Meio Ambiente

Como é Viver na Cidade Mais Poluída do Mundo

Deli, a capital da Índia, é o lar do ar irrespirável e da água não potável.

Por Melody Rowell

26 abril 2016

Deli está poluída desde o céu até ao solo. Este território indiano, que inclui a cidade capital de Nova Deli, é metade do tamanho de Rhode Island e hospeda o dobro da população de Nova Iorque.

Beijing, na China, é muitas vezes notícia pelo seu ar poluído, mas um estudo global da poluição do ar feito em 2014 pela World Health Organization descobriu que o ar de Deli contém bastante mais poluição que Beijing. Segundo várias fontes, é a área mais poluída do mundo.

Para ter uma ideia do que é viver nessas condições, o fotógrafo Matthieu Paley passou cinco dias a caminhar por Deli. Através das suas fotografias, conseguimos ver os resultados físicos da urbanização intensa, a densidade de carros e o lixo em chamas. Todos contribuindo para a neblina, espessa e amarela que paira sobre a cidade.

Até o sagrado rio Yamuna, não está a salvo da poluição severa. Só o Ganges tem maior importância na prática religiosa de Hindu que o rio Yamuna e flui ao longo de 855 milhas (1376 quilómetros) pela Índia, fornecendo água a 57 milhões de pessoas. Oitenta por cento da poluição do rio alonga-se pelas 14 milhas (22,5 quilómetros) que percorrem Deli. A erosão do solo, a disposição do lixo e o escoamento químico, deixam as águas negras em algumas zonas e cobertas com uma película branca noutras.

Sunita Narain é a diretora do Centre for Science and Environment (CSE), sediado em Nova Deli, e foi nomeada uma das 100 pessoas mais influentes no seu trabalho no que toca à política ambiental e justiça. Em 2010, escreveu “o rio, por todos os parâmetros da poluição, está morto. Só ainda não foi oficialmente cremado.”

O Yamuna é, na prática espiritual, fundamental à vida das pessoas que vivem perto dele. As crianças brincam na água, os homens lavam e branqueiam camisas, as pessoas de todas as idades tomam banho e bebem do rio, acreditando que tal as irá absolver do pecado.

E para algumas, o lixo e os resíduos apresentam uma forma de ganhar vida. Enquanto Paley fotografava as interações das pessoas com as redondezas, conhecia homens, mulheres e crianças que vasculhavam diariamente no lixo e nas margens do rio, à procura de peças de metal, plástico e papel que pudessem reciclar. Num bom dia, essas pessoas conseguiriam ganhar 1000 rupias, o equivalente a 15 dólares - três vezes mais que a média da remuneração diária dos outros trabalhadores da cidade.

Em outubro de 2014, o Primeiro Ministro Narendra Modi anunciou uma campanha nacional intitulada Swachh Bharat Abhiyan, que significa “Missão para limpar a Índia”. Enquanto soava bem intencionado, o comunicado apareceu uma semana depois de anunciarem uma campanha chamada “Make in India” que encorajava as sociedades internacionais a trazer os seus projetos no setor da manufatura para a Índia, um objetivo que muitos vêm como contraditório à promoção de um ambiente mais limpo.

O CSE tem sido fundamental nestas campanhas e, em 2015, lançou uma reportagem dizendo que o orçamento do governo não revelava estratégias para avançar com a política ambiental. A vice-diretora Chandra Bhushan escreveu: “A conclusão é que, seja a poluição do ar, a poluição da água ou os resíduos sólidos municipais, gerir a degradação ambiental requer investimentos maciços em infraestruturas do esgoto“.

Embora Deli tenha estações de tratamento, faltam as infraestruturas de esgotos que transportariam os desperdícios até às mesmas. Paley reparou que nem mesmo à superfície conseguia encontrar infraestruturas básicas como caixotes do lixo. "Houve alturas em que tive lixo nas minhas mãos e tive que o carregar durante todo o dia, porque não existiam caixotes do lixo em lado nenhum”, relembra.

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