Meio Ambiente

As Ruínas Radioativas de Chernobyl Recebem Novo Túmulo

Cinco anos depois de um desastre natural e um colapso nuclear, uma paisagem outrora fértil está abandonada. História e Fotografias por James Whitlow Delano

Por John Wendle

25 abril 2016

PRIPYAT, UCRÂNIA

Quando Ilya Suslov ouviu falar do desastre nuclear de Chernobyl a 26 de abril de 1986, estava a trabalhar como capataz numa cidade secreta na República Socialista Soviética de Uzbek. Voluntariou-se imediatamente para ser um “liquidatário”, um das centenas de milhares de soldados soviéticos e civis, a maioria deles convocados, que limparam o local.

O trabalho de Suslov era ajudar a construir o enorme “sarcófago”, um túmulo de betão e aço construído em oito meses para conter os restos abrasadores da Unidade 4 da central elétrica nuclear. Depois de 30 anos, esse sarcófago está prestes a ser substituído por outro, desenhado para durar centenas de anos. Em 1986, enquanto Suslov entrava no maior desastre nuclear do mundo, apenas lhe disseram “Prepara-te”. No local, deram-lhe roupas de trabalho leves, um gorro e uma máscara de cirurgia, sem qualquer proteção contra a radiação. Pondo a cabeça na esquina do bunker de onde iriam coordenar os trabalhadores que punham betão e aço soldado para “abrigar o objeto”, como lhe chamavam, o chefe dele arrastou-o, gritando “O que estás a fazer? Queres ser exposto à radiação?”

Hoje em dia, quase não aguenta como eletricista em part-time. A pensão dele não é superior à de qualquer outro reformado soviético, apesar de enfrentar grandes riscos de saúde. Como muitos na Ucrânia sem meios financeiros, o seu frigorífico está vazio no fim de cada vez. Mesmo assim, está orgulhoso daquilo que eles fizeram. “Se não tivéssemos construído aquele sarcófago, a contaminação por radiação teria continuado até ao dia de hoje. O sarcófago era como um frasco de conservação, uma lata, que mantinha tudo fechado, mas era apenas uma simples lata”, diz ele.

Ele sabe que o tempo do sarcófago se está a esgotar. Há alguns anos foi reforçado depois de quase colapsar, uma segunda catástrofe que teria disparado poeiras e destroços radioativos na atmosfera. “O meu sarcófago aguentou durante 30 anos, graças a Deus”, diz. “Mas agora é tempo de pensar no futuro”.

De factor, se tudo correr como planeado, até ao fim do próximo ano, um gigantesco arco de aço inoxidavel chamado Novo Confinamento de Segurança será colocado sobre o reator. Construído por um consórcio de doadores, selará 5.500 toneladas de poeira radioativa, chumbo, ácido bórico e 220 toneladas de urânio e outros isótopos instáveis, para além de dezenas de milhares de toneladas de betão e aço radioativos.

O Maior Objeto em Movimento

O arco é uma realização incomparável de engenharia. “Para um engenheiro, é Meca. Quer dizer, espero que não tenhamos que reconstruir um arco destes noutro lugar – é por causa da catástrofe que aqui estamos – mas para um engenheiro é perfeito”, diz Nicolla Caille, diretor de projeto desse esforço internacional liderado pela Novarka. “Faremos coisas aqui que não foram feitas em mais lado nenhum”.Com a forma de um hangar sobre-dimensionado, a estrutura é fabricada por quilómetros de tubos de aço unidos por cerca de 600,000 parafusos feitos à medida, com um custo à volta de 17 dólares a peça. Com um custo total de 2.1 biliões de euros, a enorme curva está a uma altura de 100 metros, com 164 metros de comprimento, 250 metros de largura e, ao ser puxado e empurrado sobre uma pista revestida de teflon e aço inoxidável no próximo ano, tornar-se-á no maior objeto do mundo feito pelo homem a mover-se sobre a terra.

O arco está revestido numa sanduiche reluzente de aço inoxidável, visiveis dos telhados da cidade abandonada de Pripyat, a cerca de 3 quilómetros de distância por entre uma floresta a ser repovoada com lobos, linces, veados, alces e castores.

O espaço entre a casca interna e a casca externa circulará ar seco, garantindo que não enferruja, sendo um espaço despressurizado para minimizar o risco de poeira radioativa escapar. Desenhado para resistir a calor intenso de um incêndio e o frio profundo de um inverno ucraniano, ao mesmo tempo que mantém a sua flexibilidade, o edifício será também capaz de aguentar um terramoto ou um tornado com ventos até 418 quilómetros por hora.

Para se fazer isto tudo, a engenharia é criativa. Grande demais para rolar, o Novo Confinamento de Segurança deslizará ao ritmo de um caracol em novembro, acabando por encaixar à volta dos restos da Unidade 4 como um bloco gigantesco de Tetris. Além disso, a membrana que selará o sarcófago na antiga estrutura soviética, é feita do mesmo material usado para manter a água do mar fora quando um submarino abre a escotilha para lançar um míssil balístico.

Uma vez selado, duas gruas gigantes pesando tanto como um Boeing 737, carregarão braços manipuláveis controlados à distância, uma broca de perfuração e um aspirador de pó com dez toneladas para desmontar e limpar o reator. Menos de cinco porcento da radioatividade contida na Unidade 4 foi libertada para o ambiente durante o acidente, pelo que a maioria dos restos continuam no local e demorarão décadas a ser eliminados. O Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, o principal financiador do arco, não disponibilizou planos para a desconstrução. A Ucrânia concordou em financiar o processo, apesar do país estar endividado, por isso é pouco claro como irá pagar pelo projeto a menos que tenha um subsídio de doadores estrangeiros.

“O primeiro objetivo é controlar a contaminação”, diz Caille. “O segundo objetivo é fornecer as ferramentas para desconstruir o reator explodido”. No entanto, o objetivo global é “conter tudo”, afirma Caille, “ter a certeza que, mesmo que haja um terramoto ou se o sarcófago existente colapsar, não temos uma contaminação na Europa”.

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