Meio Ambiente

Como Meio Grau Aumenta o Nível do Mar, a Duração das Ondas de Calor e o Número de Recifes Mortos.

Novos estudos indicam que limitar o aquecimento global a 1,5 graus em vez de 2 pode reduzir de forma dramática o impacto das alterações climáticas no mundo.

Por Craig Welch

Limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius poderia travar com eficácia a escassez de água na região do mediterrâneo. Poderia também ajudar a salvar os recifes tropicais, permitir um aumento na produção de trigo na África Ocidental e encurtar significativamente as ondas de calor, segundo um novo estudo de investigadores europeus.

Quando dirigentes mundiais discutiam sobre como prevenir o aquecimento planetário de mais de 2 graus, dirigentes das Ilhas vulneráveis do Pacífico e das nações do oeste africano argumentaram que esse objetivo era muito negligente. Em dezembro passado, negociadores reuniram-se na cimeira de Paris e acordaram que o mundo deveria limitar o aquecimento do planeta a 1,5 graus, apesar de esse objetivo ser difícil de alcançar e de os benefícios serem difíceis de quantificar. Na próxima sexta-feira, chefes de estados de cerca de 160 países assinarão o acordo climático.

O novo estudo publicado na quinta-feira oferece o que parece ser até agora o vislumbre mais detalhado da diferença que meio grau pode fazer.

Usando vários cenários de modelos climáticos, os cientistas examinaram perto de uma dúzia de indicadores de clima – incluindo o aumento do nível do mar, a produção de arroz e soja e acontecimentos meteorológicos extremos – para analisar como as duas possibilidades de aumento de temperatura afetariam 25 regiões do mundo.  E ainda que o que acontece nos diferentes modelos não coincida, os investigadores relatam tendências semelhantes que indicam que estabelecer um objectivo mais baixo reduziria substancialmente os efeitos nocivos das alterações climáticas em muitos lugares.

“Existe alguma incerteza a todos os níveis – não conseguimos dizer com toda a certeza o que irá acontecer com 2 graus”, afirma o coautor Jacob Schewe, do Instituto Para a Investigação Climática de Potsdam, na Alemanha. O estudo foi publicado na Earth Systems Dynamics, uma revista da União Europeia de Geociências. 'Trata-se de testar se existe ou não uma grande diferença entre as duas metas. E a resposta é sim, há uma diferença robusta.'

Este novo estudo estava em andamento antes das conversações de Paris. É uma das primeiras tentativas de analisar quão diferente seria o mundo se os líderes mundiais apontassem para um objetivo mais ambicioso.

'Dois graus têm um impacto tremendo, mas tínhamos informação limitada sobre o que acontece com 1,5 graus,' diz Carl-Friedrich Schleussner, o autor principal do estudo, consultor científico da Climate Analytics,  um instituto de políticas de Berlim. “Esperamos ter preenchido esta lacuna.”

 O que os cientistas descobriram foi “hot spots” onde problemas substanciais podiam ser minimizados se limitassem o aquecimento a 1,5 graus.

 Por exemplo, em partes da Austrália, na América Central, no norte de África e no sul da Europa, as reservas de água potável poderiam diminuir substancialmente se a temperatura média subisse 2 graus em relação ao que acontecia no começo da revolução industrial.  Refrear esse aumento em meio grau poderia reduzir a perda de água que abastece os rios e ribeiros em todas esses regiões – na região circundante do Mar Mediterrâneo, essa redução seria de metade do caudal. Estes locais lutam já com a escassez de água.

'Uma redução, mesmo pequena, num país que já tem problemas com a gestão de águas, é um problema muito sério', diz Schewe.

Está previsto um declínio no rendimento das colheitas de soja da região amazónica com o aumento de 1,5 graus, mas seria muito pior com 2 graus. Entretanto, é provável que, em regiões de elevada altitude, a produção de trigo cresça nos dois cenários, mas no cenário dos 2 graus cairá a pique em muitas regiões equatoriais, agravando a escassez alimentar.

“MEIO GRAU CENTÍGRADO PODE NÃO PARECER MUITO, MAS FAZ UMA ENORME DIFERENÇA NO QUE RESPEITA AO IMPACTO NO CLIMA”

por ROB JACKSON
GEOCIENTISTA DA UNIVERSIDADE DE STANFORD

Alguns cientistas não associados ao estudo concordam que este revela enormes contrastes.

'Meio grau centígrado pode não parecer muito, mas faz uma enorme diferença no que respeita a impacto no clima,' declara Rob Jackson, um geocientista da Universidade de Standford. 'Haveria cada vez menos secas, cheias e ondas de calor que seriam cada vez menos e menos intensas. Os sistemas árticos e os recifes de coral seriam também mais saudáveis.'

Entre a subida das temperaturas e a acidificação dos oceanos, quase todos os recifes de coral enfrentam a possibilidade de degradação severa se as temperaturas subirem 2 graus. Mas uma significante minoria destes viveiros de peixe, que contribuem com peixe para um quarto da indústria pesqueira mundial e alimentam milhões de pessoas, teria melhores hipóteses de sobrevivência com um aumento de apenas 1,5 graus.

Entretanto, o aumento significativo do nível da água do mar – que alguns temem ser quase inevitável, segundo dados recentes sobre a instabilidade da camada de gelo do oeste Antártico – poderia pelo menos abrandar este século se a subida for de 1,5 graus, dando à sociedade mais algum tempo de adaptação às mudanças que se avizinham.

'Para mim, a questão mais relevante é: vale a pena apontar para 1,5 em vez de 2 graus?' pergunta Schewe. 'E, para mim, este estudo é um passo no sentido de responder a essa pergunta.'

Encontrar uma forma de atingir esse objectivo de 1,5 graus é, contudo, toda uma outra questão. Muitos cientistas sugeriram que limitar o aquecimento a 2 graus exigiria um esforço monumental, e incluía remover CO2 da atmosfera. O estudo de Jackson sugere que, para prevenir o aumento de 1,5 graus, o patamar pode ser alcançado dentro de uma década.

'A janela de oportunidade para limitar o aquecimento global a 1,5 graus está a fechar,' diz Jackson. 'O Acordo de Paris é um bom começo, mas há muito mais trabalho a ser feito, e é preciso fazê-lo rapidamente.'

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Craig Welch escreve sobre Ambiente para a National Geographic.

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