Meio Ambiente

Straw Wars — A Guerra das Palhinhas: A Luta por Oceanos Livres de Resíduos Plásticos

Os americanos usam diariamente cerca de 500 milhões de palhinhas. Cidadãos ativistas querem diminuir este número.

Por Laura Parker

Todos os anos, oito milhões de toneladas de lixo plástico vão parar aos oceanos, mas as palhinhas não são, seguramente, o que mais contribui para este número.

Ainda assim, este tubo pequeno e fino, absolutamente desnecessário ao consumo da maior parte das bebidas, está no centro de uma campanha ambientalista que pretende levar as pessoas a deixarem de usar palhinhas e, assim, ajudarem a salvar os oceanos.

Pequenas e leves, as palhinhas quase nunca são colocadas nos contentores de reciclagem; a prova disso é visível em qualquer praia. E, apesar de as palhinhas representarem apenas uma pequena parte de todo o plástico que é despejado no oceano, o seu tamanho faz delas um dos mais insidiosos poluentes, porque ficam presas nos animais marinhos e são ingeridas pelos peixes. Em 2005, tornou-se, aliás, viral o vídeo que mostrava cientistas a removerem uma palhinha que estava enfiada no nariz de uma tartaruga.

“Se puderem escolher e optar por não usarem palhinhas de plástico, estarão a ajudar a manter as nossas praias limpas e despertar as consciências para o problema da poluição dos oceanos por causa do plástico”, afirmou Jenna Jambeck, professora de engenharia na Universidade da Georgia. O estudo inovador de 2015 da autora foi o primeiro a medir a quantidade de fragmentos de plástico despejados nos oceanos todos os anos. “E se conseguem fazer essa escolha, talvez consigam fazer outras.”

As palhinhas são o mais recente item de uma lista, que não para de crescer, de produtos de plástico a serem banidos, tributados ou boicotados, numa tentativa de reduzir a quantidade de resíduos de plástico que poluem os oceanos, antes de que seja maior do que a quantidade de peixes, o que, de acordo com a previsão de um estudo, pode vir a verificar-se até 2050.

No outono passado, a Califórnia tornou-se no primeiro estado dos Estados Unidos da América a banir os sacos de plástico, juntando-se, assim, a outros países como o Quénia, a China, o Bangladesh, o Ruanda e a Macedónia. Em França, serão banidos não só os sacos de plástico, como também pratos, copos e utensílios deste material, a partir de 2020. Em São Francisco, foi banido o poliestireno, incluindo copos, embalagens para comida, pacotes de amendoins e brinquedos de praia em esferovite. E, em Rhode Island, o lançamento de balões em contexto de festividades está a ser alvo de ações de ativistas, depois de, nos últimos quatro anos, terem sido apanhados quase 2200 na costa da ilha Aquidneck.

A indústria dos plásticos opõe-se a todas as proibições que vão sendo estipuladas. Os fabricantes de sacos pressionaram os legisladores dos estados da Florida, de Missouri, de Idaho, do Arizona, de Wisconsin e do Indiana para que levantassem a proibição dos sacos de plástico.

Keith Christman, o diretor-geral do Conselho Americano de Química na área dos mercados do plástico, diz que também o setor se oporá a quaisquer iniciativas para proibir as palhinhas de plástico.

A proibição de produtos específicos acarreta, muitas vezes, “consequências indesejadas”, argumenta Christman. Os produtos que surgem para substituir os itens proibidos podem ser ainda mais prejudiciais para o meio ambiente, diz. Em alguns casos, os produtos apresentados como biodegradáveis não o são. E mais grave: o comportamento do consumidor, por vezes, chega mesmo a alterar-se. De acordo com Christman, quando São Francisco baniu os produtos de esferovite, foi feita uma auditoria ao lixo que veio mostrar que, apesar de a quantidade de copos de esferovite descartados ter diminuído, a de copos de papel aumentou. 

 “O que realmente precisamos é de um bom sistema de gestão de resíduos nos países que contribuem em larga escala para este problema,” diz. “Os países asiáticos em rápido desenvolvimento não têm esta capacidade.”

 O que diferencia esta campanha antipalhinhas de outras iniciativas do mesmo tipo – e a razão pela qual é possível que tenha sucesso – é que os ativistas não querem alterar as leis ou regulamentações. Estão apenas a pedir aos consumidores que alterem os seus hábitos e que digam “não” às palhinhas.

Navegar contra a maré?

Outrora encontradas sobretudo em fontes de refrigerantes dos anos 30, as palhinhas tornaram-se num dos produtos mais omnipresentes e desnecessários do planeta. Não há dados relativos à quantidade de palhinhas utilizadas globalmente, mas só os americanos usam 500 milhões de palhinhas diariamente, de acordo com o Serviço Nacional de Parques dos EUA. Com exceção de pessoas com necessidades médicas, as palhinhas não são necessárias para o consumo de bebidas ou de água.

“Há dez anos, não se via este uso desmedido de palhinhas. Nos bares, talvez; pedíamos uma bebida e vinha com palhinha. Hoje em dia, pedimos um simples copo de água com gelo, e vem servido com uma palhinha”, quem o diz é Douglas Woodring, fundador da Ocean Recovery Alliance, um grupo sediado em Hong Kong que trabalha no sentido de diminuir a quantidade de lixo no mar. “Em parte, penso que se deve ao medo que as pessoas têm de germes.”

Woodring reparou no aumento do uso de palhinhas depois do surto de SARS (síndrome respiratória aguda grave) que começou em 2003 na China e se espalhou por mais de duas dúzias de países na América e Europa. Infetou 8098 pessoas e matou 774.

 “De repente, as palhinhas propagaram-se”, diz. “Depois, os consumidores tomaram por garantido que tinham de ter a sua palhinha, apesar de a maioria nem precisar delas.”

À medida que as palhinhas proliferavam, também as campanhas antipalhinhas aumentavam. Alguns grupos têm nomes sonantes, como Straw Wars (A Guerra das Palhinhas) — do bairro de Soho, em Londres — ou Straws Suck (Palhinhas não prestam), usado pela Surfrider Foundation, espalhada pelo mundo inteiro. Há também o caso de campanhas organizadas por ambientalistas de palmo e meio, como a OneLessStraw (UmaPalhinhaaMenos), fundada por uma equipa de dois irmãos, Olivia Ries e Cárter Ries, quando tinham 7 e 8 anos.

Se, por um lado, o medo dos germes fez disparar o uso de palhinhas em todo o mundo, para os milhares de milhões, por outro lado, o vídeo de oito minutos que mostra a remoção de uma palhinha com dez centímetros de uma das narinas de uma tartaruga da Costa Rica pode ter invertido essa tendência. É angustiante ver o vídeo, e, ainda assim, teve mais de 11 milhões de visualizações no Youtube.

Linda Booker, uma cineasta da Carolina do Norte, cujo documentário, Straws (Palhinhas), está incluído nos festivais de cinema dos Estados Unidos, diz que, em parte, foi o vídeo da tartaruga que a inspirou a construir o seu projeto com o tema das palhinhas. Booker entrevistou os cientistas e incluiu-os no seu filme.

“Acredito que o vídeo da palhinha no nariz da tartaruga foi o catalisador para muitas destas campanhas antipalhinhas”, afirma.

O mais recente candidato a entrar nas campanhas antipalhinhas foi a Fundação Lonely Wale, uma organização sem fins lucrativos cofundada pelo ator Adrien Grenier, que fez uso do seu poder de celebridade para dar força à causa. Começou o seu caminho numa conferência sobre os plásticos nos oceanos  em Charleston, na Carolina do Sul, esta primavera, com a história já muitas vezes contada do empregado de mesa que lhe traz um copo de água com palhinha.

“É uma porta de entrada, uma forma de começar”, diz Grenier. “Muitas vezes, as pessoas ficam assoberbadas com a magnitude do problema e desistem. Precisamos de ações acessíveis ao comum dos mortais. O desafio é: se não é preciso usar palhinha, então deixamos de usar. Começamos por aqui e seguimos nessa direção.”

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