Meio Ambiente

Estes Corais Preferem o Plástico à Comida

As pequenas partículas de plástico também podem ser um veículo para micróbios que infetam ou matam corais, de acordo com um novo estudo.sexta-feira, 12 de julho de 2019

Por Jenny Howard
Os pólipos de coral ‘Astrangia poculata’ preferem os grânulos de microplástico (em azul) aos ovos de camarão (amarelo); estes grânulos são potenciais vetores para novos micróbios.

Cientistas mostraram pela primeira vez que alguns corais selvagens estão a alimentar-se de pequenos pedaços de lixo plástico. Mas pior do que isso, estes seres parecem preferir os microplásticos aos seus alimentos naturais – mesmo quando o plástico tem bactérias que os podem matar.

O novo estudo, publicado na Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, focou as suas atenções numa espécie de coral recolhida em Rhode Island, uma espécie que constrói aglomerados pouco maiores que um punho humano. Mas os investigadores dizem que as descobertas sugerem que os corais tropicais mais conhecidos, que constroem recifes, também podem estar a consumir – e a ser prejudicados por – microplásticos, que são definidos como pedaços de lixo plástico com menos de um centímetro de diâmetro.

Os novos resultados aumentam a sensação crescente de que os microplásticos são omnipresentes no ambiente, desde os picos mais altos das montanhas às fossas mais profundas do oceano. É sabido que muitos organismos, desde peixes a pássaros, comem pequenos pedaços de plástico. Com os humanos acontece o mesmo, através de fontes de água e alimentos contaminados.

Quando Randi Rotjan, bióloga de corais na Universidade de Boston e líder deste novo estudo, começou a trabalhar em ecossistemas marinhos, não esperava vir a concentrar o seu trabalho em plásticos. Rotjan estava animada por estudar corais e, segundo ela, conversar com a natureza.

"Os plásticos continuam a interromper a conversa e são difíceis de ignorar", disse Rotjan. "Nós escolhemos o nosso ecossistema, escolhemos o nosso organismo e provavelmente vamos encontrar microplásticos".

Pior que fast food
Rotjan e os seus colegas recolheram quatro colónias selvagens de Astrangia poculata, um pequeno coral que vive ao largo da costa atlântica dos Estados Unidos, desde o Massachusetts ao Golfo do México. A equipa escolheu o seu local de estudo na costa de Rhode Island, perto de um ambiente urbano – a cidade de Providence fica a 38 km de distância – onde a poluição por plástico é potencialmente maior.

De regresso ao laboratório, os investigadores abriram os pólipos de coral e contaram o número de microplásticos que continham. Encontraram mais de 100 fibras em cada pólipo. Embora este seja o primeiro registo de microplásticos em corais selvagens, investigações anteriores, feitas em laboratório, já tinham demonstrado que esta espécie de coral consumia plástico.

A equipa também fez experiências em laboratório. Expuseram pólipos de coral criados em laboratório a microesferas azuis fluorescentes – pedaços de plástico que até recentemente eram usados em sabonetes, produtos de cosmética e medicamentos – e a alimentos naturais, ovos de camarão, que têm o tamanho de uma cabeça de alfinete.

Todos os pólipos preferiram comer quase o dobro de microesferas, relativamente aos ovos de camarão. Depois dos pólipos encherem os seus estômagos com as microesferas, que não têm valor nutritivo, pararam completamente de comer os ovos de camarão.

"Fiquei em choque com os resultados", disse a coautora do estudo, Jessica Carilli, cientista no Naval Information Warfare Center Pacific, em San Diego, na Califórnia. "Os corais não estão apenas a comer passivamente quaisquer partículas que flutuam ao alcance dos seus tentáculos... infelizmente, preferem o plástico à comida natural".

O governo norte-americano proibiu o uso de microesferas em 2015, mas a interdição só entrou em vigor há pouco mais de um ano. Tal como acontece com outros plásticos, as microesferas também subsistem no ambiente e representam uma ameaça aos corais que pode durar séculos.

Vetores de doença
Noutra experiência adicional de alimentação, os investigadores colocaram as microesferas na água do mar para ficarem cobertas com um biofilme – uma camada fina de bactérias. Koty Sharp, coautor do estudo e microbiólogo de corais na Universidade Roger Williams, em Rhode Island, diz que, no oceano, a maioria dos microplásticos está provavelmente coberta de bactérias. Os investigadores envolveram o biofilme das microesferas com bactérias intestinais comuns – E. coli –tingidas de verde fluorescente para facilitar o seu rastreamento.

Mais de 48 horas depois de engolirem as microesferas, os pólipos expeliram-nas. Mas mesmo assim, a E. coli brilhante persistiu dentro das suas cavidades digestivas. Todos os pólipos de coral que comeram as microesferas de E. coli morreram num espaço de duas semanas.

“Esta é a parte mais interessante do estudo. Ninguém examinou anteriormente esse vetor de patogenia”, disse Joleah Lamb, ecologista na Universidade da Califórnia, em Irvine, que não participou no estudo. Lamb analisou centenas de recifes de coral, documentando doenças e a poluição provocada por itens maiores de lixo plástico. A sua investigação, publicada em 2018 na revista Science, descobriu que as probabilidades de doença nos corais aumentavam 20 vezes após o contacto com o plástico.

Apesar da E. coli não ser comum no oceano, existem muitos outros micróbios que são, e parecem estar concentrados na superfície dos microplásticos. No oceano, os fragmentos do nosso lixo transportam bactérias nocivas que podem ser responsáveis pela doença dos corais, dizem os investigadores.

Existem outros corais que podem não responder às microesferas ou às bactérias que estas transportam da mesma forma. Até agora, a equipa estudou apenas uma espécie. Mas estes primeiros resultados, diz Rotjan, são muito preocupantes.

“Estou aterrorizada com a trapalhada que fizemos nos nossos oceanos”, disse Rotjan. “Mas talvez isto faça parte da história para nos motivar a limpar o mar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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