Como deflagram os incêndios florestais e como impedi-los

Nos Estados Unidos, a temporada de incêndios dura de junho a setembro. Apresentamos tudo o que precisa de saber sobre estes ventos sazonais que fazem alastrar as chamas por todo o país.

Por Claire Wolters
Boise Forest Fire

Em 1996, os ventos fortes e as temperaturas quentes propiciaram um incêndio no sopé das colinas próximas de Boise, no Idaho, num inferno que ardeu durante sete dias. Quando finalmente foi extinto, o chamado incêndio de Eighth Street queimou cerca de 6000 hectares e deixou despidas duas das principais bacias hidrográficas da região.

Fotografia por Mark Thiessen

Os incêndios florestais podem queimar milhões de hectares a velocidades incrivelmente rápidas, consumindo tudo o que encontram no caminho. Estas chamas galopantes viajam a velocidades superiores a seis metros por segundo, com uma força que pode derrubar uma pessoa em questão de minutos.

Em 2020, a temporada de incêndios florestais nos Estados Unidos, que dura de junho a setembro, prometia ser particularmente devastadora. Esperava-se que fosse o verão mais quente desde que existem registos, com condições de seca previstas para a Califórnia até setembro. Além disso, a pandemia da COVID-19 prejudicou os esforços de mitigação, como os programas de assistência ao proprietário e as queimas controladas, devido a preocupações com o distanciamento social e os perigos respiratórios. No final de junho, o Departamento de Florestas e Proteção contra Incêndios da Califórnia tinha respondido quase ao dobro de incêndios em comparação com toda a temporada de 2019.

A destruição causada pelos fogos florestais nos Estados Unidos aumentou significativamente nas últimas duas décadas. Anualmente, uma média de 72 400 incêndios florestais destroem quase três milhões de hectares nos EUA desde 2000, o dobro dos hectares queimados em incêndios florestais na década de 1990. Em 2015, a maior temporada de incêndios florestais registada na história dos EUA queimou mais de quatro milhões de hectares.

Espera-se que grande parte do território dos EUA fique cada vez mais quente e seco com as alterações climáticas, aumentando o risco geral de incêndios florestais. Ao mesmo tempo, à medida que a população nos Estados Unidos aumenta e as pessoas se deslocam cada vez mais para áreas rurais e selvagens, é provável que mais casas e outras estruturas sejam colocadas em perigo. É por isso que é fundamental entender como deflagram os incêndios florestais, como impedi-los e o que fazer quando ocorrem.

Como deflagram os incêndios florestais

Embora sejam classificados pela Agência de Proteção Ambiental como desastres naturais, apenas 10% a 15% dos incêndios florestais ocorrem naturalmente. Os outros 85% a 90% são provocados pela mão humana, incluindo incêndios em acampamentos e queima de detritos sem vigilância, cigarros descartados e incêndios de origem criminosa.

Os incêndios florestais que ocorrem naturalmente podem originar-se durante o tempo seco ou durante períodos de seca. Nestas condições, a vegetação habitualmente verde pode converter-se em combustível seco e inflamável; os ventos fortes espalham o fogo rapidamente e as temperaturas quentes potenciam a combustão. Com estes ingredientes reunidos, para causar estragos basta uma faísca sob a forma de raio, incêndio de origem criminosa, poste de eletricidade derrubado, ou fogueiras e cigarros acesos.

Sejam naturais ou provocados pelo homem, devem concorrer três condições para que um incêndio se desenvolva: combustível, oxigénio e uma fonte de calor. Os bombeiros chamam a estes três elementos o triângulo de fogo.

Combustível é qualquer material inflamável em torno de um incêndio, incluindo árvores, ervas, arbustos e até casas. Quanto maior for a carga combustível de uma área, mais intenso será um incêndio. O estado americano mais propenso a incêndios florestais é a Califórnia, que perdeu 105 mil hectares em consequência dos 8194 incêndios que lavraram em 2019.

O ar fornece o oxigénio que o incêndio precisa para arder. Os incêndios florestais na Califórnia são muitas vezes agravados pelos ventos quentes e secos de Santa Ana, que podem transportar uma faísca ao longo de quilómetros.

As fontes de calor ajudam à deflagração do fogo, levando o combustível a temperaturas suficientemente quentes para se inflamar. Os relâmpagos, fogueiras e cigarros acesos, ou até mesmo o sol, podem fornecer calor suficiente para deflagrar um incêndio.

Estes infernos de chamas são mais comuns nos estados ocidentais do país, onde o calor, a seca e as tempestades frequentes criam condições favoráveis. Montana, Idaho, Wyoming, Washington, Colorado, Oregon e Califórnia viveram algumas das piores deflagrações. Os incêndios florestais ocorrem um pouco por todo o mundo.

Como pará-los

Para combater as chamas, os bombeiros procuram privá-las de pelo menos um dos três elementos do triângulo de fogo. Um método tradicional é apagar os incêndios existentes com água e pulverizar retardadores de incêndio. Os bombeiros também trabalham em equipas para limpar a vegetação em redor de um incêndio, com o objetivo de o privar de combustível. Os espaços de terreno limpo resultantes são chamados corta-fogos.

Os bombeiros também podem realizar queimadas controladas, criando falhas no terreno que impedem o avanço dos incêndios florestais. Este método envolve combater o fogo com o fogo. Estes incêndios programados e controlados eliminam a vegetação rasteira, arbustos e lixo de uma floresta, privando os incêndios florestais do combustível que os alimenta.

Benefícios dos incêndios florestais

Embora possam ser perigosos para os seres humanos, os incêndios naturais desempenham um papel importante na natureza. Ao queimarem a matéria morta ou em decomposição, podem devolver ao solo os nutrientes que de outra forma não seriam aproveitados. Também atuam como desinfetante, removendo plantas infetadas por doenças e insetos nocivos.

Os incêndios florestais desbastam as copas das árvores e a vegetação rasteira, permitindo que a luz solar atinja o solo da floresta, dando origem a uma nova geração de plantas. Na verdade, algumas espécies de árvores, como as sequóias, dependem do fogo para abrir as suas sementes.

O que fazer durante um incêndio florestal

Os incêndios devastam tudo o que encontram pelo caminho. Em 2018, o incêndio florestal mais destrutivo já registado na Califórnia causou 85 mortes e foi o desastre natural mais dispendioso do mundo nesse ano, com perdas superiores a 16 mil milhões de dólares. Embora sejam difíceis de parar, há muitos passos que as pessoas podem tomar antes, durante e depois dos incêndios florestais, de forma a limitarem os seus danos.

Antes:

- Se sabe que um incêndio se aproxima da sua zona, a melhor coisa a fazer é ir embora. Imediatamente.
- Se vive numa área propensa a incêndios, é importante estar preparado para estas situações com antecedência. Durante a estação de incêndios, defina um plano de evacuação e prepare uma "mala de fuga" com suprimentos de emergência já embalados.
- Corte os arbustos, ervas daninhas e outros potenciais combustíveis existentes na sua propriedade, especialmente em redor da sua casa.
- Afaste grelhas, tanques de propano ou outros materiais inflamáveis que possa ter no seu quintal.
- Feche todas as portas e janelas, e encha pias, banheiras e outros recipientes com água para apagar o incêndio.
- Desligue a alimentação de gás natural, propano ou gasolina.
- Ao comprar uma casa numa área propensa a incêndios florestais, tente evitar bairros em encostas íngremes ou sem vegetação, é o conselho do California Chaparral Institute. Embora algumas pessoas receiem que as casas próximas de arbustos sejam mais propensas a arder, isso não é necessariamente assim, afirma este instituto. Na verdade, uma paisagem sem vegetação pode ser o espaço ideal para os ventos depositarem as brasas que transportam, e que são uma das maiores ameaças às casas durante um incêndio.
- Molhar os telhados pode ajudar a reduzir o risco de acumulação de brasas, diz o California Chaparral Institute. Algumas pessoas em áreas propensas a incêndios chegam a instalar aspersores de telhado para esse fim.
- Se não puder escapar quando se aproxima um incêndio, ligue para o 112. Em seguida, use uma máscara facial ou, de preferência, um respirador N95 para reduzir a inalação de fumos e partículas.

Durante:

- Se ainda puder fugir, não hesite.
- Esteja atento aos avisos de emergência.
- Se não puder sair, fique dentro de casa. Dirija-se para o edifício ou sala mais seguros, que apresente os níveis de fumo mais baixos. Fique agachado para ter acesso ao ar mais limpo. Se não tiver uma máscara, respire através de um pano molhado.
- Se for encurralado pelo fogo no exterior, tente encontrar uma massa de água. Se não for possível, encontre uma depressão com pouca vegetação e deite-se, cobrindo-se com cobertores molhados ou terra húmida, se possível.

Depois:

- Não regresse à zona afetada pelo incêndio enquanto as autoridades não o autorizarem.
- Esteja atento às indicações das autoridades antes de beber água nessa região.
- Evite objetos quentes, que emitam fumo ou carbonizados.
- Avise os seus familiares e amigos através de mensagens e não de chamadas. As linhas podem estar ocupadas.
- Use uma máscara contra poeira e documente os danos à propriedade.
- Tenha cuidado com o risco de inundações, pois as árvores e a vegetação que servem de proteção podem ter desaparecido, expondo a terra mais solta.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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