Meio Ambiente

Aquecimento Branqueia Dois Terços da Grande Barreira de Coral

Uma grande parte desta estrutura com 2250 quilómetros sofre danos graves pelo segundo ano consecutivo — e os cientistas culpam as mudanças climáticas.

Por Craig Welch

A maior estrutura viva da Terra — um intrincado sistema marinho com metade do tamanho da França, que alimenta 1500 espécies de peixes — está sob ameaça da água quente pela segunda vez em 12 meses. E a janela para a salvação está a fechar-se rapidamente.

A Grande Barreira de Coral da Austrália está a ser afetada por mais um fenómeno de branqueamento de grandes proporções, sendo a primeira vez em que há memória de estes episódios terem ocorrido em anos consecutivos, de acordo com cientistas do programa da barreira de coral do Conselho de Investigação Australiano da Universidade James Cook. Os cientistas anunciaram os resultados de recentes pesquisas aéreas no coral no domingo.

E enquanto o branqueamento do ano contou com a ajuda de um fortíssimo El Niño – um fenómeno periódico de aquecimento natural no Pacífico tropical – os danos de 2017 estão a ocorrer sem tal ajuda.

“Os dados são verdadeiramente assustadores”, disse Robert Richmond, especialistas em recifes de coral e diretor do Laboratório Marinho Kewalo da Universidade do Hawaii. “Estes fenómenos de branqueamento de grandes proporções tornaram-se mais graves, mais duradouros e mais frequentes. Não há dúvida de que estão relacionados com as mudanças climáticas.”

CORAL A MORRER DE FOME

Habitualmente, o branqueamento acontece quando os poluentes, o excesso de luz solar ou águas inusitadamente quentes levam os corais a expelirem águas simbióticas do seu tecido, tornando os corais brancos. O processo não mata necessariamente os corais de imediato. Se as condições melhorarem — se a água arrefecer de novo, por exemplo — muitos corais podem ser recolonizados pelas algas e recuperar.

Mas sem as algas, que são a sua principal fonte de alimentação, os corais enfraquecem e tornam-se suscetíveis à doença. Se as condições não melhorarem rapidamente, morrem.

O problema, de acordo com Terry Hughes, diretor do programa de recifes de coral na Universidade James Cook, é que o branqueamento é agora tão frequente e extremo ao largo da Austrália que as possibilidades de recuperarem são “zero”. E isto está a mudar a própria constituição da Grande Barreira de Coral (GBC).

É preciso uma década ou mais para que as espécies de rápido crescimento recuperem suficientemente, e muito mais tempo para os corais de crescimento lento”, escreveu Hughes numa mensagem de correio eletrónico. “Tendo visto quatro grandes fenómenos de branqueamento na GBC em menos de 20 anos (em 1998, 2002, 2016 e 2017), já estamos a assistir a um grande declínio dos corais e a uma mudança no equilíbrio de espécies.”    

O branqueamento do ano passado foi, de longe, o pior desde que há registos. Afetou a parte norte do recife, matando, em média, 67 % dos corais em secções incompletas ao longo de uma área de 800 quilómetros a norte de Cairns, na Austrália. Todos estes danos foram feitos em menos de um ano. (Em comparação, os cientistas mostraram, há alguns anos, que os corais em outras partes do recife tinham demorado mais de um quarto de século a morrer.)

Este ano, Hughes e o seu colega James Kerry levaram a cabo mais um conjunto de pesquisas aéreas, tendo voado cerca de 8000 quilómetros num período em que o verão meridional estava a acabar e as temperaturas — e o branqueamento — atingiram o auge. O que viram perturbou-os enormemente, bem como a outros cientistas. Até agora, o fenómeno deste ano atingiu a parte central, que tinha sido, em grande parte, poupada no ano passado, o que levou a que os danos existentes se alastrassem mais 645 quilómetros. “Os corais são criaturas resistentes”, disse Richmond. “Se tiverem oportunidade, conseguem recuperar. O problema é que não tem havido pausas e a gravidade do problema está a aumentar com o tempo.

UM PROBLEMA GLOBAL

Hoje este problema vai muito além da Austrália, num momento em que os corais do mundo inteiro enfrentam um momento de juízo. E este é um problema que representa um risco para milhões de pessoas. Os corais são o habitat de um quarto dos peixes do mundo e crê-se que 500 milhões de pessoas ou mais dependem quase exclusivamente das criaturas marinhas para obter proteínas. Além disso, os recifes protegem as linhas costeiras, reduzindo surtos de tempestade que podem destruir as regiões costeiras.

O ano passado e 2015 foram os dois anos mais quentes de que há registo. À medida que as emissões de gases causadores do efeito de estufa resultantes da queima de combustíveis fósseis elevam as temperaturas dos oceanos, as mudanças climáticas vêm-se tornando a principal causa dos fenómenos de branqueamento. E isto acontece com um aumento médio de 1 grau centígrado nas temperaturas do ar desde o dealbar da Revolução Industrial.

Os cientistas do clima afirmaram que mesmo que o mundo agisse à velocidade de um raio para combater o aquecimento, teria muitas dificuldades em manter os aumentos das temperaturas em valores inferiores a dois graus centígrados – um objetivo definido em dezembro de 2015 quando 195 nações e a União Europeia assinaram o Acordo de Paris. Ainda assim, muitos cientistas receiam que os corais do mundo não sobreviveriam mesmo num quadro de aquecimento limitado como este.

Para Richmond, os próximos passos são óbvios: o mundo tem de começar rapidamente a reduzir a emissões de gases causadores do efeito de estufa e, ao mesmo tempo, eliminar ameaças menores para os corais — a sedimentação e a pesca em excesso, por exemplo. Assim, os corais que restam poderão ficar mais resistentes.

Mas ainda não é claro até que ponto o mundo está empenhado nesta questão. Ainda no último verão, durante um encontro de mais de 2000 cientistas de corais no Hawaii, os investigadores reuniram assinaturas para que fosse enviada uma carta ao primeiro-ministro da Austrália — grande exportadora de carvão — para que este faça mais para combater as emissões de dióxido de carbono. Entretanto, nos Estados Unidos, o Presidente Donald J. Trump já está a dar passos no sentido de pôr fim aos esforços do seu antecessor para reduzir as emissões das centrais de energia movidas a carvão, uma grande fonte de gases de efeito de estufa.

“Não somos só um punhado de amantes de recifes”, disse Richmond referindo-se aos cientistas de corais. “O que é bom para os corais é bom para a humanidade. E maioria das nações percebem isto.”

Hughes, o principal autor de um grande estudo publicado no mês passado que instava a uma ação imediata para conter os danos nos corais do mundo inteiro, disse que os problemas são sérios, mas não é tarde de mais.

“Se agirmos já, continuaremos a ter recifes”, disse. “Mas quanto mais cedo agirmos, melhor.”

Como que para sublinhar a posição de Hughes, cientistas do Governo dos EUA emitiram recentemente mais um aviso: existe uma possibilidade considerável de o El Niño voltar no final de 2017, o que poderia aumentar ainda mais as temperaturas da água.