Meio Ambiente

Irão os Humanos Sobreviver à Sexta Grande Extinção?

Um novo estudo descobre que as espécies estão a desaparecer a um ritmo alarmante. O autor Elizabeth Kolbert diz que tal levantará questões acerca da nossa sobrevivência.

Por Nadia Drake

23 Junho 2015

 

Nos últimos quinhentos milhões de anos, a vida na Terra foi quase dizimada cinco vezes - por coisas tais como as alterações climáticas, uma idade do gelo intensa, vulcões, e essa rocha espacial que colidiu com o Golfo do México há 65 milhões de anos atrás, obliterando os dinossauros e um bando de outras espécies. Esses eventos são conhecidos como as cinco grandes extinções em massa, e todos os sinais indicam que estamos agora à beira da sexta.

Só que desta vez não temos ninguém para culpar, além de nós mesmos. De acordo com um estudo publicado na semana passada na Science Advances, a taxa de extinção atual poderia ser 100 vezes maior do que o normal - e isso é só considerando os tipos de animais dos quais mais sabemos. Os oceanos e florestas da Terra hospedam um número incontável de espécies, muitas das quais provavelmente irão desaparecer antes mesmo as conhecermos. 

O livro da jornalista Elizabeth Kolbert, intitulado "The Sixth Extinction" ganhou o Prémio Pulitzer geral de não-ficção deste ano. Nós conversámos com ela sobre o que estes novos resultados podem revelar para o futuro da vida neste planeta. Haverá alguma possibilidade de podemos colocar travões nesta massiva perda de vidas? Estarão os seres humanos destinados a tornar-se vítimas da sua própria negligência ambiental?

O novo estudo que tem gerado tanta conversa estima que até três quartos das espécies animais poderão ser extintas dentro das várias vidas humanas, o que soa incrivelmente alarmante.

Sim. Esse estudo está a considerar grupos de animais muito bem estudados. Eles limitaram-se a vertebrados - como mamíferos, aves, répteis e anfíbios - e disseram, ok, vamos olhar para o que está a acontecer realmente. E eles documentam muito convincentemente que as taxas de extinção já eram extremamente elevadas em 1500, e estão a piorar.

São figuras de elevado valor e as pessoas vão-se habituando a isso. As crianças que nasceram há 10, 20 anos atrás - cresceram toda a vida com estes números. E elas não acham que isso seja fantasticamente invulgar. 

As pessoas têm vindo a debater se estaremos realmente a caminho de uma sexta extinção em massa. Qual é a sua opinião?

Honestamente, esse é um dos debates em que acredito que nos estamos a focar no alvo errado. Quando tivermos respostas concretas para essa questão, é provável que três-quartos de todas as espécies na Terra tenham sido extintas. Na realidade, nós não queremos chegar ao ponto onde poderemos responder concretamente a essa questão.

O que é certo e que vai além dessa disputa é que estamos a viver numa época em que os índices de extinção são mesmo muito elevados, na medida em que veremos uma extinção em massa, através de uma extinção em massa que poderá levar muitos milhares de anos a acontecer.

Existem habitats ou espécies —ou grupos de animais que pense serem especialmente vulneráveis às mudanças que estão a acontecer?

As populações das ilhas são muito vulneráveis à extinção por algumas razões. Elas tendem a ser isoladas. Uma das coisas que estamos a fazer é remover as barreiras que costumavam manter as espécies nas ilhas isoladas. A Nova Zelândia não tinha mamíferos terrestres. Espécies que evoluíram na ausência de tais predadores eram incrivelmente vulneráveis. Um número impressionante de espécies de aves já foram perdidas na Nova Zelândia, e muitas das que lá permanecem estão a passar profundas dificuldades.

Então, locais que foram isolados durante um longo período de tempo são muito vulneráveis. Espécies que têm uma gama muito restrita, que só existem num lugar do mundo, essas tendem a ser extremamente vulneráveis. Elas não têm para onde ir e se o seu habitat for destruído, digamos que, desaparecem de seguida.

A componente humana da história - o facto de que parecemos ser responsáveis pela sexta extinção - quais são alguns dos melhores indícios para o nosso envolvimento?

Eu não creio que haja qualquer letígio de que somos responsáveis pelas taxas de extinção elevadas que vemos agora. Há muito poucas extinções, se houver algumas, que conhecemos nos últimos 100 anos, que teriam ocorrido sem atividade humana. Eu nunca ouvi ninguém argumentar, "oh as taxas de extinção, isso é apenas uma coisa natural que teria acontecido com ou sem os seres humanos." É praticamente impossível discutir isso.

Se estamos a puxar o gatilho, com que é que carregámos a arma?

Existem milhares e milhares artigos científicos escritos sobre este tema. Nós carregámo-la simplesmente com caça. Trouxemos espécies invasoras. Agora estamos a mudar o clima, muito, muito rapidamente, pelos padrões geológicos. Estamos a mudar a química de todos os oceanos. Estamos a mudar a superfície do planeta. Nós derrubamos florestas, plantamos monocultura agrícola, que não é benéfica para muitas espécies. Estamos a pescar excessivamente. A lista continua e continua.

Não há carência de balas. Temos um arsenal muito grande por agora. (Leia sobre quais os animais que é provável que sejam extintos devido à mudança climatérica.

Será, ainda assim, possível que abrandemos a perda de vida?

Todas as possibilidades de que estamos a mudar o planeta que discutimos – em cada caso, poderia apontar relatórios de uma biblioteca de valor sugerindo como poderíamos fazer melhor as coisas. Basta considerar as zonas mortas no oceano como um pequenino exemplo. Poderíamos mudar regimes de fertilizantes de todas as maneiras possíveis. Nós despejamos nitrogénio em campos do meio-oeste e os fertilizantes correm pelo Mississipi e pelo Golfo do México, causando a morte dessas zonas.

O tipo de questão fundamental é, poderão 7.3 – em direção aos 8 e, posteriormente, 9 mil milhões de pessoas – viver neste planeta com todas as espécies que ainda há à volta? Ou estaremos num percurso de colisão, em parte porque consumimos muitos recursos que outras criaturas também gostariam de consumir? Essa é uma questão para a qual não tenho resposta.

As outras cinco extinções em massa – quanto tempo levou ao planeta para recuperar delas?

Para chegar ao nível de biodiversidade anterior, parece que levaram muitos milhões de anos.

Então é possível que, a partir de agora, os humanos nunca possam viver num mundo que não esteja em algum estado de recuperação de um grande evento de extinção, se não estiver no meio de um.

Sim. Se dermos às espécies vertebradas (e nós somos outra espécie de vertebrados) uma média de vida de um milhão de anos, e considerarmos que os humanos estão 200,000 anos dentro do seu milhão de anos, e causarmos uma extinção em massa — mesmo pondo de parte a questão de quando serão os humanos vítimas da sua própria extinção em massa – não poderemos esperar que existam as mesmas espécies quando o planeta tiver recuperado.

Essa questão que acabou de mencionar é muito interessante – irão os humanos ser vítimas da sua própria extinção em massa?

Eu não quero afirmar que não conseguiremos sobreviver à perda de muitas, muitas espécies. Nós já provámos que conseguimos. Somos bastante adaptáveis. Mas eu penso que a conclusão é que, não quereremos descobrir.

Aqui surgem duas questões: Uma vez, OK, só porque sobrevivemos a perda de X número de espécies, conseguiremos seguir a mesma trajetória ou iremos, eventualmente, colocar em perigo os sistemas que mantêm as pessoas vivas? Essa é uma grande questão e uma questão incrivelmente séria.

E depois há uma outra questão. Mesmo que possamos sobreviver, é esse o mundo no qual quereremos viver? É esse o mundo onde queremos que vivam as gerações futuras humanas? Essa questão já é diferente. Mas ambas são extremamente sérias. E arriscaria dizer que elas não podiam ser mais sérias.

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