Meio Ambiente

O Local Mais Profundo da Terra Contém Níveis ‘Surpreendentes’ de Poluição

Um dos locais mais remotos na Terra não é imune à poluição que possivelmente tem origem nas zonas industrializadas mais próximas.

Por Heather Brady

Trata-se de uma descoberta surpreendente: os cientistas afirmam que a quantidade de poluentes na Fossa das Marianas, no oceano Pacífico, — um dos locais mais remotos da Terra — é tão elevada que ultrapassa as quantidades encontradas num rio altamente contaminado na China.

Os crustáceos que habitam a fossa, que se estende ao longo de 11 mil metros abaixo do nível do mar, foram capturados por um submarino robotizado. Num artigo publicado na revista Nature, Ecology & Evolution, os cientistas comunicaram que a quantidade de poluentes descoberta nesses crustáceos é 50 vezes superior à quantidade existente nos caranguejos dos campos de arroz alimentados pelo rio Liaohe, um dos rios mais poluídos na China.

Os químicos descobertos pelos cientistas incluem dois poluentes orgânicos persistentes (POP) produzidos entre 1930 e 1970. O estudo informa que cerca de 1,3 milhões de toneladas destes químicos foram produzidas globalmente naquele intervalo de tempo, e alguns deles foram libertados no ambiente devido a acidentes e descargas industriais, fugas em aterros sanitários ou incinerações incompletas. Uma vez que os POP não se decompõem com facilidade, permanecem no ambiente em que foram libertados durante muito tempo.

“Continuamos a pensar que as profundezas do oceano são áreas intocadas e remotas, protegidas do impacto do Homem, mas a nossa investigação demonstra que, infelizmente, isto não poderia estar mais longe da verdade”, contou ao TheGuardian Alan Jamieson, da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, responsável pela investigação. “O facto de termos encontrado níveis de poluição enormes não deixa margens para dúvidas sobre o impacto devastador a longo prazo que a humanidade está a causar ao planeta.”

Os POP que se acumularam na fossa provinham, provavelmente, das regiões industrializadas no Noroeste Pacífico. Estes poluentes foram submergindo na coluna de água (por terem ficado presos por baixo de substâncias como plásticos em decomposição e destroços provenientes do Grande Depósito de Lixo do Pacífico, que se encontra perto) e foram recolhidos na fossa, onde permaneceram, porque a corrente de água não é suficiente para afastar dali os químicos.

É possível que os POP se tenham acumulado rapidamente na fossa. A radiação submersa que resultou do desastre nuclear de Fukushima Daiichi de 2011 permitiu que os cientistas descobrissem o pouco tempo que o material existente à superfície demora a submergir: apenas entre três e seis meses.

A fossa e as áreas limítrofes são o habitat de várias espécies, incluindo peixes-caracol, medusas brilhantes e amebas gigantes, que podem ter sido expostas a estes químicos, apesar da localização remota da fossa.

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