Meio Ambiente

Como Uma Mortífera Ilha-Prisão Se Transformou Num Paraíso Natural

Durante quase 100 anos, Coiba foi habitada apenas por criminosos e presos políticos. Atualmente, é uma das regiões do Planeta com maior biodiversidade.

Por Sarah Gibbens
A armação do que parece ter sido um cais na ilha de Coiba, numa das poucas partes da ilha onde houve atividade humana. Outrora, foi utilizada como colónia penal, e os prisioneiros vagueavam pela ilha – agora é uma das mais bem preservadas florestas tropicais do mundo

Maravilhosa, mas extremamente perigosa – é assim que muitos panamenses olham para a ilha de Coiba, situada a cerca de 50 quilómetros da costa sul do país.

Situada numa das regiões do Planeta com maior biodiversidade, Coiba tem o estatuto de Património Mundial da UNESCO e é a maior das 38 ilhas do Parque Nacional de Coiba. Os mais de 48 hectares desta ilha transportam quem desembarca na sua costa numa viagem pelo tempo, até uma era em que a Terra ainda não tinha sido explorada. Além das 1450 espécies de plantas existentes na ilha, nas florestas de Coiba habitam centenas de espécies animais endémicas, e nas águas que rodeiam a ilha existem recifes de corais intocados.

No entanto, o impecável estado de conservação da beleza natural da ilha é acidental e pode ser atribuído ao passado obscuro da ilha.

A ilha de Coiba, que se estende ao longo de 23 quilómetros da costa do Pacífico, no Panamá, é a maior ilha da América Central (aproximadamente 500 quilómetros quadrados), e é uma das maiores ilhas inabitadas da América Latina. A ilha e a área da Baia Honda, em território continental vizinho, formam uma das mais selvagens e espetaculares paisagens da América Central, habitadas por uma carismática fauna marinha e terrestre.

FOTOGRAFIAS DA ILHA

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VIDA DEBAIXO DE ÁGUA

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FLORA ABUNDANTE

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ANIMAIS ÚNICOS

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Até 2004, a ilha era uma colónia penal, com cerca de 3000 prisioneiros. A reputação de ilha perigosa fez com que poucos se aventurassem até aos seus confins, o que, inadvertidamente, criou uma das mais bem preservadas florestas tropicais do continente americano.

UMA PRISÃO PERIGOSA

Fundada em 1919, a ilha era a punição para os criminosos mais perigosos do Panamá – ou para aqueles que aborreciam as pessoas erradas. Ao contrário de penitenciárias onde os prisioneiros estão confinados entre muros, na ilha de Coiba, a maior parte dos prisioneiros estava espalhada pela ilha em 30 campos improvisados, em abrigos criados a partir dos elementos naturais que tinham à volta.

Os guardas viviam nas pequenas fortalezas localizadas na região norte da ilha, protegidos dos outros habitantes. Os prisioneiros que tentavam escapar acabavam por ser dissuadidos pela presença de tubarões e crocodilos nas águas à volta da ilha.

Para alguns prisioneiros, Coiba era uma sentença de morte. Era preciso coragem para sobreviver. Se não fossem as condições naturais da ilha a provocar a morte, os outros prisioneiros podiam tratar disso.

Aqueles que eram enviados para Coiba enquanto os ditadores panamenses Omar Torrijos e Manuel Noriega estiveram no poder eram chamados “Los Desaparecidos”. No website do Parque Nacional de Coiba podemos ler que muitos prisioneiros foram enterrados em campas não identificadas ou foram desmembrados e atirados aos tubarões.

Demasiado perigosa para atrair a atenção de turistas ou de investidores, a fauna e flora de Coiba desenvolveu-se. Na ilha, havia focos de agricultura de subsistência e foi também trazido gado, para ser utilizado como alimento. No entanto, quando a prisão fechou, em 2004, 80% da floresta permanecia virgem.

Atualmente, uma equipa de investigadores está a trabalhar para conseguir, pela primeira vez, catalogar os seres vivos da ilha.

TERRITÓRIO VIRGEM

“Isolado”:  é assim que Christian Ziegler, fotógrafo da National Geographic, descreve o que sente quando está na ilha. Isolado e calmo.

“É como se fosse uma cápsula do tempo dos últimos 100 anos”, explicou ele.

Ziegler nunca viu a ilha quando era habitada por prisioneiros, mas sabe que os continentais ainda olham para Coiba como um local perigoso que se destina aos condenados. Ele espera conseguir mudar esta perceção através de fotografias magníficas e de pesquisa científica, e espera inspirar os locais a lutar pela preservação da ilha.

Foi há dez anos que Ziegler visitou a ilha pela primeira vez e ficou maravilhado com a sua prolífera biodiversidade.

Em 2015, iniciou o projeto BioBlitz, angariou fundos para trazer 30 investigadores internacionais, de diferentes áreas, para documentar a fantástica vida selvagem desta ilha. Ziegler continua a angariar fundos através de uma plataforma de crowdsourcing chamada experiment.

Mais de 100 000 imagens recolhidas, com recurso a 45 armadilhas com câmaras, ajudaram a catalogar a riqueza de espécies espalhadas por esta ilha. Os oficiais do governo panamense foram uma contribuição fundamental neste estudo.

Omar R. López, secretário do Ministério da Ciência e Tecnologia do Panamá, começou a estudar Coiba em 2008. Um dos seus principais objetivos era investigar as diferenças entre Coiba e o continente no que diz respeito à evolução. Os investigadores começaram por ficar surpreendidos com a ausência de espécies carnívoras em Coiba e que podem ser encontradas em abundância no Panamá.

“Coiba coloca questões interessantes a propósito do processo evolutivo”, disse Lopez.

A ilha faz parte da dorsal de Cocos e foi formada como parte das ilhas Galápagos antes de as placas tectónicas sobre as quais Coiba assenta se terem deslocado para norte.

Muitas das descobertas preliminares recolhidas nos dois primeiros anos ainda estão por analisar, mas o que a equipa encontrou até agora prova como um ecossistema pode prosperar quando deixado intocado. Muitas espécies são endémicas – existem apenas em Coiba – por causa da localização geográfica da ilha.

Por exemplo, Coiba tem uma população de morcegos impressionante. Foram documentadas, pelo menos, 30 espécies diferentes na ilha, e há ainda estudos por publicar que apontam para a existência de várias novas espécies.

De entre as 172 espécies de pássaros, supõe-se que dez subespécies existam apenas em Coiba.

Em conjunto com um impressionante número de abelhas-da-orquídea, também foram documentadas 70 espécies diferentes de formigas, com sete subespécies nativas de Coiba.

Os recifes de coral que existem à volta da ilha são os segundos maiores da costa pacífica americana. Foi documentada a existência na região de 20 espécies diferentes de mamíferos marinhos, incluindo baleias-de-bossa e orcas. No que respeita aos tubarões, que outrora funcionavam como uma barreira para manter os humanos na ilha, existem espécies diferentes em populações com numerosos indivíduos – existem 33 espécies documentadas, que incluem tubarões-martelo, tubarões-baleia e raias-viola.

Tal como existem espécies endémicas da ilha, existe também um grande número de espécies ameaçadas de extinção. O gavião-real falso (Morphnus guianensis) tem uma população estável em Coiba, mas, no entanto, já desapareceu praticamente da área continental do Panamá.  

PROTEGER COÍBA

“[Coiba] é a maior ilha inabitada da costa do Pacífico”, afirma Ziegler. “O mundo está tão cheio de pessoas; temos de lutar por este sítio.”

À medida que a ilha se torna mais popular e que o acesso é mais fácil, torna-se cada vez mais difícil para o exército panamense, já com falta de pessoal, o patrulhamento eficaz da ilha, e a caça furtiva representa uma ameaça cada vez maior para as espécies que só existem na ilha. A pesca ilegal junto aos delicados recifes de coral de Coiba também se está a tornar num problema.

As empresas também já demonstram interesse no desenvolvimento do setor do turismo na ilha. Contudo,  desde 2009, existe um plano elaborado pelo governo do Panamá para limitar o fluxo do turismo na ilha e distribuir fundos para continuar a preservação de Coiba. Está a ser construída uma estação de pesquisa que albergará quatro ou cinco cientistas e vários laboratórios.

Apesar de as autoridades governamentais terem estado estar bastante recetivas à implementação de medidas de proteção para a região, Ziegler e López temem que este apoio possa diminuir após as próximas eleições.

“Seria importante para o Panamá e também para a Humanidade proteger este meio ambiente”, afirma López.

Ele espera que o mundo olhe para Coiba como um paraíso, em vez de a lembrar como uma prisão.

 

Acompanhado de uma equipa internacional de peritos, Cristian Ziegler, biólogo e fotógrafo da National Geographic, ajudou a catalogar a diversidade da vida selvagem do ecossistema da ilha num estudo intitulado Bioblitz. Este esforço foi documentado por Ziegler e o seu colega fotógrafo subaquático Tim Laman, e com vídeos de Ken Pelletier e Peter Houlihan.

Este projeto contou com o apoio da iLCP (International League of Conservation Photographers), do STRI (Smithsonian Tropical Research Institute), do Ministério do Ambiente do Panamá e com doações individuais feitas por alguns apoiantes. Se quiser saber mais acerca do projeto Coiba, receber atualizações ou apoiar esta missão, visite https://experiment.com/projects/ptculkxjhhcbbhuwnxkm e siga Christian Ziegler no Instagram @christianziegler

Sarah Gibbens é uma produtora associada de conteúdos digitais da National Geographic