6 Estruturas Extraordinárias Erguidas Por Criaturas Surpreendentes

Sem um projeto que lhes sirva de base, pequenos e grandes organismos erguem sistemas de ar condicionado, paredes gigantes e até mesmo ilhas.Friday, June 1, 2018

Por Michael Greshko
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A vida na Terra é modelada em permanência pela dinâmica do nosso planeta. As cordilheiras e as barreiras marítimas isolam as espécies umas das outras, levando ao aparecimento de novas espécies ou à extinção de outras mais antigas. Os vulcões dão origem a ilhas que são ocupadas, posteriormente, por espécies pioneiras, e que se adaptam ao novo lar recém-descoberto.

Mas esta escultura à escala planetária é um caminho de dois sentidos, tal como explora o último episódio da série One Strange Rock da National Geographic. Quando surgiram as primeiras formas de vida há mil milhões de anos, a sua evolução transformou completamente a estrutura da superfície e da atmosfera do nosso planeta.

Há mais de dois mil milhões de anos, a vida microbiana começou a explorar o poder do Sol através da fotossíntese, libertando oxigénio naquele que é conhecido como o Grande Evento de Oxigenação, uma revolução química que deixou a sua marca na nossa atmosfera e em algumas das mais antigas rochas do planeta. Qualquer bocado de calcário e cré que possa ter visto é um cemitério, um conjunto de detritos deixados pela vida marinha, incluindo bocados de coral, fragmentos de conchas e esqueletos microscópicos de seres unicelulares.

Damos-lhe a conhecer algumas das mais extraordinárias formas como pequenas e grandes criaturas moldaram o nosso mundo.

PRAIAS ARENOSAS

Os recifes de coral são em si mesmo estruturas vivas extraordinárias:  vastos esqueletos de calcite erguidos por milhões de minúsculos pólipos. Mas as amêijoas, esponjas, ouriços-do-mar e peixes tendem, naturalmente, a roer os corais, provocando a erosão dos recifes. O resultado: areia que pode moldar e até mesmo formar ilhas.

Os peixes-papagaio são, particularmente, eficientes na construção de ilhas, em virtude dos seus prodigiosos excrementos.

Um estudo de 2015 revelou que o funcionamento dos montículos construídos pelas térmitas é assegurado pelas variações da temperatura entre a noite e o dia. Durante o dia, os pilares externos dos montículos aquecem mais rápido do que as chaminés centrais. Quando o ar quente dos pilares sobe e o ar frio das chaminés desce, o ar circula no interior do montículo.

À noite, a circulação de ar inverte-se, uma vez que os pilares arrefecem mais rápido do que a chaminé isolada.  Esta circulação expele, passivamente, ar rico em dióxido de carbono para o exterior do ninho, mantendo-o ventilado e, simultaneamente, confortável.

BARRAGENS NATURAIS

Os castores são conhecidos por erguer barragens de madeira, que usam para criar lagos de águas profundas e serenas, onde se alojam.  Além de constituírem um porto de abrigo que mantêm os castores a salvo dos predadores, estas estruturas podem transformar as paisagens. Antes da chegada dos europeus à América do Norte, acreditava-se que o continente estava coberto por milhões de barragens erguidas por castores, que retinham centenas de milhões de centímetros cúbicos de sedimentos.

Atualmente, os castores estão reduzidos a uma fração da população que construiu a sua história, mas eles são ainda uma força da natureza que merece ser reconhecida. Alguns castores com espírito empreendedor estão a deslocar-se para norte em direção à tundra do Ártico, transformando a paisagem. Mas nenhuma barragem erguida por um castor se destaca tanto como a barragem de 805 metros de comprimento do Parque Nacional de Wood Buffalo, no Canadá, a maior construção do género descoberta até ao momento.

O investigador Jean Thie, especialista em teledeteção, descobriu a barragem em 2007 durante uma pesquisa de imagens no Google Earth. As autoridades do parque seguiram as indicações de Thie e confirmaram que a barragem não só era comprida, como antiga o suficiente para que algumas plantas tivessem criado raízes.

Em 2014, o explorador Rob Mark tornou-se no primeiro homem de que há conhecimento a visitar a barragem, aventurando-se a pé por uma extensão de 200 quilómetros de caminhos, que avançam no meio de uma natureza impiedosa. “A barragem é enorme. É verdadeiramente extraordinário que a tenham construído”, disse Mark na altura, em declarações ao jornal Edmont Sun.

GRUTAS SUBTERRÂNEAS GIGANTES

Em determinadas zonas do Brasil e da Argentina, túneis subterrâneos até quatro metros de largura e mais de 40 metros de comprimento atravessam a paisagem. Mas estas estruturas não são grutas comuns. São vestígios de tocas escavadas por animais há muito desaparecidos.

Os investigadores identificaram e catalogaram 310 destas tocas paleolíticas, algumas das quais se mantêm relativamente vazias e transitáveis. Em 1992, o investigador Carlos Adrián Quintana descreveu um local situado em Mar de Plata, na Argentina, que continha 23 metros de túneis, com um metro de largura e 76 centímetros de altura.

A comunidade científica acredita que muitas das tocas mais pequenas tenham sido feitas por espécies extintas de tatus de grande porte e as tocas maiores por preguiças gigantes que habitavam o solo, primas desaparecidas das preguiças dos tempos modernos, e que poderiam superar os 771 quilogramas de peso.

O MAIOR RECIFE DO MUNDO

A Grande Barreira de Coral é uma extensão de recifes de coral, com 2253 metros de comprimento, que debrua a costa nordeste da Austrália e é uma maravilha da natureza, sendo, frequentemente, referida como a maior estrutura viva à superfície da Terra. Este mosaico, que se compõe de 3863 recifes individuais, abriga 9000 espécies da vida marinha, incluindo mais de 1600 espécies de peixes, 6 espécies de tartarugas marinhas, 30 espécies de mamíferos marinhos e 14 espécies de cobras do mar.

Num estudo de 2015 publicado em Geology, o geólogo Chris Perry da Universidade de Exeter revelou que a ilha de Vakkaru nas Maldivas é coberta, anualmente, por 680 389 quilogramas de novos sedimentos arenosos. Aproximadamente 80% destes sedimentos arenosos vêm diretamente dos excrementos dos peixes-papagaio, após desfazerem com os dentes os corais que arrancam para obter as algas das quais se alimentam.

Quando mergulhamos nas águas que circundam Vakkaru e outras ilhas, “ouvimos aquele ruído dos peixes-papagaio a desfazer os corais, o que nos dá aquele sensação de vida no recife”, afirma Perry no episódio de One Strange Rock.

ANTIGOS TAPETES DE MINERAIS

A vida é uma arquiteta desde as suas primeiras manifestações. Alguns dos fósseis mais antigos da Terra surgem na forma de estromatólitos, estruturas estratificadas criadas por colónias aquáticas de micróbios fotossintéticos, conhecidos por cianobactérias. Estes organismos produzem açúcares a partir da luz solar e dióxido de carbono na água, contribuindo para a formação de calcites, o mesmo mineral que pode dar origem à formação de estalagmites e estalactites no interior das grutas.

Quando esta calcite e outros pequenos sedimentos entram em contacto com os micróbios, ficam agarrados aos pegajosos filamentos externos destes organismos. Com o tempo forma-se uma camada de rocha composta por grãos muitos finos, permitindo o desenvolvimento de novas cianobactérias à superfície e, por conseguinte, a renovação do ciclo. Ao fim de milénios, as formações rochosas adquirem texturas que lembram trufas ou as pequenas irregularidades do betão.

Segundo um estudo de 2016 divulgado na revista Scientific Reports, os estromatólitos dominaram o registo fóssil da Terra durante cerca de quatro quintos da história do nosso planeta. Alguns dos estromatólitos mais antigos entretanto descobertos situam-se entre os 3,48 e os 3,7 mil milhões de anos. Mas os estromatólitos não são apenas relíquias antigas. Até mesmo hoje, a Baía dos Tubarões na Austrália ocidental é refúgio de oito variedades distintas de estromatólitos, que ainda se mantêm muito ativas.

CATEDRAIS DE TERRA

Os humanos são exímios na construção de arranha-céus, mas, em termos de proporção, as térmitas batem-nos a léguas. Estes insetos minúsculos constroem montículos, que podem atingir os dois metros de altura e que não são habitados, sobre os seus ninhos subterrâneos. As torres constituem sistemas naturais de ar condicionado, que mantêm o microclima dos ninhos dentro da zona de conforto favorável à proliferação dos fungos dos quais as térmitas se alimentam.

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Apesar da sua vastidão, o recife é surpreendentemente jovem. Segundo um estudo desenvolvido pela Academia Científica Australiana, o recife, tal como o conhecemos hoje, formou-se entre 6000 e 9000 anos atrás, após o degelo, que marcou o fim da última Idade do Gelo, ter provocado a subida dos níveis das águas dos oceanos.

Mas o recife enfrenta, atualmente, ameaças sem precedentes. Os humanos estão a provocar alterações climáticas na Terra à escala mundial e o stress térmico, que destruiu em tempos pequenas partes do recife, está a dizimar vastas extensões de corais. Em abril, os cientistas revelaram que uma onda de calor registada em 2016 dizimou cerca de um terço dos corais do recife, com consequências penosas que afetaram, irreversivelmente, o ecossistema de vastas zonas do recife. Uma onda de calor em 2017 desferiu outro duro golpe. Nos últimos três anos, aproximadamente metade dos corais do recife morreram.

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