Como podemos evitar uma crise de escassez de água em Portugal?

A procura de água está a ultrapassar a oferta em Portugal e as alterações climáticas estão a contribuir para o agravamento da situação. É necessário agir hoje para assegurar um futuro com água no país.

terça-feira, 19 de maio de 2020,
Por Jon Heggie

A 29 de novembro de 2019, as ruas de Lisboa foram inundadas por manifestantes que exibiam cartazes e protestavam contra as alterações climáticas. A manifestação inseria-se no âmbito das Sextas-feiras pelo Futuro, um movimento que levou estudantes e cidadãos a reivindicar e procurar ações para combater as alterações climáticas. Em Portugal, existem motivos para a preocupação: trata-se de um país onde as alterações climáticas podem ameaçar seriamente a já comprometida segurança do abastecimento de água. Portugal ocupa a 41.ª posição na lista mundial de países em stress hídrico. O País utiliza mais de 40% da água que tem disponível, um valor superior àquele que está estabelecido como margem de segurança para gerir variáveis como secas e aumento da procura. Isto coloca Portugal em risco elevado de severa escassez de água—e é provável que o aquecimento global torne o país ainda mais quente e seco. 

Com um clima maioritariamente ameno, Portugal regista, uma precipitação anual média relativamente saudável de cerca de 900 mm. Contudo, não existe uma distribuição regular, nem pelo País, nem ao longo do ano — aproximadamente metade da precipitação de Portugal é registada durante os três meses de inverno, e sobretudo na região norte, mais húmida e fria. É possível acompanhar a transição da precipitação e verificar que o sul é mais quente, mais soalheiro, e mais seco: Braga, no norte, tem cerca de 1450 mm de precipitação, Coimbra regista 900 mm e, em Lisboa, o valor cai para 700 mm. Quando se chega ao Algarve, com o seu microclima seco e soalheiro, a precipitação anual é de apenas 500 mm. Mais recentemente, a precipitação em Portugal tem também variado bastante de ano para ano, e os eventos extremos estão a tornar-se cada vez mais comuns. 

O Sul da Europa está vulnerável às alterações climáticas, e, em Portugal, os efeitos já se fazem sentir. Por todo o País, as temperaturas têm subido, resultando em verões mais quentes, invernos mais amenos e mais noites tropicais, mais dias de verão e mais períodos quentes. Entre 1976 e 2006, a temperatura subiu cerca de 0,5 ºC, por década. Em Portugal, o abastecimento de água está também a sofrer com a diminuição da precipitação, o aumento das secas e os períodos secos mais longos; primavera, verão, outono e inverno estão mais secos, e a época de chuvas é cada vez mais curta. Até ao fim do século, Lisboa poderá ter menos 35 dias de precipitação e algumas áreas de Portugal podem tornar-se desérticas. As ondas de calor podem tornar-se mais severas e as secas mais frequentes e intensas.  

Em Portugal, as secas não são eventos desconhecidos. Ocorrem frequentemente devido a frentes subtropicais de alta pressão, impedindo que as frentes polares frias atinjam o país.  Contudo, os últimos 30 anos têm sido especialmente secos: 2004 e 2005 foram dois dos anos mais secos registados, e resultaram na mais severa seca em 60 anos. Por causa disto, o governo investiu mais de 23 milhões de euros em abastecimentos de água urbanos, nomeadamente operações nos reservatórios de água. Mesmo assim, quando a seca voltou a atingir o País, em 2017, a maioria das regiões de Portugal não estava preparada. Numa altura em que 80% do país verificava condições de seca severa, as campanhas publicitárias do governo apelavam a que a população poupasse água, as câmaras municipais racionalizassem a utilização municipal, foram implementadas restrições domésticas e algumas comunidades tinham de ter água potável armazenada em reservatórios.   

Em 2019, 40% do território de Portugal enfrentou mais uma seca classificada como severa ou extrema. No Algarve, a seca prolongou-se até 2020, impulsionando a procura por ações urgentes para a segurança do abastecimento de água. Há apelos para que os agricultores reduzam a elevada utilização de água, assim como para a reciclagem de águas residuais, restrição da escavação de poços, construção de novas barragens, exploração de sistemas de dessalinização, restauração de infraestruturas com fugas e, de uma forma geral, para que toda a população reduza o consumo de água. Entretanto, apesar da forte precipitação em dezembro, o Algarve permanece em seca severa e extrema — e as previsões para os próximos meses, até ao final de 2020, não parecem ser animadoras. 
 

Com as secas a tornarem-se cada vez mais comuns, há apelos para que se mude de uma abordagem reacionária para uma estratégia de longo prazo com o objetivo de aumentar o abastecimento e reduzir o consumo. Mas aumentar o abastecimento não é fácil. Uma opção é a dessalinização, que transforma a água do mar em água doce, mas continua a ser dispendiosa, apesar do custo do processo de utilização intensiva de energia ser reduzido devido à eficiência melhorada e energia renovável. Outra possibilidade é a transferência de água de áreas com água abundante para regiões mais secas, apesar de tais projetos serem igualmente dispendiosos e de utilização limitada em contexto de seca a nível nacional. O tratamento e a reutilização de águas residuais na irrigação de terrenos, jardins e campos é outra opção em análise. Estes sistemas podem revelar-se valiosos, mas talvez a forma mais fácil de garantir a segurança do abastecimento de água em Portugal no curto prazo passe também pela redução do consumo da mesma
 
A agricultura consome cerca de 80% da água em Portugal e a conservação neste setor é fulcral para dar resposta à crise. A irrigação é, certamente, necessária, e as alterações climáticas torná-la-ão ainda mais essencial, pelo que é crucial melhorar a eficiência. Esta é já uma tendência que se afasta dos tradicionais sistemas de irrigação por gravidade para uma irrigação gota a gota e por aspersão mais eficiente; os incentivos poderiam promover a mudança de forma mais rápida e ampla. Os agricultores precisam igualmente de ponderar quais as plantações que devem crescer junto de olivais, milheirais e vinhas, que atualmente consomem metade da água do setor. Também a redução do consumo de carne e uma alimentação mais consciente pode ter um impacto positivo a nível ambiental e, consequentemente, a nível de poupança de água. 

Ao mesmo tempo que o governo e a agricultura devem liderar o caminho, todos podemos contribuir utilizando menos água em casa. Em Portugal, são utilizados diariamente cerca de 132 litros de água por pessoa, para cozinhar, limpar, lavar, entre outros. Se toda a população reduzir o consumo de água em casa iria fazer esta uma enorme diferença e há grandes poupanças a fazer. Os avisos durante as secas anteriores alertavam para o facto dase torneiras utilizarem 12 litros de água por minuto, pelo que fechá-las enquanto escovamos os dentes, nos barbeamos e lavamos pode poupar uma enorme quantidade de água. Além disso, durante um duche de cinco minutos com torneira sempre aberta, gastam-se 60 litros de água. Se tomássemos duches mais rápidos e fechássemos a torneira enquanto nos ensaboamos, pouparíamos cerca de 36 litros. As águas residuais limpas captadas podem ser utilizadas para regar plantas, para fazer limpezas ou para encher os tanques de descarga das sanitas: uma descarca completa do autoclismo gasta até 15 litros.

Na cozinha, uma máquina de lavar a loiça filtra e recicla água de forma a utilizar entre 6,5 a 12 litros de água, em comparação com cerca de 103 litros gastos para lavar a mesma quantidade de loiça à mão. Além disto, poupam-se até 38 litros de água, em média, quando não é feita a pré-lavagem da loiça antes de a colocar na máquina de lavar loiça. Este é um hábito desnecessário, sendo que detergente da máquina de lavar loiça é também mais eficaz porque as enzimas foram criadas para se fixarem às partículas de alimentos presentes na loiça suja. Na lavagem da roupa, uma máquina moderna, com carga fontal e eficiente do ponto de vista do consumo de água, utiliza no mínimo, 34 litros de água por carga. Fazer a lavagem apenas quando a máquina está cheia resulta numa poupança de mais de 10 litros. Na zona exterior, a captação da água das chuvas para regar jardins ajuda também a reduzir a pressão sobre os abastecimentos municipais. 

Se não mudarmos os nossos comportamentos e reduzirmos o consumo de água, Portugal poderá sofrer um severo stress hídrico até 2040. Enquanto, para alguns, a escassez de água já existe, Portugal ainda tem uma oportunidade para prevenir os piores efeitos tomando medidas hoje para garantir um futuro melhor. Ao reduzirmos o desperdício de água e prometermos ter uma utilização mais sustentável a todos os níveis, podemos fazer uma grande diferença no futuro da segurança do abastecimento de água em Portugal — e mudanças de hábitos aparentemente insignificantes, mas cruciais, podem ser facilmente adotadas por todos nós, todos os dias.

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