. Está frio – cerca de 10 graus – mas não tão frio como no inteiror das 42 cubas criogénicas de aço inoxidável que enchem a sala em fileiras organizadas. Cada uma tem cerca de um metro e oitenta de altura, 60 centímetros de largura e estão ligadas a tubos de metal que percorrem toda a extensão do edifício.

Este é o arquivo de amostras humanas do Banco Alemão de Espécimes Ambientais (ESB), um esforço do Ministério Federal do Ambiente “para monitorizar e analisar sistematicamente a exposição humana a químicos como o chumbo, mercúrio, plastificantes e outros”, diz Dominik Lermen. Com mais de quatro décadas, este é o melhor e mais duradouro registo do seu género.

O banco de espécimes está alojado num bunker que já serviu de armazém para medicamentos do exército alemão, nos arredores da cidade de Münster.

Fotografia por Esther Horvath, National Geographic

Todos os anos, Dominik Lermen e os seus colegas do Instituto Fraunhofer de Engenharia Biomédica recolhem e analisam amostras de sangue e urina de voluntários de toda a Alemanha e armazenam as amostras neste local para pesquisas futuras. Este projeto tem dois objetivos: revelar quais as substâncias já acumuladas em grandes quantidades e que são potencialmente perigosas nos corpos dos alemães; e verificar se as interdições e regulamentações sobre algumas destas substâncias estão realmente a funcionar.

A regulamentação pode claramente funcionar – nas últimas décadas, os níveis de chumbo e mercúrio no sangue têm descido na Alemanha, assim como noutros países industrializados. Ao mesmo tempo, a proliferação de compostos orgânicos sintéticos como os PFAS (também conhecidos por “químicos eternos”) tem criado novas ameaças inquietantes que tornam o trabalho realizado nesta obscura instalação ainda mais urgente.

Domink Lermen, de 44 anos, coloca uma máscara facial, sobe uma escada móvel e levanta a tampa de uma das cubas de armazenamento criogénico. Uma névoa branca sai da abertura e dissipa-se no chão de betão.

“Todos estes tanques estão cheios com cerca de 160 litros de nitrogénio líquido”, diz Dominik. “Só com estas temperaturas extremas é que conseguimos garantir a longevidade do nosso arquivo.”

No interior dos tanques, o nitrogénio líquido mantém as amostras a temperaturas congelantes de 160 graus negativos. Os frascos são armazenados na névoa de nitrogénio gasoso por cima do líquido.

Com as mãos e braços protegidos por luvas especiais, Dominik Lermen coloca a mão no tanque e levanta uma prateleira cheia de frascos da nuvem de nitrogénio, que fica por cima do nitrogénio líquido. A temperatura na nuvem está abaixo dos 160 negativos. Passados alguns momentos, Dominik coloca a prateleira de regresso no recipiente e fecha a tampa.

“Quando tiramos as amostras do tanque, os frascos passam por uma rápida mudança de temperatura a rondar os 170 graus”, diz Dominik. “É claro que queremos minimizar esta diferença. Se estivermos a tentar preservar um registo para a eternidade, cada segundo conta.”

‘Os estudantes são o nosso alerta precoce’

Os cientistas da Universidade de Münster começaram a delinear os planos para criar o ESB na década de 1970, mas o projeto só foi lançado oficialmente em 1985. As primeiras amostras foram recolhidas de pessoas perto de Münster, na região oeste da Alemanha, mas quando a Alemanha Ocidental e de Leste foram novamente reunidas em 1990, o programa de amostragem anual foi expandido para Greifswald no norte, para Halle no leste e Ulm no sul. A ideia era obter uma imagem verdadeiramente nacional sobre a contaminação de químicos.

O ESB também recolhe amostras ambientais – ovos de pássaros, plantas, peixes, mexilhões, veados, minhocas e solo – de 14 locais diferentes, incluindo cidades, reservas naturais e quintas. Mas só as amostras humanas é que são armazenadas no bunker de Münster, um antigo armazém médico do exército. O arquivo foi transferido da universidade para este local em 2012. As paredes grossas, fortes o suficiente para resistir a uma bomba ou à queda de um avião, também protegem as amostras da radiação cósmica que as poderia degradar a longo prazo.

As amostras no bunker não são recolhidas de alemães de todas as idades, só de estudantes entre os 20 e os 29 anos – em parte para excluir pessoas que possam ter uma elevada exposição ocupacional a químicos.

Till Weber, cientista da Agência Ambiental Alemã, gere o banco de espécimes, que começou a operar em 1985 e mantém o registo mais consistente do mundo – e um dos mais longos – sobre as mudanças na carga química presente nos humanos.

“Nós amostramos deliberadamente os estudantes” como indicadores da ameaça enfrentada pela população em geral, diz Marike Kolossa-Gehring, cientista-chefe e diretora de projetos do ESB na Agência Ambiental Alemã em Berlim.

“Os estudantes não estão expostos a determinadas substâncias devido ao seu trabalho. E assumindo que a exposição a substâncias persistentes tem tendência para aumentar e acumular com a idade, se encontrássemos níveis elevados de substâncias nos jovens estudantes, perceberíamos que tínhamos de prestar muita atenção a essas substâncias em particular.”

“De certa forma, os estudantes são o nosso sistema de alerta precoce.”

Sangue novo para o bunker

Anjuli Weber, estudante de medicina de 21 anos da Universidade de Ulm, é uma recruta recente deste sistema. Depois de ouvir falar sobre o biobanco através de um email enviado para todo o campus, Anjuli “estava curiosa para saber mais sobre o projeto, bem como sobre o estado do meu corpo”. Os participantes recebem eventualmente alguns dos resultados dos seus testes.

Numa manhã de maio, Anjuli Weber apresenta-se no laboratório móvel do Instituto Fraunhofer, que está num parque de estacionamento nos arredores de Ulm para realizar três dias de testes. Antes de Anjuli entrar, um membro da equipa analisa os detalhes sobre o seu histórico médico e a sua situação de vida, incluindo os seus hábitos alimentares e uso de medicamentos e cosméticos. Um dentista verifica os seus dentes para ver se Anjuli tem restaurações em amálgama, que contêm mercúrio e outros metais.

No interior do laboratório móvel, Anjuli Weber encontra uma instalação médica de última geração, com um laboratório blindado de biossegurança 2 para seis trabalhadores, um tanque criogénico móvel para armazenamento de amostras e um escritório. Anjuli entrega uma garrafa de plástico castanha com a sua urina das últimas 24 horas. Um técnico começa de imediato a analisá-la.

De seguida, outro técnico extrai cerca de 180 mililitros de sangue de Anjuli – cerca de seis vezes mais do que é geralmente necessário para um exame médico comum, mas muito menos do que é retirado nas doações de sangue. Em 45 minutos, o sangue é analisado em parâmetros de rotina e dividido em 16 alíquotas de sangue e 24 de plasma. Registadas com código de barras, as amostras são colocados no recipiente de nitrogénio líquido, para serem levadas para um dos tanques criogénicos maiores no bunker perto de Münster.

Cerca de 400.000 amostras são armazenadas neste bunker nos arredores de Münster, e novas amostras são adicionadas todos os anos a partir de quatro locais de amostragem na Alemanha.

Depois, as amostras são enviadas para laboratórios externos para serem analisadas para a presença de químicos tóxicos – através de uma cadeia de frio ininterrupta que mantém as amostras profundamente congeladas, limitando assim o risco de serem alteradas.

Existem cerca de duas dezenas de bancos de espécimes ambientais pelo mundo inteiro; o mais antigo, em Estocolmo, data da década de 1960. O que torna o ESB alemão único é a qualidade e consistência dos seus dados. Enquanto alguns laboratórios deste género trabalham de forma oportuna – quando uma lontra ou baleia morta aparece na praia, os seus tecidos também vão para o banco – o arquivo alemão segue um protocolo e procedimentos padrão muito rígidos. O mesmo laboratório móvel viaja para os quatro locais de amostragem na Alemanha todos os anos.

“Temos usado os mesmos métodos padronizados de amostragem e armazenamento há mais de três décadas. Isso torna os nossos dados efetivamente comparáveis e permite-nos fazer análises e previsões fiáveis”, diz Marike Kolossa-Gehring.

Boas e más notícias

De regresso ao bunker, outro cientista da agência ambiental, chamado Till Weber (sem relação familiar com Anjuli Weber) diz-me que investigadores de muitos países têm estudado os dados alemães. Os resultados têm sido tanto animadores como preocupantes.

Um estudo mostra que os níveis de mercúrio no sangue e na urina caíram 57% e 86%, respetivamente, entre 1995 e 2018. “Uma das razões para este declínio contínuo é a diminuição do uso de amálgama na odontologia e provavelmente a consciencialização sobre a exposição ao mercúrio de peixes e marisco”, diz Till Weber.

Uma bancada criogénica no bunker permite que as amostras sejam verificadas e analisadas sem interromper a cadeia de frio – que é essencial para preservar as amostras como um registo a longo prazo.

O chumbo tem seguido uma tendência semelhante. Os dados derivados de 3.851 jovens adultos em Münster mostram que o nível médio de chumbo no sangue diminuiu cerca de 87% entre 1981 e 2019. O motivo principal deve-se à proibição da gasolina com chumbo na Alemanha, que entrou em vigor em 1988 e, portanto, os canos de escape dos carros já não poluem o ar com chumbo.

Till Weber acredita que não há qualquer fabricante que coloque deliberadamente substâncias nocivas no mercado. “Mas às vezes só com o tempo é que descobrimos a verdadeira toxicidade de determinados químicos. É isso que torna a biomonitorização como a nossa tão importante para toda a sociedade.”

Embora sejam obrigatórios alguns testes antes do uso de novas substâncias em produtos comerciais, os dados sobre os efeitos a longo prazo na saúde são escassos para a maioria dos novos produtos. O número de químicos sintéticos está a aumentar tão depressa que é quase impossível acompanhar individualmente os seus efeitos, muito menos os efeitos combinados.

A União Europeia provavelmente tem as regulamentações mais fortes sobre produtos químicos. Em abril, a Comissão Europeia publicou um “roteiro de restrição” – onde podem ser proibidas até 12.000 substâncias ligadas a distúrbios hormonais, cancro, obesidade ou diabetes. “É provavelmente a maior proibição sobre produtos químicos tóxicos até hoje”, de acordo com o Gabinete Europeu do Ambiente (EEB), uma rede de grupos de cidadãos, e este pode ser um golpe severo para a indústria petroquímica.

Um dos alvos principais são os chamados PFAS, conhecidos por “químicos eternos”, porque demoram centenas de anos a degradar naturalmente. As embalagens de alimentos e retardantes de fogo, roupas impermeáveis e equipamentos para atividades ao ar livre, guarda-chuvas e panelas antiaderentes – todos usam substâncias tóxicas PFAS.

Os vestígios destas e de outras substâncias, como ftalatos, que são usadas como solventes e plastificantes, têm sido encontradas em literalmente todas as amostras desde que o ESB começou a procurá-las, dizem Dominik Lermen e Till Weber. Os químicos são omnipresentes e é impossível rastrear com segurança a sua origem. É por isso que regular a sua utilização é extremamente importante.

Desde 1999 que a Europa bane ou tem regulamentado os ftalatos individualmente, identificados como perturbadores endócrinos que podem interferir na reprodução. Os fabricantes responderam ao alterar ligeiramente a fórmula destas substâncias proibidas para inventar novos químicos não regulamentados com características semelhantes. Os estudos derivados do ESB alemão mostram que a exposição geral aos ftalatos tem aumentado.

“Isto indica claramente que o número de produtos químicos substitutos continua a aumentar – e ainda não sabemos muito sobre os seus efeitos”, diz Marike Kolossa-Gehring.

É importante que as pessoas saibam o máximo possível sobre os químicos aos quais estão expostas, diz Till Weber, antes de fechar a porta verde do bunker para terminar o dia.

“Não queremos assustar ninguém ou dizer às pessoas para não usarem mais plástico nas suas vidas. Mas todos nós precisamos de fomentar uma consciência sobre o que nos rodeia e, eventualmente, acaba no interior dos nossos corpos.”

Esther Horvath é uma fotógrafa alemã que documenta maioritariamente as regiões polares. Pode encontrá-la no Instagram. O jornalista freelancer Florian Sturm também é sediado na Alemanha.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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