Meio Ambiente

O Mundo Mortífero da Máfia de Mineração de Areia na Índia

A Índia ocupa o segundo lugar, a seguir à China, no uso de areias para construção, um recurso cada vez mais escasso e valioso.Friday, July 12, 2019

Por Paul Salopek
Fotografias Por Paul Salopek
Diariamente, cerca de 300 camiões levam as suas cargas de areia de uma mina no rio Sone, no estado de Bihar. O aumento súbito de construções na Índia está a remover volumes colossais de areia dos rios, um ingrediente vital para o betão. Os ambientalistas dizem que esta extração é insustentável, prejudicando a hidrologia local e a vida selvagem.

DEHRI ON SONE, BIHAR, ÍNDIA – “Vocês são jornalistas? Estão interessados na mineração de areia?”

Estamos em apuros.

As perguntas são feitas pelas forças musculadas da região. Quatro homens de braços enormes e olhos arregalados que bloqueiam o nosso SUV branco para interrogar o meu companheiro de caminhada, Siddharth Agarwal, enquanto eu estou num dhaba, um restaurante à beira da estrada no norte da Índia. A nossa mesa de plástico estremece com a passagem de camiões pesados. O que transportam estas colunas de veículos? Uma torrente de areia: leitos dragados do rio Indo e dos seus afluentes, no destituído estado de Madia Pradexe. Cada camião tem como destino zonas de construção distantes. Grande parte da carga é ilegal. A areia é uma mercadoria lucrativa na Índia e alimenta um mercado negro que é ameaçado e protegido por mercenários. Os mineiros de areia já mataram policias que tentaram acabar com a mineração nos rios e assassinaram repórteres que expuseram as práticas ilegais de escavação de cursos de água. Agarwal e eu trocamos olhares.

“Estamos à procura de jornalistas que nos ajudem”, diz um dos homens corpulentos.

A sério?

"Sim. Os outros tipos ao fundo da estrada estão a extorquir demasiado dos camiões”, diz o homem. “Eles deixam-nos com pouco dinheiro. Nós temos documentos que o provam. Não é justo. Queremos avisar a comunicação social”.

Na Índia, todos se queixam – até a máfia da areia.

Os mineiros de areia recolhem a sua valiosa mercadoria do rio Ganges, em Utar Pradexe. A mineração manual é permitida pelas autoridades – as minas ilegais usam frequentemente maquinaria pesada.

O contrabando de areia pode parecer estranho para a maior parte das pessoas. Este humilde recurso é composto por pedras e grãos minúsculos de sílica e de quartzo, escoados das montanhas em erosão para os rios. As areias mineradas ilegalmente não evocam o romance sombrio de, digamos, diamantes de sangue, ou o percurso do tráfico de vida selvagem. Para além disso, parece existir um abastecimento infinito deste material. Só que não existe. (Veja o vídeo de Paul Salopek com cenas de extração de areia em dois rios na Índia – o Betwa, em Utar Pradexe, e o Sone, em Bihar.)

A nossa civilização moderna é construída sobre areia: betão, estradas pavimentadas, cerâmica, metalurgia, prospeção de petróleo – até os ecrãs dos smartphones – tudo isso exige a humilde substância. A areia do rio é a melhor: os grãos de areia do deserto são frequentemente arredondados demais para servirem como agentes aglutinantes industriais, e a areia marinha é corrosiva. Um estudo das Nações Unidas estima que o consumo total de areia pela humanidade – mais de 40 mil milhões de toneladas por ano – atinge agora o dobro da quantidade de sedimentos reabastecidos naturalmente na Terra pela soma dos rios mundiais.

Hoje, a areia tornou-se tão valiosa que é transportada ao longo de distâncias enormes: a Austrália envia embarcações de areia para a Arábia, para projetos de recuperação de terras. A China, a principal construtora mundial, também é o maior glutão de areia do planeta. Entre 2011 e 2014, os chineses usaram mais betão – composto principalmente de areia – do que os Estados Unidos durante todo o século XX. A Índia, com as suas megacidades, ocupa o segundo lugar no consumo mundial de areia.

Muitas vezes, ao longo dos meus 3.700 km a atravessar a Índia a pé, encontro evidências deste apetite voraz.

As retroescavadoras rasgam os leitos arenosos de dezenas de rios, expondo canais de rocha, lodo e argila. Os batelões frágeis transportam montes de areia para portos improvisados. As estradas estão deformadas e esburacadas pelas armadas de camiões sobrecarregados de areia. O custo ambiental desta indústria, monitorizada de forma deficiente, é incalculável.

Dois mineiros artesanais de areia carregam a sua carroça, no rio Ken, no norte da Índia.

"A mineração de areia pode mudar o curso dos rios", diz Rishikesh Sharma, biólogo reformado do governo indiano que trabalha há anos no Santuário Nacional de Chambal, uma reserva importante que abriga crocodilos (gavial) em extinção e golfinhos do rio. "A mineração prejudica a vida selvagem, removendo as zonas de desova dos habitats".

A mineração desenfreada de areia também prejudica diretamente as pessoas.

Retirar areia dos rios faz com que os lençóis freáticos diminuam – uma preocupação omnipresente na Índia, onde milhões de pessoas já enfrentam uma escassez histórica de água. A mineração massiva de areia também erodiu os deltas dos rios em toda a Ásia, expondo as comunidades costeiras à perda severa de terras, agravando os efeitos da elevação do nível do mar induzidos pelas alterações climáticas.

As autoridades indianas insistem que estão a manter a ordem.

O estado de Utar Pradexe instituiu uma interdição de mineração que é suposto vigorar até que os rios consigam recarregar as suas bases arenosas. Outras regiões proíbem as operações industriais em grande escala. Em teoria, as licenças limitam a extração de areia. Mas na Índia, os lucros da indústria de construção ajudam a manter a mineração de areia sem lei.

No rio Betwa, em Madia Pradexe, encontrámos mineiros receosos que vivem em acampamentos sem condições. Eles dizem que os trabalhadores e as tendas foram arrastados pelas descargas repentinas das barragens. No Ganges, em Utar Pradexe, equipas com retroescavadoras revolvem as areias debaixo dos ghats funerários – piras ribeirinhas onde os hindus cremam os seus mortos. E numa operação de grande escala, no rio Sone, em Bihar, milhares de homens trabalham por turnos para encherem diariamente 300 camiões com areia, ganhando 500 rúpias (pouco mais de 6 euros) por camião: o dobro do salário que se ganha a trabalhar no campo.

“É impossível que o Sone fique sem areia – como é você pode dizer isso?” diz Vinay Kumar, um trabalhador de 22 anos. “Cada monção traz areia nova.”

Mas Kumar admite que, desde que era adolescente e começou a trabalhar como mineiro, o leito do rio Sone desceu pelo menos 2 metros.

Entretanto, regressando ao ponto de partida, no rio Indo, a quadrilha de homens musculados – que se queixa da extorsão e nos atormenta no restaurante à beira da estrada – sabe que as coisas não são assim.

“O rio vai secar”, prevê o chefe do grupo.

Ele é sincero e imparcial. Identifica-se pelo nome de Rajiv Yadav.

Yadav diz que na Índia a máfia da areia não vai desaparecer assim tão depressa, pois engloba muitos empresários e políticos. Segundo ele, só o dinheiro pago em "regalias" à polícia é o suficiente para inflacionar o preço das areias finitas do rio, passando de 15.000 rúpias (cerca de €180) por camião, para 40.000 a 80.000 rúpias. É escandaloso. Tudo o que ele pede é justiça – a sua parte do quinhão. E quando as areias naturais desaparecerem, talvez possam ser feitas novas areias artificialmente, esmagando rochas... ou tijolos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler