O fenómeno El Niño, explicado

Os eventos climáticos do El Niño causam muita chuva nas costas ocidentais do continente americano, muitas vezes em excesso.

Por National Geographic
Neil deGrasse Tyson

Os eventos el Niño geram padrões climáticos complexos a cada dois ou sete anos, que causam mudanças drásticas e por vezes perigosas no tempo. Descubra o que causa os eventos do El Niño, como podem afetá-lo, e por que são tão difíceis de prever.

O ano de 2016 foi de El Niño. Os cientistas sabem que os anos de El Niño tendem a ser mais quentes do que normal, e que os eventos associados podem produzir padrões climáticos incomuns e dramáticos por todo o mundo. À medida que o ano avançava, os alarmes começaram a soar entre os investigadores de corais do Pacífico. Os registos de temperatura dos oceanos em redor da Grande Barreira de Coral da Austrália e de várias ilhas, do Fiji ao Havai, foram mais altos, atingindo recordes em muitos casos.

Os corais, que têm dificuldade em lidar com calor ou frio extremos, morrem lentamente nas águas mornas. Colocados em tensão devido ao calor, começaram a adoecer e a descolorar, chegando mesmo a morrer. No final da estação, perante os olhos angustiados dos cientistas, vastas faixas dos recifes do Pacífico estavam severamente branqueadas.

Os oceanos têm vindo a aquecer rapidamente e de forma constante devido às alterações climáticas. No entanto, em 2016, esse aquecimento foi reforçado por um El Niño particularmente forte, que ajudou a empurrar o planeta para um período muito quente que durou 12 meses, algo nunca antes registado.

Os efeitos dos eventos provocados pelo El Niño estendem-se por todo o planeta, mudando os padrões climáticos de Dacar a Déli, Boston, etc. Estes poderosos eventos acontecem naturalmente, mas as alterações climáticas podem, no futuro, aumentar em força e intensidade.

O que é o El Niño?

Os eventos El Niño são a metade quente e húmida de um ciclo climático natural chamado "El Niño - Oscilação Sul", ou ENOS.

Durante um evento El Niño, a superfície do oceano Pacífico tropical fica mais quente do que o habitual, particularmente no equador e ao longo das costas da América do Sul e Central. Os oceanos quentes ocasionam sistemas de baixa pressão na atmosfera, o que, por sua vez, provoca muita pluviosidade nas costas ocidentais do continente americano.

Durante alguns dos El Niños mais conhecidos, as chuvas fortes levaram aldeias inteiras a deslizar pelas montanhas abaixo. No El Niño de 1972 a 1973, as temperaturas dos oceanos dispararam ao largo da costa peruana, quase aniquilando a indústria pesqueira de anchovas, crucial para o país. Durante o El Niño de 1997 a 1998, o país teve danos no valor de 3.5 mil milhões de dólares em edifícios, terras agrícolas e outras infraestruturas. Em 2016, os corais perderam a cor em todo o Pacífico, ocorreram inundações que devastaram a América do Sul e a Austrália foi assolada por incêndios potenciados pela seca.

Os eventos podem durar até um ano, embora o aquecimento tenha tendência a ser mais forte durante os meses de outono e inverno do Hemisfério Norte (outubro a fevereiro). Na verdade, é essa a origem do nome: "El Nino" significa, "o menino" em espanhol e também se refere ao menino Jesus. Os pescadores da América do Sul, que conhecem e descrevem o fenómeno há muito tempo, deram-lhe o nome de "El Niño" porque alguns dos seus maiores impactos ocorrem na altura do Natal.

E a La Niña?

A outra metade do fenómeno ENOS é geralmente chamada de "La Niña". É basicamente o oposto de um El Niño: As temperaturas dos oceanos ao longo da metade oriental do Pacífico tropical arrefecem e essa parte do mundo fica mais seca. A faixa de calor e chuva oscila para o outro lado do oceano, o que significa que a Austrália, a Indonésia e o sudeste da Ásia ficam mais húmidos e quentes do que o normal.

Os eventos de La Niña tendem a instalar-se por mais tempo do que os do El Niño, persistindo por cerca de nove meses a dois anos.

Ambos os fenómenos ocorrem em intervalos de dois a sete anos. No período intermédio, as temperaturas dos oceanos e os padrões de precipitação têm valores mais dentro da média. Os padrões não são completamente claros; um El Niño forte não significa necessariamente que a seguinte La Niña seja particularmente intensa, e vice-versa.

Estes eventos afetam o clima muito além da bacia do Pacífico. Durante os anos do El Niño, por exemplo, há menos furacões no Atlântico do que é habitual, e os que existem serão provavelmente bastante fracos. Os padrões de precipitação também mudam em todo o mundo: A Califórnia e o Corno de África ficam mais húmidos, por exemplo, enquanto as chuvas que geralmente caem sobre a Índia durante as monções ficam mais débeis e o subcontinente indiano seca ligeiramente.

Porque acontecem El Niños

No início de um El Niño, os ventos alísios que geralmente correm rapidamente pela superfície do Pacífico tropical ficam mais fracos. Normalmente, estes ventos empurram águas quentes do oceano para o leste em direção à Ásia e à Austrália, onde são essencialmente encurraladas numa piscina quente gigante a sul da Austrália, no arquipélago indonésio perto do equador e no sudeste da Ásia.

Num ano normal, à medida que os ventos alísios arrastam as águas superficiais aquecidas para leste, longe da América do Sul e Central, a água é extraída das profundezas, trazendo à tona os mares frios e ricos em nutrientes. Os ventos alísios também costumam induzir a ascensão das águas profundas e frias perto do equador.

Num ano normal, o tempo é fresco e pouco chuvoso ao longo da costa oeste do continente americano, sendo quente e húmido na parte ocidental do Pacífico.

Mas quando os ventos alísios esmorecem, duas coisas acontecem: O alçamento da água fria para a superfície provocado pelo vento diminui, enquanto a água quente acumulada na parte ocidental da bacia do Pacífico começa a voltar para leste. A medida que o calor se espalha para leste, os ventos alísios, que são parcialmente controlados pelas diferenças de temperatura e pressão do ar entre os dois lados do Pacífico, ficam ainda mais débeis. Portanto, o golpe é duplo: as águas frias que geralmente ajudam a arrefecer a costa sul-americana ficam presas muito abaixo da superfície, enquanto os ventos que ajudariam a arrefecer o clima estagnam.

Os cientistas continuam a não saber exatamente o que desencadeia o ciclo. Mas é possível detetar os sinais do El Niño com antecedência e saber como se irão desenrolar os eventos à medida que se desencadeiam. Quando os primeiros sinais aparecem, os cientistas podem começar a alertar a população da eventualidade de ocorrer um El Niño no prazo de seis a nove meses.

Os El Niños estão a ficar mais fortes?

Alguns modelos climáticos prevêem que o ciclo ENSO irá ficar mais intenso à medida que o planeta aquece, levando a um aquecimento ainda maior e à ocorrência de El Niños mais húmidos e El Niñas mais secas, o que resultará em impactos mais devastadores em todo o mundo. Outros modelos revelam uma menor intensificação, ou mesmo nula. Os cientistas estão numa verdadeira corrida para compreender melhor este fenómeno.

Também ainda não se sabe ao certo se o ciclo se intensificou desde que os humanos começaram a aquecer o planeta, através do bombeamento de gases com efeito de estufa para a atmosfera.

O que os cientistas podem dizer é que o ENOS existe há milhares de anos e é provável que continue a existir num futuro longínquo. Quer o ciclo mude quer não, é provável que sintamos efeitos mais fortes no futuro.
 

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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