A Razão Por Que Não Perco Um Mundial de Futebol

Uma pista… É muito mais do que futebol.segunda-feira, 9 de julho de 2018

Por Susan Kamenar
Adeptos vivem a febre do Mundial de Futebol de 2018, em Moscovo, na Rússia.

Sem espaço nos bares apinhados, multidões de branco, verde, vermelho e azul ocupavam as ruas do bairro de Pequena Itália, na cidade de Nova Iorque. Estranhos apoiavam-se, expectantes, sobre os braços uns dos outros, tentando equilibrar-se nas pontas dos pés, de pescoço esticado, tudo num esforço para tentar alcançar com os olhos o ecrã da televisão mais próxima. Na tela, Itália e França defrontavam-se no evento desportivo mais importante do mundo, com o desfecho mais dramático possível: grandes penalidades na final do Mundial de Futebol. Estávamos em 2006 e o pandemónio instalou-se no bairro de Pequena Itália, com um golo decisivo, que levou a vitória à equipa italiana. As pessoas baloiçavam-se nas escadas de emergência e borrifos de álcool inundavam o ar, enquanto as buzinas dos carros ensurdeciam os tímpanos mais resistentes. Eu pulava eufórica, abraçando aqueles me rodeavam, enquanto cantava “E-Talia! E-Talia! E-Talia!” Nesse momento, eu própria era italiana.

Aquela cacofonia de pura alegria deixou-me viciada em viagens para assistir ao Mundial de Futebol. Quatro anos mais tarde, em 2010, fiz a tradicional peregrinação quadrienal à África do Sul. Em 2014, foi a vez do Brasil. Este ano, em 2018, estou a caminho da Rússia. Em 2022, irei aventurar-me no calor do Qatar. E, em 2026, o meu destino será mais perto de casa, tendo em conta que os Estados Unidos, o Canadá e o México foram anunciados recentemente como os coanfitriões do Mundial desse ano.

Seja qual for o lugar onde se realize o Mundial, o evento é a oportunidade perfeita para descobrir um novo destino para aqueles que têm interesse em conhecer outras culturas e não apenas para os fanáticos do futebol. Embora tenha crescido a jogar e a apreciar a habilidade e a estratégia que envolve o desporto, a minha obsessão é alimentada pela cultura do jogo, o entusiasmo e a pura emoção dos adeptos, bem como a camaradagem entre pessoas de todo o mundo, que vivem o evento em uníssono e exploram um novo destino.

Sob os holofotes do mundo, o país anfitrião comporta-se da melhor forma possível. Mais de mil milhões de pessoas ligam a televisão, durante o mês em que dura a competição, para acompanhar o torneio. As cidades anfitriãs também elas reabilitaram as infraestruturas para acomodar a afluência massiva de viajantes, muitas vezes com promoções especiais dirigidas àqueles que adquiriram bilhetes para assistir aos jogos. Este ano, a Rússia prescindiu da obrigatoriedade de visto e emitiu uns cartões especiais de identificação de adepto, que eram enviados, antecipadamente, por correio ou podiam ser levantados pessoalmente nos vários centros de distribuição. Para além disso, o país também disponibilizou um número limitado de viagens de comboio gratuitas entre as cidades anfitriãs e transporte grátis nos dias em que se realizavam os jogos.

Embora os países anfitriões facilitem a circulação dos titulares de bilhetes, consegui-los é outra história. Meses antes da competição, a primeira de uma série de oportunidades de compra começa com uma espécie de sorteio de seleção aleatória, no qual se escolhe a equipa que uma pessoa gostaria de seguir ou os jogos a que pretende assistir. Os jogos mais importantes, em particular os oitavos de final, os quartos de final, a semifinal e a final, coincidem, geralmente, com os dias perto do feriado de 4 de julho, dando-nos a nós, americanos, a oportunidade de gozar um dia extra de férias. Assim que uma pessoa se propõe a participar no sorteio, começa uma espera angustiante. Cerca de um mês depois, se for um dos felizes contemplados, ser-lhe-á comunicado, sendo o valor do bilhete automaticamente debitado do seu cartão de crédito, e pode começar a planear a sua viagem.

Caso não seja bafejado pela sorte, não se aflija, uma vez que existem fases adicionais. Para além do mais, não tem de estar fisicamente presente nos estádios, onde se realizam os jogos, para viver a experiência do Mundial de Futebol. Por todo o país anfitrião, milhares de pessoas reúnem-se nas festas públicas da FIFA Fan Fest, onde pode assistir aos jogos em ecrãs gigantes e desfrutar de um cenário semelhante a um festival, com comida, bebida e concertos e outros eventos culturais. E, se não conseguir viajar até ao país que acolhe a competição, pode aproveitar a oportunidade para ver os jogos no seio de comunidades internacionais da sua própria cidade, à semelhança do que fiz no bairro de Pequena Itália, em 2006. Contudo, aconselho prudência, pois pode desenvolver uma espécie de obsessão crónica que o leve a viajar pelo mundo.

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