Quais São as Origens do Futebol? A Arqueologia tem uma Palavra a Dizer.

“O conceito de um desporto coletivo foi inventado na Mesoamérica.”quarta-feira, 27 de junho de 2018

Por Erin Blakemore
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O futebol é de longe o desporto mais popular e percebe-se porquê. Amado por mais de 265 milhões de pessoas em todo o mundo, uma simples bola basta para disputar uma partida num espaço improvisado ou em campo, gerando relações de identidade entre aqueles que assistem e os jogadores, que correm pelos estádios, como os erguidos na Rússia, o país que acolhe este ano o Campeonato do Mundo de Futebol de 2018 da FIFA

Mas, se procura conhecer os primórdios de toda esta correria, lances e espírito de equipa, prepare-se para viajar no tempo, dar a volta ao mundo e evitar perder, literalmente, a cabeça.

Os chineses foram os primeiros a dar pontapés na bola por desporto, arremessando-a contra redes, no século III d.C., e o desporto conhecido mundialmente por futebol foi formalizado em Inglaterra no século XIX. Mas o antecessor da maioria dos jogos de bola da era moderna, tal como os conhecemos e jogamos hoje, pode ser encontrado nas Américas.

“O conceito de espírito de equipa foi inventado na Mesoamérica”, afirma Mary Miller, uma professora de história de arte da Universidade de Yale, que estudou inúmeras evidências sobre o desporto.

UM SALTO NO TEMPO

Na Mesoamérica, a vasta região histórica que se estende desde o México à Costa Rica, as civilizações prosperavam muito antes de Colombo as “descobrir”, e muitos destes povos praticavam um desporto que envolvia uma bola pesada feita de uma substância, que era obtida a partir da resina das árvores.

Não se sabe ao certo onde o jogo foi inventado, mas sabe-se que era muito popular entre as culturas mesoamericanas, como os teotihuacanos, os aztecas e os maias, há cerca de 3000 anos. O seu nome variava: ullamaliztli em azteca, pok-ta-pok ou pitz em maia; assim como as suas regras, que incluíam lances, tais como manter a bola em movimento, projetando-a com partes do corpo ou usando raquetes ou tacos.

Estas civilizações antigas aperfeiçoaram o processo ao produzir bolas de borracha milénios antes do aparecimento da borracha vulcanizada dos tempos modernos.

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“Provavelmente, as pessoas faziam bolas de borracha aos milhares”, afirma Miller. As bolas eram ocas, acrescenta, mas podiam pesar até sete quilos cada uma.

As bolas parecem ter sido presença quase omnipresente nas culturas que as apreciavam, e muitas ainda existem nos arquivos arqueológicos. Outros vestígios que remetem para a prática do desporto na Mesoamérica compreendem desde vasilhas de cerâmica até mais de 1300 campos de pedra distribuídos pela região, cada um com espaço para acolher um número vasto de espectadores.

O registo histórico também inclui vestígios na forma de escritos da era colonial da autoria de Diego Durán, um sacerdote dominicano, cujo testemunho da vida dos aztecas incluem uma descrição de um jogo de bola tal como foi jogado em 1585.

Os jogadores aztecas lançavam a bola para trás e para a frente entre equipas, usando apenas as coxas e as nádegas, estando vedado o uso das mãos e dos pés. Eles tentavam lançar a bola muito além da linha central e acertar na parede posterior do campo do adversário, com apenas um lance, sofrendo, por vezes, lesões graves, quando a bola pesada atingia alguém com força.

Se um jogador conseguisse acertar a bola num círculo grande no lado da equipa adversária, a vitória estava assegurada.

O vencedor do jogo, escreveu Durán, “era honrado como se tivesse derrotado vários adversários e vencido uma batalha”.

VÍTIMAS DE SACRIFÍCIOS

Embora fosse praticado como um desporto do quotidiano, à semelhança do futebol ou do basquetebol, este jogo de bola também era jogado num local sagrado no âmbito da religião e da guerra para as culturas mesoamericanas. Alegadamente os reis aztecas disputavam um jogo em alternativa à guerra, adquirindo direitos de governação ou resolvendo questões diplomáticas com uns lances de bola.

Nas culturas maia e de Veracruz, os riscos eram ainda mais altos: os vencidos de alguns jogos eram sacrificados.

Os contornos não são claros, mas alguns campos estão decorados com painéis que retratam o sacrifício sangrento dos vencidos. O sacrifício e o desporto estão intimamente ligados num mito da criação maia, segundo o qual um par de gémeos joga à bola e vence em campo os senhores do submundo, encarnando, posteriormente, no Sol e na Lua.

Os maias “confrontavam os deuses diariamente com um jogo de bola”, afirma Miller. “Há um elemento central de conflito entre humanos e entidades divinas.”

Segundo Miller, apesar dos vestígios que indicam que os vencidos perdiam, por vezes, a vida à mercê do machado, alguns arqueólogos do século XX recusaram-se a acreditar que qualquer pessoa, exceto os vencedores, podia ser sacrificada. Miller atribui a recusa à ânsia de retratar a civilização maia como um povo extraordinário e não belicoso.

“Eles não queriam acreditar que os maias pudessem ter cometido sacrifícios humanos”, disse Miller. “Sabemos hoje que isso é um absoluto disparate, tal como a noção de que qualquer jogador vitorioso poderia ser sacrificado.” Na mitologia maia, o vencido de um jogo de bola é decapitado, e atualmente os académicos aceitam, plenamente, que os vencidos, e não os vencedores, eram vítimas de sacrifício.

Subsistem, no entanto, dúvidas quanto à forma como se jogava à bola e como funcionava o terrível ritual que aguardava alguns dos vencidos. Mas o seu espírito, que Miller define como “um complexo raciocínio de equipa”, mantém-se vivo e de boa saúde quer nas encarnações modernas do jogo de bola, quer nos milhares de jogadores que correm, fintam e abrem caminho, diariamente, seja num campo de futebol oficial ou improvisado.

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